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ONIPRESENÇA
postado em 14 de julho de 2020

CLAUDEMIR GOMES

 

As tribos se agitaram!

Sinais de fumaça no alto do Monte dos Guararapes anunciam que a bola vai rolar a partir do próximo domingo. A paralisação do futebol por mais de cem dias, imposta pela pandemia do covid-19, deixou tricolores, rubro-negros e alvirrubros ansiosos, inquietos, indóceis até. É como se tivesse subtraído parte da alegria de viver de cada um. Afinal, paixão futebolística é amor que não se mede.

E tudo vai entrando no novo normal com vícios, manias, erros e acertos como antes do início da travessia pandêmica. Os jogos serão sem torcida nos estádios e todo o expediente marcado por protocolos. Mas a essência do esporte que embriaga multidões segue a mesma.

Desde sempre o calendário é um dos maiores desafios para os clubes brasileiros. Em condições de vida normal é difícil ajustar as datas de tantas competições disputadas em paralelo, imagina numa temporada da qual foram subtraídos quatro meses. Coisa de louco.

Nos dez últimos dias de julho, e nos dez primeiros dias de agosto, as porteiras serão abertas no futebol brasileiro. Competições serão reiniciadas, e muitas outras iniciadas, fato que irá impor a alguns clubes verdadeiras maratonas. E logo, logo estaremos ouvindo os analistas e dirigentes reclamando de "overdose" de futebol. Coisas do futebol brasileiro! Diria o saudoso Edvaldo Moraes.

De saída teremos um desafio sobre-humano para os grandes do futebol pernambucano: Sport, Náutico e Santa Cruz, que almejam os títulos do Pernambucano e da Copa do Nordeste. Não é fácil conseguir a façanha de ser campeão das duas competições, mas é uma tarefa exequível. O desafio maior deste ano é a onipresença.

A Copa do Nordeste será disputada no período de 21 de julho a 4 de agosto, com todas as partidas sendo realizadas na Bahia. Paralelamente, no período de 19 de julho a 5 de agosto, em solo pernambucano, teremos as disputas das rodadas finais do Estadual. Para chegarem a final dos dois torneios, tricolores, rubro-negros e alvirrubros teriam que disputar 10 jogos, cada um, no curto espaço de 17 dias. Como as partidas serão realizadas lá e cá, haverá o desgaste das viagens para dificultar este "teorema de um calendário maluco".

Evidente que, apenas um, ou nenhum, chegará a condição de finalista nas duas disputas. Mas é preciso analisar todas as possibilidades. O desafio é para todos os clubes envolvidos nas rodadas finais da competição regional e que também estejam disputando as finais em seus respectivos Estados.

A verdade é que o aperto no calendário levou tudo, e a todos, a situações de emergência. As dificuldades aumentarão quando a bolar rolar: lesões provocadas pela carência de um melhor condicionamento físico... Quem tiver elencos mais restritos sofrerá mais, evidentemente.

Apesar dos pesares, com todas as dificuldades, as tribos, mesmo sem saírem as ruas, estão em festa com a possibilidade da comemoração de títulos. Chutões, erros de passes, furadas, bolas nas cotas, gols frangos... Nada disso vai importar. Sigamos sem sofrimento! Essa é a ordem.

Se Náutico, Sport ou Santa Cruz, um dos três, conseguir operar o milagre da onipresença. Aí será o céu!

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Futebol Brasileiro
Corridas por títulos
postado em 10 de julho de 2020

CLAUDEMIR GOMES

 

Começou a contagem regressiva para o reinício das competições de futebol no Brasil, muito embora, no Campeonato Carioca, de forma açodada e atabalhoada, já tenha havido até decisão de taça. Na segunda quinzena de julho, precisamente nos dias 19 e 21, teremos o recomeço do Campeonato Pernambucano e da Copa do Nordeste. Em agosto teremos o início do Campeonato Brasileiro: Séries A e B. O Brasileiro 2020 - em todas as séries: A, B, C e D -  só será concluído no início de 2021.

