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O pano caiu
postado em 13 de fevereiro de 2019

CLAUDEMIR GOMES

 

O pano caiu!

As autoridades começaram a vistoriar os CTs, alojamentos e concentrações de base nos grandes clubes. Em São Paulo a Prefeitura deu um prazo de 90 dias para os clubes regularizarem seus equipamentos.

Não sei se a medida será copiada em outros Estados.

Segunda=feira, no Bem Amigos, o apresentador, Galvão Bueno, tirou o assunto da pauta de discussão com um simples: "Calma! É preciso muita calma neste momento".

Quando o assunto descamba para os clubes de futebol há sempre alguém evocando o "jeitinho brasileiro".

É o viés da emoção. Afinal, se apertarem o parafuso os clubes fecham. Este é o argumento chave.

E logo o viés político surge como solução para alinhavar a "cortina".

Acredito que todos, pelo menos os mais atentos, devem recordar que a grande CPI que foi instaurada com o objetivo de moralizar o futebol brasileiro deu em pizza.

O desfecho final foi imoral.

A época, a CBF montou uma espécie de Quartel General em Brasília, com o intuito de fortalecer a "Bancada da Bola".

Um ou outro jornalista externou sua indignação, mas os "gritos" foram dragados pelo vento. Palavras ao vento não produzem eco.

O grande desafio do jornalista é não perder a indignação.

As frustrações acontecem de enxurrada. O repórter apura o fato e nem sempre consegue publicar. A "censura" vem de cima para baixo. O dono do jornal se encarrega de calar a boca do profissional para atender aos pedidos dos amigos. Afinal, os políticos e os empresários sempre têm razão. As empresas de comunicação sobrevivem de anúncios. Isto é fato.

E assim a bola vai rolando nas concentrações insalubres, que nunca receberam uma visita da vigilância sanitária; do Corpo de Bombeiros...

"É a confinação do gado", como bem diz o mestre, José Joaquim Pinto de Azevedo.

Certa vez fui apresentado a um executivo de uma multinacional. Ele falou que o seu filho era dono de um talento diferenciado e que gostaria de fazer um teste em determinado clube. A pedido, lhe abri as portas para que ele levasse seu rebento promissor. Dias depois ele me ligou e agradeceu a gentileza, mas ao observar as instalações da concentração ele declinou da idéia.

O garoto acabou sendo um grande piloto de kart.

A lama que escoa nos bastidores do futebol frustra sonhos de jovens em doses homeopáticas. Os dirigentes, os gestores, os procuradores e até a imprensa, com a exceção de raros profissionais, se acostumaram com o estado de coisas.

A morte de quase um time inteiro de jovens promissores do Flamengo fez o pano cair.

E todos começaram a ver que a cozinha precisa de um tratamento urgente.

"Coisas do futebol brasileiro", como diria o saudoso, Edvaldo Morais.

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As Organizadas e o comércio marginal
postado em 13 de fevereiro de 2019

JOSÉ JOAQUIM PINTO DE AZEVEDO = blogdejjpazevedo.com

 

Por conta da postagem de ontem recebemos de um dos nossos amigos visitantes uma antiga entrevista com o jornalista Armando Nogueira, já falecido, e que foi uma das maiores referências do jornalismo esportivo do nosso aís quando esse setor ainda existia.

A publicação é do ano de 2010, embora as entrevistas começaram em três encontros, sendo que o primeiro foi em 1999, e o último em 2007, quando o jornalista expressou a sua preocupação com a presença dessas facções nos estádios.

Entre as respostas dadas aos entrevistadores, Nogueira expressou uma realidade que há 12 anos continua se repetindo, e que está agregado a tais segmentos que tomaram conta do futebol brasileiro, e com um detalhe importante quando transmitiu um pensamento igual ao nosso com relação ao que acontece nos dias de hoje.

