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Maio 2012 ›› CLAUDEMIR GOMES
A notÃcia da morte de Pelé soou como uma fake News. Afinal, um dia desses, alguém exclamou: "Pelé é imortal!".
O cineasta, AnÃbal Massaini Neto, ouviu e tratou de imortalizar, quem já era imortal, através do filme: PELà ETERNO.
Os amantes do futebol, da minha geração, e de outras também, que tiveram o privilégio de testemunhar um pouco de sua magia dentro das quatro linhas, sabem que, o Rei do Futebol; o Atleta do Século, ou seja, como queiram chamá-lo, é a tradução maior do encantamento provocado pela arte do esporte mais popular do planeta, cujo potencial midiático o transforma, também, num dos negócios mais rentáveis do mundo.
Em 1963, ainda menino, com 11 anos, fui surpreendido com o anúncio de um presente feito pelo meu pai: "Vamos assistir ao jogo - Sport x Santos - na Ilha do Retiro, no Recife". A época, ainda morava em Carpina. Mal conseguia dormir. Ver o Santos de Pelé jogar era o sonho de todo garoto que gostava de futebol.
Acostumado com os jogos nas tardes dos domingos, assistir a uma partida de futebol sábado a noite era um ponto fora da curva. A Ilha do Retiro ainda não havia passado por reformas. A superlotação era inevitável. Nós - eu e meu pai - ficamos espremidos na arquibancada, por trás do gol no lado da sede social do Sport. O jogo terminou empatado em 1x1. Não sei contar a história da partida. Sei apenas que acompanhei Pelé durante todo o tempo. Meus olhos pareciam duas câmaras focadas no Rei durante os 90 minutos do jogo.
Aquele jogo foi um momento mágico. A partir dali Pelé passou a ser imortal para mim. E somente um imortal poderia alcançar a insuperável marca de 1000 gols. Acompanhar o planeta bola fazendo a contagem regressiva para o feito memorável foi incrÃvel. O Santos cumpria sua agenda de jogos e, por pouco, o milésimo gol não aconteceu na ParaÃba. O Rei queria um palco de maior visibilidade, e escolheu o Maracanã. Em 19 de novembro de 1969, num jogo com o Vasco, Pelé alcançaria a marca, até então, inimaginável: mil gols. O juiz do encontro foi Manoel Amaro, vinculado a Federação Pernambucana de Futebol. O goleiro dos mil gols foi o argentino, Edgardo Andrada.
Quarenta e cinco anos depois do jogo histórico no maior estádio do mundo, Valdir Appel, o reserva de Andrada, no Vasco, num bate papo informou no extinto restaurante Pra Vocês, nos revelou que, o argentino estava lesionado e sua participação naquele jogo era incerta. "Vivi a expectativa de ser o titular, mas o Andrada não abriu mão de jogar. Queria participar da festa de qualquer jeito", afirmou. Apesar da boa performance que ostentou durante cinco anos no gol cruzmaltino, o argentino é mais lembrado como "o goleiro do milésimo gol de Pelé".
O Mundial de 70 consagrou Pelé como primeiro e único. Algumas de suas jogadas são relembradas, mostradas, como momentos de inspiração de um gênio na história das Copas.
Meu primeiro contato direto, pessoal, com Pelé, foi na Copa de 82, na Espanha. Ele estava na condição de comentarista, e tinha como companhia, uma jovem linda e promissora de nome Xuxa. Mais um motivo para querer entrevistar o Rei quase todos os dias, numa praia próxima a Alicante.
Tornou-se comum encontrar Pelé nas coberturas internacionais que fiz na condição de enviado especial do Diário de Pernambuco. Em 1994 o Rei do Futebol se casou com a pernambucana, AssÃria Seixas Lemos, na Igreja Episcopal Anglicana, em Recife. Passou a ser gente da gente.
Meses depois, estávamos nós, eu como enviado especial do DP, e ele, sua majestade o Rei Pelé, na condição de comentarista da Rede Globo, separados por dois degraus na tribuna de imprensa do Estádio Rose Bowl, em Los Angeles, sentindo as mesmas emoções de ver o Brasil conquistar o tetracampeonato.
