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Maio 2012 ›› CLAUDEMIR GOMES
O futebol é movido a paixão. Isto é fato. E nada é mais torturante para o torcedor do que perceber que seu time não está correspondendo ao seu amor. Este é o sentimento da torcida do Sport ao ver o rubro-negro pernambucano amargar a 19ª derrota no Brasileiro da Série A. O carrasco da vez foi o Atlético Mineiro, e o palco, a Ilha do Retiro, que se transformou na casa dos festejos para os adversários que nela enfrentam o dono da casa.
Enquanto aguardava o jogo - Sport x Atlético/MG - sintonizo o rádio na Tribuna FM e me delicio com a música - Leão Ferido - de Biafra.
"A verdade dói demais em mim / Tenho que ser bandido / Tenho que ser cruel / Um leão ferido, feroz...".
O Atlético Mineiro iniciou a partida com uma equipe alternativa. O Sport encaixou um contra-ataque e abriu o placar: 1x0. Apesar da desvantagem, o Galo se movimentava melhor, e tinha o controle do jogo. Mas o Leão segurava a vantagem e chegou ao segundo gol. Tudo conspirava para que a torcida rubro-negra saboreasse a terceira vitória do time na competição.
Mas o alvinegro mineiro tinha no banco o que falta ao rubro-negro pernambucano: jogadores de qualidade, com potencial para mudarem o rumo da história. Foi justamente que aconteceu. Quando o técnico Jorge Sampaoli promoveu as mudanças necessárias no Atlético/MG, os gols saÃram de forma natural. Estático, o treinador interino do Sport, César Lucena, com seu comportamento traduzia a impotência do grupo que comanda. No final, o placar de 4x2 a favor dos visitantes foi mais uma frustração imposta aos amantes do Sport.
Um outro trecho da música do Biafra - Leão Ferido - ocupa meu pensamento enquanto observo a torcida leonina deixar o estádio da Ilha do Retiro cabisbaixa, como se estivesse carregando o peso do mundo nos seus ombros.
"Sou um herói vencido / Anjo que fere o céu / Grito de amor, sumido / Na voz, que voz...".
O Brasileiro da Série A é composto de 38 rodadas, divididas em dois turnos com 19 jogos de ida, e 19 jogos de volta. Ao alcançar a marca de 19 derrotas é possÃvel afirmar que o quantitativo é igual ao número de partidas de um turno.
Ligo para um amigo rubro-negro que é bem-informado sobre as coisas que acontecem nos bastidores, e pergunto se existe a possibilidade da diretoria do Sport renunciar. Ele me respondeu com uma metáfora:
"Quando Lampião foi visitar o Padre CÃcero, em Juazeiro do Norte, no Ceará, andou livre pela cidade. Um repórter foi entrevistá-lo e perguntou se após o encontro com o Padim Ciço ele deixaria a vida de bandido. Lampião respondeu com outra pergunta: Se você tem um negócio rentável, você se desfaz dele?".
C'est la vie!
CLAUDEMIR GOMES
Ontem à noite (05/11/2025), na Ilha do Retiro, ao perder para o Juventude por 2x0, o Sport alcançou a marca de 18 derrotas em 31 partidas disputadas no Brasileiro da Série A. A indignação é o sentimento dominante em toda a torcida rubro-negra que se expressa através de protestos. Os leoninos se dividiram em dois grupos: um adotou a célebre frase, "não vou desistir de você", e segue indo aos jogos externando o descontentamento através de vaias e xingamentos. O outro pelotão optou pelo silêncio e a ausência, por entender que, o abandono é mais doloroso e eficaz.
Não se trata de um - ame-o ou deixe-o - até porque as vaias e os xingamentos são tão expressivos quanto a conjugação do verbo ignorar através de ações. O rubro-negro não vai deixar de amar o Sport por conta de uma crise. Os protestos têm como objetivo uma virada de página. Mas os dirigentes trapalhões, por não terem vivenciado o clube, antes de serem guindados aos cargos que ocupam, fazem ouvido de mercador ao clamor das arquibancadas.
O poder embriaga!
