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Maio 2012 ›› CLAUDEMIR GOMES
O ex-presidente da ACDP, Aldeci Lima, que hoje dirige, junto com a mulher, uma empresa de turismo, vez por outra, me presenteia com uma grata ligação para falarmos sobre o futebol pernambucano e brasileiro. A última vez que batemos um papo ele não escondeu sua irritação com a numeração adotada por jogadores, e aceita por clubes e entidades, nos últimos anos.
"Ninguém conhece ninguém", esbravejou com a autoridade de um advogado em defesa de velhos e bons costumes. "Faça uma crônica sobre isso e carregue nas tintas", sugeriu.
O eterno Ãdolo da torcida do Náutico, Ivan Brondi, capitão do histórico hexa, foi taxativo quando lhe indaguei sobre a numeração utilizada pelas equipes nos dias de hoje: "Acho muito esquisito. à estranho!". E acrescentou: "Também acho um desrespeito ao estatuto do clube as equipes jogares com uniformes de outras cores que não sejam as tradicionais das agremiações".
Os protestos de Aldeci e Ivan me levaram a deixar o conforto da poltrona de casa e ir assistir alguns jogos em bares e restaurantes na busca da reação dos torcedores. Na decisão da Libertadores da América, que colocou em confronto Flamengo e Palmeiras, um torcedor do clube paulista me chamou a atenção porque conhecia poucos jogadores do time que estava em campo.
Quando lhe perguntei sobre a dificuldade de identificar os novos Ãdolos ele sorriu e explicou: "Antigamente eu sabia quem era o dono da camisa 2, da camisa 5, da camisa 9, enfim, do goleiro ao ponteiro esquerdo, eu sabia quem era quem. Hoje bagunçou tudo. Até os narradores se confundem".
Verdade! Domingo baixei o som da televisão e liguei o rádio. O narrador se equivocou várias vezes. O pista se perdia nas suas narrativas por não ter decorado a numeração dos jogadores.
Como o futebol é cheio de preconceitos, não conseguimos identificar os números: 24; 69 e 171.
Certa vez, perguntei ao Zuca Show se na tábua do bicho existia "Onça". Ele tirou minha dúvida e disse que existia "gato, tigre e leão". Ao meu lado, o narrador que um dia foi classificado pelo saudoso, Luciano do Valle, como sendo "o melhor do Brasil", ficou mais vermelho que uma arara. Ele ficou com tanta raiva que não me passou a numeração dos times. Quem me salvou foi o zap.
O amigo Peçanha, baiano, torcedor apaixonado do Vitória, diz que "as novas numerações confundem até os treinadores".
Apesar dos sinais dos novos tempos, nenhum outro número pesa mais que o 10. Não é para menos! Afinal, a camisa 10 foi imortalizada por Pelé, no Santos e na Seleção Brasileira. Maradona, Messi, Rivelino, Ademir da Guia, Tostão, Jairzinho, Zico... Foram outros gênios que eternizaram o número como marca registrada de craque. Nenhum marqueteiro se atreve a sacar o 10 do time.
O mestre, Lenivaldo Aragão, que considero a grande enciclopédia do futebol pernambucano, mantém um hábito que adquiriu há mais de 60 anos, quando iniciou sua brilhante carreira jornalÃstica como repórter: leva sempre consigo uma cadernetinha onde faz um monte de anotações que só ele entende. Leni tem sentido uma dificuldade enorme em anotar as numerações em voga, no costado dos jogadores.
O futebol é simples, complicados são os gênios das mudanças.
CLAUDEMIR GOMES
O que aconteceu com o futebol pernambucano?
Eis a pergunta que não quer calar.
Apequenou-se! Simples assim.
As causas? DifÃcil enumerar todas. Entretanto, em todos os setores, observamos que houve uma dificuldade de dirigentes e profissionais em se adaptarem a nova ordem. O resultado não poderia ser outro senão a estagnação no tempo e no espaço, fato que provocou o encolhimento do Estado que antes era a maior referência do futebol da região.
