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Maio 2012 ›› CLAUDEMIR GOMES
Entre a noite do Oriente, e o dia do Ocidente, existirá sempre a barreira do sono. São linhas paralelas que nunca se cruzam. Eis a razão pela qual não foi fácil acompanhar, em tempo real, as OlimpÃadas de Tóquio, cuja cerimônia de encerramento aconteceu na manhã deste domingo (do lado de cá), e a noite (do lado de lá).
A abertura, e o epÃlogo, de todas as edições dos Jogos OlÃmpicos são sempre marcantes, mas as OlimpÃadas de Tóquio entra para a história com as marcas da inclusão, da igualdade, fato que as tornou mais humana. Nada mais real, e efetivo, para traduzir a proposta dos Jogos realizados durante uma travessia pandêmica, do que o pódio das duas maratonas, feminina e masculina, formado no capÃtulo final. A maratona é o ponto alto dos Jogos OlÃmpicos da Era Moderna. No pódio feminino, duas atletas negras do Quênia e uma branca, dos Estados Unidos. No pódio masculino, três atletas negros, mas dois com passaportes de imigrantes, representando a Bélgica e a Holanda. O medalha de ouro foi do Quênia.
A pira olÃmpica foi acesa por uma mulher; o percentual de mulheres atletas em Tóquio foi fantástico; as saudações a França, próximo paÃs a sediar os Jogos, foram marcadas pela presença feminina, cantora, regente de orquestra, enfim, as OlimpÃadas deixam Tóquio mais humanizada, menos preconceituosa.
Os atletas olÃmpicos são gigantes, mas até entre eles existem os "deuses" como Usain Bolt e Maicon Phelps, que não competiram no Japão e deixaram todos os outros atletas com a certeza da igualdade. Os "extraterrestres", como Simone Biles, atleta que desembarcou em Tóquio sob pressão para conquistar seis medalhas de ouro, também são humanos, são iguais. E o mundo foi solidário ao grito de "basta", dado pela atleta que adoeceu por ter sido tratada como máquina programada para bater recordes.
O contraditório foi a marca mais expressiva registrada nos Jogos de Tóquio. Nas disputas, os atletas numa busca incessante pela superação, que podia ser através da marca pessoal; da conquista de medalhas até a quebra de recordes olÃmpico ou mundial. Para um atleta olÃmpico não existe limites. Por outro lado, na esfera comportamental, a competição foi marcada pela imposição de limites. Não ao preconceito, a discriminação, e a tudo que vai de encontro a igualdade das raças, dos seres humanos.
E sem a integração dos povos nas ruas, sem a alegria das arquibancadas nas arenas e nos estádios, o mundo ouviu melhor o brado dos atletas. Uma Cuba abraçada por várias bandeiras; a solidariedade das nações adotando imigrantes; uma gigante venezuelana batendo recorde olÃmpico e mundial na conquista do ouro no salto triplo; o charme da mulata Rebeca no seu baile sedutor com o brilho da prata; uma israelita quebrando a hegemonia russa na ginástica rÃtmica; as pequenas japoneses conquistando medalha de prata no basquete feminino; assistiram a chegada do skate, que deixa as ruas para receber o referendo de esporte olÃmpico; viram a natureza mudar o curso da história nas disputas do surf.
As OlimpÃadas de Tóquio foram realmente humanas.
Elas até nos levaram a descobrir um Brasil Caboclo, que luta como gigante nas comunidades, superando as dificuldades do dia a dia, mas que vale prata, ouro ou bronze. Afinal, nosso PaÃs sempre foi rico em minérios.
O anoitecer em Tóquio brindará os japoneses com o sono dos justos. Oxalá, o despertar no Brasil leve nossos polÃticos a enxergarem que, nosso PaÃs clama por uma polÃtica desportiva. Não podemos viver eternamente esperando a magia de uma fadinha e os milagres da periferia.
CLAUDEMIR GOMES
A iminência de ser rebaixado para a Série D do Campeonato Brasileiro deixou o torcedor do Santa Cruz em pavorosa. Sob pressão, o clube não conseguiu retomar o crescimento, se apequenou e atingiu um estado de insolvência ao não entrar em sintonia com o novo tempo. Nas duas primeiras décadas do Século XXI, o Tricolor do Arruda passou de passagem pela Série A duas vezes, e logo se viu em queda livre, numa prova inconteste da incapacidade dos gestores que se perderam nos paliativos.
