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Maio 2012 ›› CLAUDEMIR GOMES
Sport enfrentará o Vasco na Ilha do Retiro!
Gol do bom senso.
Em decisão não se despreza o misticismo. Os deuses, e os bruxos, do futebol emitem sinais que são decifrados apenas por quem conhece cada palmo de chão dentro das quatro linhas. São os mistérios do futebol traduzidos pelas evocações feitas a Nossa Senhora; ao Cristo Salvador e a Xangô. Tudo em nome da vitória.
Ilha do Retiro ou Arena Pernambuco?
Para o cartola engravatado, pouco importa. Afinal, seu foco é apenas na busca de recursos. Vitórias e conquistas no futebol têm um alto custo. Mas não ferem o princÃpio básico da economia: investir para lucrar.
Por outro lado, nada mais mágico para um jogador que veste a camisa do Sport, do que entrar em campo sob os gritos de vinte mil torcedores: "Casá, casá, pelo Sport tudo!"
Certa vez um jogador me disse que, aquele coro unÃssono e ensurdecedor arrepia até os pelos do mucumbu de quem está em campo. Este doping motivacional funciona bem melhor na Ilha do Retiro.
Portanto, no próximo domingo, todos a Ilha. A vitória sobre o Vasco passa pelo grito do torcedor, evidentemente. Os que enxergam o futebol estritamente como negócio irão dizer que os gritos também encontram eco na Arena Pernambuco.
Argumento de quem não conhece o DNA do futebol pernambucano. Sport, Náutico e Santa Cruz são clubes centenários. Todos possuem estádios próprios que são tratados como santuários pelos torcedores. Para entender esta peculiaridade socio esportiva é preciso raciocinar como o saudoso tricolor, Aristófanes de Andrade: "O torcedor quando chega no estádio do seu clube, ele se sente como se estivesse realizando o sonho da casa própria".
Coisas da paixão clubista que são explicadas pelos números. Das 14 vitórias contabilizadas pelo Sport, até o momento, nesta edição da Série B, 12 foram construÃdas na Ilha do Retiro. Vale ressaltar que, o time leonino vem de uma sequência de 6 vitórias como mandante. Para turbinar o ciclo positivo, pela primeira vez neste campeonato, o Sport venceu três jogos seguidos.
Jogo de Búzios, ciganas e cartomantes. As consultas são feitas a toda hora. Em São Januário, no Rio de Janeiro, as promessas a São Sebastião e multiplicam. Nada de grandes pedidos. Os cruzmaltinos se sentirão abençoados com um empate, no próximo domingo. A Ilha do Retiro mete medo, pois foi nela que nasceram dois dos maiores jogadores da história do Vasco: Ademir Menezes (O Queixada) e Juninho Pernambucano. Passado e presente exigem respeito.
Os pedidos nas igrejas e terreiros pernambucanos são mais ousados. O Sport precisa da vitória para seguir alimentando o sonho do acesso.
Ligo o rádio nas resenhas esportivas, em busca de boas novas, e um repórter pouco criativo esbraveja: "Sport x Vasco é o jogo do ano". A expressão, "jogo do ano", foi transformada em jargão pela turma da latinha.
Sport e Vasco empataram em 0x0 no primeiro turno. Na sequência, nas três rodadas restantes, o time carioca somou quatro pontos, enquanto o rubro-negro pernambucano contabilizou cinco pontos.
As campanhas dos dois times são parelhas, fato que pode levar o acesso a ser decidido através dos critérios de desempates. O "tiro" final nesta corrida em busca do retorno a Série A é composto por quatro jogos, mas o primeiro passo será dado domingo, na Ilha do Retiro. Passo este que pode vir a ser o mais importante, podendo até receber a leitura de um salto para Primeira Divisão.
CLAUDEMIR GOMES
Reginaldo Rossi, que era conhecido como REI DO BREGA, um dia cantou: "Recife tem encantos mil". Isto foi há 28 anos. Rossi não imaginou que, o "pedacinho do Brasil", que ele tratava como "um paraÃso tropical", em pouco tempo fosse ter bairros históricos, autênticos berços culturais, tão devastados, transformados em cenário de pós-guerra.
