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As lições olímpicas
postado em 06 de agosto de 2012


    Penso que o ofício jornalístico numa cobertura do nível das Olimpíadas exigiria um esforço bem mais racional. A emoção costumeira que se embasa num ufanismo extremo tem lá seu valor, certamente para levantar as expectativas do torcedor. No entanto, seria interessante que a dosagem aplicada não só fosse mais realista, como pudesse ser menos alienante. Afinal, exageros emocionais à parte, o que se sabe é que o esporte no Brasil ainda se remete a um amadorismo anacrônico, contagiado ainda pelas fragilidades gritantes dos modelos de gestão, dos corpos dirigentes e das políticas públicas. Uma verdade comum a maioria das modalidades praticadas, com representações nesses Jogos. Aos atletas - que são os atores principais de todo esse processo - cobram-se esforços que muitas vezes estão bem além das suas capacidades físicas. Faltam-lhes, de fato, muitas outras formas de recursos, que às vezes não são apenas os de ordem financeira. Aliás, até que houve uma discreta melhora nesse campo, mas há tantas aplicações equivocadas quanto à proporção que percebemos da falta de projetos consistentes, que permitam a inserção social de uma juventude desamparada. Que nos diga aí a falta de renovação em várias modalidades.


    A outra questão que fica para discussão trata da ordem de grandeza da nossa delegação. Trata-se da velha aferição sobre o que é pertinente, se a quantidade ou a qualidade, Valeria a pena apostar em tantas modalidades cujos resultados esperados sequer superavam os marcos classificatórios? Por que a aposta cega feita pelas federações dessas modalidades, uma vez que pouco se poderia acrescentar em forma de resultados? Experiência apenas, quando se tem a escassez de recursos como elemento tão comum no esporte? Ou será que não seria bem mais proveitoso o investimento na preparação de uma nova geração de atletas, já se vislumbrando a responsabilidade de sediar esses mesmos Jogos em 2016? E como a quantidade tem falado mais alto que a qualidade, não há como não fugir das críticas do "turismo olímpico", numa plena demonstração de falta de planejamento e de desperdício de recursos.
    Essas e outras críticas são naturais e precisam ser vistas pelo aspecto construtivo, na intenção de trazermos a realidade do esporte nacional para o centro dos debates. Nesse sentido, a realização dos Jogos Olímpicos de Londres abre uma imensa perspectiva, para que possamos entender todas essas fragilidades. Apenas para dar tempero a essas questões, face à oportunidade gerada, levarei em conta dois pontos bem atuais, daqui mesmo da "província": a discussão em torno de um projeto de especulação imobiliária que se traveste de "Arena Sport" e as eleições municipais que se avizinham.
    No caso do dito projeto imobiliário - para o qual no engodo da modernização da Ilha do Retiro na forma de uma arena multiuso, destrói-se todo um patrimônio secular - lembro que nesse "tesão pela dinamite" há a completa destruição da praça olímpica que ainda enobrece a razão de viver do Sport. Quero dizer com isso que, no momento em que as fragilidades esportivas do país vêm à tona pelo pífio desempenho olímpico, ainda há quem queira arrasar um dos raros espaços urbanos para desenvolvimento dos esportes na nossa cidade. E foi justamente por esse aspecto que o movimento de rubro-negros defensores do patrimônio tem lançado a idéia de que atrelado um projeto de modernização do estádio deveria ter sido apresentado um projeto complementar de melhorias desse raro espaço de proteção aos esportes olímpicos. Nesse sentido, edificar o esporte é bem mais salutar que edificar chapadões de concreto, justo numa área já tumultuada em termos de mobilidade e de valorização dos bens públicos urbanos.
    O próprio sentido de defesa do ambiente olímpico do Sport é também combustível para o debate sobre a próxima política urbana e social do município. Nesse sentido, penso que seja bastante oportuno que os candidatos não só assumam alguns compromissos com o esporte, assim como atente para o "prejuízo esportivo" que seria a troca da praça olímpica da Ilha do Retiro, pelo nefasto complexo imobiliário que se esconde por trás do discurso falacioso de uma Arena. A responsabilidade pública em torno de programas de inclusão que levem em conta o papel do esporte (e da cultura) é também questão de desenvolvimento econômico e de cidadania. Um discurso bem mais sólido e sustentável do que acatar o descontrole urbano de certas áreas da cidade.
Os Jogos Olímpicos de Londres, portanto, têm lá suas lições. Ufanismo, de verdade, só deve acontece quando a cidadania consciente e o civismo realista possam sobrepô-lo. Ademais, o resgate da cidadania, a inclusão social e programas sustentáveis podem ser dados pelo esporte desde já, caso as políticas públicas encarem esse desafio. E insistir no descontrole urbano com trocas de espaços esportivos por projetos de pura especulação é apostar no agravamento de todos esses problemas. Os dirigentes esportivos e os governantes estão com os elementos nas mãos para efetuar as mudanças necessárias. Insistir nos velhos erros, usando aqui a linguagem figurada do futebol, é querer sustentar a "máscara" dos falsos ídolos.
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(*) Alfredo Bertini, é economista, produtor cultural e desportista.


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