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Maio 2012 ›› CLAUDEMIR GOMES
A bola voltou a rolar nos estádios da Alemanha e de Portugal. Outros paÃses europeus já estão com agendas definidas para o retorno de seus respectivos campeonatos. Tenho visto alguns jogos, mas no lugar da tradicional alegria que aquieta minha alma, tenho sentido um desassossego com os estádios vazios. A sensação é de que retiraram o coração do futebol.
Sabemos que o grande diferencial do futebol para os outros esportes é que ele é praticado com os pés. Entretanto, a alegria das arquibancadas do soccer difere das que reinam em outras modalidades. Futebol é paixão avassaladora, sem amantes ela jamais explodiria.
Desde pequeno que o clima das arquibancadas me fascina. Não sabia ainda diferenciar um quarto zagueiro de um zagueiro central; um meia esquerda de um meia direita, mas ir ao estádio de futebol assistir a um jogo era a diversão preferida. Tudo por conta do clima das arquibancadas.
Mesmo na condição de cronista esportivo, quando já tinha o domÃnio das emoções, testemunhar o comportamento das torcidas em grandes e decisivos jogos era por demais prazeroso.
O primeiro clássico que assisti no Maracanã foi entre Flamengo e Vasco. Quando sai do elevador e caminhei para a Tribuna de Imprensa fiquei paralisado diante da disputa das torcidas. Uma verdadeira "guerra" de bandeiras, cânticos das duas tribos... Um espetáculo inesquecÃvel.
Estádio sem torcida nos leva a descoberta do tosco.
Certa vez, num confronto entre Sport e Ãbis, numa quarta-feira a noite, pouca gente se dispôs a ir a Ilha do Retiro. Afinal, o jogo não despertava nenhum interesse por conta da distância técnica que separava os dois times. A vitória do Sport estava na conta, apenas não se sabia qual seria o placar. Pois bem, o placar já apontava a vantagem dos leoninos por uma diferença de quatro gols. Quando o Sport marcou o quinto gol, Urbano Serpa, dirigente do Ãbis, começou a gritar próximo ao alambrado:
"Juiz venal, ladrão, está no bolso do Sport..."
Quem apitava o jogo era o seu amigo, Sebastião Rufino, que a época ainda não era aspirante ao quadro da FIFA, mas já era um oficial da PolÃcia Militar de Pernambuco.
Urbano seguia insistente, e cada vez mais agressivo nos seus insultos. De repente, Rufino aproveitou uma saÃda de bola, chamou o comandante da guarnição presente ao estádio, e mandou que retirassem aquele torcedor inconveniente, cujas agressões verbais ecoavam em todo o estádio. Escoltado pelos policiais, foi possÃvel ouvir as palavras de despedida de Urbano:
"Rufino! Sou eu, Urbano. Somos amigos, manda me soltar". Na verdade ele não estava indo preso, apenas foi retirado do estádio. Coisa de torcedor solitário e estádio vazio.
Na década de 60 o Náutico recrutou vários jogadores do Santa Cruz de Carpina. Todos meus amigos. Dia de jogo nos Aflitos, chegava cedo ao estádio e ficava entocado na concentração dos juvenis, sob o setor de cadeiras cativas. De repente, começava a ouvir a zoada dos torcedores chegando. O coração do estádio alvirrubro começava a pulsar. Era chegada a hora de ir para as arquibancadas.
O espetáculo que a torcida do Santa Cruz produziu quando do jogo com a Portuguesa de Desportos, em 2005, no Arruda, quando o Tricolor do Arruda assegurou o seu acesso à Série A do Brasileiro, foi inesquecÃvel.
E o que dizer da festa da torcida do Sport na conquista da Copa do Brasil em 2008? Simplesmente inenarrável. Tinha que ver para crer.
Por mais evidente que seja a necessidade, é uma insensatez separar o jogo da torcida. Entendemos que é uma forma de driblar o coronavÃrus, mas num estádio sem coração jogadores parecem zumbis.
