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Maio 2012 ›› CLAUDEMIR GOMES
Em 1994, quando o Brasil se classificou na fase de grupos, na Copa dos Estados Unidos, o %u201Cvelho%u201D Mário Jorge Lobo Zagallo, referência de dedicação e amor a Seleção Brasileira, colecionador de tÃtulos como jogador e técnico, deu inÃcio a uma contagem regressiva como se fosse um visionário que tinha a certeza da conquista do tetra. O Brasil foi somando vitórias, e a cada etapa vencida as atenções se voltavam para aquele que sentia o cheiro do tÃtulo: "Faltam 4, faltam 3, faltam 2...". E a contagem virou amuleto da sorte. Quando o tetra chegou, até Pelé chorou.
Quando o Náutico estreou com vitória - 1x0 - sobre o Brusque, no quadrangular que irá definir os clubes que terão acesso a Série B, no próximo ano, eu disse cá com meus botões: "faltam duas!". Não me perdi em cálculos, tampouco me concentrei em jogo de mutações. A conta foi simples e exata como manda a matemática, e o resultado não é outro: se fechar os jogos de ida com 9 pontos ganhos, fatalmente o acesso estará nas mãos.
Meu otimismo é alimentado por um detalhe que faz toda a diferença: os próximos jogos, contra Guarani e Ponte Preta, respectivamente, serão nos Aflitos. Sei que irão aparecer os céticos, com espÃrito de porto e boca de praga, para lembrar a fatÃdica "Batalha dos Aflitos". Nada como um banho de sal grosso e uma limpeza com defumadores, receita infalÃvel, da qual o mestre Davi Ferreira - Duque - não abria mão durante a campanha do inigualável hexa. Hélio dos Anjos sabe que, nessas horas vale se precaver fechando portas e abrindo caminhos.
Conheço os Aflitos desde o final dos anos 60. A época, o Náutico recrutou vários jovens jogadores do Santa Cruz de Carpina: Lula, Zé Leite, Jairo, Wilson, Edvaldo, para reforçar sua equipe juvenil, treinada pelo técnico Cido. Todos eram meus amigos, estudamos juntos, no Salesiano. A concentração dos juvenis era sob o setor de cadeiras no estádio alvirrubro, do qual passei a ser frequentador assÃduo. Tive até o privilégio de tomar a sopa do Pusca, pois os juvenis também faziam as refeições na concentração dos profissionais, na Rua Santo Elias.
A partir de 1975 passei a frequentar os Aflitos como repórter. Foi quando descobri que a magia dos Aflitos não estava naquele corpo de ferro e cimento, e sim, na alma dos alvirrubros.
E ficou a lembrança dos primeiros amigos que o futebol me ofertou: Warlindo, Lulinha, Tico, Anchieta, Pintado, Eloi... Não tem como esquecer a laranja, o cachorro-quente, o raspa-raspa, tudo com sobrenome. Os gritos de Zequinha seguem ecoando nos nossos ouvidos. A imortal Lia, que repassava o carinho de mãe para todos os jogadores. Seu Edigar Campos, o carioca que trabalhou nos três clubes do Recife, mas que adotou o Náutico como "meu". Citar o monte de jogadores que se tornaram amigos é tarefa quase impossÃvel.
Quando o "pajé" Eládio de Barros chegava aos Aflitos parecia o papa quando caminha para missa dominical no Vaticano. O grande Wilson Campos com sua cabeleira branca e reluzente, o carismático Sebastião Orlando, João de Deus Ribeiro, Américo Pereira, Cauby Urquiza, Eduardo Loyo, Antônio Amante, Josemir Correia, João Guerra, Fred Oliveira, André Campos, Ricardo Valois, Sérgio Aquino, Paulo Wanderley...
Os Aflitos tem corpo e alma! Mas acima de tudo, tem uma energia irradiante que emana de um amor incondicional. Quando o estádio está cheio, a conexão que se forma entre jogadores e torcedores leva qualquer adversário a tremer nas bases. Sempre foi assim. E assim sempre será.
Para entender tudo que falei é preciso ter testemunhado a entrada da charanga com o trombone de vara solando o frevo Come e Dorme. Era de arrepiar!
Bom! Minhas contas sugerem que faltam duas vitórias.
Dá-lhe Náutico!
CLAUDEMIR GOMES
A derrota - 1x0 - da Seleção Brasileira para a modesta Seleção da BolÃvia, no fechamento das Eliminatórias Sul-americanas para o Mundial de 2026, foi uma autêntica ópera bufa, para o bom entendimento do técnico Carlos Ancelotti, o italiano que chegou com a missão de levar o elenco a realizar grandes exibições, mas sequer nos brindou com uma opereta.
