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Maio 2012 ›› CLAUDEMIR GOMES
A extraordinária, Rita Lee, há muito nos alertou que: "Somos mutantes!". Tudo muda, o tempo todo. No futebol não poderia ser diferente. Em tempos de chuteiras coloridas, até as óticas pelas quais estão sendo analisados os jogos, são diferentes. Já não vemos mais daquelas crônicas que eram verdadeiras pérola literárias. Saudade dos textos de Nelson Rodrigues, João Saldanha, Solange Bibas, Ney Bianchi, Oldemário Touguinhó, Adonias de Moura, Fernando Menezes, Geraldo Romualdo, Armando Nogueira...
Nos dias de hoje, os números explicam tudo, como se o futebol fosse uma ciência exata, tal qual a matemática, e o pragmatismo dos "professores" dói na alma. Time tal teve tanto de posse de bola; aconteceram tantos escanteios para o time B; o goleiro lançou N bolas para o jogador que avança pelo lado direito, mas deveria ter alternado porque o atacante da esquerda é mais agudo, e por aà vai. E o ex-jogador, tratado como a maior sumidade, pela emissora que o transformou em comentarista, ressalta a beleza incontida em cada gesto: "à um belo jogador; uma bela jogada; foi um belo lance...". A vida é mesmo bela!
Os campos de futebol no Brasil têm solos férteis. Craques brotam em todas as regiões, mas como acontecem com as plantas, são exportados ainda na condição de brotos. Viçosos, vão alimentar o mercado europeu, cobiçado por nove entre dez profissionais.
Os craques vão, mas voltam. Um regresso mais seguro do que o prometido pelo Rei do Baião, Luiz Gonzaga, a sua amada Rosinha, no "hino", Aza Branca.
A marcha regresso nem sempre faz sucesso, mas a torcida do Sport está apostando todas as fichas na recomposição da dupla - Diego Souza e Vagner Love - que no inÃcio do século foi destaque com a camisa do Palmeiras. Bom! Só o tempo dirá se vale a pena ver de novo. Afinal, não se analisa desempenho no pressuposto. O fato tem que acontecer.
Apesar do pragmatismo, os números também são flexÃveis, seguem o ritmo do desempenho. Em determinado momento da disputa, do primeiro turno da Série B, o Sport chegou a ter 98% de probabilidade de acesso. Os leoninos encerraram o primeiro turno com 84,7% de chance. Um percentual por demais expressivo.
A diferença do nono colocado, o Botafogo/SP, para o quarto colocado, o Sport, são cinco pontos, que podem ser buscados numa sequência de duas vitórias. Como faltam 19 rodadas, este é um desafio que não chega a assustar. O equilÃbrio que foi estabelecido na disputa pode elevar o ponto de corte para 70 pontos. Normalmente os clubes trabalham em cima de 19 vitórias e 8 empates, que lhes garantem 65 pontos.
O Sport fechou o primeiro turno com 10 vitórias e 5 empates. Caso repita o feito no returno, fechará a conta com 20 vitórias e 10 empates, ou seja, precisos 70 pontos. AÃ, segundo os matemáticos de plantão, é só correr para o abraço.
Dentro deste contexto, tirar nota dez na execução do dever de casa passou a ser uma necessidade imperiosa para aprovação. O primeiro desafio é vencer o CRB, na noite deste sexta-feira, na Ilha do Retiro. O time alagoano não é um candidato ao acesso, mas tem que ser respeitado como um complicador.
Na condição de cronista esportivo, convivi com excelentes jogadores; com profissionais medianos e com pernas de pau. Confesso que nunca vi nenhum deles preocupados com números. Certa vez, o notável Ãnio Andrade, um dos melhores treinadores dentre os que tive oportunidade de acompanhar o trabalho no dia a dia, me repassou o seguinte ensinamento:
O Sport havia acabado de empatar um jogo em Salvador. Depois do jantar, cheguei junto do Ãnio e lhe disse: matematicamente ainda temos chance.