Com dificuldade de analisar o atual contexto com profundidade, uma vez que falta embasamento a maioria dos profissionais que ora militam, a mÃdia insiste em transformar o produto em pautas de programas de humor. à mais fácil fazer graça do que falar com conhecimento de causa. Sinais dos tempos.
Em 1954, Rubem Moreira chegou à presidência da Federação Pernambucana de Futebol, onde implantou a filosofia de: "UM FUTEBOL PRA CHAMAR DE MEU". Foi dono, rei. Casou e batizou durante 28 anos, e fez do "afilhado", Dilson Cavalcanti, seu sucessor, que ficou no cargo 3 anos, tendo caÃdo após uma matéria publicada na Revista Placar, pelo saudoso Marcelo Rezende, que denunciou todos os desmandos do gestor.
A queda de Dilson abriu espaço para a Dinastia dos Oliveiras, que teve uma duração de 26 anos, com 10 da gestão de Fred Oliveira e 16 da gestão de Carlos Alberto Oliveira. Evandro Carvalho, atual presidente, que já tem 36 anos de casa, pois chegou à Entidade da Rua Dom Bosco junto com Fred Oliveira, está há dez anos sentado na cadeira de presidente da FPF, como sucessor de Carlos Alberto. E vai para a disputa de um novo mandato.
A polÃtica de "UM FUTEBOL PRA CHAMAR DE MEU", segue em nome do continuÃsmo que é alimentado por um modelo arcaico, carcomido, sustentado por ligas parasitas que vivem de favores.
A sustentação do poder através dos votos das Ligas do Interior, consideradas o "Baixo Clero do Futebol", provocou uma acomodação doentia dos clubes que disputam a Primeira Divisão, que sequer lutam para tirar a legitimidade de vitórias que traduzem bem as trocas de favores.
Os grandes clubes estão mudos. Perderam a voz. Não existem mais ecos, nem ruÃdos. Ninguém grita para denunciar que o "Rei está Nu". Afinal, quem ousa bradar contra o deplorável estado de coisas corre o risco de perder os "favores".
Que favores existem na Lei de Murphy, onde o que está ruim tende a ficar pior?
As recentes pesquisas mostram que os tradicionais clubes pernambucanos - Sport, Náutico e Santa Cruz - estão perdendo espaço, dentro do Estado, para clubes de outras regiões.
Afinal, no futebol pernambucano, nada se muda, nada se cria, tudo se apequena.
Eis o porquê do Infeliz 2021.
CLAUDEMIR GOMES
O jurista e escritor pernambucano, José Paulo Cavalcanti Filho, é o mais novo imortal da Academia Brasileira de Letras - ABL. Ele vai ocupar a cadeira 39, genuinamente pernambucana: foi criada por Oliveira Lima e recentemente acolhia Marco Maciel.
Quando tomei conhecimento de que o mestre José Paulo concorria a uma vaga na ABL, junto com outros cinco candidatos, disse cá pros meus botões: "Esta vitória já está na conta". Lógica pura. Afinal, um homem que garimpa conversas de 1/2 minuto, para o encantamento dos seus leitores, é merecedor de mil e uma homenagens.
Tão logo tomei conhecimento da vitória, explodi de alegria como o mais fiel geraldino se comporta na hora do gol marcado pelo seu Ãdolo.
Ah! Eu já sabia.
O grito foi inevitável. O que não sabia era que o óbvio me causaria tanta alegria.
Aqui, na nossa aldeia, José Paulo Cavalcanti Filho (José Paulinho - como costuma chamar os amigos), já é imortal há muito tempo. à que na Academia Popular de Letras, aquela que o povo entende a linguagem dos intelectuais, ele ocupa a cadeira de número um.
Fácil entender: Os textos que publica nos jornais são verdadeiras pérolas caçadas e devoradas com avidez pelos leitores; suas participações em programas de rádio enriquece os debates porque ele sabe chegar aos ouvintes de todas as classes e todos os nÃveis culturais com uma linguagem direta, simples, elucidativa.
