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A Praça São José
postado em 19 de maio de 2020

CLAUDEMIR GOMES

 

A construção é simples: primeiro conhecemos a nossa casa, depois a rua onde moramos, as outras ruas, a cidade, outras cidades... até nos tornarmos cidadãos do mundo. Os oficiais da Marinha Norte-Americana costumam dizer: "Se quer conquistar o mundo, primeiro faça sua cama". Enfim, primeiro, as primeiras coisas.

Partindo deste princípio, que nos parece uma regra universal, é comum guardarmos muitas lembranças das ruas onde vivenciamos nossa infância e nossa adolescência. Durante todo o tempo que vivi em Carpina tive dois domicílios: um na Avenida Chateaubriand e outro na Rua Frei Caneca, mas confesso que, o logradouro que mais me fascinava na minha cidade natal era a Praça São José.

São muitas as razões para tal encantamento.

Tal como a maioria das cidades do Interior, Carpina dos anos 60 e 70 era pobre em monumentos. O primeiro a que fui apresentado foi o do Leão, posicionado estrategicamente no início da Praça São José. É como se ali fosse o marco zero da cidade. No meu imaginário tudo começou naquele espaço, a Floresta dos Leões que depois passou a ser conhecida como a cidade dos carpinteiros: Carpina.

A simbologia é o ponto de partida para infindáveis lembranças de um mundo quase encantado resumido numa praça. Quando vinha para o centro da cidade, e chegava no monumento do leão, era como se tivesse chegado ao destino. Me deparava com o salão de sinuca, que meu pai aconselhava não "fazer ponto" para não me viciar em jogo. Mas tinham alguns jogadores cuja habilidade nos forçava a ficar vendo eles em ação. O jogo de bilhar era um desafio a inteligência. Impressionante o domínio que eles tinham do espaço (a mesa) e dos pontos de tabela. Jogar e dificultar a jogada do oponente: eis o desafio. Na outra esquina havia um bar com uma cacimba no meio. Na calçada, uma bomba de álcool. Na frente deste bar, ao lado de um galpão da Rede Ferroviária do Nordeste, ficavam os carros de aluguel.

O pano de fundo da Praça São José era a Igreja Matriz de São José, onde fui batizado, crismado e fiz a primeira comunhão. Recordo de quatro pároco: padre Petronilo, padre Leitão, padre Genaro e padre Rolim  A igreja era ladeada pela Ação Paroquial de Assistência Social e pela casa do padre. Um pouco mais atrás, o Colégio Pio X, do professor Resende, uma das maiores referências d história da educação de Carpina.

A Praça São José, homenagem ao padroeiro da cidade, São José, o santo carpinteiro, era o lugar onde o religioso e o profano conviviam harmonicamente. Aos domingos, após a missa campal, às 19h, começava o ti-ti-ti dos passeios e paqueras. Logos os grupos eram formados. Havia uma disputa pelos bancos da praça, mas os passeios rendiam bons namoros. Sem dúvida aquela era a passarela mais famosa da cidade. Um verdadeiro desfile de moda. As moças apresentando seus modelitos com penteados recheados de esponjas de aço, mas antes preparados com gigantescos bobes e as resistentes toucas. Algumas apelavam para o ferro quente. Os rapazes exibiam as novas calças boca-de-sino, de nycron (o famoso senta e levanta e não perde o vinco) e tergal. Lula, Zé Leite, Jairo, Edvaldo (Preá) e Wilson Brito, que a época integravam o elenco de juvenil do Náutico, chamavam a atenção com os "lançamentos", calças confeccionadas pelo renomado costureiro - Barbosa - do Recife, o preferido por nove em dez jogadores do Náutico, o time sensação do Estado, na época construindo sua inesquecível campanha do hexa. O sapato preferido dos boys era Motinha, a coqueluche dos anos 60.