"Antes de mais nada, esse negócio de torcida organizada é uma mistificação. Não é possível organizar o sentimento do torcedor. Então eu começo desclassificando essas falanges, essas gangues. Eles não são torcidas organizadas. Elas nasceram com uma boa intenção, mas na verdade se transformaram em instrumentos de intimidação, em instrumentos de terror a serviço de dirigentes. Quando um dirigente quer queimar um treinador ou um jogador, eles usam a torcida como instrumento de pressão", declarou Nogueira.

Uma das suas respostas merece uma grande reflexão entre os dirigentes, quando afirma que as torcidas organizadas promovem uma comercialização dessa atividade, inclusive com um comércio marginal, com a venda de produtos com os símbolos dos clubes.

 A focagem do jornalista acertou um alvo que não é observado pela cartolagem brasileira. O comércio marginal concorre com os seus produtos oficiais, e com isso menos recursos entram em seus caixas.

Pela primeira vez um cartola atentou para esse fato, o presidente do Cruzeiro, em 2014, ingressou com uma ação na Justiça pedindo a proibição do uso da marca do seu clube pelas torcidas organizadas.

No Sport, durante a gestão de João Humberto Martorelli, 2015/16, uma posição igual foi tomada, inclusive com a proibição da Torcida Jovem de ingressar no estádio com as suas camisas. No início desse ano foi perdoada de forma estranha pela atual diretoria.

Se discute muito os prejuízos pelas perdas do mando de campo, mas o rombo maior está nessa concorrência predatória entre o comércio paralelo, marginal, como frisou bem o jornalista, e dos clubes, que poderiam incrementar as suas vendas.

Cada boné vendido neste tipo de pirataria, corresponde a menos recursos nos cofres dos clubes.

Sem dúvidas este é o caminho das pedras, e com uma vantagem: irá asfixiar as receitas das facções, que irão morrer de inanição.

Armando Nogueira tinha razão.

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E se... 14. Dener
postado em 12 de fevereiro de 2019

Por ROBERTO VIEIRA

 

Em homenagem a Ricardo Boechat, torcedor da Portuguesa e do Flamengo.

 

O Mitsubishi Eclipse destruído deixa dúvidas no ar. Mas Dener sai ileso do veículo dos seus sonhos. Um pouco assustado, mas ileso. Para alegria do goleiro Edinho que conversara com ele por telefone na véspera. A perícia concluiu que Dener se salvara por milagre ao não usar o cinto de segurança.

O milagre chegou como um aviso para o craque. Véspera da Copa do Mundo de 1994, Dener aparecia em todas as listas de favoritos para os 22 convocados por Parreira. Ninguém dava muita fé na seleção que não ganhava nada desde os anos 70, mas a volta de Romário acendia uma luz no fim do túnel, ainda mais se tivesse Bebeto em forma a seu lado. O meio campo com Raí também era garantia de qualidade. Apesar de rejeitar a base formada por atletas do bicampeão mundial São Paulo = seria dar colher de chá ao mítico Telê Santana = Parreira bem que poderia sonhar no sol abrasador dos EUA no verão.

Para completar o milagre, Dener é sondado pelo Sttutgart que também está atrás de Dunga, futuro capitão da seleção. O clube alemão acha que Dunga vai conseguir o mesmo sucesso no relacionamento com Dener que vem tendo na amizade com Romário, outro gênio rebelde.

Mas Dener já enxerga o mundo com outros olhos após o acidente. Recebe a convocação com a alegria dos muito jovens e se submete com tranquilidade à reserva formando uma dupla de ouro com o adolescente Ronaldo. Nos treinos, a habilidade de Dener e Ronaldo muitas vezes deixa Parreira e seu auxiliar Zagalo de calças curtas

Só mesmo as atuações de gala de Romário e Bebeto impedem uma onda maior na imprensa. Mas a saída de Raí da equipe, substituído por Mazinho para dar mais segurança ao meio campo, balança a nave brasileira. Muito queriam a ofensividade de Dener na meia cancha. Um trio Dener, Bebeto e Romário seria garantia do tetra.

