Histórico
Copa do Brasil
Até onde vamos?
postado em 23 de fevereiro de 2022

CLAUDEMIR GOMES

 

Os últimos dias de fevereiro trouxeram o início das disputas da Copa do Brasil 2022, maior torneio de futebol profissional do País, e o que oferta a melhor premiação. Também carrega a marca registrada de ser o mais democrático, pois tem representantes de todos os estados brasileiros. Resumindo: trata-se de um guarda-chuva aberto do Oiapoque ao Chuí abrigando todas as tribos.

Apesar da "abertura democrática", sabemos que, a atual forma de disputa privilegia os grandes times nacionais, fato que torna a disputa do título restrita a um grupo de elite cuja realidade financeira e técnica difere da maioria dos participantes desta farra do futebol tupiniquim.

Nesta edição, o futebol pernambucano será representado pelo Sport, Náutico e Salgueiro. Hoje a noite (23/02/2022) teremos as estreias do Náutico, que joga na condição de visitante com o Tocantinópolis, e do Salgueiro, que recebe o Santos no Cornélio de Barros. O Sport tem seu primeiro jogo programado para o dia 2 de março, com o Altos, no Piauí.

O futebol pernambucano não vive um bom momento. Isto é fato. Tal realidade dificulta, ainda mais, qualquer prognostico sobre as campanhas dos nossos representantes na Copa do Brasil. Os rubro-negros podem apresentar o histórico do Sport na competição como um crédito. Afinal, o Leão da Ilha do Retiro foi vice-campeão da primeira edição, em 1989, e campeão em 2008. No mesmo histórico existem algumas eliminações logo na primeira fase da disputa, o que deixa claro que, futebol é momento.

Na teoria, o Salgueiro é o time pernambucano que tem o maior desafio na primeira rodada, uma vez que enfrentará o Santos. O fato de a partida está programada para o Estádio Cornélio de Barros, em pleno Sertão Pernambucano, pode determinar um equilíbrio na disputa, contudo, tecnicamente a qualidade do time paulista é indiscutivelmente superior.

A estreia na Copa do Brasil marca o início de um novo tempo para o Náutico. O tempo do técnico Felipe Conceição, contratado para substituir Hélio dos Anjos. Diferentemente da temporada 2021, quando nos primeiros meses concentrou todas as atenções numa única disputa, o Pernambucano, este ano, o Clube dos Aflitos se divide em três competições simultaneamente: Copa do Nordeste, Campeonato Pernambucano e Copa do Brasil. O resultado da avalanche de jogos intercalados por viagens é uma desconfortável oscilação no nível das apresentações.

Embora não possa ser considerado uma Torre da Babel, é notório que no Sport existe uma dificuldade de entendimento entre o técnico Gustavo Florentín e os seus comandados. Falando um idioma diferente dos atletas, Florentín ainda não conseguiu fazer com que a tropa acertasse o passo para entrar no compasso das competições que ora disputa.

Bom! Não sabemos até onde os nossos representantes irão avançar na competição nacional, mas de uma coisa temos certeza: no atual cenário jamais chegaremos a uma disputa de título.

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Sport
O vilão do Léo
postado em 17 de fevereiro de 2022

CLAUDEMIR GOMES

 

Os garotos da minha geração gostavam de gibis. Através deles adquiriam, e alimentavam o gosto pela leitura. Quando alcançavam a adolescência migravam para os livros de bolso. A ficção e seus personagens nos transportavam para um mundo de sonhos, onde as asas da liberdade nos transformavam em seres alados com passaporte para explorar o imaginário.

Alguns personagens parecem superiores ao tempo, como o casal, Mickey e Minnie, criado por Walt Disney há 92 anos, e que segue encantando as novas gerações. E o que dizer do francês, Astérix, criado pela dupla, René Goscinni e Albert Uderzo, em 1959? Astérix se mantém como um dos queridinhos dos europeus. Com mais de seis décadas, foi criada em 1959 pela norte-americana Ruth Handler, a Barbie lidera a lista das bonecas mais vendidas no mundo.

Naturalmente que, nem todos os personagens se tornam eternos. Alguns têm passagens meteóricas. Segundo os mestres de Hollywood, todo mundo tem uma história pra contar, e a maioria delas tem um vilão. Na disputa do bem com o mal todo vilão é tido como mau caráter.

Esta semana tomei conhecimento do triste epílogo da história do Léo, o mascote do Sport Club do Recife, adotado oficialmente pelo clube rubro-negro quando do seu centenário, e cuja vida foi vendida pela promessa de trinta dinheiros. Neste caso do Léo, o vilão não é mau caráter, ele simplesmente não tem caráter, pois não assume o "crime" cometido contra a história do clube.