De tanto passear na Praça São José acabávamos conhecendo, e estreitando a amizade com quase todos os moradores: A casa do seu Chico perna-de-pau nos chamava a atenção pela sua arquitetura e pelo carro Studbaker que vivia estacionado no terraço.

Seu Costinha e dona Mariinha, casal referência na cidade. Família exemplar: religiosa e unida. Na casa do seu Costinha até o papagaio rezava. Muitas vezes rezei o terço junto com todos da família: Jesus, Carminha, Deca, Cocota, Auxiliadora, Zé Maria, Domingos, Bosco e Alexandre.

Mais adiante tinha a casa de dona Maria do Carmo, Odineide, Noca, Gil, Itagiba e André. O conhecidíssimo Zé do Álcool; os irmãos Gilson e Gilvan. Os habitantes da praça gostavam de ficar sentados na calçada observando o vai e vem da juventude. Os irmãos, Zita, Nalva, Adelson, Ednaldo... Mais próximo a igreja, a casa de Abelardo, Miriam, Selma e Dione, que eram vizinhos de seu Sinô e dona Dondon, pais de Glauce, Maria de Jesus, Giovana e Novinha. Lá também moravam Lia e Toinho Bocão, maior corneteiro da banda marcial do Salesiano.

Do outro lado da rua, vizinho ao prédio da prefeitura, morava seu Marcos, um misto de ourive e artesão em prótese dentária e dona Alice, que também tinham uma prole grande: Zito, Nilson, Severino Marcos, Adeilda, Adelma e Severina. Mais adiante morava Joca de Sá e Socorro.

Impossível relembrar todos os nomes, até porque a população é nômade.

Os shows na Ação Paroquial de Assistência eram inesquecíveis. Momentos de grande visibilidade para cantores domésticos e ídolos e conjuntos que já faziam sucesso no Estado e começavam a conquistar espaço em outras praças. Foi naquela ação bem amadora que Carpina revelou para o Brasil um dos maiores comunicadores da época: Paulo Marques, personagem icônico na história do rádio e da televisão pernambucana, que também foi destaque na política (deputado Estadual e Federal).

Dia desses, mexendo em meus alfarrábios, encontrei um monóculo com uma foto minha e de Paulo Marques na Praça São José. Estávamos sentados num dos bancos. Registro de sua tentativa de me ensinar a tocar violão, coisa que nunca aprendi por não ter nem vocação, nem talento.

Naquele espaço também vivi minhas primeiras "aventuras e emoções" automobilísticas na condição de co-piloto no jeep pilotado por Rodolfo. Loucura! A adrenalina ia lá pra cima. Ninguém conseguiu fazer aquele bordado da Praça São José como Rodolfo. Ele tinha o domínio da distância entre os canteiros, e sabia qual a velocidade e marcha que deveria entrar e sair no curto espaço de tempo entre uma curva e outra. Os moradores se assustavam com tanta loucura. Surgiram muitos imitadores e seguidores, mas nenhum apresentou a habilidade, nem a precisão cirúrgica com a qual Rodolfo dava o seu show particular.

Duas mudanças - a construção da nova Matriz de São José e a construção do novo prédio da Prefeitura - não chegaram a descaracterizar a praça, mas causaram grande impacto no clima bucólico. Sinais dos tempos. A demolição do velho templo mudou a geografia do espaço. A nova sede da Prefeitura, construída pelo prefeito Carlos Lapa, provocou uma dinâmica característica das cidades em crescimento. Apesar das causas e efeitos a Praça São José se mostrava resistente a uma invasão comercial, mantendo sua vocação residencial.

Foi ali, na Praça São José que surgiu a primeira agência bancária da cidade: o Banco Econômico da Bahia. Anos depois, na outra esquina, separado apenas pelo monumento do Leão, foi inaugurada a agência do Banco do Brasil.   

