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Maio 2012 ›› CLAUDEMIR GOMES
No Dia do Frevo, o Sport "dançou" no estádio Luiz Lacerda, em Caruaru, diante do modesto Decisão, e amargou um empate sem gols. O time comandado por Guto Ferreira, segue fora de compasso, razão pela qual ainda não acertou o passo. Em cindo apresentações numa competição de baixÃssimo nÃvel técnico, como é o Pernambucano, o Leão empatou quatro vezes. Se somar os três jogos da Copa do Nordeste, se chega a seis empates e duas vitórias num total de oito partidas.
Mesmo com toda a contemporização dos dirigentes e comissão técnica, que se escudam em dois argumentos - inÃcio de temporada e excesso de jogos - até mesmo o mais alienado dos rubro-negros, aquele que considera seu clube a própria tradução do superlativo, consegue enxergar que esse trem está sendo empurrado para fora dos trilhos.
O Decisão, que em quatro jogos sofreu 8 gols e tem um saldo negativo de 7, conseguiu, dentro de suas limitações, fazer uma apresentação soberba. No primeiro tempo, o time interiorano criou três oportunidades reais de gol, onde foram observadas repetições de falhas de posicionamento coletivo do setor defensivo do Sport. Na segunda fase, o atual campeão pernambucano, que este ano volta a disputar a Primeira Divisão do Brasileiro, ajustou a marcação, mas seguiu sem objetividade, fato que justifica o placar em branco.
O que observamos no Pernambucano não difere muito do que acontece no resto do Brasil, ou seja, nos demais campeonatos estaduais. Na realidade tais competições deixaram de ser laboratórios, sendo preteridas pelos grandes clubes que passaram a priorizar outras disputas, colocando sempre equipes alternativas nos famigerados campeonatos domésticos.
Vamos nos limitar a analisar as nossas coisas, ou seja, nosso cenário.
No sábado tivemos Náutico jogando em João Pessoa, com o Botafogo, e amargando uma derrota por 2x1. O time anfitrião foi incompetente por ter terminado o jogo com dois jogadores a mais e não soube ampliar o placar. Em Fortaleza, o Santa Cruz foi derrotado pelo Fortaleza por 3x0. Ambos os jogos foram válidos pela Copa do Nordeste.
Sinais dos tempos!
Em épocas passadas tais resultados eram quase que inconcebÃveis. Mas tudo muda. O futebol de outros Estados nordestinos cresceu enquanto o futebol pernambucano se apequenou. Sei que não é fácil amargar tal realidade, até porque grande parte da imprensa esportiva se perde no ufanismo. Muitas vezes a imagem que a televisão nos brinda vai de encontro ao que o comentarista e o narrador falam.
Enganam-se os que pensam que o torcedor não enxerga. Não adianta vender abobrinha quando no tabuleiro só existe pepino.
Vontade, determinação, aplicação, atitude, não são virtudes inerentes aos profissionais técnicos e virtuosos. Em inÃcio de temporada não se pode cobrar harmonia de conjunto. Mas também não se pode admitir que o conjunto seja anulado pelo vÃrus da inércia.
CLAUDEMIR GOMES
O apresentador, Adherval Barros, encerrou a edição desta terça-feira do programa, JOGO ABERTO PERNAMBUCO, na TV Tribuna, fazendo um apelo para que o "torcedor de bem deixe de ir aos estádios pernambucanos". Foi mais além pedindo que todos, independente de bandeira, abraçasse essa campanha que tem por finalidade externar a indignação da sociedade pernambucana.
Adherval é um profissional que está na estrada há 40 anos. Viu nascer as organizadas do bem - Santamante, Treme Terra... - assim como testemunhou a mudança de cenário, quando a turma que só levava alegria aos estádios foi substituÃdas por facções criminosas que encontraram no futebol um canal livre para disseminar a violência a aterrorizar as cidades.
Sempre ouvi dizer que, "um câncer quando extirpado no inÃcio é possÃvel salvar o paciente". No caso especÃfico do futebol pernambucano, o câncer da violência se transformou em metástase. Saiu dos estádios, ganhou as ruas do Recife, ultrapassou as fronteiras da Capital Pernambucana e chegou ao Interior. Tal qual uma epidemia avassaladora, para a qual ainda não se encontrou um antÃdoto, a população é atacada independentemente se é dia de jogo ou não. A resultante não é outra coisa senão uma sociedade refém do medo.