Carlos Alberto Oliveira, ex-presidente da FPF, gostava de uma metáfora. Certa vez, ao analisar o momento dos três grandes clubes do Recife, foi enfático: "O Santa Cruz está se esgarçando". Roupa que se esgarça dificilmente se conserta.
A briga dos tricolores, com os próprios tricolores, manteve o clube no século passado. A discussão de idéias, que poderia ter sido salutar, caso o crescimento do clube estivesse em primeiro lugar, foi transformada em brigas pessoais que ganharam ramificações e corroeram uma das maiores estruturas socioesportiva do Nordeste, construÃda num perÃodo onde a unidade foi transformada numa força motriz para alavancar o crescimento da agremiação mais popular do Estado.
Com um patrimônio humano de causar inveja, uma das torcidas mais fieis do futebol brasileiro, cujo comportamento foi elogiada pela mÃdia internacional, num momento de dificuldade na história do clube, os gestores que estiveram a frente do Santa Cruz, não conseguiram potencializar este "exército" que daria sustentação aos esporádicos "saltos" dados pelo Clube do Povo.
A hora é de unir esforços!
Eis a palavra de ordem dada pelos "salvadores da pátria". As ações: formar um conselho consultivo com os ex-presidentes; levar um padre para benzer todas as dependências do clube com o intuito de afastar as mazelas... Retrocesso! Esta a melhor tradução para essas e outras pérolas que emergiram recentemente no Arruda.
Não vamos nos deter na vexatória campanha que o time vem descrevendo na Série C, onde disputou dez partidas e não contabilizou uma vitória sequer. Os números do futebol são o legado deixado por inúmeras gestões desastrosas.
Qual o último bom jogador revelado pelo Santa Cruz?
Este é o ponto de partida para se avaliar as inúmeras gestões de um clube cuja vocação é ser formador. Como formar se não havia sequer lugar para treinar? O CT que está sendo construÃdo em Aldeia é fruto da insistência e perseverança de um abnegado chamado, João Caixero de Vasconcelos, que apesar da rica folha de serviços prestados ao Santa Cruz, foi execrado por neófitos que desconhecem a história do Clube das Multidões.
O Santa Cruz precisa de um projeto exequÃvel, que tenha princÃpio, meio e fim. Ficar explorando a boa vontade de empresários para pagamentos de folhas e bichos não é solução de problema. à sim, uma gambiarra que se acende para uma festa, mas que não tira o clube da escuridão em que está mergulhado.
O vai e vem de treinadores e jogadores, fato que provocou um inquestionável ciclo vicioso nas Repúblicas Independentes do Arruda, é outro sinal da incompetência de um pelotão de dirigentes que por anos chamou o clube de seu.
Quando o pano se esgarça, não adianta remendo. O conserto tem que ser feito por um bom cerzidor.
Procura-se!
CLAUDEMIR GOMES
Apesar de a pandemia tornar os dias iguais, a segunda-feira - 26/07/2020 - foi um ponto fora da curva, para nós brasileiros, que ficamos em estado de graça com a conquista da Medalha de Prata, por uma menina de 13 anos, Rayssa Leal, na prova de skate feminino, nas OlimpÃadas de Tóquio.
Um sol causticante no inÃcio da tarde, no PaÃs do Sol Nascente, contrastava com a fria madrugada brasileira. O relógio mostrava que a primeira hora do dia passou despercebida. Com os olhos vidrados na televisão, fiquei sem saber o que era mais forte em mim: a torcida pelo sucesso daquela menina de sorriso fácil, que trata o skate como um esporte lúdico, ou o prazer de ver suas concorrentes serem derrotadas pelos imóveis obstáculos, e caÃrem junto com seus sonhos. Nunca o bem e o mal haviam travado luta tão renhida nos meus pensamentos.
Rayssa Leal é chamada de "A Fadinha". Pois bem, a cada acerto seu era como se uma varinha mágica transportasse milhões de brasileiros para um mundo de sonhos. Não estou me referindo aos 8,5 milhões de skatistas existentes no nosso PaÃs. Falo da população geral: 200 milhões de pessoas. Isso porque, quem não dormia naquele momento, estava como eu, com os olhos pregados na televisão, sentindo uma emoção inimaginável durante uma travessia pandêmica.