Todas as vezes que vou a Carpina faço questão de passar pela Praça São José. De imediato me vem a mente uma porção de lembranças. Vejo o monumento com o leão solitário, altaneiro, porte imperativo como se estivesse repassando a mensagem: "Daqui eu vejo o mundo".

E foi justamente daquele marco, na entrada da Praça São José, que comecei a me transformar num cidadão do mundo.    

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Cinema Paradiso
postado em 14 de maio de 2020

CLAUDEMIR GOMES

 

Em tempo de coronavírus, meus passatempos preferidos têm sido ler e assistir filmes. Cinéfilo confesso, tenho me deliciado com novos e velhos títulos. Ontem parei para rever, mais uma vez, Cinema Paradiso, criação de Giuseppe Tornatore, do final dos anos 80, que ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro. Uma obra prima que me transporta ao passado.

O cinema como a grande diversão de uma cidade pequena de interior, a simplicidade da sala, a reação do público, enfim, tudo o que vemos no filme Cinema Paradiso nos deixa com a sensação de que vivenciamos tais momentos na nossa infância e juventude, quando frequentávamos o Cinema Santo Antônio, em Carpina.

A história nos mostra que Carpina teve outras salas de cinema com mais requinte e certo glamour, mas o Cinema Santo Antônio, construído no bairro de mesmo nome, para atender a uma população mais carente, conseguia repassar para nós a magia do maior entretenimento da época.

O equipamento era simplório, contudo, aquela sala primitiva, com quatro paredes lisas, sem nenhum adereço, nos acolhia de forma aconchegante. Uma empresa familiar, onde os donos - seu Álvaro e dona Nice - junto com dona Corina, outra integrante da família, colocavam a mão na massa. Nos fins de semana, ou quando era exibido um filme de grande sucesso de bilheteria, a lotação se esgotava logo. Quem morava na vizinhança levava cadeira de casa. Quem vinha de longe assistia o filme em pé.

O romantismo da época era observado logo na entrada, onde havia sempre uma troca de gibis, revistas e livros de bolso. Vez por outra era lançado um álbum de figurinha e não existia ponto de troca melhor que a porta do cinema.

Foi justamente naquela equipamento quente, desconfortável, que me tornei um amante da sétima arte.

Primeiro vieram os filmes épicos: Os Dez Mandamentos; Ben Hur; Maciste; Hércules, Sansão e Dalila; Davi e Golias; Os Gladiadores... E todos se tornaram fãs de Mark Forest, Steve Reeves, Yul Brynner, Charlton Heston... Atrizes como Sophia Loren, Gina Lollobrigida, Cláudia Cardinali, Elizabeth Tylor, a estonteante Ursula Andress, Brigitte Bardot...

E o que dizer dos filmes de faroeste? Os clássicos de hollywood eram fantásticos, levantavam a platéia, mas quando apareceram os cowboys italianos, Giuliano Gemma e Cia, o gênero foi aquecido com os novos galãs.

Foi ali, no meu cinema paradise, o Cinema Santo Antônio que assistir aos grandes filmes de Elvis Presley; o primeiro da infindável série de 007, com o espetacular, e melhor de todos: Sean Connery. Naquele equipamento na periferia de Carpina descobri o mundo de Zé do Caixão, um misto de terror e erotismo.

O melhor de tudo era o clima dentro daquela sala de cinema. As pessoas assistindo uma película e vivenciado como se estivessem num teatro. Palmas, vaias, risadas e choros tornavam tudo muito real. Vez por outra a turma se excedia nas observações seu Álvaro interrompia a seção, fazia um sermão e a tropa de acalmava. Mas logo a zona era retomada.

Alguns filmes eróticos provocavam um apartheid: seções para homens e seções para mulheres. Nos dias das seções femininas muitos homens ficavam na porta do cinema só para ver as mulheres que iam entrar. Coisa de fofoqueiros do Interior.

