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Campeonato da "empatite"
postado em 30 de setembro de 2020

CLAUDEMIR GOMES

 

O mestre, Arthur Carvalho, acordou o boêmio que existe dentro dele. Na sua crônica desta quarta-feira, assegura que, "a dor que dói mais é a dor do amor". E faz um passeio por vários clássicos da música popular brasileira, verdadeiras almofadas aveludadas para amenizar as dores de cotovelo. Quando acabei de degustar o maravilhoso texto, não resisti e liguei para o mestre indagando: O homem é mais apaixonado pela mulher, ou pelo clube do coração?

"Não sei te responder", disse Arthur com a sinceridade e humildade que lhes são peculiares, e completou: "Digo apenas que a maturidade leva o homem a suportar as dores provocadas por esses amores e paixões".

Conversar com Arthur Carvalho é sempre muito agradável, mesmo que seja um papo rápido, por telefone. A provocação foi porque ele gosta muito de futebol - Sport - e queria saber do seu pensamento em tempos de pandemia.

A última rodada do Brasileiro da Série A nos brindou com seis empates em dez partidas realizadas. Ontem (terça-feira - 29/09/20), na abertura da 12ª rodada da Série B, em cinco dos oito jogos realizados, tivemos o magro placar: 1x0. Nos outros confrontos, um empate sem gols e dois empates com o placar de 1x1.

O Brasileiro da pandemia está se caracterizando como o campeonato da "empatite", ou seja, da praga dos empates. Pontualmente temos registros de placares mais elásticos. Contudo, a marca registrada das vitórias apertadas tem imperado de norte a sul e em todas as categorias.

O nivelamento por baixo leva os matemáticos de plantão reverem seus conceitos em relações aos percentuais de classificação. O "novo normal" do Campeonato Brasileiro mexeu com os números. Pelo andar da carruagem é possível prever que, com menos pontos será possível um clube conseguir o acesso, ou se livrar do descenso. A aproximação dos clubes na tabela de classificação nos mostra que, com uma sequência de duas vitórias, um time pode dar um salto de cinco ou seis posições, se distanciando do perigo de queda, ao mesmo tempo em que abre a possibilidade de alcançar uma meta mais ousada. Enfim, as dificuldades acentuam as indefinições.

O cenário atual ressalta a fragilidade do futebol brasileiro. Não temos nenhum grande time praticando um futebol de excelência. O Flamengo, que terminou a temporada 2019 como um ponto fora da curva, caiu no lugar comum. Outros times que pareciam bem equilibrados caíram de produção. O crescimento técnico de tantos outros não chega a determinar uma evolução. Hoje nos contentamos com o nível de competitividade, de entrega dos jogadores em campo. A análise técnica dos jogos nos deixa com a certeza de que precisamos melhorar muito.

Muitos são os fatores que contribuem para essa queda de qualidade do futebol brasileiro. Não podemos atribuir tudo aos efeitos da pandemia do coronavírus. Outros males já vinham corroendo nossa estrutura. Evidente que a paralisação de quatro meses e o distanciamento abalaram os alicerces, mas as vigas de sustentação já estavam condenadas.

Nossos técnicos dormiram em berço esplendido, não se capacitaram e estão fora de sintonia com o que o futebol europeu nos tem apresentado.

"Sem sofrimento. Esta é a nossa realidade!", adverte o mestre, Humberto Araújo, o rei dos traços, que também é apaixonado por futebol.

Seguindo os ensinamentos do Arthur Carvalho, sigo cantarolando: "Nosso amor que não esqueço..."  

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A magia da televisão
postado em 22 de setembro de 2020

CLAUDEMIR GOMES

 

Um brinde aos 70 anos da televisão brasileira!

Tenho visto muitas homenagens, muitos relatos de passagens pessoais sobre as inúmeras histórias embutidas na história da televisão brasileira. Fecho os olhos e começo a assistir um filme iniciado na década de 60 do século passado. Foi neste período que chegaram os primeiros aparelhos de televisão em Carpina. Graças a energia elétrica vinda de Paulo Afonso, que foi, sem dúvida, um marco de progresso e desenvolvimento no Estado.

Poucas famílias tinham televisão. A novidade despertava a curiosidade da população, e se tornou comum convidar os amigos, e os filhos dos amigos, para desfrutarem daquele privilégio que era ter um cinema em casa.

Junto com minha irmã, Ana Carolina, pegamos muita carona nesses cinemas familiares nas casas de seu Valfrido e dona Dorinha; seu Nelson e dona Rosalva; dona Glauce, madrinha da minha irmã... até que um dia meu pai comprou um aparelho ao seu Zé do Álcool. Foi uma festa lá em casa. A partir daí passamos a receber os vizinhos para compartilhar com eles aquela novidade que passava o ocupar um lugar, até então, de domínio exclusivo do rádio.