Ninguém, nunca, jamais imaginou uma paralisação de quatro meses no futebol. As consequências? Veremos como a bola rolar. De uma coisa temos certeza: o nível técnico dos jogos finais do Estadual, e da competição regional, será baixíssimo. O que em anos anteriores foi considerado "sofrível" deverá ser classificado como "péssimo". É a resultante da falta de condicionamento físico e técnico. São muitos os efeitos colaterais provocados pelo prolongado hiato, principalmente para os goleiros. Constamos isto no retorno de várias competições européias.

Bom! Como diria Bartolomeu Fernando, excelente narrador da Rádio Clube, um dos melhores do futebol brasileiro: "Chegou à hora de ver quem tem garrafa para vender". É que no curto espaço de 20 dias conheceremos dois campeões: o do Nordeste e o Pernambucano. É disso que o povão gosta, de título, de jogos decisivos. O nível técnico não serve de registro para a história.

"Sigamos sem sofrimento!", sugere o rubro-negro, Humberto Araújo, na certeza de que, tecnicamente, os confrontos serão de uma pobreza técnica inimaginável. As disputas serão salvas pela rivalidade, que normalmente provoca a busca da superação. Os jogos sem público nos estádios são atestados de uma temporada destruída pelo covid-19.

Mais adiante vamos dizer: nos estádios, ninguém viu, ninguém brincou, mas teve campeão. E o torcedor vai colocar sua faixa de campeão virtual no peito, fazer sua comemoração home Office e liberar o grito de: É CAMPEÃO! Eis o protocolo do novo normal.

Esquisito?

Põe esquisito nisso. Festa de campeão começa no estádio, naquele abraço espontâneo no desconhecido que está ao seu lado compartilhando daquela alegria que aproxima. Depois ganhas às ruas, invade a sede do clube, e em algumas explosões até o banho de piscina enriquece o cenário.

Um final que leva os torcedores a esquecerem os meios. Afinal, os times nordestinos só podem sonhar com títulos regionais e estaduais. Este é o tamanho da região. Conquistas nacionais são pontuais. Nas divisões principais - Séries A e B - diria que, nos dias atuais são sonhos impossíveis. O mesmo podemos afirmar em relação à Copa do Brasil.

A realidade explica, e justifica a importância dos títulos que estão por vir: Campeão Pernambucano e Campeão do Nordeste.

Apesar dos pesares, a escassez de datas, por ironia, acaba proporcionando uma excelente oportunidade de se alinhar o calendário brasileiro com o europeu.

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Artigos
Tempo de apelidos
postado em 08 de julho de 2020

CLAUDEMIR GOMES

 

Em tempo de pandemia as lembranças vêm à tona. São inevitáveis viagens ao passado. Atendo o telefone e, do outro lado, um amigo tenta se identificar: "É Zenivaldo Buarque". Apesar do esforço segui sem saber com quem estava falando. Ele percebeu e foi direto: "É Xôxo cara!". Batemos um bom papo e começamos a relembrar os apelidos dos amigos carpinenses.

Eis um tema complexo: apelido. Alguns se sobrepõem aos nomes. Quando nasci, meu tio Ramilton, irmão da minha mãe, tomou todas as que tinha direito para comemorar a chegada do sobrinho e foi fazer a visita. Quando me viu exclamou com a sinceridade que a cachaça permitia: "Que menino feio!". De imediato uma tia/avó retrucou: "Nada disso, ele é um MIMO". Pronto! Eis o meu "batismo". Durante toda minha infância e juventude, ninguém em Carpina me chamava pelo nome - Claudemir. Todos me tratavam por Mimo.

Antônio Coelho sempre foi chamado de Lebre e Antônio Cysneiros era conhecido por toda a cidade como Pirulito. Conheço Xôxo há mais de 50 anos, e somente agora descobri que seu nome é Zenivaldo. Seu irmão não é outro senão, Maleta (Mano Maleta).

Uma das figuras mais populares da cidade se chamava Papata. Vivia perambulando pela praça de carro. Sua medida era uma garrafa de aguardente por dia. Estava sempre armado com uma faca peixeira. Se dizia pistoleiro. Chegou em Carpina com o objetivo de matar um cidadão. Recebeu uma oferta maior e abortou a missão. O Papata era a forma errada de chamar Zapata, lendário bandido mexicano.

