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Maio 2012 ›› CLAUDEMIR GOMES
A primeira notÃcia encontrada, quando iniciei a rotineira navegação pelas redes sociais, foi sobre a morte de João Caixero de Vasconcelos Neto, um dos maiores amantes do Santa Cruz Futebol Clube.
Cá pensei: os amigos estão equivocados. Joca é imortal!
Em silêncio comecei a recordar como nossa amizade foi construÃda e consolidada. Uma lágrima escorre pelo meu rosto numa advertência de que a emoção precisa ser controlada.
Caixero não costumava ir ao sepultamento dos amigos. Um hábito adquirido de uns anos pra cá. Acredito que, por orientação médica. Também não irei ao seu meu velho! à duro demais lhe dizer adeus.
Grandes acontecimentos não são apagados de nossas memórias. No longÃnquo 1976, o mestre, Adonias de Moura, me chama na redação do Diário de Pernambuco e fala como se estivesse me repassando uma pauta: "Quando fecharmos o caderno vamos fazer uma visita para eu lhe apresentar a alguns amigos".
A visita foi a sede da Comissão Patrimonial do Santa Cruz, cujo domicÃlio a época era na Av. Dantas Barreto, no EdifÃcio AIP. Fomos recebidos por João Caixero de Vasconcelos Neto, que na condição de bom mestre de cerimônia me apresentou a Aristófanes de Andrade, Marco Antônio Maciel, Rodolfo Aguiar, Henóque Coutinho, André de Paula, Vanildo Aires, Humberto Ribeiro... Ali estava a elite coral. Eram os pensadores que fizeram o Tricolor do Arruda apresentar os maiores Ãndices de crescimento do futebol brasileiro nos anos 70.
A partir daquele dia Joca passou a ser um amigo, um consultor. Nossa amizade foi se estreitando, e ele me ensinou como separar o profissionalismo do pessoal. O exemplo prático era seu relacionamento com o então presidente da FPF, Rubem Moreira. Pareciam inimigos ferrenhos. Sempre que me alimentava de dados para fazer matérias criticando a polÃtica da Federação, fazia questão de ressaltar: "Rubem merece todo o nosso respeito. A briga aqui é FPF x Santa Cruz. Ele defende os interesses da entidade, e eu o do clube. Nada pessoal".
Mais de uma vez lhe perguntei: Você ama mais a sua famÃlia ou o Santa Cruz?
Entre risos ele respondia: "Deixe de ser FDP".
De uma coisa tenho certeza: Joca daria a vida por Lourdinha, sua mulher; pelas filhas e pelos netos. Assim como deu a vida pelo Santa Cruz Futebol Clube, agremiação a qual se dedicou por mais de meio século. Sempre procurou fazer o bem, dando o melhor de si para o Clube das Multidões. Mas se fosse necessário também faria o mal. Afinal, poucos dirigentes foram tão ardilosos e matreiros quanto ele.
Caixero se revelava através dos gestos. Nunca virou as costas para nenhum presidente do Santinha, embora tenha sido injustiçado e terrivelmente magoado pelos atuais gestores, mágoa que ele leva consigo para o tumulo.
Falar de João Caixero seria escrever uma nova edição do SANTA CRUZ DE CORPO E ALMA, obra literária que ele comandou por mais de 20 anos, e que tive o privilégio de concluir junto com os amigos, Lenivaldo Aragão, Humberto Araújo, José Neves Cabral e Deusdedith Antônio.
Por tudo que fez, e que nenhum outro será capaz de fazer, João Caixero de Vasconcelos Neto - Joca - é imortal nas Repúblicas Independentes do Arruda.
CLAUDEMIR GOMES
O poeta, Flávio Chaves, publicou por esses dias: "Na poesia de Mauro Motta, o leiloeiro pergunta: Quem dá mais por nossas lembranças?".
A indagação caiu como uma luva, que aqueceu e acariciou meus pensamentos.
Na caminhada diária, pelo calçadão de Boa Viagem, sempre passo pelos campos na orla do Pina, onde os "rachas" são sempre calorosos. De repente sou surpreendido com uma pergunta em alto e bom som:
- Claudemir quando começa o Campeonato Pernambucano?
Antes de responder me vi cercado por três senhores que começaram a falar sobre futebol. O torcedor sempre acha que um jornalista sabe tudo. Confesso que fui todo ouvidos naquela agradável "resenha" recheada de lembranças.
Velhos peladeiros sempre têm muitas estórias a contar. A turma do Pina parece que cria mais que os pescadores do lugar. Logo vem à tona, as amizades com os ex-jogadores que, em dias de folga, buscavam os aprazÃveis bares com seus petiscos de tempero irresistÃvel e a sedutora peixada pernambucana.
- Campeonato de três meses não tem graça! Exclamou um dos alimentadores da prosa, para em seguida me desafiar para uma partida de dominó.
Observo que, todos que participavam daquela animada "discussão" tinham a cabeleira branca. Ou não tinha mais cabelos, eram carecas. Logo, não faltou quem recordasse das edições do Pernambucano que ocupavam toda a temporada.
De repente, um quase estranho no ninho, um jovem peladeiro que havia deixado o campo há minutos entra na conversa.
- A Copa do Nordeste acabou com o Estadual! Falou com a autoridade de quem está em sintonia com a nova ordem.
Os mais velhos retomam o comando da conversa. E voltam a falar de um tempo no qual o tÃtulo pernambucano era supervalorizado. Ãpoca em que não se falava nem em nacionalização do futebol. Globalização? Nem pensar. O futuro, que hoje é o presente, só nos gibis de Os Jetsons.
E logo surgiram os nomes de Luciano, Givanildo, Ramon, Manga, Alemão, Djalma, Laxixa, Pacoti, Manoelzinho, Bita, Lala, Ivan, Lula, Caiçara, Wendell... Para cada nome, a citação de um fato, um episódio, e muitas lembranças.
Para apimentar a conversa, perguntei qual foi o fato marcante do Pernambucano 2021? Fez-se silêncio. Repeti a pergunta sobre a edição de 2020. Todos responderam: O Salgueiro campeão? Realmente um fato histórico, mas que nada mudou. O inédito tÃtulo levantado por um clube do Interior não agregou nada ao futebol da aldeia que se apequena a cada ano passa, embora, o presidente da FPF insista, em suas ilações, em apontar um crescimento que não se ver.
Este ano, no campeonato que se inicia no próximo dia 22 de janeiro, a grande novidade é a presença do Ãbis, cuja marca registrada é de Pior Time do Mundo. A disputa será junta e misturada com a da Copa do Nordeste. Ambas são logo apagadas pelos jogos do Brasileiro e da Copa do Brasil. Ah! Este ano tem Copa do Mundo para desviar, ainda mais, a atenção do torcedor.
Os velhos peladeiros do Pina ainda falam das conquistas estaduais do passado com uma ênfase de fazer inveja. Afinal, eles falam de décadas em que os tÃtulos estaduais tinham uma valorização estupenda.
Caminhei dois quilômetros e meio de volta pra casa acelerado pelas lembranças da velha guarda do Pina.
E o mestre, Mauro Motta, com seu leiloeiro pergunta: "Quem dá mais por nossas lembranças?".