O que aconteceu na noite da segunda-feira, no Pátio de Santa Cruz, quando um grupo de tricolores se confraternizavam para comemorar os 106 anos de fundação do Clube do povo, e foi covardemente atacado por integrantes da facção criminosa, Torcida Jovem do Sport, foi aterrorizante.
Assim como, aterrorizante foram as declarações do presidente da Federação Pernambucana de Futebol, Evandro Carvalho, que desejou que a PolÃcia Militar tivesse atirado nos vândalos, transformando o histórico pátio num campo de extermÃnio. Com certeza este não é o caminho para corrigir os erros cometidos pelos dirigentes dos clubes que dão guarida as facções criminosas; aos deputados que as apóiam; aos jogadores que fazem louvações a esses bandidos; aos torcedores que engrossam seus cordões; a inércia da Justiça e da PolÃcia Militar que tornam esses "intocáveis".
à doloroso ver a PolÃcia Militar escoltando as facções criminosas no ir e vir dos estádios. Não menos doloroso é assistir os doutores da lei definirem jogos com uma só torcida por conta das Organizadas do Crime.
Os fatos que testemunhamos nesta segunda-feira sem lei representam apenas mais um parágrafo de uma história que vem sendo escrita há décadas. História sangrenta, com episódios de barbárie, mortes e mutilações. Cenas que passaram a fazer parte do cotidiano do futebol pernambucano.
Não foram poucos os gritos de alerta dados pelo mestre, José Joaquim Pinto de Azevedo, que durante dez anos manteve um blog que prestou grande serviço ao futebol pernambucano. No mÃnimo, nos dava a oportunidade de degustar uma boa leitura. Azevedo estava revoltado com os fatos ocorridos na segunda-feira.
As Organizadas do Crime que tomaram conta do futebol pernambucano, com a conivência de polÃticos, dirigentes e jogadores, transformaram o Recife numa panela de pressão, deixando a sociedade num alerta permanente.
Amigo Adherval!
Comungo com sua indignação. Não existe protesto mais efetivo e legitimo contra essa violência do que deixar de frequentar os estádios pernambucanos.
Somente assim não seremos testemunhas da vitória do crime organizado.CLAUDEMIR GOMES
O mestre de bateria, Miro do Samba, é uma dessas figuras populares em extinção no Recife. Luta contra o peso dos anos para se manter fiel aos seus três amores: a famÃlia, Nossa Senhora da Conceição (ele nasceu no dia 8 de dezembro, razão pela qual a chama de madrinha) e o Santa Cruz. O homem simples que mora em uma das favelas de Santo Amaro, mesmo desdentado, faz questão de abrir um largo sorriso no dia 3 de fevereiro, quando se comemora o aniversário de fundação de um dos mais populares clubes de futebol do Brasil: o SANTA CRUZ FUTEBOL CLUBE.
A história de paixão e devoção de Miro do Samba se confunde com a de milhões de tricolores, que assim como ele, vivem em bairros pobres, periféricos, com poucas oportunidades de emprego, e inúmeros desafios de sobrevivência. Mas que se realizam através da proeza do seu clube do coração. Assim vive a poeira (apelido dado a torcida do Tricolor do Arruda numa época em que a maioria das ruas dos bairros periféricos do Recife não eram calçadas, nem afastadas, e quando os torcedores comemoravam as vitórias do Clube do Povo levantava poeira).
No inÃcio da década de 90, do século passado, João Caixero de Vasconcelos Neto, me convidou para escrever um livro sobre os 80 anos do Santa Cruz. A época, o projeto também contava com os jornalistas, Hélio Pinto e Lenivaldo Aragão. A obra levou 20 anos para ser concluÃda. Não foram poucos os jornalistas que deram uma contribuição efetiva participando desse "mutirão". No final, a história do "SANTA CRUZ DE CORPO E ALMA", até o centenário, foi concluÃda por mim (Claudemir Gomes), Lenivaldo Aragão, José Neves Cabral, Humberto Araújo e Deusdeth.