CLAUDEMIR GOMES
Nesta travessia pandêmica temos ouvido muito se falar em reflexão, revisão de conceitos e valores. O fato de, o coronavÃrus tratar a todos no mesmo pé de igualdade, independentemente de classe social, cor e credos, nos leva a quase certeza de que, quando tudo passar, nada será como antes.
O assassinato do afro-americano, George Floyd, por um policial branco, que passou sete minutos ajoelhado no seu pescoço, numa rodovia, em Minneapolis, nos Estados Unidos, fez cair o pano da hipocrisia, nos mostrando que a distância que separa o discurso da prática é abissal. O paÃs da Ku Klus Klan continua o mesmo do Século XIX quando o assunto é preconceito racial.
O hexacampeão, Lewis Hamilton, único negro no circo da maior e mais charmosa categoria do automobilismo mundial, cobrou nota de protesto com o fato ocorrido na América do Norte e que ecoou no mundo inteiro. Embora consciente de que todos os outros pilotos, e membros de equipes, sejam brancos, Hamilton queria ver da parte deles algum sinal de indignação.
Enfim, o homem ainda não assimilou a básica lição da igualdade repassada pelo convid-19.
O mestre, Arthur Carvalho, prognosticou no seu último artigo publicado no Jornal do Commercio: "Dias melhores virão".
Será?
Confesso que sou um otimista raiz. Deus sempre foi tão generoso pra comigo que acredito num amanhã melhor que o hoje. Mas não está sendo fácil, com tanto tempo sobrando para pensar, apostar em melhoras quando os homens seguem se comportando como bestas.
Há muito o mestre, José Joaquim Pinto de Azevedo, me alerta para o fato de que, "estamos vivendo a era da imbecilidade". Nada tão verdadeiro.
Ontem, um rapaz veio cortar o cabelo de várias pessoas aqui no prédio. Entrei no mutirão. Atendimento individual numa área privada, quando um acabava interfonava para o outro, e assim o projeto funcionou a contento. Enquanto dava um trato na minha cabeleira ele observou:
"O mundo tá muito desigual. Dia desse vi um tênis sendo vendido por R$ 4 mil no shopping. Absurdo! Tem muita gente passando fome na cidade".
Senti que ele ficou no aguardo de um comentário. De pronto lhe falei: "Investir 4 mil reais num tênis para pisar em merda é muita coisa".
Ele liberou uma boa risada e a prosa mudou de rumo.
Observo as queixas que surgem de todas as partes em relação ao recomeço. A flexibilização dos confinamentos começou. Cada um procura puxar a brasa para a sua sardinha. O homem segue olhando para o umbigo. O horizonte é utópico.
Gosto de ler as crônicas escritas por Fátima Quintas. Ela nos fala muito de intimismo. Uma forma inteligente de fugir dos excessos da realidade.
Dias melhores virão!
Acredito que sim, mas só quando todos tiverem consciência de que o pescoço, seja lá de quem for, não é genuflexório.
CLAUDEMIR GOMES
Tornou-se comum dizer que, o mundo não será como antes após a pandemia do coronavÃrus. Verdade. A reclusão tem levado a humanidade a uma revisão de conceitos e valores. Isto fatalmente implicará numa mudança de comportamento a ser observada nos próximos anos. Alguns fatos são por demais impactantes na história universal.
O fatÃdico 11 de setembro de 2001 é um desses marcos inesquecÃveis. O maior ato de terrorismo da história da humanidade, promovido pelo Al-Qaeda, na cidade de Nova Iorque, nos Estados Unidos, tirou a vida de 2.996 pessoas, deixando o mundo em permanente tensão, com a certeza de que todos os sistemas de segurança são frágeis e vulneráveis.
A partir de então, o 11 de setembro nunca foi mais como antes. O ato terrorista impactou em lugares jamais imaginados por Osama Bin Laden e seus pares.
