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Maio 2012 ›› CLAUDEMIR GOMES
Na história do futebol vamos encontrar jogos que nunca acabaram. Este - Sport 1x1 Vasco - disputado domingo, na Ilha do Retiro, válido pela 35ª rodada do Brasileiro da Série B, entrará para o arquivo dos mortos vivos, ou seja, morreu, mas nunca será enterrado. O resultado, considerado adversos para o time pernambucano por ser circunstancial, acordou um monte de "fantasmas", dentre eles o famoso "complexo de vira lata", tão propalado pelo mestre, Nelson Rodrigues.
A súmula do árbitro (FIFA/SP), Raphael Claus está enriquecida de relatos verdadeiros e honestos sobre os incidentes ocorridos na Ilha do Retiro, nos minutos finais da partida, pós o gol marcado pelo time carioca. Fatos, que segundo o mestre, José Joaquim Pinto de Azevedo, podem levar o Sport a perder o jogo por 3x0 no STJD.
"O Artigo 19 do Regulamento Geral das competições da CBF vai possibilitar ao Vasco brigar pelos três pontos no Tribunal", ressaltou Azevedo.
Em tumulto generalizado fica difÃcil, é quase impossÃvel, apontar o dedo para um culpado. Em tempos de redes sociais, cada um expressa sua verdade, e o que observamos é que, nas diversas reações, todas levadas pela emoção, pouco se observou sobre a fragilidade de um estádio cuja vulnerabilidade ficou escancarada.
Abrir uma discussão sobre a presença, ou não, das organizadas nos estádios, é a mesma coisa que enxugar gelo. Em 2006, foi criado, em Pernambuco, como uma ação de vanguarda aplaudida em todo o PaÃs do Futebol, o Juizado do Torcedor. Uma célula que seria de fundamental importância na cruzada contra a disseminação da violência no futebol, feita pelas Torcidas Organizadas. Pouco tempo depois, deputados de plantão, a época na Alepe, aprovaram projeto de lei que minou a força do Juizado do Torcedor.
A partir daà as organizadas tocaram o terror no Recife: mataram, mutilaram e espancaram desafiando a tudo e a todos. Alguns dirigentes que passaram pelos clubes compraram a briga com as facções criminosas que frequentam as arquibancadas, mas seus sucessores logo abriram a guarda.
Viva a impunidade!
Os fatos ocorridos neste domingo, na Ilha do Retiro, escancaram a vulnerabilidade do estádio leonino, assim como, ressaltam as falhas das medidas de segurança adotadas pelo clube, e pela PolÃcia Militar.
Perguntar não ofende:
- Por que os jogadores dos times adversários aquecem defronte a facção da torcida mais violenta do Sport?
- Por que a torcida mais violenta fica posicionada na parte mais vulnerável em relação ao acesso, ao campo de jogo?
Vale observar que, a Torcida Jovem fica posicionada num local próximo ao portão de acesso das ambulâncias, que são estacionadas dentro do alambrado.
- Por que não havia um reforço da PolÃcia Militar, e da segurança privada do Sport, no portão que dar acesso ao campo, no setor onde fica a torcida organizada?
A facilidade como os torcedores abriram o portão, invadiram aquele espaço do campo e agrediram bombeiros e jogadores do Vasco, é uma prova inconteste de que não havia um aparato de segurança no local.
Bom! A história nos mostra que esta não é a primeira vez que o Sport será prejudicado por conta de invasão de campo, por parte da torcida, e dos dirigentes.
Mais um jogo sem ponto final.
CLAUDEMIR GOMES
Durante quinze anos tivemos o prazer de desfrutar de uma gratificante convivência com Polão, um cachorro da raça Dachshund (o popular linguicinha). Sua morte nos deixou uma lacuna terrÃvel. Jurei pra mim mesmo que não haveria outro no seu lugar. Mas acabei me rendendo aos pedidos da mulher, filhos e netos. Afinal, não existe famÃlia do eu sozinho. Um belo dia, Ãurea Regina, que parecia sentir mais o peso da solidão, me chega em casa com um Shih-tzu, que foi logo batizado pelo neto - Guilherme - de Tito.
Tito nos devolveu a alegria que havia ido embora junto com Polão. Mais ainda, me trouxe de volta a realidade das ruas.
Logo cedo ele me chama para o passeio matinal, que consiste em uma volta no quarteirão. Espaço mais que suficiente para observar a crescente escalada da pobreza; a insensibilidade de uma sociedade que a cada dia está mais enclausurada nos seus edifÃcios, verdadeiras fortalezas equipadas de muros altos, cercas elétricas e guaritas com vidros blindados. A "burguesia" está menos sensÃvel a população dos "invisÃveis".
Os "invisÃveis" - prefiro tratá-los assim a miseráveis - representam uma população que aumenta a cada dia. São nômades. Não têm domicÃlio. Disputam espaços nas calçadas de casas comerciais protegidas por marquises para passarem a noite.
Na calçada da loja que vende camas e colchões, um casal em plena madorna, encobertos por papelões, é acordado pela buzina do ônibus que corta o silêncio da rua as 6h da manhã. Ele abre os olhos, mas ela segue bem aconchegada ao peito do seu amado. Observo que mesmo na miséria não se perde a ternura.