Na sua música Rossi ainda ressalta o Recife como a "Capitania que deu mais lucro". Verdade histórica. As riquezas da Capital Pernambucana encheram muitas burras. E continuam a engordar contas bancárias. Tudo em nome da nova ordem.
Os bairros do Recife, Santo Antônio, São José e da Boa Vista são perfeitos para a criação de circuitos da miséria. O Capibaribe, mais que nunca, é um "Cão sem Plumas", como chamou o grande, João Cabral de Melo Neto, em 1950.
O centro do Recife agoniza!
Só entende isso quem vivenciou a cidade na última metade do Século XX. Com o propósito de fazer um levantamento de preço, fiz uma breve incursão por um dos circuitos da miséria.
Estacionei o carro na Rua Diário de Pernambuco. Foi como se estivesse voltando a uma rotina vivenciada por mais de vinte anos. O choque de realidade me assustou. O comparativo entre os cenários de 40 anos atrás e o atual, nos faz sentir a faca cortando nossa própria carne. Meu destino era a Rua Camboa do Carmo. Os vários prédios abandonados no entorno da Praça da Independência - Pracinha do Diário - me fez acelerar os passos. Cruzei uma praça deserta, que fora abandonada até pelas prostitutas de quinta categoria que ali faziam ponto, contracenando com evangélicos que sempre escolhiam aquele logradouro público para fazer suas pregações.
Da calçada da Igreja de Santo Antônio contemplei todo o cenário. Lembrei do Café Nicola; do Bar Savoy; da lanchonete da Casa Matos; da Sorveteria Estoril; Da Botijinha; dos Salões Santo Antônio e Suez; do restaurante Galo Douro... Enfim, o centro da cidade pulsava, e nele encontrávamos o melhor da culinária pernambucana.
Tudo passou. Hoje o cenário é de pós-guerra!
Ao chegar na Camboa do Carmo me deparei com um exército de pessoas que, na luta pela sobrevivência, aborda todos os transeuntes para levá-los às óticas ou joalharias. Cruzei o Pátio da Igreja do Carmo e fui até o Pátio do Livramento. Retornei pela Rua Duque de Caxias. No final da incursão, já com o astral debaixo da sola do sapato, parei para tomar um café pequeno. A lanchonete fica naquele que, décadas passadas fora chamado de "Arranha Céu da Pracinha".
Enquanto degustava um café expresso e um bolo de bacia, olhava para o acabado prédio do histórico Diário de Pernambuco. Fui torturado pelas lembranças dos tempos vividos na redação por mais de duas décadas. Não era uma redação de jornal. Aquilo lá era o local onde uma famÃlia se reunia para trabalhar. O sentimento de irmandade tornava a labuta prazerosa, e fazia com que todos chamassem o jornal de "meu". Uma famÃlia que tinha "pais" e mestres nos orientando todo o tempo, e o tempo todo.
Ao atravessar a rua encontrei um pedacinho vivo do DP: Miro do Samba. Tão logo me avistou abriu um sorriso e veio, com seu andar tropego, me dar um abraço.
"Eu sou a lenda viva desse pedaço de chão!", disse o velho Miro com um orgulho que me emocionou. Acho que Miro é o único guardador de carro, no mundo, que nunca aprendeu a dirigir.
Como pode uma pessoa encontrar alegria em meio a tanta devastação?
A indagação ecoou mais do que qualquer som emitido pela bigorna quando das marteladas do ferreiro.
"Miro é poesia", sintetizou o mestre Humberto Araújo, que assim como eu, e muitos outros jornalistas, vivenciou o Recife dos Encantos Mil, como cantou o Rossi.
CLAUDEMIR GOMES
"Aos inimigos, os rigores da Lei!".
A frase é do saudoso Cel. Adelson Vanderley, uma das pessoas mais Ãntegras que o futebol me apresentou. O grande conhecimento da matéria futebol, e a seriedade como tratava todos os assuntos pertinentes ao esporte mais popular do planeta, lhes levaram a ser respeitado, querido e admirado por todos que militam na "Pátria de Chuteiras", e tiveram o privilégio de lhe conhecer.
Os bastidores do futebol pernambucano fervem com a deflagração do processo eleitoral para a escolha do futuro presidente da FPF. Mexeram no tacho e o odor é igual ao exalado quando se mexe numa latrina.
