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Nossas lembranças
postado em 05 de janeiro de 2022

CLAUDEMIR GOMES

 

O poeta, Flávio Chaves, publicou por esses dias: "Na poesia de Mauro Motta, o leiloeiro pergunta: Quem dá mais por nossas lembranças?".

A indagação caiu como uma luva, que aqueceu e acariciou meus pensamentos.

Na caminhada diária, pelo calçadão de Boa Viagem, sempre passo pelos campos na orla do Pina, onde os "rachas" são sempre calorosos. De repente sou surpreendido com uma pergunta em alto e bom som:

- Claudemir quando começa o Campeonato Pernambucano?

Antes de responder me vi cercado por três senhores que começaram a falar sobre futebol. O torcedor sempre acha que um jornalista sabe tudo. Confesso que fui todo ouvidos naquela agradável "resenha" recheada de lembranças.

Velhos peladeiros sempre têm muitas estórias a contar. A turma do Pina parece que cria mais que os pescadores do lugar. Logo vem à tona, as amizades com os ex-jogadores que, em dias de folga, buscavam os aprazíveis bares com seus petiscos de tempero irresistível e a sedutora peixada pernambucana.

- Campeonato de três meses não tem graça! Exclamou um dos alimentadores da prosa, para em seguida me desafiar para uma partida de dominó.

Observo que, todos que participavam daquela animada "discussão" tinham a cabeleira branca. Ou não tinha mais cabelos, eram carecas. Logo, não faltou quem recordasse das edições do Pernambucano que ocupavam toda a temporada.

De repente, um quase estranho no ninho, um jovem peladeiro que havia deixado o campo há minutos entra na conversa.

- A Copa do Nordeste acabou com o Estadual! Falou com a autoridade de quem está em sintonia com a nova ordem.

Os mais velhos retomam o comando da conversa. E voltam a falar de um tempo no qual o título pernambucano era supervalorizado. Época em que não se falava nem em nacionalização do futebol. Globalização? Nem pensar. O futuro, que hoje é o presente, só nos gibis de Os Jetsons.

E logo surgiram os nomes de Luciano, Givanildo, Ramon, Manga, Alemão, Djalma, Laxixa, Pacoti, Manoelzinho, Bita, Lala, Ivan, Lula, Caiçara, Wendell... Para cada nome, a citação de um fato, um episódio, e muitas lembranças.

Para apimentar a conversa, perguntei qual foi o fato marcante do Pernambucano 2021?  Fez-se silêncio. Repeti a pergunta sobre a edição de 2020. Todos responderam: O Salgueiro campeão? Realmente um fato histórico, mas que nada mudou. O inédito título levantado por um clube do Interior não agregou nada ao futebol da aldeia que se apequena a cada ano passa, embora, o presidente da FPF insista, em suas ilações, em apontar um crescimento que não se ver.

Este ano, no campeonato que se inicia no próximo dia 22 de janeiro, a grande novidade é a presença do Íbis, cuja marca registrada é de Pior Time do Mundo. A disputa será junta e misturada com a da Copa do Nordeste. Ambas são logo apagadas pelos jogos do Brasileiro e da Copa do Brasil. Ah! Este ano tem Copa do Mundo para desviar, ainda mais, a atenção do torcedor.

Os velhos peladeiros do Pina ainda falam das conquistas estaduais do passado com uma ênfase de fazer inveja. Afinal, eles falam de décadas em que os títulos estaduais tinham uma valorização estupenda.

Caminhei dois quilômetros e meio de volta pra casa acelerado pelas lembranças da velha guarda do Pina.

E o mestre, Mauro Motta, com seu leiloeiro pergunta: "Quem dá mais por nossas lembranças?".

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Lição na "Temporada da Morte"
postado em 29 de dezembro de 2021

CLAUDEMIR GOMES

 

Na última semana da "Temporada da Morte", como bem definiu, a jornalista Lêda Rivas, o ano de 2021, recebemos a notícia da morte da última tia da minha mulher: Áurea Regina. Dona Margarida Macedo (Tia Guida), 93 anos, era a derradeira representante de uma geração de mulheres fortes e determinadas. Lhe prestar a última homenagem era mais que um ato de solidariedade, pois se tratava de um adeus a uma pessoa simples que, do alto de sua naturalidade, se transformou num grande exemplo de resiliência. Foi contemporânea do tempo e suas mudanças, estando sempre em sintonia com a nova ordem.

Não gosto de funerais! Mas não posso me furtar a momentos cuja solidariedade se mostra imperativa, por conta de traumas pessoais.