Alguns metros mais adiante, na calçada de uma agência bancária, um outro casal desmonta as tralhas que lhes serviram de abrigo durante a noite. Ela sorri e vem em direção a Tito, que lhe faz festa, levanta as patinhas dianteiras, no que ela me pede permissão para lhe pôr no colo. Depois, sempre sorrindo, comentou: "Eu já tive um cachorro".
Seguimos nosso possei e chegamos a uma loja que vende móveis. Móveis caros e luxuosos, que contrastam com a realidade vivida por aqueles que dormem ali na calçada. Um monte de papelão e uma catinga de mijo sufocante. As fezes no canto da parede denunciam que ali, aquele espaço encoberto por algumas plantas de decoração, serve de latrina para "os invisÃveis".
Por serem nômades, a mudança de "inquilinos", em determinadas calças acontece com frequência, mas alguns se mantém fiéis ao ponto. Todos me conhecem e conhecem a Tito, assim como os seguranças, os porteiros e uma leva de diaristas com que cruzamos todos os dias no nosso passeio matinal.
Só conhece a realidade das ruas quem anda nas ruas. De suas SUVs, cada vez mais robustas, luxuosas e seguras, os "senhores" não conseguem olhar para as calçadas, onde ratos e homens seguem numa convivência harmoniosa em pleno Século XXI.
Quando se vai comprar um apartamento, quanto mais alto o andar cobiçado, mais caro fica o imóvel. Afinal, quando mais alto você sobe, menos chance tem de enxergar a realidade em que vivem aqueles que pisam no chão.
Vale ressaltar que, a miséria galopa no metro quadrado mais caro do Recife.
CLAUDEMIR GOMES
Sport enfrentará o Vasco na Ilha do Retiro!
Gol do bom senso.
Em decisão não se despreza o misticismo. Os deuses, e os bruxos, do futebol emitem sinais que são decifrados apenas por quem conhece cada palmo de chão dentro das quatro linhas. São os mistérios do futebol traduzidos pelas evocações feitas a Nossa Senhora; ao Cristo Salvador e a Xangô. Tudo em nome da vitória.
Ilha do Retiro ou Arena Pernambuco?
Para o cartola engravatado, pouco importa. Afinal, seu foco é apenas na busca de recursos. Vitórias e conquistas no futebol têm um alto custo. Mas não ferem o princÃpio básico da economia: investir para lucrar.
Por outro lado, nada mais mágico para um jogador que veste a camisa do Sport, do que entrar em campo sob os gritos de vinte mil torcedores: "Casá, casá, pelo Sport tudo!"
Certa vez um jogador me disse que, aquele coro unÃssono e ensurdecedor arrepia até os pelos do mucumbu de quem está em campo. Este doping motivacional funciona bem melhor na Ilha do Retiro.
Portanto, no próximo domingo, todos a Ilha. A vitória sobre o Vasco passa pelo grito do torcedor, evidentemente. Os que enxergam o futebol estritamente como negócio irão dizer que os gritos também encontram eco na Arena Pernambuco.
Argumento de quem não conhece o DNA do futebol pernambucano. Sport, Náutico e Santa Cruz são clubes centenários. Todos possuem estádios próprios que são tratados como santuários pelos torcedores. Para entender esta peculiaridade socio esportiva é preciso raciocinar como o saudoso tricolor, Aristófanes de Andrade: "O torcedor quando chega no estádio do seu clube, ele se sente como se estivesse realizando o sonho da casa própria".
Coisas da paixão clubista que são explicadas pelos números. Das 14 vitórias contabilizadas pelo Sport, até o momento, nesta edição da Série B, 12 foram construÃdas na Ilha do Retiro. Vale ressaltar que, o time leonino vem de uma sequência de 6 vitórias como mandante. Para turbinar o ciclo positivo, pela primeira vez neste campeonato, o Sport venceu três jogos seguidos.
Jogo de Búzios, ciganas e cartomantes. As consultas são feitas a toda hora. Em São Januário, no Rio de Janeiro, as promessas a São Sebastião e multiplicam. Nada de grandes pedidos. Os cruzmaltinos se sentirão abençoados com um empate, no próximo domingo. A Ilha do Retiro mete medo, pois foi nela que nasceram dois dos maiores jogadores da história do Vasco: Ademir Menezes (O Queixada) e Juninho Pernambucano. Passado e presente exigem respeito.
Os pedidos nas igrejas e terreiros pernambucanos são mais ousados. O Sport precisa da vitória para seguir alimentando o sonho do acesso.
Ligo o rádio nas resenhas esportivas, em busca de boas novas, e um repórter pouco criativo esbraveja: "Sport x Vasco é o jogo do ano". A expressão, "jogo do ano", foi transformada em jargão pela turma da latinha.
Sport e Vasco empataram em 0x0 no primeiro turno. Na sequência, nas três rodadas restantes, o time carioca somou quatro pontos, enquanto o rubro-negro pernambucano contabilizou cinco pontos.
As campanhas dos dois times são parelhas, fato que pode levar o acesso a ser decidido através dos critérios de desempates. O "tiro" final nesta corrida em busca do retorno a Série A é composto por quatro jogos, mas o primeiro passo será dado domingo, na Ilha do Retiro. Passo este que pode vir a ser o mais importante, podendo até receber a leitura de um salto para Primeira Divisão.