Ele olhou para mim, deu um gole no whisky, e disparou:
"Garoto preste atenção! Todas as vezes que, vocês da imprensa começam a dizer, matematicamente tem chance, é porque a vaca já foi para o brejo".
O mestre Ãnio sabia das coisas como poucos.
CLAUDEMIR GOMES
O renomado cronista esportivo pernambucano, Aderval Barros, costuma postar, nas redes sociais, registros de sua exitosa carreira profissional, com a seguinte frase: "Feliz quem tem história para contar". Verdade. Pego carona no seu pensamento e acrescento: "Feliz aquele que é testemunha da história".
Amanhã começam as disputas da Copa do Mundo de Futebol Feminino da Austrália e Nova Zelândia. A Seleção Brasileira, que já foi protagonista numa disputa de tÃtulo, mais uma vez, chega no torneio credenciada para ser uma das finalistas.
Pertenço a uma privilegiada geração de brasileiros que, testemunhou o surgimento e o crescimento desta prática esportiva no PaÃs do Futebol. Tudo poderia ser simplificado numa única frase: Agonia e êxtase! Como se fosse o tÃtulo de um filme, ou de um livro, que narrasse uma história de luta, insistência, persistência, perseverança para vencer preconceitos, quebrar barreiras e superar a resistência de um, aparentemente intransponÃvel, universo machista.
Acompanho os noticiários do Mundial Feminino pelo rádio, televisão, edições on-line dos jornais, revistas, e é inevitável constatar a viagem da alma, que anda para trás, até chegar o final dos anos 70 e inÃcio dos anos 80, no século passado.
As lembranças se detêm ao trabalho dos abnegados, e abnegadas, que encamparam uma cruzada em busca de espaço no futebol pernambucano. Não foi fácil colocar sementes em solo tão árido. Mas surgiu a primeira flor do deserto de nome - Maria Edilene - na arbitragem pernambucana. Uma quebra se paradigma no mundo dos machões. As equipes de esportes das rádios, jornais e televisão começaram a ser marcadas pela presença feminina. Eram sinais de que a resistência estava sendo vencida. Mas o futebol feminino seguia sobrevivendo como subproduto.
Os grandes clubes recifenses - Sport, Náutico e Santa Cruz - abriram suas portas para entrar em sintonia com uma realidade incontestável. Entretanto, tudo era muito amador, insipiente. Não havia boa vontade dos dirigentes. CBF e Federações pouco se lixavam para o que não tinha mais volta. As rádios, que sempre tiveram voz altiva no futebol, desconheciam, por completo, as ações das equipes de resistência que lutavam pela implantação do futebol feminino no Estado.
Em 1991 a FIFA realizou a primeira edição da Copa do Mundo de Futebol Feminino, tendo a China como sede do evento. Um evento tão marcante quanto a Tomada da Bastilha na Revolução Francesa. Era o inÃcio de um novo tempo para o universo feminino.
A chegada do Século XXI trouxe consigo a dinâmica da internet. Tudo passou a girar em nova rotação, inclusive o crescimento do futebol feminino, que passou a ter visibilidade, com as conquistas do ouro do Panamericano nas edições de 2003 e 2007, sendo esta, no Rio de Janeiro, fato que contribuiu de forma efetiva para colocar as meninas na vitrine. A Seleção Brasileira conquistou outro ouro no Pan de 2015.
Em Pernambuco, Paulo Roberto, presidente da Desportiva Vitória, clube da cidade de Vitória de Santo Antão, optou pelo futebol feminino para fazer grandes investimentos, e por conseguinte, dar visibilidade ao time e a cidade. Importou do Santos, o ex-presidente, Modesto Roma, e o supervisor, Paulo Maieda. O projeto implantado apresentou excelente resposta, mas os grandes clubes recifenses não acompanharam a trajetória da equipe da Terra da Pitú.
