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Maio 2012 ›› CLAUDEMIR GOMES
Quando o mestre, José Joaquim Pinto de Azevedo, na segunda quinzena do mês de dezembro, paralisou o seu blog alegando que precisava avaliar o trabalho que realizava há dez anos, pensamos cá com nossos botões: ele está nos preparando para o adeus.
Sabemos que nada dura para sempre, que tudo tem começo, meio e fim. Mas existem coisas que nos são subtraÃdas dentro do prazo de validade. à como se fosse uma imposição indecorosa da vida. Foi assim que nos sentimos ontem, quando vimos a postagem no blog de Zé nos informando que o trem havia chegado a última estação.
Ao observar os derradeiros movimentos, subi no último vagão, sentei na poltrona vazia próxima a janela, e mergulhei em devaneios.
José Joaquim partiu da estação zero em 2010. Com estilo próprio, foi descrevendo o cenário, quase sempre sombrio, do futebol brasileiro. Foram léguas e léguas de conversa. Aproveitávamos as prosas para somar conhecimentos. As conversas com o mestre sempre agregam muito. Não é por acaso que, quase que diariamente eu faço uma ligação telefônica para ele e passamos um bom tempo papeando.
"Qual o borderau?". Me pergunta ele quando atende o telefone.
Hoje eu lhe respondo: ficamos órfãos de uma boa leitura mestre.
Quando adolescente, morando em Carpina, sempre adormecia ouvindo um radinho de pilha sintonizado na Rádio Difusora de Limoeiro. O programa era Trenzinho do Bastião, cuja música de fundo era Maria Filó, do saudoso, Luiz Vieira. Dava asas a liberdade ao ouvir o refrão:
"Lá vai o danado do trem
Levando Maria Filó
Nem sequer dá um apito
Pra eu que fiquei tão só...".
Ontem, quando José Joaquim escreveu que o trem havia chegado a última estação, percebi que essa parada era mais dolorosa que a falta de apito na saÃda do comboio.
Abaixo, a mensagem de despedida do blog de jj:
"Enfim uma decisão sobre a vida de um blog que se tornou uma referência em nosso Estado e com penetração no PaÃs.
Para uma boa reflexão paralisamos as postagens no dia 16 de dezembro passado, e depois de um pouco mais de um mês chegamos a conclusão que estávamos no fim da linha, na última estação.
Apesar dos milhares de acessos durante os seus dez anos, e todos de pessoas de bom nÃvel que expressavam os seus pensamentos com os ótimos comentários, chegamos ao limite máximo de absorção e a uma conclusão, a de que não existe salvação para o futebol brasileiro por conta da manutenção de um sistema da era do rádio, quando não entenderam que o mundo se tornou globalizado.
Os finados estaduais mostram de forma clara essa realidade. A cartolagem a cada foi sendo deteriorada e isso está levando o esporte ao caos. Na imprensa os pensadores são poucos, e uma boa parte está atrelada aos veÃculos de comunicação que determinam os rumos a serem tomados. Os bons colunistas desapareceram. Vamos postar o primeiro artigo do blog publicado no dia 10 de julho de 2010, que comprova uma estagnação do esporte da chuteira após 10 anos.
Aos nossos visitantes, o muito obrigado pelas suas presenças diárias". (JOSà JOAQUIM PINTO DE AZEVEDO).
CLAUDEMIR GOMES
Os clássicos são os melhores pratos servidos no banquete do Campeonato Pernambucano, mas é preciso que os ingredientes sejam de qualidade, coisa que não aconteceu neste domingo, nos Aflitos, numa prova inconteste de que a Federação Pernambucana de Futebol se equivocou redondamente ao programar tal confronto para a rodada de abertura do Estadual. O resultado de 1x1, com dois gols contra, e erros crassos de arbitragem, são sintomas de que o modelo da disputa deve ser revisto.
Não sigo o raciocÃnio daqueles que criaram a expectativa de que o Náutico tinha vantagens que lhes levariam a ser superior ao adversário. Os amistosos disputados pelos alvirrubros, no perÃodo de preparação, nos revelaram outra realidade.