No dia 11 de setembro de 1928, do Século XX, foi assinada, durante o Estado Novo de Getúlio Vargas, a emancipação polÃtica da cidade Floresta dos Leões, que até então pertencia aos municÃpios de Paudalho e Nazaré da Mata. Mais tarde, em 1938, por sugestão do jornalista, Mário Mello, a cidade passou a ser chamada de Carpina.
A mudança de nome dividiu opiniões, mas o 11 de setembro sempre foi respeitado, e comemorado, como a data magna do municÃpio. No governo do prefeito, José Lobo, se deu inÃcio a um desfile cÃvico com a participação dos educandários locais. Uma festa alicerçada nos três maiores pilares da educação da cidade: Colégio Salesiano, Colégio Santa Cruz e Colégio Pio X.
Com o passar dos anos a festa do dia 11 de setembro em Carpina, foi ganhando corpo e fama, chegando a ser tão cobiçada quanto a tradicional Festa de Reis, que era comemorada no dia 6 de janeiro. Todos os gestores primavam por transformar o espetáculo cÃvico mais grandioso da Mata Norte, fato que passou a atrair a atenção das autoridades estaduais. Colégios de outras cidades, e outros Estados, disputavam convites para a festa carpinense, que viveu seu apogeu anos 60 e 70.
Se testemunhar a história é uma privilégio, imagine ser um dos protagonistas de seus capÃtulos. Era este o sentimento dos jovens colegiais, que vestindo as fardas de seus respectivos colégios, participaram de espetaculares disputas cujas emoções ficaram cravadas no peito e na alma.
Participei de cinco edições do desfile do Salesiano, a época um colégio masculino. O Santa Cruz era um educandário feminino e o Pio X, dentre os três grandes da cidade era o único misto.
A medida que os desfiles ganhavam corpo, uma rivalidade ia sendo alimentada entre os alunos do Salesiano, Santa Cruz e Pio X. Cada tribo, a sua maneira, e dentro de sua autonomia de vôo, procurava fazer o melhor desfile. E as bandas marciais passaram a ser um ponto de desequilÃbrio, tal qual acontece com os desfiles das Escolas de Samba, do Rio de Janeiro, onde as baterias funcionam como um diferencial de detalhes.
Com maiores recursos financeiros, e respaldado pela banda do Salesiano do Recife, o Colégio Salesiano Padre Rinalde sempre se destacou como a grande célula do desfile. Entre os alunos, a expectativa para ver quem seria convidado para desfilar com o Pavilhão Nacional ou participar da comissão de frente que era formado por nove alunos cada um levando a letra do nome do colégio no peito. Havia um pelotão com as bandeiras de todos os Estados da União. Mas o que mais instigava era ser um integrante da banda marcial.
O Salesiano era comandado pelo Major Couceiro, que energizava a todos com sua voz de comando: "Salesiano! Ao meu comando". Depois foi substituÃdo por LuÃs Calábria (Lú Calábria). O Pio X desfilava sob a batuta do Capitão Andrade.
Por ser um colégio feminino, o Santa Cruz era visto por uma outra ótica. Evidente que sua banda, embora muito boa, não podia concorrer com as do Salesiano e do Pio X. E as meninas faziam um desfile que era puro charme. Cheio de graça com trajes tÃpicos, alegoria e um aroma de Contourê embriagador.
O Pio X é o de menos recursos financeiros. O seus desfile empolgava pela raça e determinação daquele "exército" cujo lema era a superação. Sua banda marcial tinha um presidente: LuÃs de França, que no futuro se tornaria o maior poeta da cidade. Parte dos instrumentos era feita na oficina do seu Manoel Vitorino e os couros de bode curtidos com maior cuidado. Apesar da turma do contra, LuÃs de França conseguiu formar uma banda marcial mista. O fato de três filhos do dono do colégio - SÃlvio, Marcos e Ricardo - tocarem na banda, parecia que energizava o grupo. No comando, a batuta do mestre, José Soares.
O embate - Salesiano x Pio X - começava na fase de ensaios.
