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E se...6. Leônidas
postado em 04 de fevereiro de 2019

ROBERTO VIEIRA

 

O presidente da Confederação Brasileira de Desportos, Luís Aranha, prometeu uma casa para cada jogador brasileiro. Bastava vencer a Itália do técnico Pozzo. O irmão dele, o ministro de Getúlio Vargas, Osvaldo Aranha, achou um pouco exagerado aquilo tudo. Mas o próprio Vargas gostou da idéia. Vencer Mussolini não tinha preço. Leônidas estava machucado e seria poupado pelo treinador Ademar Pimenta do jogo semifinal. Para Pimenta, o Brasil já estava na final, e as passagens para Paris estavam todas compradas, de avião. Ninguém imaginava outro resultado.

Ninguém menos Leônidas.

Ele já era o maior jogador da Copa do Mundo. Ele já era uma lenda em território francês. Mas algo lhe dizia que apenas uma coisa poderia macular sua carreira para sempre. Parecer que fugira ou que recebera suborno dos italianos, caso o Brasil perdesse.

Pior. A briga entre Pimenta e Tim continuava. Sem Leônidas e sem Tim era dar muita sopa pro azar.

O telegrama chega do Brasil. Uma reunião acontece na madrugada de Marselha. Tim e Leônidas precisam jogar de qualquer maneira. Eles e Romeu ganhariam de Foni, Rava, Serantoni e de todos os camisas negras dessa Copa. Além do mais, se a torcida francesa já era toda brasileira, com a presença do elástico humano seria um delírio.

Mussolini se informa sobre a semifinal. Já era campeão do mundo e das Olimpíadas. No momento, era até mesmo considerado como o homem sobre o qual se equilibrava a frágil paz europeia. O contrapeso de Hitler. Um ditador com quem se podia conversar.

Mas Mussolini queria mais. Ele queria informações sobre a vida particular dos brasileiros. Todos tinham algum segredo.

A Itália era excepcional. Melhor que a campeã de 1934. Aldo Olivieri era o grande arqueiro da Copa, juntamente com Planicka. Meazza era deus e comandante da squadra. Silvio Piola era o maior atacante que a velha bota já produzira ou voltaria a produzir. Uma máquina de gols a serviço do Pro Vercelli. Não havia o argentino Monti para nocautear adversários, porém havia o uruguaio Miguel Ángel Andriolo Frodella que fazia tudo melhor e sem dar na vista dos juízes.

Mesmo assim%u2026 havia Leônidas. E Leônidas era a surpresa que Pozzo não queria ter pela frente.

Hoje tudo virou história. Mas até as primeiras horas da manhã do dia 16 de junho de 1938, os italianos juravam de pés juntos que Romeu, Tim e Leônidas não jogariam juntos.

Foi quando a equipe brasileira subiu dos vestiários pelo túnel helicoidal de Marselha que a surpresa ganhou contornos épicos. Como uma vingança abissínia fora de hora. Com Leônidas em cores etíopes aparecendo diante do marechal Pietro Badoglio.

Correto. As informações dos espiões de Mussolini e Pozzo sobre Domingos da Guia eram verdadeiras. Gripado, em péssimo dia, escalado numa formação tática obsoleta, o Divino Mestre desmoronava a cada ataque de Colaussi. Ele e Piola se aproveitaram da fragilidade defensiva do Brasil como Willimowski fizera na abertura da Copa quando a Polônia meteu cinco bolas nas redes brasileiras.

O problema italiano porém, como o dos poloneses, foi exatamente Leônidas. O Diamante Negro jogou o que sabia e o que não sabia sob o peso da responsabilidade de ser crucificado em caso de derrota do selecionado. E Leônidas não estava sozinho. Romeu se sentiu como se estivesse envergando a camiseta do Palestra Itália ou Fluminense. Fez gato e sapato de Foni. Tim, então? Feliz por participar da semifinal, Tim transformou Marselha num salão de baile on the rocks.

O resultado de 5×2 não diz realmente o que as imagens do youtube mostram a quem deseja testemunhar o jogo atualmente. Nem mesmo a manobra de Piola sobre Domingos da Guia, tirando o zagueiro do sério como haviam ensinado os espiões de Pozzo surtiram efeito. O pênalti que Domingos cometeu agredindo Piola sem bola foi convertido por um desconcertado Meazza segurando seu calção com um barbante %u2013 instantes antes o calção de Meazza se rasgara e ele ficara momentaneamente seminu em campo depois de uma caneta de Tim.

O árbitro marcou o pênalti e expulsou Domingos da Guia. Só que o placar já estava liquidado.

 Domingos jamais revelou o que ouviu de Piola, assim como Zidane fez em relação em relação a Materrazzi décadas depois. A tática italiana não levou ao título como em 2006. Nada conseguiria parar o Brasil naquela tarde.