Sabemos que, quando os dois técnicos puderem contar com todos os profissionais dos respectivos elencos, tanto o Sport, quanto o Náutico, estarão em campo com formações bem diferentes das que utilizaram neste clássico do açodamento. A sensação que ficou foi de que foram usados ingredientes sem qualidade para fazer o bolo ao qual faltou cereja.
Os gols da partida foram produtos da fatalidade. Gols contra! Pura falta de sorte, nada mais que isso.
Ah, eu já sabia!
Esta frase sempre ecoa nos estádios quando os times referendam créditos com vitórias. Alvirrubros e rubro-negros que ficaram em casa devem estar repetindo o "eu já sabia". Pouco mais de 7 mil torcedores marcaram presença nos Aflitos para assistirem o clássico, sendo este mais um detalhe que atesta o fracasso do modelo em uso. O jogo do Santa Cruz com o Petrolina levou mais de 11 mil torcedores ao Arruda. O clássico foi avaliado pelos torcedores como produto de segunda qualidade.
O jogo foi muito ruim tecnicamente. Isto é fato. Portanto, é inaceitável o técnico do Náutico, Gilmar Dal Pozzo, afirmar na coletiva que o "jogo foi de alto nÃvel". à chamar todos os que estavam presentes ao estádio de burros, inclusive os analistas. Vale salientar que o seu time atuou 35 minutos com um homem a mais, mesmo assim não conseguiu construir uma vitória.
Pelo lado do Sport as reclamações foram em relação aos erros de arbitragem cometidos pelo inexperiente Michelangelo Almeida Júnior. Deixou de marcar um pênalti a favor do time leonino. Em relação ao gol anulado do Sport, o erro deve ser atribuÃdo ao seu assistente. Michelangelo tem qualidades, isto é indiscutÃvel, mas ainda não tem embocadura para tocar o instrumento que lhe colocaram nas mãos, hoje nos Aflitos.
Parodiando nossa ex-presidenta, podemos dizer que, "ninguém ganhou, ninguém perdeu. Todos perderam". Sim, todos perderam porque está mais que provado que se programar um clássico para a primeira rodada do campeonato é uma imprudência que transforma o espetáculo em grotesco.
CLAUDEMIR GOMES
Desde cedo, ainda no curso primário, aprendemos as diferenças entre os movimentos de rotação e translação. Uma coisa simples, básica, mas que nos dar a noção precisa sobre avanço e evolução. A rotação imprime uma dinâmica, uma velocidade, mas sem a translação não se sai do lugar. O movimento é fixo, repetitivo, sem evolução.
As notÃcias que marcam este inÃcio de ano no futebol pernambucano, nos deixam com a sensação de que vivemos num perfeito movimento de rotação.
Numa surfada pela internet, me deparo com uma matéria sobre as taxas excessivas que são cobradas pela Federação Pernambucana de Futebol. Foi inevitável voltar aos anos 70 do século passado, quando iniciei como repórter, na equipe de esportes do DIÃRIO DE PERNAMBUCO, e o mestre Adonias de Moura me escalou para fazer uma matéria com João Caixero de Vasconcelos.
A época, Caixero vivia numa "briga" permanente com o então presidente da FPF, Rubem Moreira, por conta das taxas cobradas pela entidade. O mote da discussão era que "os clubes que promoviam os espetáculos estavam cada dia mais endividados, enquanto a entidade vivia com as burras cheias de dinheiro".
O tempo passou, não houve mudanças neste sentido, mas a rotação aumentou: na época de Rubem Moreira a taxa cobrada era de 2%; Carlos Alberto Oliveira subiu para 5% e hoje é de 8% sobre a arrecadação bruta dos jogos. O número de taxas fixadas pela FPF é assustador. Nos dias de hoje, na entidade da Rua Dom Bosco se paga até para respirar.
Como mantenho o hábito de ler jornal impresso, me deparo com a manchete de que na primeira rodada do Pernambucano 2020 teremos o clássico Náutico x Sport. Uma reedição do que tivemos há 24 anos e não deu certo. à o movimento de rotação, onde nada se cria, tudo se repete. Num campeonato onde nada de novo acontece, o tÃtulo sempre fica nas mãos de um dos clubes da Capital - Náutco, Sport ou Santa Cruz - você serve um dos pratos principais antes da entrada. Corre o risco de tirar o apetite de uma das torcidas.
