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A bola é branca, e não preta!
postado em 28 de outubro de 2024

CLAUDEMIR GOMES

 

O Planeta Bola viveu nesta segunda-feira a expectativa do anúncio dos vencedores da Bola de Ouro de 2024, maior, mais expressivo e mais cobiçado prêmio do futebol internacional. O brasileiro Vinícius Jr. era o favorito para conquistar o troféu, que foi entregue ao espanhol Rodri, jogador do Manchester City e da Seleção da Espanha.

As qualidades do vencedor são inquestionáveis, assim como, está fora de discussão a melhor temporada do brasileiro. Não vi nenhuma explicação plausível que justificasse a não indicação de Vini Jr. como o melhor do mundo, no momento. Sabemos que ele, e qualquer outro jogador, jamais será unanimidade, mas negar este prêmio ao atacante do Real Madrid chega a ser uma agressão.

O clima da cerimônia no Théâtre du Châtelet, em Paris, traduziu bem a não aceitação da equivocada premiação, que foi marcada pela total e irrestrita ausência de representantes do Real Madrid, mesmo com o clube espanhol, e alguns dos seus profissionais, tendo sido agraciados com outras premiações.

Em diálogo íntimo e pessoal, cá com meus botões, pus para fora um monte de interrogações:

Será que ainda estamos no século passado, quando o futebol foi trazido para o Brasil e os negros não podiam jogar?

Será que Nelson da Conceição, Leônidas, Pelé... não jogaram o suficiente para soltar todas as correntes de preconceitos?

Será que, por ser negro, Vini Jr. não pode dançar, não pode expor a alegria reservada aos bailarinos da bola?

Será que a Lei do Silêncio que imperava na senzala foi adotada no futebol mundial?

Desculpem! A injustiça que fizeram com o Vini Jr. me deixou confuso.

Vou ouvir o Chico Buarque: "Pai, afaste de mim este cálice".

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Artigos
Talentos fazem a diferença
postado em 24 de outubro de 2024

CLAUDEMIR GOMES

 

"Nada substitui o talento!".

A frase antológica do mestre Paulo Jardel nunca esteve tão em voga quanto nessa semana, quando fomos brindados com jogos que entraram para a história de duas das mais destacadas competições interclubes de futebol do planeta: Champions League e Libertadores da América. Detalhe: nos quatro jogos de maior visibilidade, placares surpreendentes e o talento do jogador brasileiro funcionando como ponto de desequilíbrio.

Ficou provado, mais uma vez, que o Brasil segue sendo o maior produtor de insumo do futebol mundial. Nos nossos campos, embora os jardineiros (leia-se gestores) sejam de péssima qualidade, são colhidos os frutos que fazem a diferença em qualquer banquete servido pelo futebol.

Na tarde da terça-feira as atenções de todos se voltaram para a disputa da terceira rodada da atual edição da Champions League. O destaque ficava por conta do confronto do Real Madri com o Borussia Dortmund. A partida foi disputada no Santiago Bernabéu, casa do time madrileno, fato que aumentava o favoritismo dos anfitriões. Mas os alemães começaram surpreendendo ao construir um placar de 2x0 no primeiro tempo.

Entretanto, o Real Madri tem, na sua constelação, um craque que não desiste dos seus objetivos: Vini Jr. O brasileiro que se consolidou, com uma atuação soberba nos 45 minutos finais da partida, como o grande favorito para receber o prêmio de Melhor do Mundo da FIFA, em eleição a ser realizada na próxima segunda-feira, só não fez chover no estádio espanhol, capitaneando a vitória e virada história de 5x2, sendo o autor de dois gols. Um momento digno do novo rei do futebol.

Horas depois do show de Vini Jr. na Champions, do lado de cá do Atlântico, na Minas Gerais, o irreverente Deyverson, com sua cabeleira nevada, comandou a vitória do Atlético Mineiro (3x0) sobre o River Plate da Argentina, em jogo válido pelas semifinais da Libertadores.

A farra da quarta-feira começou com a queda de braço entre Barcelona e Bayern de Munique. Jogando em casa, o time catalão contou com a leveza e velocidade do atacante brasileiro, Rafinha, autor de três gols na história goleada de 4x1 sobre a respeitável equipe alemã.

As arruaças promovidas por uma facção da torcida do uruguaio Peñarol, nas ruas do Rio de Janeiro, transformaram o jogo com o Botafogo, no Estádio Olímpico Nilton Santos, válido pelas semifinais da Libertadores, num confronto de risco. Nos primeiros 20 minutos da partida, ficou difícil diferenciar o jogo de futebol com os embates de MMA, tal a disposição e provocação dos visitantes.

O Botafogo demorou a encontrar uma saída, e o caminho para uma goleada histórica (5x0) construída no segundo tempo, veio do talento do atacante Luiz Henrique.

O futebol não tem mistério. O coletivo tem que ser a prioridade, pois somente assim o conjunto se fortalece, mas o que faz a diferença é o talento individual. Aos maestros compete o desafio de encontrar a forma de melhor explorar os talentos que têm em mãos.