Por um instante em Marselha, o mundo comemorou embevecido a derrota do fascismo e o triunfo das cores morenas longe das senzalas. O Brasil negro, mulato, imigrante, singelo, bateu os super-homens de Pozzo.

Leônidas terminou a partida com os músculos arrebentados.

 Mas havia um sorriso maroto nos lábios do atacante.

Um sorriso de garoto perdido em seus sonhos.

Afinal de contas, como bem recordou o gênio anos depois, Leônidas se sentiu em casa no Stade Vélodrome.

O campo de futebol era cercado por uma bela e histórica pista para corridas de%u2026 bicicleta.

Os deuses do futebol também sabiam fazer piada de vez em quando.

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E se...3. Cláudio Coutinho
postado em 01 de fevereiro de 2019

ROBERTO VIEIRA

 

Havia sido outro erro da juventude. Xingar Figueroa na estréia era uma coisa, sacudir a camisa nos pés do técnico Cláudio Coutinho ao ser substituído na seleção era fato bem diferente. O menino prodígio  do futebol brasileiro sabia que estava com os dias contados. Ainda mais para jogar a Copa da Argentina videlista. Bom mesmo se contentar com o manto colorado e ficar tomando chimarrão ao lado de Quintana.

Coutinho se debate na hierarquia.

A Copa será jogada em overlappings e pontos futuros no pretérito do continente. Falcão era o holandês perfeito para o meio campo. Com ele e Dirceu a seleção jogaria o futebol dos seus sonhos cibernéticos. Caso ele chamasse Marinho Chagas para a lateral esquerda, a mídia iria aplaudir e apenas Leão sairia bufando sua juba. Só que Marinho era bruxa demais para o escrete de capitães e almirantes. Ou não?

Noite carioca. O som de João Gilberto invade a madrugada do técnico. A música parece dizer ao treinador o caminho para a Copa.

Sem ninguém saber, Carlos Coqueijo Costa e Alcivandro Luz escalam a seleção.

Cláudio Coutinho surpreende até a si mesmo.

Cerezo, Falcão, Rivelino e Zico.

O moleque Careca com dezessete anos e nove meses na frente.

Dirceu nas onze.

Nelinho e Marinho nas alas.

Amaral e Oscar dando conta do recado.

Chicão, Gil e Edinho para o banco.

Leão agarrando tudo lá atrás.

Tirando foto abraçado com Marinho.

Amigos para sempre.

O Gigante de Arroyito anoiteceu com o Brasil que Videla não queria, Hijo de una... condores eram condores e deviam ser respeitados. Mas aquilo que se via no gramado era tudo o que a cúpula portenha não queria ver.

Tarantini atarantado. Ardiles procurando quem marcar, mas a pelota ia de pé em pé por sobre o papel higiênico sem se importar com o urro sepulcral de milhares de heramanos diante de Luque e Kempes adormecidos.

"Cadê Maradona, Menotti imbecil?".

Falcão fez o primeiro e correu para abraçar Coutinho. Marinho acertou o ângulo de Fillol da intermediária. Dirceuzinho correu duas maratonas em noventa minutos. O Brasil estava na final da Copa de 1978 com todos os méritos e deméritos da europeização com que o capitão decidira implantar na canarinha.

Claro que o oba, oba perdeu a final. Entre o jogo contra a Argentina e a final diante da Holanda, centenas de políticos, militares, empresários e chacretes invadiram a concentração. Todos querendo fotos com os novos campeões do mundo.

A Holanda já conhecia bem aquele carnaval. Caíra na mesma esparrela na Copa de 1974.

A vitória holandesa com gols de Rosenbrink e Neeskens foi justa. O placar poderia ter sido até mais dilatado.

Muitos juram até hoje que rolou muito dinheiro na conta dos jogadores do Brasil. Muitos se ajoelham e insistem que a Copa foi vendida por milhões e milhões de pesos e dólares. A Argentina queria a taça, mas também não estava ali para aplaudir o Brasil tetracampeão, bradavam muitos na mídia.

A multidão comprou a infâmia e sacudiu moedas na seleção que desceu no Rio de Janeiro.

Mas será que a seleção brasileira daria uma de peru, morrendo de véspera por um punhado de grana?

Será que é mesmo verdade que o general Videla esteve em pessoa no vestiário brasileiro antes do começo da partida?

Pra quem ama o futebol, muito melhor é ficar com as imagens do baile da seleção de Coutinho em Rosário. Um baile do futebol do passado mesclado com o futuro comandado pelo menino Falcão sob a batuta da revolução do saudoso Cláudio Coutinho.

Coutinho que aprendeu.

No futebol é preciso perdoar.