Eram tempos de Rim Tim Tim; Lassie; Doutor Kildare; Guilherme Tell; Vigilante Rodoviário; O Fugitivo; da novela O Direito de Nascer; da TV Ringue Torre; dos programas de auditório, Gurilândia, Noite de Black Tie e Você faz o Show...

Ficávamos atentos até aos comerciais. A turma de criação das agências de publicidade tirava leite de pedra. Algumas peças se tornaram memoráveis por conta do jingle. Quando me tornei adulto foi que entendi o porque do meu Tio Carol Fernandes se dedicar tanto à criação de jingle.

A Fiat Lux aproveitava o sucesso do futebol brasileiro e investia nos seus comerciais; Só Esso dá ao seu carro o máximo; Nove entre dez estrelas do cinema preferem o sabonete Lux; Dropes Dulcora: quadradinho, embrulhadinho, um a um, você quer um?...

Certa vez, testemunhei um bom papo de Amarílio Nicéas e Carol Fernandes falando sobre televisão com o meu pai. Foi uma soma de conhecimentos incrível. Amarílio e Carol eram referências.

Na década de 70, quando dava meus primeiros passos no jornalismo esportivo, recebi um convite de Robson Sampaio para fazer parte da equipe da TV Tupi. Dayse Cisneiros comandava o jornalismo e a parte de esportes era de responsabilidade de Robson. A equipe era formada por quatro profissionais: Robson Sampaio (comandante chefe e comentarista), Roberto Nogueira (Apresentador), Cláudio (cinegrafista) e eu fazia a redação do programa Telesporte, que ia ao ar todos os dias após o Jorge Chau Show e antes do Programa Top Set apresentado por João Alberto e Tais Notare. Tinha também o programa do Palhaço Pimpão que era o preferido da garotada.

Vivenciamos um dos capítulos mais tristes da televisão pernambucana: o incêndio que destruiu o Palácio do Rádio Oscar Moreira Pinto, na Av. Cruz Cabugá, sede das Rádios Clube e Tamandaré, e da TV Tupi.

No final dos anos 90 recebi convite dos amigos, Roberto Nascimento e Luiz Mala Muniz para comentar no programa da produtora RWM. Uma grata experiência. Nos anos 2000 fui convocado por Paulo Jardel, uma das grandes referências da televisão pernambucana, para comandar um programa de esportes na TV Universitária. O Esportes no 11 foi ao ar por quase oito anos. Dividia a bancada com o jornalista, Beto Lago, amigo dileto, profissional do mais alto quilate. No início de nossa caminhada contamos com a substancial ajuda e ensinamento de Simone Vilar. O programa marcou época, atingiu pontos de audiência surpreendentes, e contava com o respaldo de uma equipe técnica exemplar: todos profissionais da TV Universitária.

O cardápio da televisão nos dias de hoje é algo espetacular. O mais importante: ela põe o mundo em nossas mãos em tempo real, ao vivo e a cores.

Mas aquele "cavalo de pau" em preto e branco, dos anos 60, os filmes mudinhos, são inesquecíveis.

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Eleições e pandemia
postado em 17 de setembro de 2020

CLAUDEMIR GOMES

 

Por imposição da pandemia do coronavírus, Sport e Santa Cruz, os clubes mais populares do Estado, se preparam, em home office, para eleições presidenciais que estão previstas para o mês de dezembro. Na Ilha do Retiro, a pretensão dos gestores leoninos é antecipar o pleito, fato que não agrada aos oposicionistas. Nas Repúblicas Independentes do Arruda, se fala na possibilidade de um adiamento, mas nada foi definido a respeito.

O sentimento é de que tais eleições vão dar chabu, tal como fogos feitos com pólvora molhada, ou ruim. O medo que faz é que as agremiações centenárias mergulhem em completa escuridão.

Os clubes estão vazios, sem vida. Desertos de idéias. Equipamentos moribundos esperando a morte chegar. Por conta das mudanças de hábitos e comportamentos, processo natural na chegada de um novo tempo, clamam por idéias que os dotem de novo viço para torná-los contemporâneos da nova ordem. A metamorfose não aconteceu.

Diante da realidade dos dias de hoje, os patrimônios se tornaram gigantescos, inapropriados, inóspitos até. Colocaram os clubes no grupo de risco, os tornando presas fáceis de serem dragados pela pandemia.

"Os clubes socioesportivos estão acabados!".

Sentenciou um amigo após ouvir atentamente minha reflexão. Estou quase me convencendo. E agora, com essa pandemia onde uma das exigências de protocolo é lavar as mãos sempre, o gesto ganhou força. Tem muita gente lavando as mãos para não assumir a responsabilidade de restaurar e salvar as agremiações.