Certa vez, estive no seu escritório na companhia der Humberto Araújo, um dos maiores cartunistas do PaÃs. Araújo estava para lançar um livro e gostaria de um texto do mestre José Paulo para enriquecer sua obra. Com a simplicidade que talha os grandes personagens da história, José Paulinho se colocou a disposição com uma humildade que só foi descortinada quando revelou a "leitura" que havia feito do autor. Não precisou de cópias do trabalho para definir seu pensamento.
No final do encontro fui sincero: "O Brasil precisa de mais pensadores como o senhor!"
Conversar com José Paulo Cavalcanti Filho é somar conhecimentos sempre. Até as baforadas que ele dá, quando acende o puro (charuto), parecem mais puras, podem ser tragadas como incenso de sabedoria.
Agora, na escalação do time dos imortais da Academia Brasileira de Letras, é possÃvel ver dois craques alvirrubros: Marcos VinÃcius Villaça e José Paulo Cavalcanti filho.
Bom! Se formos seguir o pensamento dos intelectuais, chegaremos à conclusão de que torcer pelo Náutico é, antes de tudo, uma demonstração de inteligência.
CLAUDEMIR GOMES
No jogo em que o Flamengo goleou o São Paulo - 4x0 - válido pela Série A do Brasileiro, um lance chamou a atenção dos torcedores presentes ao estádio, e de milhões de telespectadores que acompanhavam a partida pela televisão: uma matada de bola do atacante flamenguista, Michael. Não havia nenhum marcador no seu encalço. Foi justamente a ausência de marcação que lhe permitiu exibir a técnica apurada e o fino trato que dispensou a bola, ressaltando uma habilidade inexistente na maioria dos jogadores brasileiros. De imediato foi reprimido, quase agredido por um defensor são-paulino.
Logo a seguir recebo um zap do mestre, José Joaquim Pinto de Azevedo: "O futebol brasileiro está ficando chato de se ver. Estão tolhendo a liberdade criativa dos jogadores. Garrincha não jogaria nos dias hoje".
Verdade.
A liberdade criativa foi que levou o Brasil a ser a maior referência na arte de jogar futebol. Futebol é pura arte, e mesmo sendo um esporte coletivo, a genialidade individual é que serve como ponto de desequilÃbrio. O drible, a firula, o passe milimétrico, a bicicleta, a lambreta, a saia, o elástico, o drible da vaca, o lençol, o banho-de-cuia... são recursos que fazem parte do repertório dos jogadores diferenciados.
Paulo Roberto Falcão, quando esteve no comando técnico do Sport, numa partida em Salgueiro, deu uma matada de bola, na área técnica reservada aos treinadores, que arrancou aplausos de quem estava presente no estádio. A televisão passou vários dias exibindo o lance que ressaltou a intimidade que ele tinha com a bola quando era jogador. Diga-se de passagem, um dos melhores do futebol mundial na posição que atuava.
No Santa Cruz de Carpina havia um ponteiro - Arlindo - que tinha uma variedade de dribles impressionante. Deixava qualquer marcador em polvorosa.
Certa vez o Sport foi com um time misto jogar em Carpina. Na ponta esquerda estava escalado, Ivanildo Arara. Pois bem! Em determinado momento do jogo ele deu um drible no seu marcador que ele caiu de bunda, torceu o joelho e nunca mais jogou bola. Acredito que, dentro desta nova %u201Clei%u201D que querem implantar no futebol brasileiro, Ivanildo teria sido expulso de campo.
O Sport investiu, as pressas, na contratação de um lateral em Alagoas, para parar os passos do ponteiro Marlon, no clássico que ia disputar com o Santa Cruz, na Ilha do Retiro. Marlon deitou e rolou em cima do reforço leonino, que não ficou em campo até o final da partida.
Quem viu Miruca, Nado, Heider, Mário Tilico, Robertinho, Ribamar, Vadinho, Fernando Lima, Fumanchu, Joãozinho, Henágio, e tantos outros dribladores que passaram no futebol pernambucano sabe que eles davam um colorido especial ao espetáculo.