O que falta ao futebol feminino é visibilidade.
As coisas acontecem, mas o grande público não ver, não ouve, não participa deste carnaval.
Nos últimos anos, a televisão passou a expor mais a presença feminina no futebol. Comentaristas, narradoras, repórteres... Apresentação de jogos, campeonatos, mas ainda não atingiu o objetivo de massificar o futebol feminino.
O Brasil conhece Marta, Formiga, Cristiane... Contudo, poucos sabem quais as jogadoras convocadas por Pia Sundhage para tentar o tÃtulo na Austrália.
Por tudo que testemunhei nesta história de dramas e superações, seja lá qual for a posição da Seleção Brasileira no final desta edição de Copa do Mundo, digo sempre que as meninas são VENCEDORAS.
Vale ressaltar que: Marta foi eleita a melhor jogadora do mundo seis vezes, feito que nenhum craque masculino conseguiu; Cristiane é a maior artilheira numa Copa, superando todos os goleadores masculinos, e Pia Sundhage é uma treinadora estrangeira no banco brasileiro, coisa que nunca aconteceu com o escrete masculino.
Portanto, nunca duvide do empoderamento feminino no futebol.
CLAUDEMIR GOMES
Definitivamente, o Campeonato Brasileiro não é para os fracos. Não é preciso ser nenhum expert sobre o assunto para chegar a tal conclusão. Basta observar "a dança das cadeiras", para entender porque a maioria dos treinadores, está a beira de um ataque de nervos, e a disputa sequer chegou a metade.
Como todo cronista esportivo acha que tem uma resposta pronta para tudo, me aventuro a dizer que, no futebol pentacampeão do mundo, o julgamento, e a sentença dos técnicos, vêm da arquibancada. Cientes de tal poder, e cegos pela paixão, as violentas torcidas organizadas, transformaram o terrorismo numa coisa banal, e utilizam, como instrumento de intimidação sempre que os resultados em campo não correspondem as expectativas.
Enderson Moreira, técnico do Sport, em que pese ter três acessos à Série A em seu currÃculo, tem revelado uma instabilidade emocional, diante de cobranças pacÃficas feitas por torcedores, após alguns jogos, nos quais o time leonino não apresentou um bom futebol. Como consequência, amargou resultados nada satisfatórios para os torcedores rubro-negros.
Com uma arrogância que não condiz com um profissional que foi dispensado por seis clubes, na última temporada, o treinador do Sport usa o contra-ataque como defesa, mas deixa evidenciada sua inquietação com os gritos de alerta emitidos pelos torcedores.
O Sport descreve uma campanha elogiável. Isto é fato. Mas não chega a ser uma garantia de sucesso. O que assegura o acesso dos clubes que alcançam o G4 é a regularidade. A Série B está a três rodadas do fechamento da primeira fase, ou primeiro turno (jogos de ida), momento em que começam a ser definidas as tendências. A partir do inÃcio da disputa do returno, as mutações se tornam decisivas, vitais, para a proposta de cada equipe. Eis a importância de investir em qualidade, nesta janela que segue aberta até o inÃcio do próximo mês, para melhorar o DNA dos times.
Plagiando o genial, Dom Helder Câmara, podemos dizer: "Você pensa que o torcedor não pensa, o torcedor pensa!". E faz comparações, traça paralelos e analisa as campanhas de outros times candidatos ao acesso.
MOMENTO DE REFLEXÃO
A duas rodadas do final da fase de grupos da Série B, o Santa Cruz dispensa o técnico Felipe Conceição. A dose extra que fez o caldo entornar foi a derrota (2x0) para o Campinense.
A verdade é que o profissional foi o pode expiatório de um projeto que não deu liga nem dentro, nem fora de campo. As Repúblicas Independentes do Arruda foram transformadas num ninho de vespas. Sendo assim, o grande mal do Tricolor passou a ser os tricolores.
O momento é imperativo!