Ao testemunhar capÃtulo tão nefasto da história do clube mais vencedor do futebol pernambucano, foi inevitável não recordar do movimento - MUDA SPORT - surgido no ano de 2001, e que culminou com a renúncia do então presidente, Luciano Bivar.
Na época, um grupo de jovens capitaneado por Milton Coelho - hoje deputado - Honorato Leitão, Júlio César Soares, Carlos Pastor, Pedro Leonardo Lacerda, Rodolfo Albuquerque... buscou uma forma de expressar o descontentamento com os erros cometidos pela diretoria de futebol. Numa reunião na UPE foi criado o grupo Muda Sport. Nas arquibancadas começaram a ecoar os gritos: "Fora Bivar". As adesões aconteciam a cada jogo e o coro unÃssono se tornou ensurdecedor. A voz do povo mudou o curso da história. O presidente Luciano Bivar renunciou e o Conselho Deliberativo elegeu Fernando Pessoa.
A geração que criou o movimento Muda Sport já passou dos 50 anos. Creio que foi a última a vivenciar o clube, conhecer a sua história, andar pelos corredores da Ilha do Retiro e aprender como funciona aquele engenho de entretenimentos e emoções.
Nos dias de hoje, a relação clube-torcedor se restringe a presença fÃsica nos estádios em dias de jogos. Toda conexão é feita através da telefonia móvel e das redes sociais. A tribuna livre, sem porteiras e sem fronteiras não surte o efeito desejado pela torcida, mas atende ao marketing que manipula, direciona. Como autênticos rolando lero, os dirigentes chegam a debochar, com declarações e explicações estapafúrdias, daqueles que são levados pela emoção. à como se todos fossem tratados como memes.
O ex-presidente, Luciano Bivar, do topo dos seus 80 anos, com a experiência e propriedade de ser o maior colecionador de tÃtulos na história do Sport, tem dado seus gritos de protesto e alerta, mas não foi seguido, de forma efetiva, por outros ex-gestores. Evidente que, cada um tem o seu tempo, razão pela qual os demais ex-presidentes devem ter optado por não confrontarem os atuais gestores leoninos.
Gritos na Internet não ecoam.
Saudade do tempo do MUDA SPORT.
CLAUDEMIR GOMES
Numa rápida olhada na tabela de classificação do Brasileiro da Série A, observamos que, dos dez clubes atualmente no Top 10, oito pertencem ao eixo Rio-São Paulo. Os estranhos no ninho são o Cruzeiro e o Bahia. O fato referenda os dois estados como sendo os maiores centros do futebol nacional, e alimenta a maior rivalidade existente no PaÃs do Futebol.
Dizem que, quem inventou a rivalidade foram cariocas e paulistas. Uma rixa que começou no Século XIX e segue nos dias de hoje com a certeza de que nunca haverá um ponto final. Funciona como mola propulsora. A decisão da Libertadores 2025, entre Flamengo e Palmeiras, que também brigam pelo tÃtulo do Brasileiro, é o maior atestado desta queda de braço sem fim.
Os relatos da história são controversos. Há registros de que, no final do Século XIX aconteceram várias disputas de futebol amador no Rio de Janeiro. Mas ninguém contesta o fato de que foi o paulista Charles Miller quem trouxe a primeira bola de futebol para o Brasil. Os primeiros jogos oficiais foram disputados em São Paulo. Uma outra versão assegura que os ingleses trouxeram o futebol e fizeram de Curitiba a porta de entrada do esporte mais popular do PaÃs.
Bom! Os paranaenses não quiseram entrar na disputa pela "paternidade" e deixaram paulistas e cariocas se engalfinharem. Dessa forma se tornaram os precursores de uma rivalidade antológica, que ao longo do tempo trouxe benefÃcios, mas também causou muitos danos.
A rivalidade entre as duas maiores escolas do futebol brasileiro ficou bem explicita através da Seleção Brasileira. Apenas um jogador de São Paulo - Araken Patusca - foi convocado para disputar a Copa de 1930. A Federação Paulista de Esportes Atléticos (FPEA), se recusou a ceder jogadores. Araken foi inscrito pelo Flamengo.