Não discordo da prioridade do coletivo que tanto se defende no futebol, mas a individualidade é a ameixa do pudim. Caso contrário não se exaltaria os talentos de Romário, Bebeto, Rivaldo, Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Neymar, Messi, Cristiano Ronaldo e dos mais novos que começam a atrair os holofotes para si.
O que se deve coibir no futebol brasileiro é essa vocação para ator de terceira categoria que os jogadores insistem, cada vez mais, de exibir em campo, num flagrante falta de respeito ao torcedor. Um comportamento que compromete uma arbitragem que há muito clama por uma reciclagem.
O excesso de malandragem dos jogadores, a falta de respeito e de educação são os itens que mais comprometem a qualidade do espetáculo que se oferece nos campos brasileiros.
O mestre, José Joaquim, tem toda razão: a coisa tá ficando chata, insuportável.
CLAUDEMIR GOMES
Com uma magra vitória - 1x0 - sobre uma limitada Colômbia, e exibindo um futebol burocrático, a Seleção Brasileira carimbou seu passaporte para a Copa do Mundo de 2022, que será disputada no Catar. O time do técnico Tite, que venceu 11 dos 12 jogos disputados até o momento, e se mantém invicto nas Eliminatórias Sul-Americanas, nos lembra aquele aluno cujo boletim é recheado de nota 10, mas não empolga a turma para ser escolhido como seu representante e orador na festa de encerramento e colação de grau do curso.
O Brasil vai para a sua vigésima-segunda Copa. à o único selecionado do mundo a participar de todas as edições deste que é um dos maiores espetáculos midiáticos do planeta.
No próximo ano comemoraremos 20 anos da última conquista brasileira. A Canarinha (era assim que se chamava a Seleção Brasileira nos anos 60 e 70 do século passado), é a única a exibir cinco tÃtulos mundiais no seu currÃculo. Alemanha e Itália têm quatro conquistas, cada. As três seleções detêm 13 dos 21 tÃtulos disputados. Uruguai, Argentina e França, com dois tÃtulos cada um; e Espanha e Inglaterra, com uma conquista, cada, fecham o pelotão dos campeões.
Apesar da campanha pra lá de exitosa nas Eliminatórias, a Seleção de Tite não chega a empolgar o torcedor brasileiro. O que está acontecendo com o nosso povo? Será que voltamos a ser dominados pelo famoso "complexo de vira latas", tão combatido pelo mestre, Nelson Rodrigues?
Afinal, este ano o Brasil conquistou sua segunda medalha de ouro no futebol olÃmpico e o feito não reverberou. Acredito que, como estamos numa travessia pandêmica, a alegria que é marca registrada do povo brasileiro tenha sido empanada pela tristeza decorrente do registro de milhares de mortes.
O momento difÃcil que atravessa o PaÃs, um dos mais assustadores da nossa história, resultado da degradação da classe polÃtica, e de magistrados que ora respondem pelo norte da Nação, também deixou o nosso povo sem graça, a ponto de colocar os jogos da seleção numa vala comum
Não é fácil acreditar num novo tempo quando observamos que as nossas piscinas continuam "cheias de ratos", como diria o grande Cazuza.
O futebol brasileiro é rico em contrastes. Telê Santana era uma unanimidade, disputou duas Copas do Mundo e não conquistou nada. Carlos Alberto Parreira e Luiz Felipe Scolari, que foram questionados por muitos, têm tÃtulos mundiais em seus currÃculos.
O ufanismo que tomou conta dos "analistas" também é responsável pela forma equivocada das leituras que são feitas. Atualmente, o corporativismo faz com que os comentaristas, ao invés de analisarem os fatos, busquem explicações para os erros cometidos pelos jogadores. Sinais dos tempos.
As competições clubÃsticas da Europa se tornaram mais interessantes, e com melhor nÃvel técnico, do que as Copas do Mundo. Eis a razão pela qual o mestre, José Joaquim Pinto de Azevedo, acredita que, os futuros campeões do mundo sejam do Velho Continente.
Se o fracasso começa pelo sentimento, torço para que, até novembro do próximo ano, o sentimento do torcedor brasileiro mude em relação a Seleção de Tite. à que a turma tira nota 10 e não empolga.