Arnaldo César Coelho (analista de arbitragem); Galvão Bueno (narrador) e Pelé (comentarista). Ao meu lado, o experiente, Ney Bianchi, da revista Manchete ordenou: "Libera o choro porque até Pelé está chorando".
Por um instante pensei que o Rei fosse mortal como todos nós.
Ledo engano.
PELÃ Ã ETERNO!
CLAUDEMIR GOMES
O mundo do futebol nunca assistiu a uma final de Copa do Mundo, com uma carga emocional e dramática tão grande, como no espetáculo protagonizado pelas seleções da Argentina e França, na decisão do tÃtulo do Mundial do Catar.
Não poderia ser diferente. Afinal, se tratava do "último tango de Lionel Messi", como bem anunciou a Revista Placar no seu Guia da Copa. E o Planeta Bola assistiu maravilhado a "passagem" deste gênio para a galeria existente no Monte Olimpo, reservada aos deuses do futebol.
Agora, a frase que ouvimos, um montão de vezes, se tornou mais real que nunca: "Messi é de outro planeta".
A Argentina conquistou o seu terceiro tÃtulo mundial com a assinatura do craque. Tal como aconteceu há 36 anos, quando se sagrou bicampeã, no Mundial do México, sob a batuta do genial Diego Maradona.
Evitem comparações!
Apesar dos apelos, os questionamentos eram inevitáveis. Messi e Maradona são superlativos. Gênios não se comparam. O virtuosismo, por si só, colocou os dois no patamar dos deuses do futebol. Mas, nesta comparação direta entre os craques argentinos, a conquista de uma Copa era a chancela necessária ao rótulo.
Messi tinha consciência deste detalhe. Afinal, vestindo a camisa da seleção do seu paÃs ele já havia vivenciado momentos de êxtase, e de agonia. A angústia lhe levou a pensar em abandonar a seleção. Mas o apelo popular o demoveu de tal ideia.
Na última edição da Copa América, o selecionado argentino fez as pazes com a conquista. Um tÃtulo com a assinatura de Messi. O craque se energizou para a disputa da Copa do Catar.
Nas últimas apresentações no seu clube, o Paris Saint Germain, antes do Mundial do Catar, era notório o bom momento do jogador argentino, assim como, era visÃvel o seu cuidado com o corpo, e o condicionamento. Afinal, ele estaria indo para a sua última disputa de Copa do Mundo.
A surpreendente derrota - 2x1 - para a Arábia Saudita, na partida de estreia, foi frustrante. Na saÃda de campo o craque argentino, com a tarja de capitão no braço, alertou: "à um resultado decepcionante, mas vamos reagir". E reagiu.
Uma sequência de três vitórias sobre México, Polônia e Austrália, recolocou o time argentino no pelotão dos credenciados ao tÃtulo. A eliminação da Holanda, nas quartas de final, foi outro passo rumo ao tÃtulo. Uma convincente vitória sobre a Croácia - 3x0 - na semifinal, soou como um acerto de marcha.
Tudo parecia conspirar para que o Estádio Lusail fosse o palco do último tango de Messi com a camisa da Seleção da Argentina.
Mas, como para tudo na vida há um contraponto, do outro lado do campo havia um craque de nome, Kylian Mbappé, 23 anos, cujo talento, e a juventude, lhes levam a condição de candidato a "Rei do Futebol", no Século XXI.
Se por um lado Messi sonhava num desfile apoteótico na 9 de Julho, em Buenos Aires, aclamado como o novo deus do olimpo do futebol, do outro, o jovem Mbappé tinha nos seus planos, um desfile triunfal pela charmosa Champs-Ãlysées, ao som de "La Vie en Rose", na voz inesquecÃvel de Ãdith Piaf.
Como cantou Milton Nascimento, o "trem da chegada é o mesmo trem da partida".
Mbappé, pelo talento, juventude e mais um montão de qualidades, terá a oportunidade de disputar mais três edições de Copa do Mundo. O Catar era a última parada do trem de Messi.