Mas Parreira ainda não enlouqueceu.

Isso é, não enlouqueceu até a prorrogação na final da Copa de 1994. O placar de 0x0 estampado no Rose Bowl. Zagalo cochichou com Parreira que mandou Dener entrar no lugar de Zinho. O Brasil tinha mais time, estava mais inteiro. Penalidades máximas eram terra de ninguém.

A bola demorou a chegar aos pés de Dener. Foram cinco minutos de solidão, até que ela veio sorrateira. A chuteira de Dener dominou a companheira e ele saiu pela Califórnia born to be wild. Passou por Donadoni, Mussi e Baresi. Quando Benarrivo chegava desesperado na cobertura, Dener tocou de lado para Bebeto, livre, solto, Carlos Alberto em 70.

Bebeto pediu desculpas a Gianluca Pagliuca e deu uma cavadinha digna de Romário. A bola subiu pelos ares e beijou as redes italianas com a simplicidade dos dribles de Dener.

No Brasil, o repórter Gil Gomes do telejornal Aqui e Agora do SBT, torcedor fanático da Lusa e crítico feroz do futebol de Dener, teve de se render ao vivo para todo o Brasil. Assim como ele, milhões de brasileiros que duvidavam do talento do craque aplaudiram de pé.

Dúvida mesmo só não tinham os demais torcedores do Grêmio, da Portuguesa e do Vasco da Gama que conheciam muito bem do que aquele azougue era capaz.

Quando as medalhas de campeão foram entregues, os jogadores brasileiros homenagearam um outro ídolo nacional que havia desaparecido nas curvas do circuito de Ímola, na Itália no dia primeiro de maio de 1994.

Dener não pôde deixar de lembrar que Senna morrera quinze dias depois do seu próprio acidente com aquele Mitsubishi Eclipse na Lagoa Rodrigo de Freitas.

E Dener beijou sua medalha e a própria vida com a humildade dos ressuscitados...

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Hipocrisia F. C.
postado em 09 de fevereiro de 2019

CLAUDEMIR GOMES

 

O Brasil chora a morte dos jovens atletas do Flamengo, que tiveram sonhos queimados, num incêndio que destruiu o alojamento das divisões de base.

O Brasil brasileiro até parece um vale de lágrimas.

A população ainda chora as mortes da tragédia de Brumadinho, e logo se assusta com um desastre natural: chuvas torrenciais e intensas deixaram a população do Rio de Janeiro em pânico.

A pauta dos noticiários é concentrada nas tragédias.

De imediato lembro do amigo, Ricardo Barreto, atual secretário de comunicação de Jaboatão dos Guararapes. Quando trabalhávamos, no Diário de Pernambuco e na Folha de Pernambuco, ele bradava na redação, em tom de brincadeira:

"Sangue! O povo gosta de sangue".

E Barreto me parece ter a razão.

No café, no shopping, na padaria, na barbearia... o assunto dominante era a trágica morte dos jovens flamenguistas.

Ouvidos apurados no rádio, olhos atentos nos noticiários da TV. O povo parecia ávido por sangue.

Posso imaginar o corre, corre nas redações.

Chamem os especialistas!

E logo surgem àqueles que sabem tudo de estouro de barragens; de inundações e incêndios. Mesas redondas são formadas. Cronistas esportivos, com caras de paspalhos, ficam constrangidos porque eles não cumpriram com o papel que também é de competência da imprensa: o de fiscalizar, de cobrar, de denunciar.

Chega o sábado e vamos as entrelinhas.

O jornal denuncia que, o depósito onde se iniciou o incêndio na concentração dos jovens flamenguistas era uma improvisação que já durava dez anos.

Os bombeiros asseguram: nenhum clube pernambucano têm laudo em suas concentrações juvenis. Nos outros Estados não deve ser diferente.

