Histórico
Olimpíada
Tributo ao Amor
postado em 26 de julho de 2024

CLAUDEMIR GOMES

 

A cerimônia de abertura das Olimpíadas de Paris 2024 foi encerrada com a canadense, Céline Dion, interpretando, do alto da Torre Eiffel, o clássico Hymne à L'amour (Hino ao Amor), que ficou mundialmente conhecido através da icônica Édith Piaf. O som segue ecoando nos meus ouvidos, e as imagens irão se perpetuar na minha memória.

"Se o azul do céu escurecer...", podem ter a certeza de que, a abertura dos Jogos de Paris foi um dos espetáculos mais bonitos que tive a oportunidade de assistir em vida. Ao vivo e a cores, graças aos avanços da tecnologia, evidentemente.

Desde o encerramento das Olimpíadas de Moscou, em 1980, quando o mundo se encantou com as imagens do mascote, o ursinho Misha, soltando uma lágrima no grande mosaico formado nas arquibancadas, que passei a aguardar, com certa expectativa, as novidades a serem apresentadas pelos países anfitriões nas várias edições dos Jogos Olímpicos.

Tive a oportunidade de constatar o grande canteiro de obras que a Capital Francesa havia se transformado nos últimos anos, se preparando para promover os Jogos Olímpicos de 2024. Valeu a espera de cem anos, e os transtornos aos quais os franceses foram submetidos para que fosse possível realizar o espetáculo que encantou o mundo.

Os franceses foram impecáveis no tributo que fizeram ao belo.

Paris, por si só, é um convite ao amor. E a abertura dos Jogos 2024 foi uma mensagem clara, límpida, transparente, de que o amor é aceitação e tolerância as diferenças. Num cenário deslumbrante, os franceses que tiveram a ousadia de quebrar paradigmas ao fugir da tradição de realizar a abertura dos jogos em estádios, mostraram ao mundo, da forma mais graciosa possível, como é possível se manter fiel ao lema da Revolução Francesa: Liberté, Égalité, Fraternité.

Liberdade e igualdade! Tudo começa por esse entendimento. Paris não é mais libertina que outras metrópoles, mas tudo nela parece uma louvação ao amor. O entendimento vem desde o tempo de Napoleão Bonaparte. A história nos conta de que o Imperador da França foi traído, e os franceses só aceitaram que ele continuasse com a mulher porque o comandante a amava demais. Tolerância imposta pelo sentimento.

A grande Édith Piaf - cantora, compositora, atriz - amada por nove entre dez franceses, traduziu para o mundo qual a essência do sentimento transformador quando compôs Hino ao Amor.

A cerimônia de abertura dos Jogos de Paris 2024 foi cirúrgica na sua mensagem do princípio ao fim. Exemplos de inclusão por todos os lados. Momentos de convite a reflexão como a interpretação de IMAGINE, do inesquecível John Lennon.

Diante de um mundo tão conturbado, não é fácil mostrar para todos que, todo tipo de amor vale a pena. Se a ordem é amar, tem que haver fraternidade.

Viva a Revolução Francesa!

Fecho os olhos e sigo ouvindo a voz encantadora da Céline Dion interpretando Hymne à L%u2019amour. Que venham as disputas

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Seleção Brasileira
O tetra e a força do gesto
postado em 17 de julho de 2024

CLAUDEMIR GOMES

 

Existem vários caminhos que nos levam ao tetra conquistado pela Seleção Brasileira masculina de futebol, no dia 17 de julho de 1994, nos Estados Unidos. Um título que tem um viés pernambucano muito forte, razão pela qual resolvi relembrar alguns gestos cujas dimensão e importância só foram me apresentadas pelo tempo.

Em dado momento, a campanha da Seleção Brasileira nas Eliminatórias Sul-americanas chegou a ser considerada temerária. Mas veio o jogo com a Bolívia, no Arruda. Na véspera, Fred Oliveira, presidente da FPF na época, junto com o seu irmão, Carlos Alberto Oliveira, sugeriram ao imortal, Marcos Vinícius Rodrigues Vilaça, oferecer um jantar ao presidente da CBF, Ricardo Teixeira. O limoeirense, torcedor do Náutico, abraçou a ideia.

A confraternização que teve o casal, Maria do Carmo e Marcos Vinícius Vilaça, como anfitriões, foi o primeiro gesto num conjunto de acontecimentos que mudaram o rumo da história. Naquela noite, todos foram dormir com a certeza de que, a Seleção comandada por Carlos Alberto Parreira daria a volta por cima nas Repúblicas Independentes do Arruda.

O zagueiro, Ricardo Rocha, que conhecia como poucos a aura do estádio do Santa Cruz, pediu que os jogadores da Seleção Brasileira entrassem em campo de mãos dadas. A força do gesto transcendeu o momento. A torcida entrou em sintonia com o time de forma jamais vista. Estava formada a corrente pra frente.