Os dois craques, companheiros de clube no PSG, com o respaldo de coadjuvantes de ouro, em ambas as seleções, argentina e francesa, protagonizaram um espetáculo memorável numa decisão inédita de Copa do Mundo.
E o Planeta Bola adormeceu ao som dos acordes do bandoneonista Messi, que executou, com perfeição, o seu último tango.
O mundo acordou aplaudindo o novo deus do futebol.
CLAUDEMIR GOMES
Como bem alertou o Macaco Simão: "O Brasil é o paÃs da piada pronta". Verdade. E em tempos de fake news, o futebol brasileiro passou a ser povoado por centenas de humoristas, que sequer sabem que a bola tem dois lados - o de dentro e o de fora. A resultante de tal realidade não poderia ser outro senão o show de horrores protagonizado pelos novos donos da verdade, no pós eliminação da Seleção Brasileira na Copa do Catar.
Na "Era da Imbecilidade", como bem define o mestre, José Joaquim Pinto de Azevedo, que sem sempre tratou o futebol, e o desporto, de forma geral, como coisa séria, "alguns programas esportivos são grotescos".
O problema maior do futebol brasileiro é gestão. Naturalmente que o reflexo de tal deficiência é visto no jogo jogado dentro das quatro linhas. Mas o ufanismo da grande mÃdia, que "vende" o circo onde a alegria do palhaço ilude a plateia, levou grandes comentaristas e jornalistas a serem preteridos. Na nova ordem é proibido tratar futebol como coisa séria.
Durante quarenta anos como jornalista esportivo, tive a oportunidade de trabalhar com muitos treinadores. De clubes amadores do Interior a Seleção Brasileira, acompanhei, de perto, o trabalho de profissionais de todos os nÃveis: excelentes, bons, medianos, ruins e péssimos. Defendo a tese de que, técnico ganha, e perde, jogo. Se a coisa não der certo, sua cabeça é a primeira a voar. Isto é regra.
Tite foi o nome preferido na "malhação dos judas". A Seleção Brasileira foi desclassificada em mais uma edição de Copa do Mundo, e é preciso encontrar o culpado. "Joguem bosta no Tite. Maldito Tite!". A palavra de ordem.
Mas antes da queda ele era lindo, a dancinha do pombo foi uma demonstração de como ele tinha o grupo nas mãos. Tudo o que ele falava reverberava como a mais pura das verdades. Pagode no ônibus, na porta do vestiário, momentos antes da decisão, não era tradução de desvio de foco, de atenção. Era a descontração dos meninos. A leitura equivocada de uma mÃdia movida pelo ufanismo também merece que se atire bosta, e não apenas o técnico Tite.
Perder e ganhar faz parte do jogo. A respeitada Itália, tetracampeã do mundo, sequer conseguiu se classificar para o Mundial do Catar. Alemanha, Espanha, Uruguai e Inglaterra, todas seleções com tÃtulos mundiais em seus currÃculos, ficaram pelo meio do caminho. Mas, diferentemente do Brasil, nenhum desses paÃses se afoga no ufanismo.
O humor foi o caminho encontrado para atrair a atenção de um novo público. Das novas gerações que são alimentadas por uma quantidade absurda de informações, e é capaz de formar sua própria opinião. Alguém lançou este fake no ar, e todos passaram a acreditar. As rádios e televisões exageraram na dose.
As mesas redondas onde se busca análises de profissionais com bom embasamento da matéria futebol, passaram a apresentar um humorismo grosseiro. Pior ainda: ex-jogadores guindados a condição de comentaristas, sem nenhuma habilidade no trato com as palavras, praticaram uma violência verbal assustadora.
Quando jovem, bebemorei pra valer a conquista do tricampeonato da Seleção Brasileira. No espaço de 24 anos, que separou o tri do treta, vivenciei e testemunhei inúmeras situações como torcedor, e como cronista esportivo no exercÃcio da função. Todas as desclassificações da Canarinha doeram. Doeram muito. Mas nada é mais assustador do que a violência verbal trazida pela nova ordem.
Para a Seleção tem jeito, basta fazer uma limpeza no poder. Como já falei, o problema é de gestão.
Quanto ao resto, tudo virou piada.
Como assegura o jornalista, José Neves Cabral: "à fake!".