Quando estava cursando o quarto ano ginasial, os padres tomaram gosto e atenderam os apelos dos alunos para formar uma super banda. Nilson era o maestro. E o mestre saiu buscando as melhores peças para formar naquele tabuleiro. De novidade: os cornetões, que foram entregues, um a mim, e o outro a Bosco Maguary. Ivo Regis e Alexandre (que estudava interno), foram escolhidos para tocar os tubinhos.
A formação da banda completa se tornou gigantesca. Era difÃcil até para fazer um ensaio geral. Todos estavam conscientes da condição de protagonista, e a certeza de que o sucesso do grupo dependia do esforço individual de cada um. As tarefas eram cumpridas a risca. Toinho Bocão evoluiu tanto durante os ensaios que se tornou um corneteiro referência na região. Jomeri Felix de Santana era um virtuoso no taró. Ele tinha consciência do seu potencial e buscava sempre sair do lugar comum com arranjos diferenciados.
Neste ano (1967) a disputa entre as bandas do Salesiano e do Pio X, alcançou um nÃvel de tensão durante os ensaios que foi necessário a interferência dos educadores.
Numas das saÃdas das duas bandas pelas ruas da cidade, defronte a estação ferroviária, houve o cruzamento dos dois grupos. Os homens se respeitaram, mas as meninas ainda deram porrada com suas baquetas. O clima tenso se dispersou logo porque as tribos seguiram caminhos opostos. A notÃcia chegou quase que de imediato ao Salesiano. Padre Benevides veio de encontro ao nosso grupo e mandou silenciar todos os instrumentos. E nos chamou de "Vândalos". Hoje, quando recorda do fato, Jomeri diz que recorreu ao dicionário para traduzir do que o padre havia nos classificado.
E chegou o dia do grande desfile.
Era minha quinta participação na festa defendendo o Salesiano, Mas como integrante da banda era a primeira vez. Uma despedida de gala, uma vez que no ano vindouro estaria me transferindo para o Selesiano do Recife.
SaÃmos do colégio e nos concentramos na Rua das Tamarinas. Lá chegavam as notÃcias das apresentações dos outros colégios. SabÃamos que bandas espetaculares de educandários e outras cidades pernambucanas e paraibanas haviam dado seus shows. Nossa responsabilidade aumentava. QuerÃamos ser os melhores para corresponder a toda expectativa criada na cidade, e a confiança dos padres que investiram acatando nossos pleitos.
Iniciamos nosso desfile, e quando chegamos a Praça São José, passando defronte ao prédio da Prefeitura Municipal a adrenalina começou a subir. O Salesiano era o último colégio a se apresentar. Quando alcançamos o cruzamento da linha férrea, elevado que nos dava uma visão panorâmica de todo o pátio repleto de gente, fomos tomados por uma sensação de combate. A turma da frente, com os bombos de fuzileiros no peito, cruzavam as baquetas, e mantinham um dos braços firmes numa espécie de abre alas gestual. O mestre Nilson e Toinho Bocão apresentavam o melhor do nosso repertório. O taró de Jomeri, com rufados mágicos, parecia executar a mais divina das sinfonias. E sob a batuta desses três a super banda se apresentou impecável.
Nosso foco era tamanho que mal dava para perceber o palanque. Na volta para o colégio, o publico seguia o Salesiano. Aquela aprovação popular era a certeza do dever cumprido.
Na chegada ao colégio, risos e abraços serviam de afagos para braços e mãos machucados; lábios feridos, sangrando. Nada daquelas avarias importava. Afinal, todos nós darÃamos tudo para vivenciar novamente as emoções com a super banda.
O 11 de setembro de 1967 foi um dos dias mais felizes de minha vida. .
CLAUDEMIR GOMES
O mestre, Arthur Carvalho, um dos membros da Academia Pernambucana de Letras, no seu artigo - A sirene da ambulância - publicado na edição desta quarta-feira, do Jornal do Commercio, nos lembra o romantismo e a importância do apito do trem.