O bem e mal se digladiavam cada vez mais nos meus pensamentos. Na última passagem pelos obstáculos, a brasileirinha disputava as medalhas com duas japonesas. Nossa Fadinha, livre, leve e solta, contrastava com as duas juvenis nipônicas, exemplos de disciplina e sisudez. A conquista de uma medalha já era realidade para Rayssa. Faltava definir o minério: prata ou bronze. A brasileira cometeu um erro.
Nada a reclamar!
Falei pra meus botões.
Afinal, a menina competiu como gente grande, com garra de campeã.
Quando a última japonesa pegou o skate e caminhou para sua derradeira largada, um terrÃvel obsessor se apossou dos meus pensamentos. Confesso que nunca me imaginei tão feliz assistindo a queda de uma atleta. Aconteceu.
Rayssa distribuÃa seu sorriso para deixar a tarde de Tóquio menos sisuda, numa OlimpÃada atÃpica, onde os atletas não dividem o sublime momento do êxtase com os alegres e emocionados torcedores.
Dormi nas asas do sonho de Rayssa Leal, e acordei com um PaÃs diferente. Um mundo criado pela Fadinha.
O skate chegou ao Brasil nos anos 60, do século passado. Veio junto com o jeans, com o som dos Beatles, marcas registradas da juventude. Dizem que a juventude foi criada naquela década. E o mundo virou de ponta cabeça. E nunca mais foi como antes. Aquele brinquedo (skate),cujos primeiros modelos eram feitos com rolamentos, e de forma bem artesanal, conquistou as ruas como produto da nova ordem.
Skate é rua. à liberdade, coragem e desafio. à superação em busca de igualdade. à imposição, conquista e afirmação. à legado dos anos 60. Mágico como a Fadinha, cuja medalha de prata reluziu mais que as toneladas de ouro retiradas de Serra Pelada.
O dia anoiteceu em Tóquio, e amanheceu no Brasil, que do Oiapoque ao Chuà fez ecoar o novo nome do amor: RAYSSA LEAL.
CLAUDEMIR GOMES
Com os Jogos OlÃmpicos acontecendo no Japão, ou seja, do outro lado do mundo, temos que nos adaptar aos horários matinais bastante comuns aos Zés Marmitas, que diariamente trocam cotoveladas nas portas dos metrôs e dos ônibus. Para nós, o exercÃcio de acordar cedo foi apenas um impulso de curiosidade para ver a estréia da Seleção Brasileira de Futebol Feminino, na histórica edição pandêmica das OlimpÃadas.
Nunca valorizei tanto o clichê "Ao Vivo", exposto na parte superior, do lado direito da tela da televisão. Coisa de uma geração que acompanhou a chegada da luz elétrica vinda de Paulo Afonso, e a chegada dos primeiros aparelhos de televisão na sua cidade, no inÃcio da década de 60, no século passado.
Um repórter que fez suas primeiras matérias nas antigas máquinas Remington ou Facit, e utilizou telex, chega à era dos Smartphones valorizando filigranas. à diferente dos jovens que já nasceram com um iphone nas mãos.
Ser testemunha da história tem que ser ao vivo e a cores. Replay tem gosto de café requentado. A emoção está no ineditismo, ficar pressupondo o que pode vir acontecer. E se existe uma coisa difÃcil de prever é a busca dos atletas pela superação.
Oficialmente os Jogos de Tóquio, que acontecem com um ano de atraso por conta da pandemia do COVID-19, serão abertos na sexta-feira, mas em algumas modalidades esportivas as disputas já foram iniciadas. A cada edição, novas modalidades são adicionadas, fato que dificulta o fechamento de uma agenda no espaço de trinta dias.
Bom! Valeu a pena madrugar. As meninas do futebol brasileiro não tomaram conhecimento da China e aplicaram uma goleada de 5x0. Chutaram o nervosismo da estréia e ganharam moral para o próximo jogo, sábado, contra a Holanda. O futebol feminino tem evoluÃdo bastante, mas continuo com aquela sensação de que é preciso preencher melhor os espaços do campo. Aliás, neste sentido o time brasileiro melhorou muito. Barbara, que iniciou sua carreira defendendo o Sport, segue como titular do gol brasileiro. Achei que ela estava acima do peso, mas para apagar meu pensamento maldoso, ela fez uma defesa espetacular, de mão trocada, num chute de longa distância. Se impôs com eficiência e qualidade, calando os analistas maldosos.