Durante muito tempo, a imagem de um garoto (filho de Lourival ex-jogador do Náutico), vibrando, gesticulando e beijando a camisa na arquibancada, foi apresentada como sinônimo da garra, e do amor, que levariam o Brasil ao tetra. O gesto daquele garoto foi tradução fiel do recado repassado pelos pernambucanos, que foram hipotecar solidariedade e ver o Brasil retomar o caminho da vitória.

O Mundial dos Estados Unidos era a quarta edição de uma Copa do Mundo que estava cobrindo para o Diário de Pernambuco. Desta feita estava incorporado a uma equipe formada pelos companheiros do Estado de Minas e Correio Brasiliense. A estrutura colocada a nossa disposição era fantástica.

Certo dia, quando íamos fazer a cobertura do treino da Seleção, em San Jose, me deparei com o grande Ivan Lima na recepção do hotel. Com um gravador a tiracolo, se comportava como um simples repórter. Lhe apresentei aos companheiros de equipe como sendo um dos maiores narradores do rádio brasileiro. Ivan conquistou a todos com suas histórias e simpatia. Seu lugar no carro passou a ser fixo. Ele ia e voltava para jogos e treinos na nossa companhia. Quando retornou dos Estados Unidos falou para um montão de gente do meu gesto, e a gratidão que me tinha pelo acolhimento que lhe dei. Ele nunca imaginou do orgulho que eu tinha de estar, lado a lado, com um dos meus ídolos numa cobertura de Copa do Mundo.

Adherval Barros estreou na Copa de 94 como comandante da equipe de esportes da Rádio Jornal do Commercio. A marca da sua ousadia foi transmitir, do estádio, todos os jogos da Seleção Brasileira. Para marcar presença, e ratificar o feito para seus ouvintes, todos os jogos do Brasil ele me entrevistava. Um gesto que valeu de credibilidade para nós dois.

A Rádio Clube deixou apenas o repórter Alfredo Augusto Martinelli para cobrir os jogos da primeira fase da Copa. Martinelli não tinha o card que dava acesso a zona mista. Sempre que terminava o trabalho repassava o meu card para ele. Até hoje Martinelli ressalta o meu gesto e faz questão de mostrar sua gratidão.

Em determinado dia de folga encontrei Parreira e Zagallo fazendo compras num shopping em San José. Fiz um aceno com a cabeça, esbocei um sorriso e segui meu caminho. Nos encontramos em outras lojas e os deixei bem à vontade. No dia seguinte Parreira comentou, com o jornalista Ney Bianchi, da Manchete, sobre o meu comportamento. Por conta daquele gesto - respeitar o momento de folga - fui convidado, após a vitória do Brasil sobre a Holanda, no Texas, para um momento de Parreira com um seleto grupo de jornalistas. Neste encontro, após um brinde conosco, ele sentenciou: "O Brasil vai ser campeão my way!". Ao meu jeito. Era um desabafo contra a enxurrada de críticas que vinha recebendo.

Após a vitória sobre a Itália, no hotel onde estava hospedada a Seleção Brasileira, os jogadores ficaram no mezanino. Torcedores tentavam subir, mas só tinha acesso quem eles autorizassem. Ao me ver na escada, Ricardo Rocha tratou de liberar minha entrada: o gesto da irmandade pernambucana.

Hoje, trinta anos depois da conquista do tetra, observo que a força do gesto só é mensurada pelo tempo.

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Artigos
Choque de realidade
postado em 15 de julho de 2024

CLAUDEMIR GOMES

 

As disputas simultâneas da Eurocopa, na Alemanha, e Copa América, nos Estados Unidos, provocaram um choque de realidade. Cair na real não é fácil, seja qual for a circunstância. Foi o que aconteceu com o torcedor sul-americano ao traçar um paralelo entre as duas realidades, as das escolas europeia e sul-americana, que sempre brigaram que hegemonia do futebol mundial.

%u201CLembrem-se: a Jules Rimet é nossa para sempre!%u201D. Com esta frase, o saudoso Ivan Lima, um dos maiores narradores da história da radiofonia esportiva brasileira, encerrava as jornadas esportivas nos prefixos onde estava no comando.

Um lembrete mais que verdadeiro, contudo, a posse definitiva da Jules Rimet, que se deu com a conquista do tricampeonato, no México, em 1970, serviu como um divisor de águas na história do futebol mundial. A Europa retomou o caminho do progresso. O futebol seguiu os passos do crescimento econômico. As conquistas foram surgindo como uma resposta natural a organização.

De 1970 para cá foram disputadas treze edições de mundiais. A América do Sul conquistou cinco títulos: três com a Argentina (1978, 1986 e 2022), e dois com o Brasil (1994 e 2002). Em franca recuperação, a Europa que na década de 60 inseriu no seu calendário de seleções a disputada da Eurocopa, levantou oito títulos mundiaia; Alemanha (1974, 1990 e 2014); Itália (1982 e 2006); França (1998 e 2018) e Espanha (2010).