Nunca vi, jornais, rádios e televisões denunciando as condições insalubres nas concentrações e alojamentos da base, em clubes por este Brasil afora. Todos estão carecas de saber que a maioria trata a base como subproduto.

E os especialistas, por que não são convocados para darem seus gritos de alerta?

No clássico da hipocrisia medidas preventivas não entram em campo. Não dão ibope. Tragédias sim. Essas chamam a atenção do povo.

E todos prometem ir em busca dos responsáveis.

Os dias passarão e eles nunca aparecerão. Este gol contra foi uma obra de muito autores. Obra do coletivo da irresponsabilidade, do descaso, da omissão.

E os futuros craques serão enterrados sob aplausos.

Este é o Brasil do HIPOCRISIA FUTEBOL CLUBE.

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Acontece
Sanduíche de pão com pão
postado em 07 de fevereiro de 2019

CLAUDEMIR GOMES

 

Sempre contesto quando amigos de minha faixa etária usam a expressão: "no meu tempo, ou, na minha época". Ora! Se você está vivo, bulindo e testemunhando tudo o que acontece em tempo real, é contemporâneo do novo tempo. Portanto, as mudanças comportamentais fazem parte do seu ciclo de vida. Não podemos esquecer que somos mutantes.

Tudo muda e se transforma. Os padrões comportamentais começaram a mudar, radicalmente, a partir dos anos 60. Com a terceira revolução industrial o mundo virou de ponta cabeça. É a chamada nova ordem.

Em 1970, quando o Brasil conquistou o tricampeonato mundial, no México, o País tinha uma população estimada em 90 milhões de habitantes. Hoje, somos mais de 200 milhões de brasileiros. Muitos dos problemas sociais que nos afligem atualmente, sequer existiam há 49 anos.

Nos anos 70 as torcidas assistiam aos jogos, inclusive clássicos, juntas e misturadas. Os torcedores eram civilizados e iam aos estádios munidos de grandes bandeiras com mastros portáteis, de madeiras, bambu, canos de PVC, etc. As pessoas tinham noção da exata dimensão de seus espaços e limites. Por mais que o futebol fosse  tido como uma válvula de escape emocional, fosse considerado o ópio do povo brasileiro, não havia batalhas entre torcidas.

Um belo dia resolveram organizar o que era super organizado. E surgiram as Torcidas Organizadas. Daí para as "organizações criminosas" foi um passo. E o futebol que sempre foi sinônimo de festa, de alegria, passou a ser um espetáculo de pânico e de medo.

Como não existia confrontos entre torcidas, a Polícia Militar utilizava um efetivo mínimo para manter a ordem.

Certa vez, o Náutico enfrentou o Palmeiras na Ilha do Retiro, jogo válido pela Taça Brasil (década de 60). O único tumultuo registrado foi na bilheteria do arco, porque a procura por ingressos era coisa de louco. A polícia montada (cavalaria), logo pôs ordem na fila. Quando adentramos ao estádio, só festa e alegria. Um grande público, mas nada de briga.

Em 2004 testemunhei o jogo do Sport com o Palmeiras, em Garanhuns. A Polícia Militar trabalhou intensamente para manter a ordem no hotel, onde estava hospedado o Hulk, torcedor símbolo do clube paulista, a época; dar proteção aos torcedores dentro e fora do estádio, e a Polícia Rodoviária redobrou sua fiscalização nas estradas.

   

Já tivemos jogos no Recife com um efetivo policial de mais de mil homens.

Uma imposição da violência das organizadas que ganhou dimensão imensurável através das redes sociais.

E todos se tornaram reféns ao ponto de alguns clubes adotarem, e tantos outros defenderem, a realização de jogos com uma única torcida.

E assim o futebol que era um manjar dos céus para o brasileiro, passa a ser vendido e consumido como um sanduíche de pão com pão.

Um horror.

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