Mas nada se comparava ao Canal 100. Aquela música - Que bonito é - numa harmonia perfeita com as imagens dos jogos, das arquibancadas dos estádios, da geral do Maracanã.  Em 1982, quando fazia a cobertura das Eliminatórias para a Copa da Espanha, fui apresentado ao dono do Canal 100, Carlinhos Niemeyer. Contei para ele todas as emoções vividas no Cinema Santo Antônio. A reação do público, a vibração na hora do gol como se estivesse no estádio. Ele foi a loucura.

Quando nos reencontramos num treino da Seleção Brasileira no Maracanã, Carlinhos me chamou e disse: "Vou lhe mostrar onde fizemos as imagens que emocionou os carpinenses". E me levou no fosso onde ficavam os cinegrafistas, também mostrou onde posicionava todas as outras câmeras.

Numas edições do Cine E, Alfredo Bertini, conhecedor dessa história, me convidou para entregar um prêmio na homenagem que foi feita ao Canal 100. Entreguei o troféu ao filho de Carlinhos Niemeyer, contei para ele nossos encontros e o momento foi marcado pela emoção.

Do alto dos meus 68 anos posso dizer que conheci muitas salas de cinema pelo Brasil afora e em vários outros países no exterior. Salas clássicas, tradicionais e modernas, mas nenhuma me tocou tanto na alma como a do Cinema Santo Antônio.

Sem dúvida, o meu cinema paradiso, cujos cartazes dos filmes eram colocados nos postes, em pontos estratégicos da cidade.

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O tistre fim do DIARIO DE PERNAMBUCO
postado em 12 de maio de 2020

CLAUDEMIR GOMES

 

Ao ler no Blog do Magno Martins, a notícia de que o DIARIO DE PERNAMBUCO, a partir de quinta-feira (14/05/2020), deixa de circular na versão impresso, foi inevitável um mergulho no passado. Afinal, foram mais de duas décadas bem vividas na redação do jornal mais antigo em circulação da América Latina.

O ano era de 1975. A época, o editor geral do DIARIO era Diógenes Brayner, que me levou para fazer um teste na equipe de esportes capitaneada por Adonias de Moura. No mesmo período chegava à redação um outro rapaz para fazer teste na editoria de política: José Adalberto Ribeiro.

Deslumbrado com aquele novo mundo ao qual estava sendo apresentado, me interessei pelos detalhes, e fiz questão de conhecer todos os personagens que faziam um dos jornais mais importantes do País. O próprio Brayner me apresentou aos "cardeais": Zuza (chefe da oficina); Adonias de Moura (editor de Esportes) e José Maria Garcia (editor de Diagramação). Gladstone Vieira Belo e Joezil Barros estavam num outro patamar. O DP era comandando por Nereu Bastos e Antônio Camelo.

A caminho dos seus 150 anos, o DIARIO DE PERNAMBUCO era uma das empresas mais rentáveis do conglomerado dos Diários e Emissoras Associados.

Vestir a camisa do DP era um orgulho para todos nós que fazíamos parte daquela grande "família". Isso mesmo, uma grande família. Era assim que nos comportávamos na redação. Os editores cuidavam de suas equipes com um zelo admirável.

Me assustei quando vi um cadeado numa máquina de escrever. Era a máquina do jornalista Adeth Leite, crítico de teatro. A equipe de esportes do mestre, Adonias Moura, só tinha fera: Lenivaldo Aragão, Robson Sampaio, Sílvio Oliveira, Amaury Veloso, Júlio José e Valdi Coutinho. Depois saíram Robson, Silvio e Lenivaldo, que foram substituídos por Paulo Germano, Cláudio Santa Cruz e Everaldo Xavier. A primeira mulher a fazer parte da equipe de esportes foi Rosineide Barbosa. Depois vieram Roberta Aureliano e Karina Falconi.