- Nada é feito fora da Lei! Me assegurou um "cartola".
No que lhe respondi: Só se for a Lei do Cão.
"Pode! Pode tudo", cantaria o Tim Maia. Verdade. Em se tratando de eleições nas entidades do futebol brasileiro tá podendo até homem com homem e mulher com mulher. Até porque, nos dias de hoje homofobia é crime.
Certa vez, o ex-presidente da FPF, Carlos Alberto Oliveira, estava na calçada do prédio do Palácio dos Desportos Rubem Moreira, sede da entidade que rege o futebol estadual, quando passou dois populares, e um exclamou para o outro em bom som: "Aà é a casa do mondéo".
Traduzindo: O torcedor quis dizer para o amigo que naquele edifÃcio é onde se fazia os conchavos, as tramoias e tudo mais que existe de errado no futebol.
Parodiando Dom Hélder Câmara podemos dizer: "Vocês pensam que o torcedor não sabe. O torcedor sabe".
E todos já estão carecas, ou de cabelos brancos, de saberem que, nas eleições da CBF, Federações, Ligas... existe uma moeda de troca chamada FAVORES. E ela é maior que o Real, o Dólar, a Coroa, Criptomoeda... Como no futebol a emoção é um diferencial que desbanca qualquer pragmatismo, os FAVORES funcionam como ferramentas que atuam no sentimento. E criam uma dependência que é confundida, é explorada, como gratidão, mas que na verdade não passa de uma compra de votos.
Dia desses, fomos passar um final de semana em um flat, em Gravatá, e minha mulher, Ãurea Regina, chamou a faxineira e lhe deu uma generosa gorjeta logo que chegamos. A moça sorriu e disse: "Poxa! As pessoas nunca agradam na chegada".
E Ãurea lhe deu o recado: "Quem agrada quer ser agradado".
à a lei do toma lá, dá cá! Bem assimilada por federações, ligas e clubes de poucos recursos no futebol brasileiro. O cenário é o mesmo desde a década de 30 do século passado.
Não me venham falar do politicamente correto. Em se tratando de eleições em entidades e clubes do futebol brasileiro, o que vale são os rigores existentes em estatutos e regulamentos caducos. Eles são responsáveis pelo conservadorismo que impede a evolução.
Com a chegada da nova ordem se chegou a pensar que o obscurantismo estaria perto do fim. Ledo engano. O que estamos vendo neste processo sucessório em curso, na FPF, é uma mostra de que o nosso futebol ainda se rende aos senhores feudais.
Quanto vale um favor? Me perguntou o rubro-negro, Bernardino Magalhães, de Serra Talhada.
Favor não tem preço! Lhe respondi.
Como as Ligas e os clubes de parcos recursos são vulneráveis, quem tem o comando utiliza os "rigores da Lei".
Eu fico com a pureza da resposta do torcedor:
"à muito mondéo!".
CLAUDEMIR GOMES
Hoje acordei no passado, embora consciente de que não posso vivenciar o tempo que passou. Acredito que tal sentimento tenha sido provocado, em parte, pela leitura do excelente artigo de José Nivaldo Júnior, publicado na edição de ontem (06/09/2022), do jornal O PODER, sobre o Bicentenário da Independência do Brasil.
Mais que um artigo, uma aula de história e conscientização, coisa rara nos dias de hoje onde a alienação impera.
José Nivaldo começa sua narrativa lembrando o visionário, Marco Maciel, que não foi levado a sério quando, no inÃcio dos anos 90, no século passado, defendeu, no Senado, a ideia de ser formada uma Comissão para tratar do Bicentenário da Independência do Brasil. A proposta virou piada para os crÃticos, que alegaram ser muito cedo para se debruçar sobre o assunto. Pois bem! O tempo passou, o Bicentenário chegou e nenhuma comemoração foi programada.
"Somos uns boçais!" Como canta o poeta, Caetanos Veloso, na sua icônica, Podres Poderes.
Nos últimos dias, por onde ando, sempre encontro alguém para repetir uma frase que parece fabricada para o momento: "O futebol pernambucano está acabado!".