A malha ferroviária conta a história do nosso PaÃs. De forma equivocada, ao longo dos anos, foi preterida em prol do transporte rodoviário. Quem vivenciou um pouco daquele romantismo jamais esquece o quanto marcante era aquele apito de chegada, e de partida, tão bem traduzido pelo compositor/cantor, LuÃs Vieira, na música: Maria Filó.
"Coisa esquisita é trem/ quando sai de uma cidade/ pra uns ele leva alegria/ pra outros ele deixa saudade..."
E era assim que aquele Gigante de Ferro cortava a bucólica Carpina. O apito da Maria Fumaça, por muitos anos, anunciava a chegada do principal meio de transporte, através do qual as riquezas do campo escoavam: algodão, cana-de-açúcar, o sal vindo de Mossoró, o açúcar...
Carpina era um ponto estratégico na geografia da região. Ponto de bifurcação: havia uma estrada de ferro que seguia para Limoeiro e adjacências e outra que levava até o Sertão da ParaÃba. Portanto, naquela estratégica estação as paradas eram mais demoradas para abastecer a Maria Fumaça (locomotivas), que funcionavam a vapor. Existia uma enorme caixa d'água e uma reserva de lenha considerável a espera das negras locomotivas que depois foram substituÃdas por modernas e imponentes máquinas vermelhas movidas a óleo diesel.
O trem sempre despertava nossa curiosidade. Os comboios de carga nos chamavam a atenção: tinha composição com mais de 20 vagões puxados por duas locomotivas. Mas o que fazia mesmo a festa da meninada eram as cambiteiras. O trem passava defronte da minha casa, na rua Frei Caneca. Quando parava, carregado de cana, subia nos vagões e ficava procurando as melhores canas. A época não se queimava o canavial para cortar a cana, fato que deixava o fruto suculento. Cana caiana, papo roxo ou 3Xs - essas eram as preferidas.
Quando completei 12 anos, recebi do meu pai um radinho de pilha Crown, para acompanhar as transmissões dos jogos. Todas as noites eu dormia com o rádio sintonizado na Rádio Difusora de Limoeiro, ouvindo o programa "Trenzinho do Bastião", cuja música de fundo era Maria Filó, do grande LuÃs Vieira. Ouvia aquela música e dava asas a imaginação.
Aos sábados tinha o trem Recife-Souza. Um trem de passageiro que passava em Carpina às 12h. Sua chegada, e sua partida, era a tradução fiel da letra de Maria Filó. Certa vez - eu e minha mães - fizemos a viagem Carpina-João Pessoa. Quando chegamos à Capital Paraibana já havia passado das 18h. Durante aquela cansativa viagem descobri o verdadeiro significado da chegada e da partida de um trem numa cidade. O valor daquele apito que era a alegria da chegada e a tristeza da partida.
Quando a estrada ferroviária de Limoeiro foi desativada a sensação foi de uma mutilação na geografia da cidade. O mesmo sentimento de quando aterraram o girador, equipamento que servia para mudar a direção das locomotivas. O girador de Carpina foi construÃdo dentro de um fosso, quando chovia forte se transformava numa "piscina", que era explorada pelos meninos mais afoitos das ruas próximas do equipamento.
Quando conversávamos com os funcionários da RFFSA eles sempre nos alertavam para o fato de que, os acidentes ferroviários eram provocados pela imprudência dos outros, e nunca dos condutores dos Gigantes de Aço.
Dois acontecimentos enlutaram Carpina: A colisão entre o trem de passageiro que ira para Souza/PB com um caminhão carregado de feirantes, resultando na morte de mais de dez pessoas e dezenas de feridos, no inÃcio de uma tarde de sábado. A cidade viveu um final de semana fúnebre.