O tempo de espera para ver a obra concluÃda (20 anos), me levou a conhecer um pouco da alma deste clube, cujo maior patrimônio não é a sede social; nem o Estádio José do Rego Maciel, tampouco o Centro de Formação de Jogadores que está sendo construÃdo em Aldeia. O maior patrimônio do Santinha é a alma do tricolor, imortalizada na música de Sebastião Rosendo.
O amigo Joca (João Caixero de Vasconcelos Neto), quando pegou o seu rico acervo de documentos e fotografias, distribuÃdo em três malas e alguns sacos de plástico, teve a sensibilidade de observar que, todo aquele material mostrava apenas a história do corpo do clube, edificado em pedra e cal. O desafio era mostrar a alma dos homens, o estopim dessa paixão indescritÃvel.
Certa vez, desci as escadas do Diário de Pernambuco, quando a sede era na Praça da Independência, e encontrei Miro do Samba. Já era noite, e minha pauta de reportagem indicava uma cobertura no Palácio das Princesas (Sede do Governo), onde lá estariam o senador, Marco Maciel e outras autoridades e desportistas. No caminho do Diário até o Palácio, Miro foi falando do Santa Cruz. Lá dentro, quando terminou a reunião e me dirigi ao senador para lhe fazer uma pergunta, ele se antecipou: "Como está o Santa Cruz?".
Hoje eu entendo que a alma do torcedor do Santa Cruz independe de classe social. Há 106 anos o Tricolor pertence a poeira e as elites. Enfim, é um clube onde cabe todos os nomes.
CLAUDEMIR GOMES
O Náutico goleou o Decisão (4x0), ontem a noite, nos Aflitos, e assumiu a liderança do Campeonato Pernambucano. Enquanto os torcedores alvirrubros comemoravam o feito de Kieza e seus companheiros, os dirigentes coçavam a cabeça ao observarem que na bilheteria havia ficado uma arrecadação de R$ 40.308,00. PrejuÃzo certo.
Nas resenhas das rádios, o presidente do Sport, Milton Bivar, observa que, nas duas partidas que o clube rubro-negro disputou na Arena Pernambuco acumulou um prejuÃzo de R$ 80 mil. Conclusão: os clubes estão pagando para jogar no Estadual. A realização de um Retrofit no futebol regional é uma questão de sobrevivência para os clubes.
Retrofit é um termo muito usado em engenharia, e que tem sido adotado por alguns polÃticos, para designar o processo de modernização de algum equipamento considerado ultrapassado.
Nos últimos 25 anos, quando a internet passou a ser de domÃnio público, o mundo ficou basicamente sem fronteiras. A sociedade mudou. A nova ordem tem suas imposições, e quem não acompanhar o processo de evolução fica a margem do crescimento. Isto ocorre com o futebol brasileiro que deitou em berço esplêndido com a conquista de cinco tÃtulos mundiais, e hoje fica vendo a banda passar sem conseguir acertar o passo, estando cada vez mais fora do compasso.
Há muito que o futebol passou a ser tratado como um dos melhores negócios do planeta, na atualidade. Os investimentos em grandes competições, e grandes clubes, se multiplicam a cada dia. Mas para isso é necessário manter a boa qualidade do produto, caso contrário o mesmo não será atrativo para o consumo do público alvo.
Dentro do contexto está claro que a renda dos jogos representa apenas uma fonte de receita.
A Pluri Consultoria, empresa que está sempre realizando estudos sobre o atual cenário do futebol brasileiro, analisou, recentemente, dez campeonatos estaduais que são bancados pela Rede Globo. De saÃda observamos distorções alarmantes. A emissora investe R$ 176 milhões no Campeonato Paulista; R$ 112,1 no Campeonato Carioca; R$41,6 no Mineiro e, pasmem, R$ 4 milhões no Pernambucano. As cotas destinadas ao Cearense e ao Baiano ainda são mais tÃmidas.
O desequilÃbrio financeiro impacta na capacidade de investimento. Vejamos: o Campeonato Pernambucano tem seus direitos de transmissão vendidos por R$ 4 milhões. Deste montante, Náutico, Sport e Santa Cruz recebem R$ 1 milhão, cada um. O outro milhão restante é dividido com os outros clubes que este ano vão receber R$ 140 mil. Nesta proporção a distância entre os Grandes da Capital e os Nanicos do Interior só tende a aumentar. Com tamanho desequilÃbrio a competição doméstica deixou de ser parâmetro para medir a capacidade dos elencos dos clubes que irão disputar o Brasileiro.