Não vamos creditar ao novo treinador o conjunto da obra. Afinal, ele é apenas uma peça tampão colocada com o intuito de não deixar tudo escoar pelo ralo. à importante ressaltar que, durante as Eliminatórias o Brasil utilizou três treinadores: Fernando Diniz, Dorival Jr. e Carlos Ancelotti. As inúmeras mudanças não ficaram restritas ao elenco de jogadores e comissão técnica. A direção do "teatro" também mudou. Mas tudo continua como dantes no quartel de Abrantes.
Acompanhei a Seleção Brasileira em várias edições de Eliminatórias. Jogar na BolÃvia sempre foi o desafio em virtude da altitude. Desumano ou não, o fato é que FIFA segue programando jogos para lá. Convenhamos: a derrota - 1x0 - da Seleção Brasileira não foi por conta do ar rarefeito, foi produto de um time que entrou em campo já com uma formação equivocada. E os estranhos "estrangeiros" não renderam nada.
Ancelotti dirigiu o Brasil em quatro jogos nas eliminatórias: Duas vitórias, um empate e uma derrota. Nenhuma apresentação convincente. Iniciou o trabalho tentando ajustar o setor defensivo que, sob seu comando não sofreu nenhum gol com a bola rolando - o gol da BolÃvia foi de pênalti - e não pôde contar com algumas peças consideradas pontos de desequilÃbrio.
Por certo, a maioria dos jogadores que atuaram neste confronto no fechamento das Eliminatórias, não farão parte do grupo selecionado para disputar a Copa de 2026. Menos mal!
Os números atestam nossa pequinês. Na primeira Eliminatória do Século XXI, visando o Mundial 2002, o Brasil somou 30 pontos; contabilizou 9 vitórias, 3 empates e 6 derrotas. Classificou em 3º lugar. Com um trio de craques - Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho - todos agraciados com o prêmio de Melhor do Mundo, em diferentes temporadas, a conquista do penta foi um tributo ao talento.
A Seleção Brasileira foi a primeira colocada nas Eliminatórias de 2006, 2010, 2018 e 2022, sendo que, na última não sofreu nenhuma derrota, tendo contabilizado 14 vitórias e 3 empates, que lhes levaram a somar 45 pontos.
O Brasil encerra sua caminhada para ir ao segundo Mundial dos Estados Unidos com 28 pontos, dez atrás do lÃder Argentina; atrás do Equador e igualado com Colômbia, Uruguai e Paraguai.
Espero que o choque de realidade tenho aberto os olhos do técnico Carlos Ancelotti. Afinal, o grupo de jogadores que têm convocado está mais preocupado em exibir novos penteados do que apresentar um bom futebol. Esse hábito vem desde os seus antecessores, mas ninguém conseguiu dar jeito. A turma do penta deixou claro que, é dos carecas que a bola gosta mais.
O técnico Carlos Ancelotti dará sequência ao seu trabalho em busca de um maior conhecimento sobre o insumo do futebol brasileiro. Se imaginou que ele teria um trabalho enorme para encontrar a cereja do bolo, mas pelo visto, a dificuldade será mais ampla. Não vai ser fácil fazer um bolo que venha conquistar prêmio com ingredientes de qualidade duvidosa.
à mestre!
Reger concerto da sinfônica do Real Madri no Bernabeu é bem diferente do que se apresentar com a fanfarra brasileira na altitude de El Alto, na BolÃvia.
CLAUDEMIR GOMES
O Santa Cruz deu o primeiro passo para a ressurreição.
Aleluia!
à voz corrente que a Série D (Quarta Divisão) do Campeonato Brasileiro é um inferno. Se houvesse a Série E seria chamada de "quinta dos infernos". Sendo assim, depois de passar quatro anos ardendo no mármore do inferno, o Tricolor do Arruda deu inÃcio a retomada do crescimento ao assegurar seu acesso à Série C, no próximo ano.
Já que estamos na verve da teologia, podemos afirmar que o Santinha está de volta ao limbo, aquele espaço onde as almas se purificam. Menos mal. Entretanto, o caminho que leva de volta a Série A é bem mais desafiador do que o de Santiago de Compostela, o preferido dos católicos para suas peregrinações.