Durante duas décadas - 1978 a 1998 - acompanhei os passos da Seleção Brasileira em competições oficiais e amistosos, no Brasil e no exterior como enviado especial do Diário de Pernambuco. O perrengue entre cariocas e paulistas chegava a ser cômico. Mas em algumas situações era trágico. A imprensa carioca ressaltava os feitos dos jogadores que defendiam os clubes do Rio de Janeiro. Por sua vez, a imprensa paulista só tinha olhos para os profissionais dos clubes bandeirantes. A CBD, que depois passou a ser CBF, não adotava técnico de São Paulo. O primeiro treinador paulista a dirigir a Seleção Brasileira na era da CBF foi Emerson Leão.
O fato de a cidade do Rio de Janeiro ter sido a Capital Federal até 1960, levou o pêndulo da balança a se mover para o lado do futebol carioca. A CBD tinha seu domicÃlio na Rua da Alfandega, ou seja, estava lado a lado de todos os poderes. O Maracanã, um dos templos do futebol mundial fora construÃdo na Cidade Maravilhosa, onde tudo pulsava com uma energia contagiante.
A primeira edição do Mundial de Clubes promovido pela FIFA reuniu 32 equipes. O Brasil esteve representado por Palmeiras, Flamengo, Fluminense e Botafogo (um paulista e três cariocas).
Desde a época em que o futebol era um esporte praticado por uma elite social, que não aceitava negros, a rivalidade entre cariocas e paulistas é utilizada como vetor de crescimento.
Futebol sem rivalidade é igual a sanduÃche de pão recheado com pão.
CLAUDEMIR GOMES
"Primeira, Primeira! Eu sou de Primeira".
Com a taça na mão, o prefeito de Vitória de Santo Antão, Paulo Roberto Arruda, regia um coro unÃssono na comemoração da conquista do tÃtulo pernambucano de futebol da Série A2 levantado pelo Vitória. A festa da ressureição emoldura uma história que vai bem mais além do triunfo sobre o América, adversário cujos números da campanha lhes creditavam um favoritismo na decisão.
Mas o Tricolor das Tabocas carrega consigo um simbolismo que ressalta a luta e a vitória obtida por um povo no Monte das Tabocas. O clube tem o nome do municÃpio cujos Ãndices de crescimento servem de referência no Estado, nas duas últimas décadas.
O empate de 1x1, no tempo normal da decisão, foi a marca registrada da superação. Um salto de grandeza e coragem que deu ao Vitória a confiança necessária para buscar o tÃtulo na decisão por pênaltis. A vitória por 4x2 em cobranças de tiros livres diretos é o prenúncio de um novo tempo. Este é o terceiro tÃtulo da Segunda Divisão estadual conquistado pelo Tricolor das Tabocas.
Conheci Paulo Roberto Arruda ainda jovem, como estudante universitário do curdo de Direito. Depois, passou a figurar no cenário do futebol pernambucano como uma grata revelação entre os dirigentes dos clubes da Primeira Divisão. Desenvolveu um trabalho junto com o saudoso executivo, Paulo Mayeda, no futebol feminino do Vitória que colocou o clube da Terra da Pitú entre as maiores forças do PaÃs.
Paulo Roberto está prefeito. Destaca-se como gestor de referência em Pernambuco. Mas, antes de tudo é um desportista, amante do Vitória, e seu conhecimento da matéria futebol o leva ao entendimento de que o clube, para se consolidar no pelotão de elite, tem que cumprir algumas exigências impostas pelo novo tempo.
O número de indústrias que adotou Vitória de Santo Antão como domicÃlio nas últimas décadas, dotou o municÃpio de grande potencial econômico, fato que nos leva a crer que, o Vitória tem a oportunidade de contar com o respaldo de outros parceiros, além da UNIFACOL; da Pitú e da Prefeitura Municipal. Afinal, o clube precisa, urgentemente, atacar os projetos para construção de um Centro de Treinamentos de referência, como possui o Retrô e da construção de um novo estádio, equipamento que já foi prometido, anunciado, mas nunca executado.