Impossível citar todos os nomes que conheci durante os mais de vinte anos de redação, mas não podemos esquecer algumas legendas como Raimundo Carrero, Selênio Homem de Siqueira, Lúcio Costa, Pelé, Marcelino, Militão, Bené, João Alberto Sobral, Ângelo Castelo Branco, Márcio Maia, Danda Neto, Paulo Fernando Cravero, Paulo Viana, Cacho Borges, Zadock Castelo Branco, Antônio Magalhães, Heleno Ramalho, Dalci Brigido, Orismar Rodrigues, Cristovão Pedrosa, Cleofas Reis, Ildefonso Fonseca, Ricardo Leitão, Homero Fonseca, Magno Martins, Carlos Cavalcanti, Wilson Soares, Eliomar Teixeira, Ivan Maurício, Eduardo Ferreira, Zenaide Barbosa (primeira mulher a ser editora geral em um jornal de grande circulação no Brasil), Vanessa Campos, Ana Maria Guimarães, Marisa Pontes, Maria Luiza Borges, Fernanda Barreto, Marilene Mendes, Graça Prado, Gersina Primo, Valdeluza, Mariza Gibson, Tia Lola, Leda Rivas...

Os anos foram passando e os protagonistas foram mudando. Surgiram novos quadros de brilhantes jornalistas: Jorge Morais, Roberta Aureliano, Beto Lago, Ricardo Dantas Barreto, José Gustavo, Paula Imperiano, Vera Ogano... As mudanças no patrimônio humano ocorriam de uma forma natural. Afinal, para escrever uma história de quase dois séculos se faz necessário várias gerações de jornalistas.

O que não se esperava era que a estrutura do DP fosse ruir.

A Praça da Independência, no centro do Recife, não era do povo. Era a pracinha do DIARIO. Ali aconteciam os grandes movimentos políticos. No carnaval, o prefeito entregava a chave da cidade ao Rei Momo num palanque erguido na calçada no Diário, que estava presente em todos os roteiros de clubes e troças, dentre eles, o Galo da Madrugada, nos seus primeiros desfiles.

Nas décadas de 70. 80 e 90 do século passado, o DP esteve presente em quase todas as competições oficiais, torneios e amistosos disputados pela Seleção Brasileira de Futebol. Cobriu Olimpíadas, Paraolimpíadas; promoveu a Copa Arizona de Futebol Amador, competição que, na última edição, reuniu mais de cem equipes de futebol amador; promoveu a Olimpíada da Criança...

Um dia, sem a menor noção da história do maior jornal em circulação da América Latina, os homens que estavam no poder cortaram seu cordão umbilical com o Recife. Tiraram o velho DP do seu berço: a Praça da Independência. E começou a lhe faltar oxigênio. Rasgaram sua identidade.

Lhes deram uma casa nova, na Rua do Veiga, em Santo Amaro, mas faltava a alma e o amor dos grandes jornalistas. A redação se tornou fria, com cada qual conversando com seu próprio computador, fazendo consultas ao google, que é o dr. sabe tudo da nova era. O DP havia perdido o sentido de família.

Com o comando passando de uma mão para outra, a cada nova gestão, uma queda, uma descida de degrau. O jornal mais antigo em circulação da América Latina se tornara um ancião com dificuldade de entrar em sintonia com o novo tempo. Lhes levaram para um edifício quase em ruínas no Recife Antigo.

O velho DIARIO começou a agonizar.

E surge o novo coronavírus para devastar lembranças e sonhos, pondo um ponto final a uma das histórias mais bonitas dos jornais impressos.

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O DIA DAS MÃES
postado em 07 de maio de 2020

CLAUDEMIR GOMES

 

Os dias nunca foram tão iguais!

Nem mesmo a aproximação do DIA DAS MÃES quebra a rotina. Vez por outra, Áurea, minha mulher, indaga: "que dia é hoje?". Evidente que não perco a deixa para uma piada. É a oportunidade de quebrar a rotina e manter o alto astral. Encarar a mesmice com bom humor é um desafio para todos. São tantas as idiotices e imbecilidades rolando nas redes sociais que se faz necessário exercício de resistência à intolerância.