O saudoso deputado, Osvaldo Rabelo, grande referência da história política de Pernambuco, classificava o homem da seguinte forma: "O bom caráter; o mau caráter e o sem caráter". O homem sem caráter é a escória.

Conheço a história do Léo do nascedouro. No final dos anos 70, no século passado, o jornalista, Júlio José, chegou à redação do Diário de Pernambuco levando a tiracolo o jovem chargista, Humberto Araújo. Os desenhos e os traços do rapaz encantaram o editor de esportes, Adonias de Moura, que logo o convocou para fazer parte do seu time.

Humberto Araújo não precisou de muito tempo para se afirmar como um dos melhores cartunistas do país. Autor de vários títulos, ganhador de vários prêmios, chegou a ser escalado para cobrir a Copa de 1986, no México.

Em 2004, quando Severino Otávio (Branquinho), ocupava a presidência executiva do Sport Club do Recife, e o então governador do Estado, Jarbas Vasconcelos, era o presidente do Conselho Deliberativo, Humberto Araújo fez a doação oficial do desenho do Léo ao clube da Ilha do Retiro. Um momento histórico que foi tratado como um dos mais importantes dentre os festejos do Centenário do Sport Club do Recife.

Quem conhece Humberto Araújo sabe que aquela não era apenas a doação de um desenho. Nada protocolar. Junto com aquela ação ele estava doando sua alma e seu coração ao Sport, na mais pura demonstração de amor incondicional.

Quem transitou pela Ilha do Retiro nos últimos 18 anos teve a oportunidade de testemunhar o pacato cidadão, Humberto Araújo, pintando muro, restaurando equipamentos, criando painéis... numa entrega elogiável, sem custar um centavo ao clube. Pelo Sport tudo! Eis o seu lema.

Quando Milton Bivar voltou a presidência executiva do Sport, uma proposta foi colocada em sua mesa, para deletar o Léo em detrimento de um outro boneco, que seria alimentado por um projeto de marketing e comercial.

Bivar recusou a proposta, mas logo em seguida se afastou do clube.

E a história do Léo ganhou o seu vilão.

Humberto Araújo foi informado que os restos mortais do Léo estavam num depósito no CT do clube. A atual coordenadora do marketing do Sport teve a sensibilidade e mandar buscar aquela "fantasia", que num passado não muito distante, foi aplaudida e cobiçada por todos os leoninos.

O Léo agora descansa na casa do seu criador.

Ah! O Vilão?

Com certeza é desses que não tem caráter.

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Artigos
INVISIBILIDADE
postado em 14 de fevereiro de 2022

CLAUDEMIR GOMES

 

Domingo (13/02/2022), durante a edição do programa THE VOICE , a cantora, Fafá de Belém, 65 anos, que este ano foi escalada para compor o júri, em três oportunidades ressaltou a necessidade de os idosos darem um grito contra a invisibilidade imposta pela sociedade, da qual são vítimas dos efeitos devastadores de uma exclusão galopante considerada natural.

No ano 2000, quando acumulava os cargos de treinador da Seleção Brasileira, e do Sport Club do Recife, Emerson Leão me revelou todo um trabalho psicológico que vinha desenvolvendo para quando não estivesse mais sob os holofotes. Afinal, ele havia passado décadas de intensa visibilidade no futebol brasileiro e internacional e, de repente, se tornaria invisível.

Ontem, o professor, Sílvio Ferreira, compartilhou um vídeo no facebook, que mostra o atual momento do zagueiro, Brito, tricampeão mundial em 70, no México. Aquele senhor caminhando, com relativa dificuldade, pelas ruas de um bairro periférico do Rio de Janeiro, perdeu sua visibilidade de herói de uma conquista épica para o futebol brasileiro. É como se estivesse sido dragado pela poeira do tempo.

Dois anos após Edson Nogueira ter deixado a presidência do Santa Cruz, no encontramos numa solenidade. Na oportunidade, um cidadão que, durante todo o tempo em que esteve no cargo vivia lhe puxando o saco, passou a uma distância de menos de um metro e sequer olhou de lado. Minutos depois, quando Nogueira estava sendo abraçado pelos homenageados, ele se aproximou e disse que não o tinha visto.

"É que eu estava invisíve", lhe respondeu Edinho com uma dose de ironia cavalar.

O ex-presidente da FPF, Carlos Alberto Oliveira, tinha tanto pavor de vir sofrer os efeitos da invisibilidade que criou sua própria plateia. Todos os dias um grupo de puxa-saco marcava presença na sede da entidade, na rua Dom Bosco, para aplaudir e sorrir com as histórias do burgomestre do futebol pernambucano.