Nos últimos cinquentas anos três países entraram para o seleto grupo dos campeões mundiais: Argentina, França e Espanha. Por outro lado, dois campeões mundiais desidrataram e não conseguiram subir no alto do pódio: Uruguai, que foi campeão em 1930 e1950 e a Inglaterra campeã do Mundial que promoveu em 1966.

O Século XXI chegou trazendo a reboque uma nova ordem. A abertura total e irrestrita levou o maior torneio do futebol mundial para os continentes africano e asiático. Todas as barreiras foram quebradas, as portas foram escancaradas e os jogadores se viram livres para o ir e vir em busca dos seus sonhos.

O futebol se transformou num dos maiores negócios do mundo, cobiçado por grandes investidores. Em meio a todas as transformações, duas coisas precisam ser respeitadas: o talento que o ser humano traz consigo de berço e a vocação natural que é uma herança cultural de cada povo, cada nação.

Os Estados Unidos insistem em investir no negócio futebol. Mas o povo norte-americano não tem o esporte no rol dos favoritos. A edição da Copa América, que se encerrou no domingo, a segunda realizada na Terra de Tio Sam, foi prestigiada por torcedores de %u201Coutras américas%u201D, como bem ressaltou o mestre José Joaquim Pinto de Azevedo. E os torcedores sul-americanos foram protagonistas de cenas grotescas, que revelaram a distância que atualmente nos separa do futebol europeu.

Diminuir as dimensões do campo de jogo; promover show no intervalo da partida, intervir no protocolo com ações de marketing foram alguns dos absurdos protagonizados pelos promotores do evento que nada agregaram ao esporte, pelo contrário, bagunçaram o coreto.

O futebol tem seus mistérios, e mantém suas "caixinhas de surpresas", como diriam os mais velhos, mas após as disputas da Eurocopa e Copa América, com o show de lambanças que assistimos do lado de cá, fica difícil sonhar com um novo título brasileiro.

Por enquanto vou me contentando com o vozeirão de Ivan Lima:

"A Jules Rimet é nossa para sempre!".           

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Artigos
Choque de realidade
postado em 15 de julho de 2024
Seleção Brasileira
Mistérios da meia-noite
postado em 07 de julho de 2024

CLAUDEMIR GOMES

 

Sempre fui apaixonado por música e futebol. Culpa da geração dos Beatles e de Pelé. Tive o privilégio de usufruir da boa música dos anos 60,70 e 80 do século passado, e do futebol arte que transformou o Brasil na maior potência mundial do esporte mais popular do planeta. Pois bem! Passavam poucos minutos da meia-noite quando acabara de testemunhar a eliminação da Seleção Brasileira da Copa América que está sendo disputada nos Estados Unidos. O Brasil perdeu para o Uruguai numa decisão por pênaltis (4x2).

De imediato resolvi trocar o futebol pela música. Recorri a inteligência artificial e ordenei de forma implacável:

- Alexa! Som na caixa ao seu gosto.

Numa irônica coincidência sou presenteado com o vozeirão do Zé Ramalho:

"Mistérios da meia-noite; que voa longe; que você nunca; não sabe nunca; se vão, se ficam; quem vai, quem foi...".

Não tinha como evitar uma boa risada. Capitei a mensagem e acalmei o espírito. Afinal, a nova ordem não admite sofrimento. A boleirada está mais preocupada com o corte do cabelo, e as cores das chuteiras, do que com o futebol a ser praticado.

O futebol brasileiro virou uma piada pronta. Dia desses, num dos programadas esportivos da ESPN, um dos componentes da mesa falou que, numa dessas viagens da Seleção Brasileira havia mais de vinte cabelereiros.

Time de futebol ou modelos da Vitoria Secrets?

A perda do compasso começa na gestão da CBF. Pós Copa do Catar o Brasil já mudou três treinadores. Vendo o Dorival Júnior fantasiado de Zagallo fiquei a pensar, cá com meus botões: será que ele vai fazer o aviãozinho se o Brasil passar pelo Uruguai?

Não! Não dar mais pra engolir esse tipo de coisa. Volta pra casa. Uma dúvida: será que a turma vai descer do avião pela porta de trás? A maioria dos desconhecidos meninos deve ir direto para a Europa.

Sei que a tergiversada está grande, mas fica difícil analisar futebol diante do que as seleções de Brasil e Uruguai nos apresentaram ontem. Um festival de botinadas, nada mais que isso. Um espetáculo digno do clássico entre as usinas Petribu e Mussurepe.

O pior é que os frangotes dos dois times não sabem nem ser galos de briga. Saudade de Almir Pernambuquinho e Sérgio Ramirez.

Antes de a bola rolar o jogo foi "vendido" como o grande clássico desta edição da Copa América.

Alexa!

Som na caixa que o Zé Ramalho está perguntando: "Quem vai, quem foi".

Mistérios da meia-noite!

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