A outra foi a morte de Dr. Aranha de Moura, o médico mais renomado e querido da cidade. Se existe tragédia idiota, aquele foi uma delas. Ele foi atravessar a linha férrea defronte sua casa quando o carro estancou. Ele desceu para empurrar quando a locomotiva bateu e carro e saiu arrastando. Quem presenciou o acidente afirma que, se tivesse continuado sentado dentro do carro, Dr. Aranha teria saÃdo ileso. O episódio abalou Carpina.
Hoje ninguém mais lembra daquele apito do trem, que enchia nossos corações de alegria e deixava nossa bocas adoçadas com a cana caiana.
O último apito foi de despedida. Ficou a saudade.
CLAUDEMIR GOMES
Não tem sido fácil preencher o tempo nesta travessia pandêmica. Por maior que seja o esforço para ocupar a mente, sempre sobra espaço. Como o futebol sempre foi para mim o maior dos entretenimentos, tenho seguido o norte da bola, que se movimenta pelos quatro cantos do mundo.
Dentre as muitas releituras, me delicio com um texto enviado pelo amigo, Xico Bizerra, poeta, compositor e amante do futebol. Xico é metade cearense e todo pernambucano. Pois bem! Nesta crônica ele narra um encontro fictÃcio com o craque Ademir Menezes. Uma coisa espetacular que brotou no imaginário de um cara que tem uma mente iluminada.
Lembrei de outro cearense, da mesma região de Xico, o comunicador, Waldir Bezerra, cujo grande Ãdolo, que ainda hoje ele cultua, foi um jogador de 1,6 metro chamado Chico Curto, que em sua opinião, "era melhor que Zico".
Quem gosta de futebol tem em mente, escalado, o time dos seus sonhos. Confesso que "minha seleção" foi toda formada por jogadores do Santa Cruz de Carpina. Talentos que desfilaram nas décadas de 60 e 70.
O Santa Cruz de Carpina foi fundado no dia 15 de novembro de 1954, quando eu tinha dois anos de idade. No inÃcio dos anos 60 meu pai - Jaime Gomes - me levou, pela primeira vez, para ir assistir a um jogo de futebol. Local: Campo do Enchimento de João Vermelho. Nossa arquibancada improvisada foi a carroceria de um caminhão.
A descoberta do mundo da bola foi um encantamento. A convivência com os primeiros Ãdolos era uma coisa de louco. Nos anos 60, pouco tempo depois da chegada da energia elétrica gerada em Paulo Afonso, começaram a chegar os primeiros aparelhos de televisão em Carpina. Aos domingos, se reuniam: meu pai, Mário de Pirulito e os irmãos, Humberto e LuÃs Doidinho, estes três, jogadores, titulares absolutos do Santa Cruz. Depois de vermos jogos de Flamengo, Santos, Botafogo, Palmeiras, Ãamos para a o campo do Colonial, outro clube de futebol da cidade que cedia o equipamento para o time tricolor.
Mais que o jogo jogado, toda aquela áurea me deixava deslumbrado: o campo não tinha bilheteria, a arrecadação era feita com o pavilhão do time que ia passando e as pessoas doavam o que podiam, e o que queriam. Sorvete raspa-raspa, amendoim e rolete de cana fazia parte do cardápio engana-menino.
A época, até o presidente do clube, seu Totonho, era meu Ãdolo. Foi o primeiro dirigente que conheci. Ele sabia valorizar o cargo. O Santa Cruz conseguiu montar um time que passou a ser o terror da região, fato que apimentou a rivalidade com o Colonial, que tinha as cores rubro-negras do Sport. Foi quando o Tricolor migrou para o campo da pista, também de chão batido, sem muro e sem alambrado.
Na região - Mata Norte do Estado - só se falava em dois times: o Centro Limoeirense, que estava disputando a Primeira Divisão do Pernambucano, e o Santa Cruz de Carpina, que reinava absoluto entre os amadores. Foram duas décadas de boas safras de atletas.