A nÃvel nacional o cenário se torna mais sombrio. Os clubes considerados, médios e pequenos de São Paulo recebem cotas superiores a do Pernambucano. Ituano, Mirassol, Guarani, Ponte Preta, Inter de Limeira, Ferroviária de Araraquara... receberam, cada um, R$ 6 milhões para disputar o Paulista 2020. Em Minas, o América Mineiro recebeu uma cota no valor de todo o Pernambucano: R$ 4 milhões.
Sem recursos fica difÃcil investir em qualidade. Sem qualidade o espetáculo não atrai um bom público. E assim se forma a Caravana da Miséria, como bem define o mestre, José Joaquim Pinto de Azevedo.
Se não for feito um Retrofit no futebol brasileiro os clubes do Norte/Nordeste vão morrer de inanição.
CLAUDEMIR GOMES
O frevo já tomou conta das ladeiras de Olinda, do Marco Zero do Recife e de Boa Viagem. As prévias atestam que o carnaval em Pernambuco se agigantou e hoje dura mais de um mês. Tudo começou com o Sábado de Zé Pereira e mais três dias. A quarta-feira de cinzas era o ponto final. Depois inventaram a semana pré, que se foi no tempo junto com as lanças perfume, os confetes e as serpentinas. Agora, quem dita a ordem são os blocos. Como são muitos, e a cada ano proliferam mais em todas as esquinas, o calendário da folia esticou.
E o futebol fica no compasso de espera.
A bola já rola no Campeonato Pernambucano e na Copa do Nordeste. Mas o ritmo é de marcha lenta. Nada de frevo de rua. Imagine você, caro leitor, que na primeira rodada da Copa do Nordeste, em 8 jogos foram marcados apenas 5 gols. Tivemos 5 empates e 3 vitórias na rodada de abertura. No Estadual, em 10 jogos foram anotados 23 gols. Destaque para o lÃder Afogados que marcou 6, o que lhe leva a ostentar a fabulosa média de 3 gols por jogo.
No frevo, o compasso de espera é marcado por três instrumentos: surdo, pandeiro e tarol, ou caixa. à a turma da percussão. Depois é que entram os metais. Aà o negócio pega fogo. Quem não aguenta o rojão cai fora. A muganga e o faz de conta só tem vez no compasso de espera.
Os principais clubes ainda não acionaram seus melhores "passistas". Eis a razão pela qual a qualidade do futebol apresentado no Estadual e na Copa do Nordeste não tem sido do agrada dos torcedores mais exigentes. Esforço não falta, aos que estão sendo escalados, mas talento é um privilégio de poucos. São muitos os fatores que levam os clubes a adotarem estratégias que refletem na qualidade do espetáculo.
O calendário do futebol brasileiro é cruel. Vejam, por exemplo, o Sport: inÃcio de temporada e o clube já se viu forçado a disputar 4 jogos no curto espaço de dez dias. Um absurdo. A terceira rodada do Pernambucano começa a ser disputada nesta terça-feira e somente será concluÃda no próximo domingo. Ah! No final de semana também vamos ter jogos válidos pela competição regional.
Detalhe: na próxima semana começa a disputada da Copa do Brasil 2020. O Santa Cruz estréia dia 5 de fevereiro, com o Operário/VG, na Arena Pantanal. Como diria o mestre Capiba: "Quero ver queimar carvão, quero ver carvão queimar...".
Não há mistério. Tudo é muito simples. Os times ainda não estão prontos para exibirem um bom futebol, para impor uma dinâmica que impulsione o jogo, já que os jogadores não estão devidamente condicionados fisicamente para desprenderem tal esforço. A resultante de tal cenário é um futebol sem qualidade e sem atrativo neste inÃcio de temporada.
Quem quiser ritmo forte o caminho não é outro senão as ladeiras de Olinda, onde o frevo ferve com metais afinados. As prévias que acontecem em diversos pontos do Recife, também são destinos de alegria e prazer.
O bom futebol?
Só quando o carnaval passar. Os craques estão passando sebo nas canelas, e só vão bailar dentro das quatro linhas quando forem molhados pelas águas de março.