Simples assim.  

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Sport
Um grito de amor e liberdade
postado em 18 de outubro de 2024

CLAUDEMIR GOMES

 

Apesar da tentação, e do esforço, não consegui ir a Ilha do Retiro, quarta-feira para assistir ao jogo do Sport com o Operário, no qual o rubro-negro pernambucano, por falta de foco, amargou uma derrota (2x1), que não foi bem digerida por sua torcida. Coisa do futebol!

Mas a noite foi marcada por um momento divino: a orquestração do já tradicional cazá, cazá, desta feita puxado pela torcedora Sandra Bertini. Estou próximo a levantar a bandeira do cinquentenário como cronista esportivo. Nesta longa estrada testemunhei momentos de grandes emoções de diversas tribos. Mas poucos foram tão profundos, e significativos, quanto aquele grito de amor, tendo a senhora Bertini como grande protagonista.

Na época de efervescência dos clubes sociais recifenses, vi o cazá, cazá ser entoado com arranjos dos maestros Nelson Ferreira, Duda, Fernando Borges e até do paulista, Érlon Chaves.

Testemunhei as homenagens feitas pela torcida rubro-negro ao Mestre de Apipucos, Gilberto Freyre, e ao grande Ariano Suassuna, gritando seus nomes junto com o cazá, cazá.

O rubro-negro Severino Victor foi um dos fundadores da orquestra Treme Terra. Ele fazia questão de ressaltar que foi o primeiro a levar o frevo para as arquibancadas dos estádios pernambucanos. Certa vez, Victor me revelou, na redação do Diário de Pernambuco, que era "indescritível", a emoção que sentia, quando adentrava na Ilha do Retiro, a frente da Treme Terra, e a torcida leonina gritava o cazá, cazá.

Dona Sandra Bertini!

Fecho os olhos, exijo o máximo da memória, mas é impossível lembrar todas as vozes, formas e lugares onde testemunhei rubro-negros entoando o grito do cazá, cazá. Todos, sem exceção, ao seu modo, ao seu jeito, procuravam, através da marca registrada a tribo leonina, expressar alegria e emoção.

Entretanto, confesso que, nenhum alcançou o estágio de sublimação como aquele momento, minutos antes de a bola rolar na Ilha do Retiro, quando fostes protagonista ao reger um coro de mais de vinte e seis mil torcedores, no mais inesquecível e emocionante de todos os cazá, cazá, já entoados no estádio rubro-negro.

Não foi um grito de guerra!

Foi um brado que descortinou o mais puro amor. A paixão de uma mulher que já esteve na iminência de ser a primeira dama do clube. Um grito que quebrou paradigmas, enterrou preconceitos.

Não estava presente ao estádio. Vi as imagens daquele momento sublime, pela primeira vez, através do smartphone. Emocionante! Transferi o vídeo para o computador. Por fim, cheguei à conclusão de que, aquelas imagens eram coisas de cinema, e as transportei para a televisão.

Enganam-se os que pensam que não se pode orquestrar uma explosão de emoção coletiva. Sandra Bertini provou que é possível sim. A maestrina utilizou o corpo e a alma para interagir com os 26.345 leoninos presentes no estádio. E todos atenderam o seu chamado. Assisti ao vídeo inúmeras vezes. A cada visão, uma nova descoberta.

Aquele silêncio sepulcral, em fração de segundos, num estádio com mais de vinte e seis mil torcedores, dava para ouvir o bater de asas dos pirilampos encandeados pelos novos refletores da Ilha do Retiro. E veio a explosão com a voz forte e imperativa da maestrina Sandra Bertini: "E para sempre será!".

Naquele momento todos entenderam porque o "Sport estremece a terra".

Sandra!

Você colocou efeitos especiais num presente dos céus: seu amor pelo Sport.

 

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Seleção Brasileira
Goleada agridoce
postado em 16 de outubro de 2024

CLAUDEMIR GOMES

 

A décima rodada das Eliminatórias Sul-americanas para a Copa de 2026 foi marcada por uma enxurrada de gols: a rede balançou 17 vezes nos cinco jogos realizados. Mas é importante observar que, goleadas nem sempre traduzem a história real dos jogos com fidelidade. Isto é fato. Alguns resultados mascaram a realidade dos fatos.

A Seleção Brasileira, nas duas últimas apresentações, contra Chile e Peru, respectivamente, o lanterna e o vice lanterna das Eliminatórias Sul-americanas, contabilizou duas vitórias - 2x1 (Chile) e 4x0 (Peru) - resultados que levaram o time a dar um salto na tabela de classificação, e folgaram o nó da corda que estava apertando o pescoço do técnico Dorival Júnior.

Dorival Júnior no comando da Seleção Brasileira é um exemplo clássico da dualidade entre o ser e o parecer, onde fica ressaltada a importância da aparência nas relações humanas. O treinador, que em início de carreira teve uma passagem pelo Sport, tem qualidades que são inquestionáveis, mas sua aparência na área técnica durante os jogos é de um %u201Cbobão%u201D. Como bem disse o imperador romano, Júlio César: "A mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta".