Na Carpina de décadas passadas, quando um cortejo fúnebre passava perto da Igreja Matriz de São José, ou da Igreja de São Sebastião, acontecia o toque dos sinos. De longe não sabíamos por quem os sinos dobravam, mas era um toque que nos arremetia a uma tristeza para a qual não existia explicação.

Um outro som medieval que me deixa bastante incomodado, é o da colher de pedreiro quebrando os tijolos, ou raspando a massa no momento do emparedamento dos mortos. A primeira experiência com aquele som torturante foi no sepultamento da minha avó, Ana de Albuquerque, depois, no do meu pai, Jaime Gomes. E vieram muitas edições no adeus a parentes e amigos. A coisa é muito primitiva: um carro de mão com tijolos, massa... e de repente aquele som quebrando o silêncio dos mortos. No final, o "pedreiro", com um pedaço de arame, ou um palito, escreve a data. É como se a partir daquele momento o "fantasma" estivesse enclausurado.

Me preparei para ouvir aquele som arrepiante no sepultamento da Tia Guida, mas fui surpreendido por um ato de heroísmo que refuto como uma das cenas mais fortes que testemunhei até o dia de hoje. Lição de vida gigantesca.

O jazigo da Família Macedo fica ao lado da igreja, bem no centro do Cemitério de Santo Amaro. Composto por duas gavetas, serve para abrigar os mortos, e funciona como ossuário.

Pois bem! Dona Margarida Macedo foi emparedada na gaveta superior. Para tal, alguns sacos de ossos foram retirados para poder caber o ataúde. A abertura do buraco negro não foi suficiente. O caixão não entrava na sua totalidade, fato que gerou uma grande expectativa nos presentes, e até uma certa tensão nos parentes. Nada que assustasse ao coveiro, ou simplesmente, o prestador de serviços autorizado, como bem ressaltava os dizeres na sua surrada camisa de trabalho.

Aquele homem de pequena estatura, não pensou duas vezes. O momento exigia atitude, desprendimento. Mais que isso: coragem. A coragem de quem convive diariamente com os mortos, sem temer a morte. Sem se incomodar com o som da colher de pedreiro. Coragem de quem está acostumado a lidar com sons mais mortais como os que são emitidos pelos sacos de ossos.

E aquele super-herói anônimo, diante de um pequeno, mas gigantesco desafio, deslizou por cima do ataúde e entrou naquele buraco negro, por onde transitam baratas, formigas e outros insetos. Aquele buraco onde tantos corpos se deterioraram. Corpos abatidos por doenças de várias espécies. Não usava nenhum EPI - Equipamento de Proteção Individual. O único acessório que carregava, um boné, tirou para não sujar, ou perder. Naquele momento ele incorporou o tatu-bola, o homem-formiga, ou o homem-tamanduá. Não importa. A missão tinha que ser concluída a qualquer custo. E foi. Quando emergiu do buraco, seu companheiro de trabalho, discretamente, deu duas tapinhas nas suas costas para tirar o grosso da areia que ficou.

Pronto! O caminho estava desobstruído. E o enterro de Tia Guida foi concluído.

Não perguntei o seu nome. O herói continuou anônimo. Na minha cabeça, muitas outras perguntas:

Quanto vale aquela atitude?

Qual o salário de um prestador de serviços desse quilate?

Qual o seu adicional por conta da salubridade?

A "Temporada da Morte" não poderia me trazer lição maior nos seus últimos dias.

E eu que me incomodava com os sons.

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RETROSPECTIVA
postado em 24 de dezembro de 2021

CLAUDEMIR GOMES

 

Neste período natalino é impossível não dar uma olhada no retrovisor. É importante rever a história construída na temporada. Não com o objetivo de reconstruí-la, mas para ter a noção precisa do balanço de perdas e ganhos. A retrospectiva individual nos leva sempre a uma boa reflexão.

Não temos mais idade para promessas vãs. Sabemos que a vida não é plana, e nem é reta. Afinal, se assim fosse, morreríamos de tédio por conta da monotonia e do óbvio. Tudo seria por demais previsível.

A retrospectiva é uma coisa fascinante. Tal valorização é um legado dos vinte e poucos anos vivenciando a redação do Diário de Pernambuco. Quem conheceu a "cozinha" dos jornais, nos tempos da diagramação no papel, da lauda com numeração para não ultrapassarmos vinte linhas de texto, da fotografia impressa no papel, tem condição de mensurar o valor e a importância de um caderno de retrospectiva.

A mobilização era total. Começava com Joel, no arquivo de fotografias. Era impossível, no cotidiano, se ver um cabelo de Joel em desalinho. Ele andava com um pente no bolso, e estava sempre arrumando a cabeleira. Mas, quando o caderno da retrospectiva começava a moer, ele ficava assanhado.