O Vitória, no seu retorno a Primeira Divisão Estadual, tem que ser tratado como um veÃculo de divulgação da cidade, haja visto que, através da disputa doméstica pode chegar a competição regional - Copa do Nordeste - e as competições nacionais: Copa do Brasil e Campeonato Brasileiro.
O valor da conquista quem mensura são os atletas, profissionais da comissão técnica e os torcedores. O tamanho do tÃtulo quem determina é o sonho, a ousadia e a visão empreendedora dos gestores.
O Vitória de Vitória de Santo Antão!
Isso é suprassumo para qualquer marqueteiro.
Parabéns, Vitória!
Ãs de Primeira.
CLAUDEMIR GOMES
A mágica goleada (4x0) que o Palmeiras impôs a LDU do Equador, na noite da quinta-feira (30/10/25), foi de difÃcil adjetivação, até porque magia não se explica. Magia a gente se encanta com ela. E o encantamento foi traduzido nas reações dos torcedores palmeirenses, no choro do técnico Abel Ferreira, e no afago dos comandados no comandante, um expresso ato de gratidão por ter regido a "orquestra" tão divinamente na maior sinfonia já executada no Allianz Parque.
Mais que um treinador, Abel Ferreira, que justamente naquela data estava comemorando o quinto aniversário no comando do Palmeiras, é um bruxo que preconizou, ao final da derrota (3x0), sofrida há oito dias no Estádio Casa Blanca, em Quito, no Equador: "90 minutos no Allianz Parque é muito tempo".
A frase virou mantra! E aquele time que parecia arder no mármore do inferno, após humilhante derrota, que não foi digerida, na altitude da capital equatoriana, subiu ao céu por acreditar na profecia do treinador.
"Vencer é o céu!", assegura o rubro-negro, Manoel Costa - Costinha.
Por coincidência, na manhã da quinta-feira (30/10/25), encontrei o ex-jogador Jarbas, que na década de 80, no século passado, defendeu o Santa Cruz e o Náutico. Hoje o próspero comerciante segue dando uma contribuição efetiva ao futebol pernambucano como cronista esportivo. Falamos sobre a heroica apresentação do Flamengo na Argentina, resistindo a pressão, em dose cavalar, imposta pelo Racing. Comungamos do mesmo pensamento de que seria pouco provável o Palmeiras golear a LDU. Afinal, equipe equatoriana, que na sua trajetória havia eliminado Botafogo/RJ e São Paulo, construiu uma vantagem absurda - três gols - no jogo de ida.
Está escrito nos Dez Mandamentos do Futebol: "Nunca duvide de um grande time comandado por um grande técnico". Eis porque o futebol é o esporte mais encantador do Planeta Terra.
Os torcedores mais velhos, aqueles que ainda chamam o Palmeiras de: Palestra Itália, por tudo que viram durante os noventa minutos da partida, tiveram a impressão de que estavam revendo um dos "concertos" da inesquecÃvel "Academia" com solos do Divino Ademir da Guia. Era o porco voando como o lendário periquito.
Atônico, o técnico da LDU, Tiago Nunes, não acreditava no que estava testemunhando. Como pode, um conjunto que, há oito dias não conseguia acertar um falsete, exibir tamanha harmonia em noite de rara inspiração?
Nunes gesticulava pedindo aos seus atordoados comandados que marcassem um gol, façanha que levria a decisão para os pênaltis. ImpossÃvel! Afinal, eles estavam enfrentando os demônios da garoa.
Palmeiras e Flamengo decidirão o tÃtulo da edição 2025 da Libertadores no dia 29 de novembro, em um único jogo programado para a cidade de Lima, no Peru. O vencedor passará a ter no seu acervo, quatro tÃtulos da competição continental. Há sete anos o futebol brasileiro detém a hegemonia do futebol sul-americano: 2019 - Flamengo; 2020 - Palmeiras; 2021 - Palmeiras; 2022 - Flamengo; 2023 - Fluminense; 2024 - Botafogo; 2025 (Palmeiras ou Flamengo).
O Palmeiras nos mostrou que, 90 minutos é o tempo necessário para o encantamento do futebol. Surreal!