Nos últimos 20 anos, o Santa Cruz disputou 2 edições de Série A; passou 4 temporadas na Série B e fez morada por 14 anos na Série C (7) e na Série D (7). A exposição dos números nos leva a um entendimento do porquê de tanta comemoração de uma saÃda da quarta divisão do Brasileiro.
"à o nosso tamanho!", sintetizou o taxista Val, que hoje chegou um pouco mais tarde onde faz ponto - esquina da Henrique Capitulino com a Conselheiro Aguiar, em Boa Viagem - num claro entendimento do que são as mudanças no futebol.
O Santa Cruz segue sendo um dos grandes clubes do futebol brasileiro, mas no momento está desidratado. O processo de soerguimento é desafiador. Chega a ser doloroso ante sua complexidade. Cada série com os seus desafios e suas peculiaridades. As Séries C e D são como areias movediças, quando se cai nelas é difÃcil sair. Eis a razão pela qual, o clube que possui uma das torcidas mais apaixonadas do futebol brasileiro, tem um histórico de 14 anos patinando neste indesejado lamaçal.
A queda de produtividade na reta final da fase de classificação foi um sinal de alerta de que o acesso seria dificÃlimo. E haja dificuldade. Decisão nos pênaltis com o Sergipe no mata, mata da segunda fase; nova decisão nos pênaltis com o Altos, do PiauÃ, nas oitavas de final e a heroica vitória (1x0) sobre o América/RN, com um gol nos minutos finais da primeira partida do mata, mata das quartas de final. A vantagem do empate no jogo em Natal assegurou o acesso do Santa Cruz.
O espocar dos fogos foi ouvido nos morros de Casa Amarela e em Boa Viagem, como em quase todas as cidades da Região Metropolitana do Recife, e do Interior do Estado. Estamos falando do inÃcio da ressureição de um dos clubes mais populares do PaÃs.
O desafio do presidente Bruno Rodrigues, novo herói do Arruda, e dos novos gestores, é entender as mudanças. Para se ter sucesso na Série C é fundamental montar um grupo com qualidade de Série B. Como nos ensinou o mestre Paulo Jardel: "Nada substitui o talento".
O Santa Cruz disputará a semifinal com o Maranhão. Após a garantia do acesso, o que vier é lucro, mas um tÃtulo é sempre bom para massagear o ego do torcedor.
E viva o primeiro passo!
CLAUDEMIR GOMES
Salve o Bahia! Cinco vezes campeão da Copa do Nordeste.
Apesar da festa promovida pelos torcedores do Tricolor Baiano, nas arquibancadas da Arena Fonte Nova, neste sábado, o contexto transformou a decisão da edição 2025 da Copa do Nordeste, envolvendo as equipes do Bahia, e do Confiança, na final mais bizarra da competição regional.
A distância técnica que separa os dois times é abissal. De um lado o Bahia, que descreve campanha brilhante no Brasileiro da Série A (Primeira Divisão), ocupando, no momento, a quarta posição na tabela de classificação. Do outro lado, o Confiança de Sergipe, que encerrou sua participação no Brasileiro da Série C (Terceira Divisão), na nona posição, na classificação geral.
Primeiro é primeiro, terceiro é terceiro em qualquer lugar do mundo. Está explicado o placar agregado de 9x1: Confiança 1x4 Bahia (Arena Batistão, em Aracaju) e Bahia 5x0 Confiança (Arena Fonte Nova, em Salvador).
Nas ruas da Capital Baiana, ninguém riu, ninguém brincou, e olha que havia nove motivos para um grande carnaval. A emoção é um dos maiores componentes das decisões. A expectativa é de que, numa final as forças se equiparam, os times que irão se confrontar são parelhos. Afinal, superaram todos os obstáculos para chegarem ao momento maior, que normalmente é emoldurado por grandes emoções.
O Bahia "amassou" o Confiança no primeiro confronto - 4x1 - construindo uma vantagem que levou sua torcida a encomendar as faixas de campeão sem medo de surpresas. As limitações e fragilidade do Confiança deixaram o banquete dos baianos insosso. O acarajé do campeão estava sem sal, e sem azeite de dendê.
A Copa do Nordeste é uma das competições regionais que ganhou força no futebol brasileiro, mas vem sendo dragada pelo calendário nacional, que há muito tempo carece de uma reformulação. Mudança que foi prometida, e está em estudo pela CBF. Imprensada pelo Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil, Copa Libertadores e Copa Sul-americana, a disputa nordestina sofreu paralizações de mais de dois meses, fato que a relega a um segundo plano de forma natural.