A pandemia da invisibilidade é bem maior que a do COVID. Ela ataca há décadas, mas as pessoas não se deram conta das causas. Apenas sofrem os efeitos.

O que provocou este estado de coisas? Tudo!

Naturalmente que devemos estar abertos para as mudanças de comportamento. Mas, e os efeitos?

Em nome da segurança contra a desenfreada violência urbana, os muros dos edifícios se tornaram cada vez mais altos. Fortalezas de luxo. As ruas foram ficando desertas. O comércio passou a ser concentrado em shoppings. E os antigos logradouros comerciais foram abandonados. As ruas expulsam os homens.

A fila anda!

Diz o dito popular. Verdade. Mas as pessoas insistem em ignorar que existe um tempo para tudo e para todos. Não são poucos os exemplos de cidadãos que cometem o suicídio por temer a invisibilidade que vem acoplada a velhice.

Um ex-governador de Pernambuco me disse um dia desses que, eram poucos os amigos que se lembravam dele. Políticos, cantores, jogadores, jornalistas, comunicadores famosos, celebridades, todos, sem exceção, vivenciarão episódios de invisibilidade.

No início da noite, após contemplar o silêncio da rua deserta, retorno minha atenção para o facebook. O mestre, Leonardo Antônio Dantas Silva, que carrega consigo uma bagagem de conhecimentos fantástica, havia postado o poema - Se eu morresse amanhã de manhã - do grande Antônio Maria.

E Leonardo dá seu grito de alerta: "UM RECADO DE ANTÕNIO MARIA DE ARAÚJO, PARA TOOS NÓS ESQUECIDOS".

Os mestres também sofrem os efeitos da invisibilidade.

 

SE EU MORRESSE AMANHÃ DE MANHÃ

 

Antônio Maria

 

De que serve viver tantos anos sem amor

Se viver é juntar desenganos de amor

Se eu morresse amanhã de manhã

Não faria falta a ninguém

Eu seria um enterro qualquer

Sem saudade, sem luto também

Ninguém telefona, ninguém

Eu grito e um eco responde:

"ninguém!"

Se eu morresse amanhã de manhã

Minha falta ninguém sentiria

Do que eu fui, do que eu fiz

Ninguém se lembraria.

Na nova ordem nos tornamos invisíveis antes da morte.

 

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Santa Cruz
Um amor de 108 anos
postado em 03 de fevereiro de 2022

CLAUDEMIR GOMES

 

O mestre, Lenivaldo Aragão, postou um artigo sobre a história do Santa Cruz, o Clube do Povo, que neste 3 de fevereiro de 2022, comemora 108 anos de fundação. Compartilhei antes de ler toda a matéria. Leni, que não gosta muito de elogios, fica um pouco sem jeito por conta de sua excessiva timidez, é o maior historiador do futebol pernambucano. Ele é. Outros nomes que merecem nosso reconhecimento, respeito e admiração já se foram.

Dos 108 anos da história do Tricolor do Arruda vivenciamos cinquenta na condição de jornalista. Ser testemunha da história não tem preço. Principalmente quanto isto acontece de forma efetiva, o que nos dar a sensação de ser um dos personagens, tal a aproximação que tivemos com os protagonistas: jogadores, dirigentes, técnicos, torcedores, e uma leva de profissionais que estiveram envolvidos em conquistas e episódios inesquecíveis.

"Eu sou Santa Cruz de corpo e alma!"

Foi assim que cantou Capiba. Na verdade, ele bradou para o mundo que, o santa-cruzense não pode ser pela metade. É a característica, a marca registrada, do torcedor do Clube do Povo.

Certa vez, escalado pelo mestre, Adonias de Moura, um dos maiores amantes do Santa Cruz que conheci, fui entrevistar Aristófanes de Andrade, reconhecidamente uma das figuras mais ilustres da história do Clube do Arruda. Estávamos caminhando defronte a sede do clube, na Avenida Beberibe, quando, de um ônibus superlotado, um torcedor põe quase meio corpo para fora da janela e grita: "Seu Aristófanes! Este estádio é nosso. É nossa casa".

O elegante Aristófanes parou por um instante, segurou meu braço, e com os olhos marejados, revelando a emoção que sentia no momento, comentou: "Isto é o Santa Cruz. O que aquele rapaz gritou ali traduz toda a nossa conversa. O Arruda é o sonho da casa própria. A vitória do nosso time é um bálsamo para o sofrimento de toda a população dos morros do Recife".