A pequena, Lêda Rivas, se agigantava com seu conhecimento e sensibilidade no comando do caderno. O fantástico, José Maria Garcia, com a paciência que Jó lhe emprestou, buscava sempre uma diagramação impactante. O mestre, Adonias de Moura, era exigente com o nosso texto, mas valorizava demais o material fotográfico, alegando que %u201Cnos esportes a imagem fazia a diferença%u201D. Francisco Silva, editor de fotografia, ficava indócil com redescoberta de um trabalho tão bom feito por sua equipe ao longo do ano.

Participar da montagem de produto tão especial era um privilégio. Mais ainda: um aprendizado espetacular. Por alguns anos fui escalado pelo mestre, Adonias de Moura para redigir as páginas de esportes no caderno de retrospectiva. A emoção e o pragmatismo se completavam de forma tão harmoniosa que, quando o caderno rodava nossos olhos brilhavam com aquele que, para nós, era o grande presente de fim de ano.

José Maria tinha um carinho muito grande por mim. E a recíproca era verdadeira. A cada prova de página, ele me chamava e mostrava. Do alto de sua sabedoria, dava aula de humildade quando indagava: "O que você acha Clodô?". A depender da observação, liberava a risada mais gostosa. Coisa pouco comum porque Zé era muito contido.

No dia que o caderno circulava, embora já tivesse conhecimento das matérias publicadas, procurava chegar, o mais cedo possível na redação. Afinal, ver a felicidade de Lêda Rivas com aquele caderno nas mãos, não tinha preço. A cada ano ela parecia mais emocionada com o parto do novo filho.

E todos se sentiam envaidecidos.

No início da tarde a redação era um frisson geral. Várias "ilhas" eram formadas, mas o assunto discutido era único: a retrospectiva.

Fazer retrospectiva durante uma travessia pandêmica não é nada prazeroso. O número excessivo de perdas é doloroso. Lêda Rivas definiu o ano de 2021 como sendo "a temporada da morte". Verdade. Não foram poucos os amigos subtraídos de nossas vidas nos últimos meses. Mas estamos no final da reta. Depois da curva surgirá um novo caminho. Acredito que, com ladeiras menos íngremes.

No próximo ano, quando olharmos pelo retrovisor, veremos que nada foi como antes. Eis a grande lição da retrospectiva: ESPERANÇA SEMPRE.

Feliz Natal!

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Futebol Brasileiro
A hora e a vez da SAF
postado em 19 de dezembro de 2021

CLAUDEMIR GOMES

 

A Sociedade Anônima do Futebol - SAF - passou a ser o assunto dominante nos meios esportivos, com o anúncio da compra de 95% do futebol do Cruzeiro pelo empresário, Ronaldo Nazário, ex-jogador do clube. O investimento foi na ordem de R$ 400 milhões.

Na busca por mais informação sobre o milionário negócio, que deverá ser o marco de um novo tempo no combalido futebol brasileiro, liguei para o mestre, José Joaquim Pinto de Azevedo, que em 1989, num relatório publicado pelo CND, após tomar ciência da realidade de 27 federações, apontava a Sociedade Anônima como alternativa de crescimento para os clubes brasileiros.

No início dos anos 2000, ao participar do programa, Domingo Esportivo, ancorado pelo competente, Ednaldo Santos, na Rádio Jornal, e também em várias publicações no seu blog, José Joaquim se mostrou enfático, e intransigente, na defesa do Clube Empresa, um caminho a ser seguido pelas agremiações do futebol brasileiro, que nas últimas décadas foram dragadas por gestões trágicas, onde dirigentes e empresários estavam preocupados em encherem suas "burras", nem que para isso tivessem que esvaziar os cofres dos clubes.

A maioria do torcedor brasileiro não sabe como funciona a SAF.

Para início de conversa, os "amantes" continuarão chamando o clube de seu. Trocando em miúdo, podemos dizer que a SAF, não é outra coisa senão a oficialização de um futebol autônomo. Azevedo nos mostrou que, "em Portugal todos os clubes profissionais aderiram a SAF".

A Sociedade Anônima, os seja, os investidores, cuidam do futebol: contratam, vendem jogadores e lucram com outas receitas. Vale ressaltar que, o negócio futebol é um dos mais lucrativos na ordem mundial. O clube segue faturando com sua marca: receita de bilheteria de jogos; venda de camisa; patrimônio e outros esportes como vôlei, natação, basquete e a parte social.