Fazer uma reflexão, se despir das vaidades, e por fim a uma série de arremedos, dando inÃcio a um projeto exequÃvel, com começo, meio e fim, para dotar o clube, novamente, de uma estrutura profissional, é mais que necessário para tirar o Santa Cruz deste processo de insolvência.
CLAUDEMIR GOMES
O projeto de criação de Ligas avança no futebol brasileiro. Tudo deve estar em perfeito funcionamento em 2025, quando não haverá mais contratos vigentes com a Rede Globo, para transmissão dos jogos do Campeonato Brasileiro das Séries A e B.
O que surpreende, e difere o futebol brasileiro de centros mais adiantados, onde as Ligas existem, e funcionam a contento, há anos, é que aqui se fala no plural: as Ligas. Temos, em curso, a formação da LIGA DO FUTEBOL BRASILEIRO (LIBRA), e da LIGA FORTE FUTEBOL (LFF).
A criação de Liga no futebol brasileiro é sonho antigo. Um sonho que, para a CBF e Federações filiadas, era mais que um pesadelo, visto que, toda estrutura arcaica, e viciada, que perdura até os dias de hoje, passaria a ter um prazo de vencimento no seu código de barra, fato que não interessava aos "podres poderes".
No ano 2000, o deputado federal, Luciano Bivar, era um dos que levantaram a bandeira para criação de uma Liga no futebol brasileiro, e bateu de frente com o presidente da FPF, a época, Carlos Alberto Oliveira.
Vivenciei um episódio marcante: Num determinado final de semana, o presidente, Carlos Alberto Oliveira, estava fora de controle. João Caixero de Vasconcelos me liga falar sobre o assunto. Ele havia conversado com o presidente do Náutico, a época, o elegante Sérgio Aquino. Oliveira estava veraneando na praia de Tamandaré, Litoral Sul de Pernambuco. Severino Otávio (Branquinho), conselheiro do Tribunal de Contas de Pernambuco, também estava passando uns dias na mesma praia. Formamos um grupo: João Caixero, Sérgio Aquino, Severino Otávio, e este escriba. Fomos tentar acalmar a "fera". Um encontro pra lá de produtivo.
Os contratos comerciais dos clubes da Série A com a televisão eram feitos pelo Clube dos 13. Somente em 2004 é que surgiu a FBA - Futebol Brasil Associados - que passou a administrar a Série B. Um modelo que não prosperou, implodiu, e levou o futebol brasileiro a um atraso danoso, com uma estrutura de gestão caduca, em comparação ao futebol europeu.
O mestre, José Joaquim Pinto de Azevedo, que sempre estudou o futebol brasileiro e internacional, é enfático na sua avaliação:
"Duas Ligas administrando o
mesmo campeonato não vinga em lugar nenhum", afirma Azevedo.
Os clubes já foram divididos em dois grupos, fato que nos lembra a famÃgera divisão ocorrida em 1987, quando da criação dos Grupos Verde e Amarelo, que no final transformou a decisão do tÃtulo daquela edição num angu de caroço. Até hoje, Sport e Flamengo esbravejam: "87 é nosso!". Em todas as instâncias da Justiça, o rubro-negro pernambucano já teve o tÃtulo transitado e julgado a seu favor.
Na atual divisão a LIBRA é bem mais forte que a LFF.
A divisão de renda sempre foi o obstáculo maior para o entendimento entre os clubes. São tantos os argumentos postos na mesa, revelando as mil e uma realidades existentes num paÃs continental, que chegamos à conclusão de que, um consenso entre clubes de duas Ligas nos parece mais difÃcil do que juntar petistas e bolsonaristas numa passeata pacifica.
Tudo caminha para uma pulverização, sobrando jogos para tudo quanto é rede de televisão. O problema será a qualidade do produto que as empresas de comunicação oferecerão ao público consumidor.
Dizem que o tempo ajusta tudo. Sendo assim, um dia, esse trem andará nos trilhos.