Tive o privilégio de participar da construção da obra literária - Santa Cruz de Corpo e Alma - desde o seu início. Foram 20 anos de um trabalho capitaneado pelo inesquecível, João Caixero de Vasconcelos Neto, e que foi concluído por uma equipe de primeira linha: Lenivaldo Aragão, José Neves Cabral, Humberto Araújo, Deusdedith Antônio e este humilde contador de histórias.

Uma experiência sem precedentes para todos nós. Mais ainda, uma soma de conhecimentos que nos tornou maiores como seres humanos e cidadãos. A entrega e a resiliência de Caixero nos mostraram que a vida e a sobrevivência do Santa Cruz são traduzidas através da alma dos seus amantes.

Homens ilustres, homens simples, heróis de arquibancadas, figuras populares, personalidades de camarotes, profissionais que não conseguem ficar escondidos por trás dos microfones... Todos são nivelados, igualados, se juntam e se misturam num grito que ecoa por toda a cidade; Tri, tri, tri, tricolor.

Como lembrou o mestre Lenivaldo no seu artigo: "Ao fundar o Tricolor, a meninada da Boa Vista só queria se divertir".

E a brincadeira ficou séria.

Afinal, o Santa Cruz não é paixão. É amor clubístico.

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Campeonato Pernambucano
O Primeiro Clássico
postado em 29 de janeiro de 2022

CLAUDEMIR GOMES

 

Sport e Náutico disputam hoje o primeiro clássico pernambucano da temporada 2022. O jogo é válido pela Copa do Nordeste. Alvirrubros e rubro-negros medirão forças, no mínimo, quatro vezes este ano. Mas existe a possibilidade de o número de confrontos entre os dois times ser elevado para oito ou nove vezes. Tudo vai depender dos desempenhos do Leão e do Timbu no Pernambucano, na Copa do Nordeste, na Copa do Brasil e no Brasileiro da Série B.

Clássicos que acontecem nas primeiras rodadas das competições não servem de parâmetros para o restante da temporada por uma série de fatores. Questões óbvias como ausência de bons jogadores, os times ainda estão em formação, e este ano existe um adversário comum, e oculto, que tem tirado muitos profissionais de jogos: a pandemia do Covid.

Em épocas passadas os clássicos sempre eram preservados, programados para serem disputados a partir da quinta rodada. E olha que existia tempo para realização de uma pré-temporada digna. Certo dia, com o objetivo de atender os interesses da televisão, que sempre se preocupou, unicamente, com a audiência, em detrimento do bom futebol, alguém defendeu a programação de clássicos na abertura dos campeonatos. Seduzidos pelo canto da sereia, os dirigentes logo balançaram a cabeça. O nível técnico dos primeiros clássicos foi comprometido de forma absurda.

Restou a rivalidade.

E por falar em rivalidade, o clássico deste sábado entre rubro-negros e alvirrubros, na Ilha do Retiro, terá apenas a torcida leonina. Sinais dos tempos em que o futebol se curva a violência das organizadas. Considero a medida questionável, embora não seja expert em segurança. Afinal, a torcida do clube que não é o mandante está proibida de ter acesso ao estádio, mas nada impede os "brigões e baderneiros" de transitarem pelas ruas da cidade. Detalhe: os confrontos entre torcidas organizadas raramente acontecem dentro dos estádios, elas se programam para as %u201Cbatalhas%u201D nas ruas e nas estações de metrô.

Quando comecei a frequentar estádios as torcidas eram sinônimos de festa, alegria. Acompanhei a trajetória do hexa do Náutico; do penta do Santa Cruz e bons momentos do Sport com estádios lotados, todos juntos e misturados numa civilidade que foi empanada pelo surgimento das organizadas e seus gritos de guerra que já causaram mortes, mutilações e transformou o futebol, maior entretenimento do país, em refém da violência.

Sport e Náutico não tiveram boas estreias na Copa do Nordeste. Os leoninos amargaram uma derrota para o CRB, em Maceió, enquanto os alvirrubros tiveram que digerir um empate, sem gols, com o Campinense, nos Aflitos. O jogo do Náutico com o time paraibano teve como pano de fundo os confrontos entre as torcidas organizadas. A do Campinense foi respaldada pela do Sport, numa espécie de trailer do que pode vir a acontecer na tarde/noite deste sábado, nas ruas do Recife.

Não podemos esperar um futebol de boa qualidade técnica no primeiro clássico da temporada. Os dois times não estão credenciados para tal façanha. Mas que sejam intensos na busca da superação. É o mínimo que se espera de uma rivalidade centenária.

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