Sempre.

Principalmente, o craque.  

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E se... 2. Sócrates
postado em 31 de janeiro de 2019

ROBERTO VIEIRA

 

O Doutor se debate em dúvidas. Não teria sido melhor Zoff defender a cabeçada histórica de Oscar? Não teria sido melhor cair ali mesmo em Sarriá? Mas como pode a derrota ser melhor que a vitória? Nem filosoficamente. A sua geração ficaria marcada como um futebol arte sem garra. Um bando de artistas circenses incapazes de resistir a um ex=presidiário em tarde de gala. Zico não merecia isso, nem Falcão, ou Cerezo, ou Júnior. Nem o teimoso Telê.

Nem Sócrates.

Mas agora havia a machadiana batata quente. Ao vencedor, por vezes, restam as batatas quentes.

Falar, discursar, beber chopps revolucionários era uma coisa. Botar o guizo no gato era outra. Sócrates era capitão da seleção. O avião está arrumado para Brasília. O general Figueiredo aguarda o escrete para celebrar o tetracampeonato mundial = bicampeonato da ditadura. Um feito e tanto para o discípulo de Geisel.

Médici está se mordendo de inveja.

O avião sobrevoa o planalto. Dá pra ver a multidão lá embaixo. A taça repousa nas cadeiras ainda com respingos de champanhe, cachaça e cerveja. O aparelho mais pesado que o ar é um canarinho que percorre os derradeiros  quilômetros para a festa dos campeões.

Os jogadores descem no aeroporto. Mortos de cansaço, mas imensamente felizes do final feliz, eles desfilam nos carros do corpo de bombeiros. De repente a surpresa. Ante o olhar estupefato de Telê Santana, Sócrates pela aos bombeiros que parem.

Levemente embriagado, cigarro nos lábios, sentimento do mundo entre as mãos, o meio=campista pula com a taça no meio do povo. A multidão, inicialmente incrédula, ergue nos braços o seu capitão. Aos poucos, um a um, os jogadores entendem o recado e também vão descendo do carro do corpo de bombeiros. Paulo Isidoro some entre os braços e vivas. Luisinho e Leandro seguem triunfantes seu destino de heróis. Valdir Peres chora = a imensa culpa pelos gols sofridos perdoada pelo suor candango.

As câmaras capturam o momento sem saber o que fazer. Não dá para censurar. Não dá para editar.

Um fotógrafo não hesita.

Escalado para documentar o instante do encontro entre Sócrates e Figueiredo, ele clica a imagem inesperada do militar em seu labirinto. Um presidente que subitamente não manda em nada nem ninguém.

A ditadura militar chega ao fim de mãos vazias.

O velho e sofrido povo que não sabe votar solta seu grito do Ipiranga.

"A Taça do Mundo é nossa!!!".

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Acontece
Me engana que eu gosto
postado em 30 de janeiro de 2019

CLAUDEMIR GOMES

 

No dia 19 de maio de 1982 a Seleção Brasileira fez um amistoso com a Suíça, no estádio do Arruda. O jogo fazia parte da preparação do time comandado por Telê Santana para a Copa da Espanha, Mundial que o Diário de Pernambuco cobriu com seis profissionais: Adonias de Moura, Valdir Coutinho, Claudemir Gomes (repórteres); Francisco Silva, Edivaldo Rodrigues e Maurício Coutinho (fotógrafos).

Pois bem! O mestre, Adonias de Moura, nosso editor, escalou o repórter Gilson Vieira para fazer a cobertura do vestiário da Suíça. Quatro repórteres foram escalados para o vestiário do Brasil, cuja grande novidade era a integração de Falcão ao grupo. Encerrado o trabalho no vestiário, todos nós fomos para o carro, onde Gilson nos aguardava com bastante tranquilidade.

A época, existia nas proximidades do Diário, um restaurante de nome Pique=Nique, que Adonias gostava de frequentar. Com muita assiduidade ele  nos convidava, após o fechamento do caderno de esportes, para tomar um "leite quente" (cerveja gelada), acompanhado de queijo coalho assado.

Naquele domingo, com a certeza de que havia fechado uma edição memorável com o jogo da seleção, chamou a todos da equipe para um brinde no Pique=Nique. Lá pras tantas, jornal já rodando, Adonias pergunta a Gilson: "Como é que foi no vestiário da Suíça?".

"Não foi", respondeu Gilson curto e grosso. Na sua narrativa deixou claro que não entrevistou nenhum jogador estrangeiro, argumentando que, ele não entendia o que os caras falavam, e vice e versa.

Adonias ficou vermelho e explodiu de raiva. Se sentiu lesado pelo seu repórter. O pior: no dia seguinte, milhares de leitores estariam sendo enganados com a exposição de entrevistas que não existiram. O editor não perdoou o repórter.