Qual a causa, ou as causas, desta falência, deste apequenamento? Tenho me perguntado. Creio que encontrei a resposta na literatura, ao iniciar a leitura do novo tÃtulo lançado pelo amigo e mestre, Raimundo Carrero, A Luta Verbal. Digo sem medo de errar: o grande mal do futebol pernambucano é o conservadorismo.
Tal como fizeram com o saudoso Marco Maciel, há 30 anos no Senado, quem falar em projeto no futebol pernambucano é execrado. Coisa do absolutismo que impera no futebol brasileiro. Absolutismo tão bem expresso no modus operandi da FPF, Ligas e Clubes filiados.
Dia desses o mestre, Sylvio Ferreira, psicólogo, professor universitário, elogiou meus artigos, e disse que eu ia na contramão por "colocar o dedo na ferida com muita clareza e muita coragem".
Seguindo os ensinamentos do mestre, Carrero, diria que o momento é imperativo, exige que sejamos impiedosos e crÃticos com conservadorismo.
Perdi a conta dos gritos de alerta dados pelo mestre, José Joaquim Pinto de Azevedo, um dos maiores estudiosos do futebol brasileiro, e que nunca encontrou eco na FPF e nos Clubes. E viva a tirania! A resultante deste absolutismo é o Santa Cruz aparecendo como inquilino da Série D nacional; o Náutico a caminho da Série C e o Sport tendo seu sonho de acesso frustrado por conta de duas derrotas para o CRB de Alagoas.
Nenhuma mudança acontece num piscar de olhos. A história é rica em exemplos que nos mostram, e atestam, a necessidade e importância de se projetar para mudar. Mas, enquanto nada acontece neste sentido, sigamos ouvindo:
"O Senhor Rei mandou dizer que...".
CLAUDEMIR GOMES
- Quais as chances do Náutico?
A pergunta me foi feita de bate pronto, fato que provocou uma resposta na mesma intensidade, mas em sentido contrário:
Nenhuma! Já está rebaixado.
- Mas ainda faltam onze jogos para o final do campeonato? Insistiu o inocente torcedor como se estivesse buscando a ilusão perdida.
Recorri a ironia para lhe dar um choque de realidade:
Se nos próximos jogos o Dado escalar Cumade Fulozinha, Saci Pererê e Papai Noel é possÃvel que aconteça alguma coisa.
- Você tem razão!
Como se estivesse acordado de um sonho, ou pesadelo, o torcedor alvirrubro esboça um sorriso, e se despede dando sua receita para um futuro melhor:
- Renúncia já!
Nunca aprovei caça as bruxas. Sabemos que os erros existem e eles foram cometidos por alguém. Mas quem não erra quando tem o poder nas mãos? A luta contra o próprio ego é uma das mais difÃceis para qualquer ser humano. A pitada de vaidade que o homem carrega com ele se transforma em toneladas quando ele está com o cetro em suas mãos. No futebol tudo se agiganta por conta do componente emoção.
E o presidente chama o clube de MEU.
Mas o futebol é um esporte coletivo. E o coletivo tem que funcionar em todos os quadrantes do clube. Afinal, ele é quem determina as vitórias. E sem vitórias o poder se torna volátil. Eis o castigo para quem exerce a tirania no futebol.
Certa vez, o mestre Gustavo Krause, um dos maiores alvirrubros que conheço num bate papo informal, me disse que: "futebol não aguenta desaforos".
Não existe desaforo maior do que se eleger a incompetência para um cargo que exige inteligência. Este é o tÃpico exemplo do erro coletivo,
E toda a corte, do rei aos vassalos, sofre com os efeitos do erro coletivo. Como em toda corte tem um bobo, ele é apontado como o grande culpado. Afinal, é inadmissÃvel fazer graça com tal cenário.
A ordem é jogar bosta no técnico, o bobo da corte sempre que o andor se torna inviável de ser carregado num clube de futebol. E lá se vai um, dois, três, quatro, cinco... até que um dia descobrem que não existe mais bobo na corte. E o rei está nu.
Hora de deitar as armas. O exército não tem forças para conquistar nada, sequer tem capacidade de assegurar o espaço que havia transformado em seu com honrosas e inesquecÃveis vitórias.
Desculpem a metáfora. Mas depois de assistir as últimas apresentações do time do Náutico é impossÃvel falar em esquema de jogo, intensidade, transição de jogadas, dribles, bola parada...