A SAF fica com os recursos gerados pelo futebol: contratos de transmissão de jogos; premiação por participação em competições; venda de jogadores, patrocínio em camisas etc. Não existe um percentual fixo para a Sociedade Anônima. Na opinião de José Joaquim Pinto de Azevedo, que defende o programa há mais de 30 anos, o ideal para os clubes brasileiros seria a venda de "no máximo 58% para os investidores, ficando 42% para o clube, o que lhe garantiria uma participação no lucro do negócio futebol".

"A negociação para adesão a SAF vai depender do entendimento de cada clube com a empresa investidora. O que torna o processo difícil é o fato de que, os dirigentes e os conselheiros não vão mais ter influência no futebol, ou seja, em contratações de técnicos, jogadores, profissionais. A dificuldade está no corte deste cordão umbilical", explicou Azevedo.

Resumindo: O futebol não pode ser mais chamado de "profissional" sendo administrado por dirigentes amadores que, facilmente são ludibriados por empresários salafrários que não têm nenhum compromisso com os clubes.

A próxima grande grife do futebol brasileiro a aderir a SAF é o Botafogo Futebol e Regatas, do Rio de Janeiro, que no Século XX se notabilizou como um dos clubes que mais cedeu jogadores para à Seleção Brasileira nas conquistas dos primeiros títulos mundiais.

A pergunta que não quer calar:

Quando os grandes clubes pernambucanos irão aderir a SAF?

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Campeonato Brasileiro
O Nordeste encolheu
postado em 10 de dezembro de 2021

CLAUDEMIR GOMES

 

O fechamento da Série A do Campeonato Brasileiro nos deixou com um gosto amargo na boca. Na edição de 2022, a região Nordeste será representada apenas por dois clubes cearenses: Fortaleza e Ceará. Pernambuco e Bahia ficam fora do mapa geográfico da elite do futebol nacional.

Muitos são os fatores apontados como cruciais para este encolhimento do futebol da região, entretanto, as desastradas gestões nas últimas temporadas desidrataram as agremiações pernambucanas e baianas. Existe uma resposta pronta, e que sempre é utilizada para justificar insucessos: "Sem recursos financeiros é impossível se planejar alguma coisa".

A frase também serve como senha para se ter aprovação para aventuras, muitas vezes compactuadas com empresários cujo compromisso é apenas empregar "seus" jogadores. E dessa forma o DNA de clube formador vai sendo esquecido, relegado a um segundo plano.

O Fortaleza encerrou a competição na quarta colocação, assegurou uma vaga na Libertadores da América e teve um protagonismo que era inimaginável no início da disputa. Evidente que não vamos cobrar protagonismo de todos os clubes da região num campeonato de alto rendimento, contudo, é possível sobreviver na condição de coadjuvante.

Os efeitos deste apequenamento pode ser devastador para pernambucanos e baianos. A temporada nos trouxe a queda do Santa Cruz para a Série D; do Vitória para a Série C e do Sport e Bahia para a Série B. No próximo ano a Copa do Nordeste terá apenas dois representantes da Série A - Ceará e Fortaleza - que por uma razão óbvia, estarão credenciados a disputarem o título. Vale lembrar que, nas últimas edições da competição regional, o futebol cearense teve um brilho intenso.

Os torcedores mais otimistas devem argumentar que, "Sport e Bahia voltarão à Série A já em 2023", ou seja, daqui a um ano suas torcidas comemorarão o acesso. Uma possibilidade que não pode ser descartada, contudo, este também foi o pensamento dos torcedores do Cruzeiro, que em 2022 irá para sua terceira temporada na Série B, e dos vascaínos, que pelo segundo ano consecutivo verão seu clube medindo forças na Segunda Divisão.

A Série B vai se consolidando como uma competição robusta, difícil de ser encarada. No próximo ano teremos seis campeões brasileiros na disputa: Vasco, Cruzeiro, Guarani, Grêmio, Bahia e Sport. Teoricamente as quatro vagas de acesso serão disputadas por estes clubes, entretanto, como futebol não é uma ciência exata, e nos gramados brotam agradáveis e amargas surpresas, não existe garantia de sucesso para nenhum clube, pois, correndo por fora estarão o Náutico, os alagoanos CSA e CRB...

"Esta é a nossa realidade", dispara o leonino, Humberto Araújo, com um rasgo de resignação característico de quem está acostumado ao sobe e desce desta gangorra do futebol nacional.

Ao testemunhar o sofrimento da torcida do Grêmio, na vitória pírrica - 4x3 - sobre o Campeão Atlético Mineiro, me veio a lembrança de outros prantos derramados que lavaram de lágrimas coloridas camisas de diversos clubes, numa prova inconteste de que, no futebol a soberania também é efêmera.     

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