Ligo o radio e observo o esforço dos apresentadores das resenhas esportivas, e dos repórteres que cobrem os clubes em "vender" o repatriamento de jogadores que já estão descendo a ladeira como grandes investimentos. Isso é uma prática por demais antiga. Antes, quando a mÃdia era mais crÃtica, se dizia que os clubes estavam investindo em "bondes velhos". Alguns deram respostas positivas como Mazinho, Edson Ratinho, Dario Peito de Aço... Outros não corresponderam as expectativas, e um grande número vieo apenas fazer turismo na Capital Pernambucana. Mas a receita segue a mesma.
O cenário de cinquenta anos atrás apontava o mesmo direcionamento que observamos no cenário atual: nossos clubes seguem com o perfil de formadores, mas revelam muito pouco. Há exemplos incontestáveis na história dos nossos clubes, de que, quando investiram acertadamente na prata da casa, e em jogadores da região, formaram elencos fortes e vencedores. Foram épocas marcantes para tricolores, rubro-negros e alvirrubros, que se foram com o tempo.
Pra dizer que não falei das flores, o trabalho da imprensa esportiva pouco ou quase nada mudou. O movimento é de rotação. As resenhas mantém o clichê de 50 anos, com menos criatividade e credibilidade porque o nÃvel do material humano não se pode comparar. Antes existia um timaço de feras. Hoje temos poucos profissionais qualificados e um time de garotos servindo de porta-voz para os clubes. Quem pauta os noticiários são as assessorias de imprensa que enviam as mesmas gravações para as emissoras.
Ufa! Analisar movimento de rotação até nós ficamos chatos e intolerantes.
CLAUDEMIR GOMES
A mÃdia e os torcedores estão em contagem regressiva para ver a bola rolar nos estádios brasileiros. A temporada começa com os famigerados Estaduais e competições regionais. Depois, vai esquentando com a Copa do Brasil, as disputas internacionais e o Brasileiro. No momento, ninguém suporta mais o lenga-lenga das contratações e transferências de jogadores. Com as redes sociais as especulações se agigantaram por conta da proliferação de fake news. O recesso passou a ser marcado por um estica e puxa muito improdutivo.
No inÃcio da semana encontrei o amigo, Francisco Medeiros, torcedor e amante fiel do Sport Club do Recife. Chico é um sujeito tranquilão. Em julho estará completando 80 anos, e um de seus prazeres a esta altura da vida é ir a Ilha do Retiro ver o Leão jogar. Sócio do clube há várias décadas, dono de cadeira cativa, conhece todos os rubro-negros que lhes cercam, naquele determinado espaço do estádio, em dias de jogos.
Pois bem! Como todo cidadão que tem o privilégio de alcançar a marca dos 80 anos de vida, Francisco Medeiros começa a lidar com problemas de mobilidade, e fica inseguro diante de alguns obstáculos. Quem frequenta o estádio da Ilha do Retiro sabe que os degraus são exageradamente altos. Para os jovens atletas frequentadores de academias, vencer tais obstáculos é um exercÃcio salutar. Contudo, para quem já chegou a casa dos 70 anos, o desafio é grande. Encarar tal exercÃcio no topo dos seus 80 anos, somente com muito amor ao time do coração.
Mas Chico resiste. Não quer se transformar num torcedor de poltrona. Sua vontade é seguir indo a Ilha do Retiro, encontrar os amigos e ver o seu Sport jogar. Quando tem a oportunidade de ir ao estádio acompanhado do filho e do neto, o céu pode esperar porque sua felicidade está completa.
Francisco Medeiros me revelou que já falou com algumas pessoas ligadas a diretoria de patrimônio do Sport reivindicando uma coisa simples: a colocação de um corrimão nos corredores com degraus que dão acesso as cadeiras cativas. Coisa simples, que não será onerosa ao clube. Não existe a exigência de um equipamento de aço escovado, basta ser de cano de ferro, pintado com as cores rubro-negras. Uma solução simples, que vai atender a geração de Chico Medeiros e a outras que se aproximam da idade tão avançada, mas que segue amando e sendo fiel ao Sport.