Dia desses liguei para o amigo, Raimundo Carrero, um dos maiores escritores brasileiro da atualidade. Fomos companheiros de redação no Diário de Pernambuco. Batemos um bom papo, onde abordamos assuntos diversos, dentre eles, o comportamento das pessoas ao utilizarem as redes sociais. Nossos pensamentos são convergentes.

A tergiversada foi boa, mas voltemos ao foco que é o DIA DAS MÃES, que este ano será comemorado de forma diferente, como quase tudo que está acontecendo nesta travessia pandêmica.

A data tem um apelo midiático fantástico, aquece o comércio quase tanto quanto o Natal, e mexe com o passivo sentimental de todas as pessoas. Isto é uma coisa que nem mesmo Freud explica. É segredo da maternidade. O corte do cordão umbilical provoca um desprendimento físico, mas sentimentalmente filhos e mães vão estar sempre interligados. Toda mulher se transforma quando vivencia a maternidade. Elas liberam o felino que trazem guardado na alma. Eis a razão pela qual são chamadas de leoas.

Até nos cemitérios é possível atestar tal realidade. As visitas aos mortos, no DIA DAS MÃES, são em números bem superiores às visitas no DIA DOS PAIS.

Quando criança, a feira de Carpina era no domingo. O comércio fechava na segunda-feira. Pois bem, meu pai nos levava para comprar o presente no DIA DAS MÃES. E era sempre no mesmo lugar: A Casa das Louças, onde existia uma grande variedade de utensílios domésticos, objetos de decoração e biscuit. Minha mãe adorava um biscuit.

Acredito que ela sabia o que ia ganhar, mas a explosão de alegria fazia parte daquela liturgia do DIA DAS MÃES, cujo ponto alto era um almoço bem animado.

O coronavírus veio bagunçar a comemoração de uma das coisas mais relevantes da nossa cultura: O DIA DAS MÃES. Evidentemente, elas jamais serão esquecidas, e as demonstrações de carinho surgirão de diversas formas, mas convenhamos: um abraço online, uma conferência via internet, não se compara a um afago ao vivo e a cores.

É! Os dias estão muito iguais. Mas domingo será diferente.

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Mosaicos de uma história
postado em 04 de maio de 2020

CLAUDEMIR GOMES

 

O amigo, Mauro Barros, me intimou para contar um pouco da história da Churrascaria O BOM, construída por meu pai, Jaime Gomes, nos anos 70, em Carpina, e que, por duas décadas foi o point mais disputado da Mata Norte do Estado. Confesso que fosse tirar de letra. Ledo engano. Me perdi nas lembranças, tropecei na emoção.

Tudo começou com o espírito empreendedor revelado pelo velho Jaime Gomes, que até então tinha uma vida ligada ao seguimento de transporte e, de repente monta um estabelecimento comercial de grande sucesso. Junto com ele, dois protagonistas que foram decisivos na realização do sonho e conclusão do projeto: Fernando Monteiro e João Ferreira Cavalcanti (Joãozinho Fiscal).

Fernando Monteiro tinha como projeto de vida se formar em arquitetura. Não conseguiu realizar seu grande sonho, mas revelou toda a sua vocação e criatividade através do projeto arquitetônico da Churrascaria O BOM. Esmerou-se na definição de todos os detalhes: paredes com tijolo aparente e grades de bambu; iluminação com lustres feitos de garrafas; parede decorada com fundos de garrafas em forma de meia lua; logomarca; letreiro externo; jardins... O projeto original ficou impecável.

O "engenheiro" da obra foi Joãozinho Fiscal. A experiência adquirida à frente de obras municipais lhe transformou num grande mestre. Ele abraçou o projeto de corpo e alma. Houve um estreitamento de amizade tão grande que o sentimento era de que, eu e minha irmã - Ana Carolina - recebemos de presente um irmão mais velho.