A internacionalização do futebol é um fenômeno que vem de cima para baixo. As competições estaduais e regionais, que já ocuparam espaço, e tinham realce no calendário, estão se diluindo como as ondas do mar na praia.
Final sem emoção não condiz com a alegria que o futebol irradia.
E os tambores da Olodum silenciaram.
CLAUDEMIR GOMES
As atenções estavam voltadas para o jogo do Brasil com o Chile, válido pelas Eliminatórias Sul-americanas para o Mundial de 2026. Entretanto, após ver a postagem do mestre, Roberto Vieira - O adeus do gênio - optei por assistir ao confronto da Argentina com a Venezuela. Afinal, se tratava da primeira despedida, dentre muitas que estão por vir, de um dos deuses do futebol, que por tudo que fez, será eterno. Assim é Messi.
O torcedor argentino abraçou o momento. O Estádio Monumental de Núñez transbordou de calor humano, ternura, afeto e gratidão. E o homenageado da noite não se fez de rogado. Com um esforço sobre humano para domar a emoção perceptÃvel em seus olhos marejados, foi fiel ao script da festa fazendo, ao seu jeito, um "recital", que deixou súditos e admiradores com saudades do gênio que começa a dar adeus.
Enquanto assistia ao jogo liberei as asas do meu pensamento. Falei cá com meus botões: o futebol - clubes e entidades - ficou a dever muitas despedidas.
Sonhei com uma festa de despedida para os meus primeiros Ãdolos - Humberto e Mário de Pirulito - referências maiores do Santa Cruz de Carpina nos anos 60 e 70 do século passado. Quando o mundo não era interligado, era analógico e em preto e branco, o colorido do futebol era pincelado pelos "craques" de cada cidade. Basta perguntar ao poeta Xico Bizerra, que ele irá lembrar de Chico Curto, o maior goleador que o Interior Cearense já viu. O comunicador Waldir Bezerra jura, com os pés juntos, que "Chico Curto era melhor que Zico".
Passei a selecionar qual dos jogadores, que vi como torcedor, e acompanhei como jornalista, que merecia uma despedida. A lista não tem ponto final. Comecei a lembrar do encantamento provocado pelas imagens do Canal 100 nas salas de cinema por este Brasil afora. Eu ficava boquiaberto com aquele balé em preto e branco. Imagens rápidas e sedutoras como o arco Ãris.
As lembranças são para sempre. Mas a despedida é a forma de materializar a gratidão. Tará, Traçaia, Detinho, Lula Monstrinho, Ivanildo Espingardinha, Manoelzinho, Lula, Caiçara, Gena, Alemão, Manga, PaÃs, Baixa, Mazinho, Luciano Velozo, Givanildo, Bita, Nado, Vasconcelos, Beliato, Marlon, Zé do Carmo, Henágio, Ricardo Rocha, PaÃs, Edson Ratinho, Nunes, Joãozinho, Betão, Ribamar, Ailton, Durval, Magrão, Kuki, Leonardo...
O jogo acabou! Messi marcou dois gols. Um toque sutil, produto de sua genialidade, abriu o placar que poderia ter sido fechado com outra obra de arte não fosse mÃseros centÃmetros que lhes deixaram em impedimento. A jogada foi tão espetacular que se o árbitro auxiliar tivesse fechado os olhos ninguém iria reclamar. Afinal, estávamos vivenciando o inÃcio da finitude de uma das carreiras mais fantásticas do mundo da bola.
As lembranças têm prazo de validade sim. Elas se vão junto com as gerações que testemunharam os fatos. O primeiro jogo de futebol que assiste no Recife foi no inÃcio da década de 60, na Ilha do Retiro, um Sport x Santos. Meu pai - Jaime Gomes - me levou para ver o Rei Pelé. Como era especial ver os jogos dos Náutico na Copa do Brasil. Desfile de craques do Santos, Palmeiras, Botafogo, Cruzeiro...
O mundo está plano e interligado. Assistimos, em tempo real, jogos de todos os continentes. Nos campos por esse mundo afora brotam craques todas os dias. Mas é como você se sentar debaixo de um pé de manga e começar a chupar as frutas. Todas são doces, mas cada uma tem seu sabor próprio.
Messi é único, assim como foram Pelé, Maradona, Zico, Tostão, Garrinha, Ronaldo, Rivaldo, Zidane, Dirceu Lopes, Ronaldinho Gaúcho, Rivelino, Falcão, Ademir da Guia, Humberto, Pelado, Mario de Pirulito, Chico Curto, LuÃs Doidinho...