As disputas das Eliminatórias Sul-americanas alcançaram o returno e o cenário começa a ser definido. No final teremos um quadro similar ao das disputas passadas. Brasil e Argentina são figuras carimbadas; a novidade da vez é a Colômbia; Equador e Uruguai também devem passar. Enfim, como foram abertas mais vagas, com o aumento do número de seleções, quem tem pouca qualidade técnica também embarca no último vagão.

A Copa do Mundo perdeu muito do seu encanto quando o viés comercial passou a ser a coisa mais importante para a FIFA. Os primeiros parceiros comerciais da entidade que promove a competição foram vistos no Mundial da Argentina, em 1978. De lá pra cá a coisa tomou uma proporção gigantesca, com um salto estratosférico pós Mundial dos Estados Unidos, em 1994, quando o Brasil conquistou o tetracampeonato.

Diria que a qualidade técnica da disputa caiu quase que proporcionalmente, mas em sentido contrário, ao crescimento comercial. Hoje, a Champions League nos oferta jogos com qualidade técnica superior às partidas da Copa do Mundo. Vale lembrar que, para tudo existe exceções. Mas no geral é assim.

Portanto, não nos enganemos com a goleada imposta pela Seleção Brasileira aos pernas-de-pau do Peru. O que aconteceu ontem, no Estádio Mané Garrincha parecia mais um clichê das inúmeras CPIs que são colocadas para votação no Congresso, e na Câmara, e tudo termina em pizza.

É mestre José Joaquim Pinto de Azevedo! A cantiga da perua é uma só. Por incrível que pareça, nas arquibancadas, aquela elite estranha que só vai a jogos da Seleção porque ganha convites, ainda canta: "Pra frente Brasil, salve a Seleção".

É um show!

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Artigos
"O meu português ruim"
postado em 09 de outubro de 2024

CLAUDEMIR GOMES

 

A Era da Comunicação, como é chamada a nova ordem, por si só explica uma enxurrada de besteirol que vemos nas redes sociais, rádios, televisão... A verdade é que tem muita gente se achando, sem ter condição de achar nada. Mas não adianta nadar contra a maré. O silêncio é o que existe de mais sábio a ser feito por um cidadão que tem um pouco de discernimento.

Os mestres do achismo atacam em todas as vertentes. O futebol, que segue sendo uma das maiores paixões do brasileiro, não poderia ficar de fora deste contexto em que os pitaqueiros são tratados como reis, e até fazem fortunas como influences.

Vez por outra, até os profissionais experientes "dançam na maionese". Recentemente, numa dessas mesas redondas da ESPN, com direito a presença de um ex-jogador tetracampeão, e jornalistas com várias coberturas de Copa do Mundo no currículo, o assunto dominante em mais de 15 minutos de programa foi as escorregadas dadas pelo jovem atacante Savinho durante uma coletiva de imprensa.

O rapaz de 20 anos, que começou sua carreira nas divisões de base do Atlético Mineiro, e atualmente está vinculado ao Manchester City, caiu em desgraça quando, do alto de sua sinceridade, revelou que não havia visto os últimos jogos da Seleção Brasileira. Vale lembrar que ele reside na Inglaterra onde a diferença de fuso horário para o Brasil é de 5 horas. Sendo assim, um jogo que aqui é disputado às 22 horas, lá já são 3 horas do dia seguinte.

Confesso que, em dado momento, pensei que estivesse vendo todos os "idiotas" que assustavam o mestre Nelson Rodrigues. Fiquei sem saber se o rapaz estava sendo entrevistado para um emprego na emissora de televisão, ou concorrendo a alguma cadeira da Academia Brasileira de Letas.

Ora! O que se deve exigir de um jogador que é convocado para defender a Seleção Brasileira de Futebol é que ele apresente um bom futebol, nada mais que isso. Tal como fez o Rivaldo no Mundial de 2002, quando foi um dos maiores protagonistas da conquista do penta. O craque pernambucano era terrível na comunicação, mas superava a tudo, e a todos, com a bola nos pés.

Nunca vi nenhum professor de oratória, nenhum imortal da ABL ou nenhum grande comunicador ser convocado para jogar na Seleção Brasileira. O problema do time comandado por Dorival Júnior não é de linguística. Tudo começa pela gestão da CBF que há muito tempo permite a farra dos empresários que empurram jogadores de qualidades discutíveis nas convocações.

Não existe nada mais melindroso nesse País do que a convocação da Seleção Brasileira. Dizem que é pior até do que insultar o ministro do STF, Alexandre de Moraes. Entretanto, entra técnico, sai técnico, presidentes da CBF são trocados, mas o coloio dos empresários se mantém firme. É algo imprescindível na liturgia da entidade.

Mas é mais fácil espinafrar um jogador por conta do seu português ruim.

A turma do achismo é tão amarga quanto um gol contra.

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