Mas a história do BOM transcende a barreira estática de um equipamento comercial que fez sucesso por quase duas décadas. Aquela churrascaria tinha alma, fato que levou gerações a guardar lembranças e nutrir saudades. Sabemos que só sentimos saudade daquilo que nos fez bem. Em síntese, a história do BOM é um grande painel formado por mosaicos coloridos que traduzem momentos inesquecíveis vivenciados por centenas, milhares de frequentadores.

O poeta, Carlos Pena Filho, conclui o poema, "Chopp" que fez em homenagem ao Bar Savoy, point mais frequentado de um Recife antigo, com o seguinte verso: "Por isso no Bar Savoy/o refrão é sempre assim:/são trinta copos de chopp/são trinta homens sentados/trezentos desejos presos/trinta mil sonhos frustrados".

Ao contrario do Savoy, no BOM não havia desejos presos, e eram poucos os sonhos frustrados. A churrascaria abrigava todas as tribos, e não apenas os boêmios da cidade e da região. Sem sombra de dúvidas, era o lugar mais bem informado de Carpina, e da região, apropriado para confidências e inconfidências. O lugar ideal para almoços de negócios; pequenas conferências; reuniões sociais e confraternizações. Lá se pesquisava tudo: da agenda do prefeito de plantão a vida privada de quem interessava.

O palco da vida do inesquecível Daniel Calazans, um dos maiores cantores da noite pernambucana, que nasceu para a cena musical do Estado cantando e encantando no BOM. Foi o maior interprete das músicas de Benito de Paula que conheci.

Não podemos esquecer outros protagonistas como Adalberto do saxofone, de Limoeiro; Vital Bione, outra fera cujo passatempo era dizer o nome das pessoas de trás pra frente. Daniel Nunes Filho, que afaga nossas lembranças com lives extraordinárias. As meninas iam ao delírio quando o simpático Romeu Câmara cantava Only You. Foram muitos os nomes que brilharam no palco do BOM, fazendo shows ou simplesmente dando uma "canja".

Torno a repetir: aquele equipamento tinha alma.

Sua história se confunde com a dos grandes teatros que abrigam inúmeros protagonistas. Atores de comédias, de dramas amorosos e suspenses. Isso mesmo. O BOM foi palco de comédias como a que Rui Salgado protagonizou durante um carnaval ao aparecer, em pleno salão, todo enrolado de papel higiênico cantando: "Banana não tem caroço/ quem foi que te falou que a minha... tinha osso? Certa vez, o surpreendente Mineco arranjou uma namorada e parou o carro a uns três metros da churrascaria e mandou chamar o garçom. O casal estava nu dentro do fusca. Logo a notícia se espalhou e todos correram pra ver a cena. No dia seguinte, o velho Jaime Gomes, que gostava de Mineco como um filho, o chamou e disse que o juiz queria prendê-lo. Mineco foi pra casa e ficou escondido debaixo da cama.

São muitos os causos protagonizados por figuras emblemáticas de uma época. Como todo palco que se preza, também são inúmeros os registros de histórias de tapas e beijos. Namoros iniciados, casamentos consolidados, divórcios e frustrações.

Não poderia cometer o pecado da omissão com os colaboradores: os garçons, Bio Grande, Bacana, Genival, Locha, Ney (o mancha)...; a turma dos bastidores, Zequinha, o primeiro cozinheiro, Dona Maria... João, que começou como vigia e se tornou uma espécie de faz tudo. Enfim, todos que vestiram aquela camisa com muita dedicação.

O BOM pulsava junto com o coração do seu dono - o velho Jaime Gomes - que por conta de problemas cardíacos teve que por fim a essa história. Primeiro alugou o equipamento a Amaury e em seguida foi vendido a Rui Torres.

Uma história que nunca teve um ponto final por ser montada com mosaicos sentimentais.

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