CLAUDEMIR GOMES
Quando estava desempenhando a função de comentarista na Rádio Clube de Pernambuco, gostava de um grito de alerta que, vez por outra, o narrador, Bartolomeu Fernando fazia ecoar: "Chegou a hora de ver quem tem garrafa pra vender!". A partir daà as atenções de todos se redobravam no jogo. Era o momento crucial onde tudo podia acontecer, inclusive nada.
Pois bem! à chegado o momento de se ver "quem tem garrafa pra vender" na Copa do Catar. Quatro campeões do mundo seguem credenciados na briga pelo tÃtulo: Brasil, Argentina, França e Inglaterra. Portugal, que antes não aparecia com grande cotação nas bolsas de apostas, é a grata surpresa da competição até o momento. Croácia e Marrocos apostam no jogo defensivo, e se lograrem êxito com tal estratégia, prestarão um desserviço ao futebol. Afinal, Copa do Mundo é um protótipo que todos passam a copiar quem obtém sucesso. A Holanda, com um time bem equilibrado, espera pincelar a galeria dos campeões com sua vibrante cor laranja.
Os números dão o norte! Isto é fato. Mas as estatÃsticas precisam ser analisadas com mais profundidade. Afinal, a competição chegou a um estágio onde os treinadores buscam diferenças até nas filigranas. Qualquer detalhe pode ser fatal.
Inglaterra e Portugal possuem os ataques mais positivos. Cada uma das seleções chegam as quartas de final com a expressiva marca de 12 gols. Uma média de 3 gols por partida. Mas vale observar que, metade dos gols marcados pelo time inglês foi contra um único adversário, o Irã, a quem venceu no jogo de estreia por 6x2. Portugal também marcou 6 gols na SuÃça, nas oitavas de final, numa apresentação onde a harmonia e a força do conjunto foram o ponto alto de uma equipe que não tem dependência de nenhuma peça individualmente.
A Croácia, atual vice-campeã, marcou cinco gols, sendo quatro num único jogo, contra o Canadá, a quem venceu por 4x1 na fase de classificação. Nas oitavas de final empatou em 1x1 com o Japão a quem eliminou na decisão por pênaltis: 3x1. Marrocos, que pela primeira vez chega as quartas de final, tem o pior ataque entre as oito seleções classificadas: quatro gols. Em contrapartida, tem a defesa menos vazada com um gol. Croácia e Marrocos, ambos têm um saldo de três gols. Enfim, os números mostram que são os "azarões" a serem espantados.
Brasil, Argentina e França tiveram suas cotações aumentadas após as boas apresentações que fizeram nas oitavas de final, onde venceram e convenceram. Tal fato torna totalmente imprevisÃvel o resultado do clássico a ser disputado por ingleses e franceses, sábado à tarde.
Argentina e Holanda irão reviver a final do Mundial de 78, quando os argentinos conquistaram o primeiro tÃtulo com uma vitória por 3x1. Sempre evito comparações. Afinal, cenário, momento e jogadores são outros. Existe apenas o registro histórico. O mundo mudou nesses 44 anos que separam os dois confrontos. Messi vem fazendo a diferença como um dos melhores jogadores desta edição do Mundial, até o momento. Os argentinos apostam no craque como ponto de desequilÃbrio.
Os 7x1 que a Seleção Brasileira tomou da Alemanha, na Copa de 2014, deixou o torcedor brasileiro ressabiado. Há sempre uma dúvida, um questionamento. O grupo é bom e Tite o tem nas mãos. Evidente que, isto não nos assegura o tÃtulo, mas agrega, fortalece.
O futebol da França tem brilhado aos olhos de todo mundo. Mbappé parece insustentável no alto de sua juventude, mas o jogador que mais me chama a atenção no conjunto francês é Griezmann. Não tenho dúvidas que, o duelo de Griezmann, com o inglês, Harry Kane, próximo sábado, será um dos momentos mais sublimes deste mundial. Detalhe: o vencedor dará um salto substancial na corrida pelo tÃtulo.
Pois é meu caro Bartolomeu Fernando!
Chegou a hora da onça beber água.