Em tempos de covid-19 ninguém tira a máscara. Se em condições normais de temperatura e pressão já fica difícil diferenciar o bandido do mocinho, imagina quando ninguém é obrigado a mostrar a verdadeira face.

De forma pontual, um ou outro nome é sugerido para concorrer a presidência nos dois clubes: Santa Cruz e Sport. O nome ideal ainda está por vir. No momento é tão difícil quanto encontrar a vacina que erradique a covid-19.

A pandemia é letal. Isto é fato. Já ceifou a vida de milhares de pessoas pelo mundo afora. Devastou economias e deixou outros rastros de destruição. Nada passou ainda. A sensação diante de cenário de tanta incerteza, é de que nossos centenários clubes estão na lista deste "holocausto".

Tricolores e rubro-negros sonham com o nome do "messias" que venha salvar os clubes que já foram prósperos e saudáveis.

Vale lembrar que, em tempo de pandemia, paliativos podem provocar efeitos colaterais letais.   

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Dia de Praia
postado em 07 de setembro de 2020

CLAUDEMIR GOMES

 

A praia, e o mar, exercem um fascínio impressionante sobre a minha mulher, Áurea Regina. E ela faz questão de exclamar constantemente, como se fizesse parte de uma liturgia diária. O seu encanto por essas dádivas ofertadas pela natureza chega a ser contagiante. Hoje, apesar do emblemático viés cívico contido na data - 7 de setembro - dia em que se comemora a Independência do Brasil, foram as saudosas e memoráveis viagens à praia, que fazíamos em datas pontuais, que me vieram a lembrança.

A época, durante minha infância, a frota do transporte coletivo de Carpina era composta por várias empresas. Uma delas pertencia ao meu pai, Jaime Gomes  Expresso São Judas Tadeu. Pois bem! O feriado de 7 de Setembro era reservado para um passeio -  piquenique - em uma das praias do deslumbrante litoral pernambucano.

Os preparativos começavam bem antes da data, com a reserva de lugares por várias famílias, que normalmente eram as mesmas, fato que tornava o grupo mais homogêneo e unido. O destino a ser visitado também era definido com antecedência, gerando uma expectativa ainda maior sobre a viagem. E nesse turismo interno passamos a conhecer as praias de Piedade, Candeias, Gaibu, São José da Coroa Grande, Rio Doce, Janga, Conceição, Maria Farinha. Algumas vezes fomos até Tambaú, em João Pessoa, na Paraíba mas o passeio se tornava muito cansativo por conta da distância.

Éramos o que a falsa elite hoje chamaria de "farofeiros profissionais". Aceitamos o insulto e a discriminação, pois nossa felicidade estava muito acima de qualquer preconceito.

A farra começava na véspera da viagem: ninguém dormia direito por conta da ansiedade. Preparar comida, selecionar refrigerantes, separar roupas... As donas de casa se viravam em trinta. Os homens ficavam responsáveis por selecionar as "bóias", no que eram transformadas as câmaras de ar de pneus de caminhão e carro de passeio. A grande lona também fazia parte dos acessórios, pois ela era acoplada ao ônibus e daí estava levantada a tenda que servia de referência para o grupo.

O banho de mar era uma festa. As meninas, em pleno desabrochar da juventude, se bronzeavam como coca-cola, e depois apareceram aqueles bronzeadores vermelhos. A ordem era pegar cor. Os homens, além da afoiteza nos banhos de mar, a bordo das enormes bóias, se dividiam no prazer do levantamento de copos e numa agradável pelada.

A pelada era uma oportunidade única de figurar num mesmo time com Mário de Pirulito, Wilson Brito e outros craques do Santa Cruz de Carpina.

A alegria era imensa. As horas passavam voando, o dia ficava curto, e o 7 de Setembro, cada vez mais, se tornava a data de novos sonhos. Além de fatos e imagens arquivados em nossas memórias, os piqueniques eram lembrados pelos mariscos, ouriços e estrelas do mar que eram levados para casa com o máximo de cuidado.

Detalhe interessante: quase todos os ônibus da cidade eram alocados pelas famílias, mas nunca iam para o mesmo, ou seja, todos seguiam para praias diferentes. Tal fato gerava mote para prosas durante muito tempo.

Os passeios seguiam na pauta dos dias vindouros até o bronze durar. Ficar com o rosto e os ombros despelando era como se fosse um troféu.

Na volta pra casa, vez por outra, pegávamos um engarrafamento, numa ou outra cidade por conta dos desfiles cívicos.

Para nós carpinenses, dia de desfile era o 11 de setembro, quando comemoramos a emancipação política da nossa cidade. O 7 de Setembro era sinônimo de praia, dia de reunir as famílias, de sorrir, de brincar e se esbaldar no paraíso.

Como foi boa minha vida de farofeiro!

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