à do conhecimento de todos que a diretoria de patrimônio do Sport esta fazendo algumas intervenções no estádio. Quando colocada a situação de Chico a alguns amigos próximos aos atuais gestores, o assunto foi visto com certo desdém, e logo veio a justificativa de que o clube não tinha dinheiro para executar obras. Ora, a colocação de um corrimão é uma imposição do Estatuto do Idoso, e qualquer um pode entrar com uma ação no Ministério Público exigindo tal providência para lhe assegurar o direito de ir e vir.
Corrimão é obrigatório em qualquer escadaria, principalmente uma Ãngreme como as existentes na Ilha do Retiro. Aliás, este equipamento já deveria vir sendo exigido pelo Corpo de Bombeiro, pela Federação e outras entidades responsáveis pelas vistorias nos estádios.
CLAUDEMIR GOMES
Hoje é dia dos Reis Magos!
Para os capinenses da minha geração, o 6 de janeiro é uma das datas mais importantes do calendário. à que na minha cidade natal o ano começava após a Festa de Reis. O fechamento do ciclo natalino era marcado com uma grande festa popular, a de maior reverberação em toda a região. Transformei o que seria um simples marco, num dogma. Portanto, o ano novo para mim só começa depois da louvação aos Reis Magos.
Atento aos noticiários do rádio, jornal e televisão, observo que tudo se movimenta respeitando o compasso de espera, num movimento de translação quase que imperceptÃvel. O tempo é mágico! O espaço é sempre o mesmo: 365 dias. A diferença está na alternância do dinamismo. A partir de amanhã o ano de 2020 ganha uma nova dinâmica. Tem quem defenda a tese de que, aqui no Brasil as coisas só começam a andar depois do carnaval. Discordo de tal princÃpio.
Este ano estaremos comemorando os 80 anos de nascimento do Rei Pelé, o melhor jogador de todos os tempos sem espaço para comparações. O ano também será marcado por brindes ao cinquentenário do Tri Campeonato Mundial, conquistado no México. Os saudosistas de plantão vão se perder nas comparações traçando paralelos entre o que ocorreu em décadas passadas e o que estamos testemunhando dentro da nova ordem mundial.
Não podemos esquecer que, há 25 anos o mundo foi colocado em nossas mãos através do Windows 95. A internet passou a ser usada como um utensÃlio doméstico quebrando barreiras e mudando paradigmas. Nas últimas décadas as mudanças de costumes e comportamentos foram radicais. A quantidade de informações que as crianças e os jovens de hoje recebem é impressionante.
O mais sensato é evitar comparações.
O futebol nunca deixou de ser um grande espetáculo para mim. Me embriaguei com o futebol de Pelé, Gerson, Tostão, Carlos Alberto, Rivelino, Jairzinho... na conquista do Tri. Me deliciei com a geração de Zico, Pintinho, Geraldo, AdÃlio, Renato Gaúcho, Eder, Leão, Sócrates...; voltei a liberar o grito de "é campeão", com Romário, Bebeto RaÃ, Ricardo Rocha. Me encantei com o virtuosismo de craques como Rivaldo, Ronaldo, Kaká, Ronaldinho Gaúcho... Como é prazeroso ver o desfile de craques estrangeiros como Messi, Cristiano Ronaldo, assistir a jogos do Barcelona, do Liverpool.
A vida não pára, e os espetáculos dentro das quatro linhas continuam fascinando milhões de pessoas. Nos dias de hoje temos a oportunidade de assistir aos jogos da Copa da Espanha; Copa da Inglaterra; Premier League; Liga dos Campeões da Europa... Tudo, graças a Internet.
Do lado de cá do Atlântico, a bola só volta a rolar em meados do mês de janeiro. à como se estivéssemos esperando a Festa de Reis passar.
Os carpinenses sabem bem o que é este compasso de espera.