Nos anos 60 e 70 ninguém falava em bullying. Isso facilitava para que os apelidos aflorassem. Se o cara usava óculos de grau logo era chamado de "burra cega"; se tivesse cabelo vermelho era "batizado" como formiga de roça. Teve sardas, o apelido de ferrugem lhe cabia bem. Na cidade, 90% dos habitantes tinha nome e apelido.

Com facilidade se escalava o time do Santa Cruz: Cego; Zeca Buchudo, Dindo, Goió e Preá; Luís Doidinho, Pelado e Mimi; Cachorra Preta, Barrão e Goiaba. O técnico era Siri.

Alguns apelidos pegavam por conta dos erros de português: cara véia (velha); João da Poica(porca), um sujeito super discreto, que uma vez foi ameaçado pelo afoito Mineco, que arrumava uma briga quase que diariamente. Nesse dia o "valente" Mineco levou uma camada de pau de João da Poica que viu estrela.

Cabrinha, Pimenta, Chato, Júlio Macaco, Zé do Mudo, Rapa Coco, João do Ovo, Mineirinho, Fuzil, Thanks, Costela de Vaca, João Mamão; Bode Rouco; Rui das Cabras, Tapioca, João do Bode, Sibito, Piratinha, Chico da Foice, Chico perna de pau, Pitoco, Carlos Macaco, Pitaco, Coxinha, João Grilo, Chaveirinho, Popopô, Gato de Bota, Gago da Jóia, Zé do Alcool....

Quando adultos, muitos dos apelidos caiam diante do sucesso das pessoas como profissionais liberais e homens públicos. Mas alguns se perpetuaram por conta da reação do dito cujo.

Um dos apelidos que provocava maior alvoroço era o de Dr. Satã. Ele já tinha um apelido que funcionava como nome próprio: Seu Biu. Um homem negro, gentil, bem humorado, que passou grande parte de sua vida como servidor do Clube Lenhadores. Pois bem! Quando lhes chamavam se Dr. Satã, aquele cidadão calmo liberava a fera que existia dentro dele.

Os mais atrevidos ficavam observando ele fazer a limpeza no clube. Quando ele estava no palco, bem distante da porta de entrada, gritavam: Dr. Satã!!!  De imediato seu Biu saia correndo na tentativa de pegar quem lhe havia insultado.

Outro que armava o circo era Bobô. Quando passava no seu Ford da década de 50 e alguém gritava: Bobô!!! Ele parava o carro e saia para tomar satisfação.

Carpina da minha juventude não tinha a "Lei do Politicamente Correto". Ninguém falava em homossexual. Quando a gente queria xingar o outro numa pelada, ia direto: fresco, viado, bicha... ou então recorria a um apelido que deixasse o outro zangado. O máximo que acontecia era uma troca de tapas, o popular: ensaio de rabo.

E o "velho" Xôxo me levou a rever os apelidos dos amigos. Tempo bom!

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Acontece
Comemorações no novo normal
postado em 06 de julho de 2020

CLAUDEMIR GOMES

 

O final de semana nos deu uma mostra clara sobre o novo normal no desporto. Assistimos a vários jogos dos campeonatos europeus, vimos o Bayern de Munique, um dos melhores conjuntos, na atualidade, do futebol mundial ser campeão da Copa da Alemanha, e assistimos a abertura do Mundial de Fórmula Um, com a realização do GP da Áustria. A categoria voltou às atividades após um hiato de 217 dias.

Aqui no Brasil a única competição de que temos conhecimento é do atabalhoado reinício do Campeonato Carioca.

O novo normal tem como regra a frieza. As competições são disputadas sem público, fato que tira, e muito, a graça de qualquer esporte. As mudanças nas regras das disputas são mínimas. Diria que são ajustes aos protocolos criados visando medidas de segurança nesta guerra contra o coronavírus. Guerra que, apesar dos esforços, tem sido inglória para a sociedade, até o momento.