Confesso que estou muito curioso em relação a esta edição dos Jogos OlÃmpicos. Um ano representa uma eternidade para um atleta de alto rendimento que já atingiu a casa dos 30 anos. à gratificante ver a turma mais experiente buscando novas marcas, assim como o surgimento de fenômenos que, ao baterem novos recordes provam que os limites estão sempre abertos.
Não sabemos quais os efeitos da ausência de público nos estádios e nas arenas, até onde isto irá impactar no rendimento dos atletas, principalmente nas provas individuais. A impressão que temos, ao assistirmos as disputas olÃmpicas, é que aquela fração de tempo, e de força, necessária para cravar um novo recorde, vem de um sopro da arquibancada.
Se por um lado, os estádios e as arenas de Tóquio estão silenciosas, sem público, nas casas de games eletrônicos deve ser o maior frisson. Afinal, estamos falando da meca dos Geeks.
Estou ansioso para ver a cerimônia de abertura. Naruto e companhia devem vir por aÃ.
CLAUDEMIR GOMES
Contabilizar perdas de amigos não é uma tarefa fácil. Diria até que não é coisa para os fracos. Entristece, deprime. Sabemos que faz parte da vida como ela é, mas a finitude nos assusta por ser inexorável. A primeira notÃcia que recebi nesta terça-feira (20/07/2021), anunciava a morte do amigo, Robson Silva Sampaio. Foi como se uma navalha afiada estivesse cortando minha carne, me mutilando.
Robson é personagem marcante na minha história.
Quando cheguei para trabalhar no Diário de Pernambuco, levado pelo editor geral, a época, Diógenes Brayner, passei a integrar a equipe de esportes capitaneada por Adonias de Moura. Os repórteres: Lenivaldo Aragão, Robson Sampaio, SÃlvio Oliveira, Júlio José, Amaury Valoso e Valdi Coutinho. Na condição de aprendiz, tinha a consciência de que todos tinham muito a me ensinar. O somatório de conhecimentos era fascinante, me instigava, fazia com que eu mergulhasse cada vez mais no fantástico mundo das notÃcias.
Quando Robson Sampaio foi convidado para montar uma equipe de esportes na TV Tupi - hoje TV Clube - de imediato me convidou para ser o repórter e redator do programa que era apresentado por Roberto Nogueira, no qual, ele na condição de editor, fazia um comentário: Telesporte. Nosso camaraman era Cláudio, cujo sobrenome me foge da memória.
A partir daà houve um estreitamento de amizade. Passei a conhecer mais o cidadão Robson Sampaio. Um alagoano zeloso com a famÃlia. Cuidava dos irmãos como se fosse seus filhos. O amor a famÃlia - mulher e filhas - era notório pela forma como se entregava. Ãramos amigos, confidentes confiáveis. E como prêmio fui convidado para ser padrinho de uma de suas filhas.
Quando esteve na condição de correspondente da revista, Manchete Esportiva, me deu a oportunidade de escrever para um veÃculo nacional, a exemplo do que Lenivaldo Aragão fez quando esteve na Revista Placar.
Robson Sampaio foi o responsável pelo meu batismo como repórter. Numa manhã de quarta-feira, ele chegou apressado na televisão e ordenou: "O presidente da FIFA, João Havelange, está chegando as 12 horas no aeroporto dos Guararapes. Vá com Cláudio e faça a chegada. Quero sonora também".
Ao perceber meu nervosismo ele disparou sorrindo: "Um carpinense filho de seu Jaime não escolhe reportagem!". Mas antes de sairmos, chamou Cláudio e colocou sobe ele toda a responsabilidade do êxito da missão: "A experiência quem tem é você".
Não foi fácil, mas a matéria saiu. Apresentamos a chegada do presidente da FIFA, sendo recebido por Rubem Moreira, presidente da FPF, em primeira mão.
Quando Robson Sampaio trocou o DP pelo Jornal do Commercio, junto com SÃlvio Oliveira, houve um distanciamento natural. Estávamos em empresas diferentes; ele deixou a área esportiva e nossos horários não batiam nem para possibilitar um brinde no Dom Pedro, restaurante no qual, diariamente, ele "batia o ponto".
Calma companheiro!
Um dia voltaremos a nos encontrar.
Gratidão sempre.