Os anos passaram e a arte de enganar, que era uma coisa abominável, se tornou uma prática comum.

Na Copa de 2002, disputada no Japão, um determinado chefe de equipe, de uma emissora de rádio que havia comprado os direitos de transmissão do Mundial, vendeu uma das cotas ao então presidente da FPF, Carlos Alberto Oliveira.

Brasil pentacampeão!

Por conta do fuso horário, o jogo final com a Alemanha foi na manhã do domingo, logo cedo. No dia seguinte, após o almoço, o "profissional" se fez presente na sede da Federação com pacotes de chocolates que supostamente teriam vindos do Japão.

A mentira transitou nos corredores da entidade, mas o presidente logo fez as contas e viu que para ele se fazer presente naquele horário, era necessário ter feito a viagem num supersônico. Dias depois se descobriu que toda a cobertura havia sido feita numa chácara em São Paulo, e os bombons comprados no bairro da Liberdade, na Capital Bandeirante.

A estória era repassada sem nenhum constrangimento, mesmo se sabendo que os ouvintes e os patrocinadores haviam sido enganados.

Vamos ao presente:

Com a televisão cobrindo todas as competições, as rádios aderiram ao "off=tube". Dublar sai bem mais barato, embora a qualidade fique comprometida. Mas se tornou regra.

O que é inadmissível é uma rádio com um dos prefixos mais tradicionais do Estado, dublar jogos que estão acontecendo na Arena Pernambuco, com narrador, comentarista e repórteres enclausurados no estúdio e bradando no microfone, "aqui na Arena Pernambuco...".

Me engana que eu gosto.

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Campeonato Pernambucano
Fim dos clássicos
postado em 28 de janeiro de 2019

CLAUDEMIR GOMES

 

O futebol pernambucano se apequenou tanto que os clássicos perderam o seu glamour, e até o status. Caíram no lugar comum. Evito fazer comparativos, traçar paralelo com épocas passadas, para não ser picado pelo vírus do saudosismo, mas o torcedor responde com seu desprezo. Afinal, o primeiro clássico do Estadual, com os dois times precisando da vitória, o confronto foi prestigiado por pouco mais de 8 mil pessoas.

Uma árbitra tecnicamente fraca, com visível sobrepeso na bunda, mais espetaculosa que eficiente. Duas torcidas ordeiras, mas um policial aloprado por pouco não provocou um tumulto ao "brincar" com spray de pimenta. Para completar, os treinadores se esforçaram para descobrir chifre em cabeça de cavalo, ou seja, tentaram atenuar os erros de suas equipes, atribuindo falhas a erros de arbitragem.

Bom! Outro Náutico x Sport somente nas próximas fases: nas quartas de final; nas semifinais ou na final, caso os dois venham a ser os protagonistas da decisão do título. Portanto, o técnico Márcio Goiano precisa arrumar seu time para outros confrontos. A verdade é que o sistema de contenção do Náutico tem sido reincidente em erros grosseiros que revelam as limitações técnicas do jogadores e um posicionamento tático equivocado. Falhas táticas têm que serem creditadas ao professor.

Vitória em clássico é sempre muito comemorada, principalmente quanto ela é convincente, razão pela qual os torcedores do Sport deixaram a Ilha do Retiro em estado de graça. No curto espaço de uma semana os leoninos constataram uma evolução no time comandado por Milton Cruz que o coloca na condição de grande favorito ao título estadual da temporada. Questão de qualidade.

A estratégia de colocarem as disputadas do Pernambucano e da Copa do Nordeste, uma por dentro da outra, acaba esvaziando as duas competições. Pior para o Estadual. A corda sempre se rompe do lado mais fraco. Por tudo o que aconteceu nos últimos anos, a competição doméstica se fragilizou perdendo espaço para a regional.

Vejamos: amanhã o Santa Cruz volta a jogar na Arena Pernambuco, partida que fatalmente será prestigiada por um público diminuto. Na quarta=feira também haverá jogo na Arena: Vitória x Central. Como bem diz o mestre, José Joaquim Pinto de Azevedo, "é a caravana da miséria".

No próximo final de semana teremos apenas um jogo válido pelo Pernambucano: América x Sport, domingo, às 16h, no estádio Ademir Cunha, em Paulista. Em contrapartida, teremos, no sábado, Salgueiro x Náutico e Santa Cruz x ABC, partidas válidas pela Copa do Nordeste.

O torcedor pernambucano, não sei os dos outros estados nordestinos, ainda não compraram este "baião de dois", que nitidamente não deu liga.

Se não buscarem novas possibilidades, estudarem novas alternativas, a tendência é a exclusão de uma das duas competições do calendário nacional.  

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