O Tricolor Carpinense emplacou uma série invicta que entrou para história e fez com que toda a cidade vestisse sua camisa. Os jogos do Santa Cruz se tornaram a alegria das tardes dos domingos na cidade-planalto. E o clube ganhou um terreno para construir o seu estádio: Estádio Oswaldo Freire. O crescimento passou a ser observado através do patrimônio: um estádio com muro, alambrado, vestiários e cabines de radio.
Severino Araújo, comerciante do ramo eletrônico, formou uma equipe esportiva para transmitir os jogos do Santa Cruz. A Rádio Planalto, logo após o programada dos cantadores/repentistas, tinha na sua grade, um programa esportivo com foco no Santinha. O clube das três cores era o orgulho maior da cidade no seguimento esportivo.
Não recordo todos os nomes, mas esses marcaram época:
GOLEIROS - Albino, Alfredo, Henrique, Lula, Jairo e Oséas (Cego).
DEFENSORES: Pádua, Teobaldo, Marquinhos Pirulito, Paulo da Jóia, Zeca, Goió, Dindo, Zeca Buchudo, Edvaldo (Preá), Luisinho, Expedito e Carlos Botelho.
APOIADORES: Severino Aureliano (Siri), LuÃs Doidinho, Zé Leite, Pelado, Fia, Jorge Lapa, Walmir (Mimi), Carlos Lapa e Humberto.
ATACANTES: Mário Pirulito, Fernando Monteiro, Nena, Romero, Wilson Brito, Edvilson (Goiaba), Déda, Arlindo, Agápito, Vavá, MaurÃcio e Djalma Barrão.
Nessas gerações, apenas um craque: Humberto. O camisa 8 do Santa Cruz de Carpina era gênio. Os outros, reconhecidamente bons talentos, se esforçavam para acompanhar o raciocÃnio do gênio, que nos dias atuais seria titular em qualquer um dos três grandes clubes do Recife: Sport, Náutico ou Santa Cruz.
à estranho não citar Rinaldo, ponteiro esquerdo que chegou a Seleção Brasileira, mas sua passagem pelo Santa Cruz foi rápida, logo se transferiu para o Náutico e no ano de 1963 foi para o Palmeiras, numa permuta por Ivan Brondi. Nos anos 60, vários jogadores do Tricolor Carpinense foram defender o Náutico: Lula (goleiro), Zé Leite (volante), Edvaldo (lateral esquerdo), Jairo (goleiro), Wilson Brito (ponteiro esquerdo) e anos depois, Walmir (meia esquerda).
Qualquer um que arrisque escalar o melhor time do Santa Cruz de todos os tempos irá buscar a formação no grupo acima mencionado. Fiquei em dúvida sobre os camisas 10 e 9.
Carlos Lapa ou Walmir? Lapa jogava para se divertir. Para ele o drible era tão prazeroso quanto o gol. Era debochado. Driblava e sai rindo do adversário. Walmir era mais completo em outros fundamentos: corria todo o campo, tinha uma disciplina tática invejável e consciência coletiva.
Mário Pirulito ou Fernando Monteiro? Fernando era mais técnico, se movimentava melhor e era mais eficiente no jogo aéreo. Mário tinha um melhor posicionamento dentro da área e jogava melhor de costa para os zagueiros. Era um centroavante mais letal, até porque o seu entrosamento com Humberto era perfeito.
Entre os treinadores podemos destacar: seu Lobato, Severino Aureliano, Gil Guedes e Reni Teixeira.
Ah! Citei seu Totonho como uma referência na história do Santa Cruz de Carpina, mas existem dois pilares que jamais serão esquecidos: Reni Teixeira (jogador, treinador e presidente) e Nereu, que trabalhava na Usina Petribú. Nunca quis ser presidente, mas fez pelo clube tanto quanto todos que passaram pelo cargo, ou mais.
O SANTA DE TODOS OS TEMPOS: Jairo; Expedito, Dindo, Goió e Preá; Zé Leite, Walmir e Humberto; Arlindo, Mário Pirulito e Wilson Brito. Técnico: Reni Teixeira.