Na Fórmula Um, os gritos do hexacampeão Lewis Hamilton, na luta contra o preconceito, ecoaram de forma positiva. Sua equipe, a Mercedes, trocou a cor prata pelo preto de luto. Hamilton é o único negro no circo da Fórmula Um. Seu comportamento e declarações, antes mesmo dos motores começarem a roncar, provocaram uma reflexão no meio da categoria top do automobilismo mundial. Fala-se, inclusive, na criação de meios que venham provocar uma miscigenação no circo onde um dos maiores campeões é um estranho no ninho. Caso o projeto seja posto em prática, esta será uma das maiores vitórias de Hamilton, que surpreendeu a todos ao participar de algumas manifestações contra o racismo nas ruas de Londres.

A frieza de um circuito deserto maltrata os amantes do automobilismo. O pódio montado na pista, ao final da corrida, foi a nota mais cruel. A invasão do público no pós corrida, para interagir com a festa dos campeões do pódio é a coroação do espetáculo. No novo pódio até a abertura do champanhe ficou sem graça.

Não menos esquisito foi ver os jogadores do Bayern de Munique comemorar o título da Copa da Alemanha com o histórico e emblemático Estádio Olímpico de Berlim sem público. Os atletas sequer foram coroados, ou seja, cada um pegava a medalha na caixa e colocava, ou não, no seu próprio pescoço. Não houve o característico beijo na taça, e os pulos de alegria não foram respaldados pelos tradicionais gritos de É CAMPEÃO, que emanam das arquibancadas.

Festa de campeão no novo normal é o famoso: Me engana que eu gosto!

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Fiapo de alegria
postado em 02 de julho de 2020

CLAUDEMIR GOMES

 

O jurista, João Humberto Martorelli, indaga, no seu artigo - A tristeza - publicado na edição desta quinta-feira, do Jornal do Commercio: "Quando será o momento de parar de contabilizar as perdas?". Apesar de boas novas alimentarem o otimismo em relação ao iminente surgimento de vacinas, para combater o covid-19, ninguém faz idéia de quando terminará a conta macabra.

O momento é de inquietação em todos os setores da sociedade. Na vida privada as pessoas dão mostras de que estão chegando ao limite da tolerância em relação a clausura imposta pela pandemia. Um tédio generalizado. A boa música acalma o espírito, mas não podemos viver num mundo de fantasias, embora a imaginação seja a coisa mais maravilhosa em tempos de confinamento.

Ligo o rádio em busca de notícias sobre o futebol local. A incerteza impera num cenário onde as perdas são reais. O embate entre a razão e a emoção parece se agigantar. Uma disputa onde se contabiliza apenas perdas.

É preciso dar sequência, e concluir, a Copa do Nordeste e os Estaduais. Afinal, o início do Brasileiro está previsto para o início do mês de agosto. A emoção pede pra bola rolar já. A razão impõe um pouco mais de precaução diante dos atuais números da pandemia.

Bom! Pelo sim, ou pelo não, sabemos que vamos vivenciar momentos inusitados: comemorações de títulos sem torcedores nos estádios. Evidente que comemorações acontecerão, de forma contida, em pequenos grupos, ou, quem sabe, numa grande concentração, como aconteceu na Inglaterra, há poucos dias, quando o Liverpool se sagrou campeão após uma espera de 30 anos.

Não existe protocolo para conter explosão de alegria. A alegria de um título jamais será castigada. O covid-19 vai ter que abrir alas para os campeões festejarem.

Tenho visto muitos jogos - campeonatos alemão, português, espanhol, inglês - todos com estádios vazios, fato que já tira 50% da graça do futebol. O cardápio é de qualidade. Isto é fato. Mas falta o tempero doméstico. O condimento da gréia, da gozação, coisas que encontramos na rivalidade caseira. Sabemos que, quando a bola voltar a rolar no Pernambucano e na Copa do Nordeste, não vamos ver os craques que desfilam nos campeonatos europeus, mas assistiremos jogos sem a indiferença pelo resultado. Estaremos torcendo por um vencedor. E quando a partida acabar, será inevitável aquele telefonema, ou mesmo uma mensagem pelo whatzapp, para o amigo que veste a camisa do outro time. Afinal, o futebol é muito mais vivido fora, do que dentro das quatro linhas.

Após uma paralisação de quatro meses fica difícil apostar em quem será o campeão pernambucano e o campeão da Copa do Nordeste. Seja qual clube for, que sua torcida aproveite até a exaustão, este fiapo de alegria.   

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