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Maio 2012 ›› CLAUDEMIR GOMES
Na última semana da "Temporada da Morte", como bem definiu, a jornalista Lêda Rivas, o ano de 2021, recebemos a notÃcia da morte da última tia da minha mulher: Ãurea Regina. Dona Margarida Macedo (Tia Guida), 93 anos, era a derradeira representante de uma geração de mulheres fortes e determinadas. Lhe prestar a última homenagem era mais que um ato de solidariedade, pois se tratava de um adeus a uma pessoa simples que, do alto de sua naturalidade, se transformou num grande exemplo de resiliência. Foi contemporânea do tempo e suas mudanças, estando sempre em sintonia com a nova ordem.
Não gosto de funerais! Mas não posso me furtar a momentos cuja solidariedade se mostra imperativa, por conta de traumas pessoais.
Na Carpina de décadas passadas, quando um cortejo fúnebre passava perto da Igreja Matriz de São José, ou da Igreja de São Sebastião, acontecia o toque dos sinos. De longe não sabÃamos por quem os sinos dobravam, mas era um toque que nos arremetia a uma tristeza para a qual não existia explicação.
Um outro som medieval que me deixa bastante incomodado, é o da colher de pedreiro quebrando os tijolos, ou raspando a massa no momento do emparedamento dos mortos. A primeira experiência com aquele som torturante foi no sepultamento da minha avó, Ana de Albuquerque, depois, no do meu pai, Jaime Gomes. E vieram muitas edições no adeus a parentes e amigos. A coisa é muito primitiva: um carro de mão com tijolos, massa... e de repente aquele som quebrando o silêncio dos mortos. No final, o "pedreiro", com um pedaço de arame, ou um palito, escreve a data. à como se a partir daquele momento o "fantasma" estivesse enclausurado.
Me preparei para ouvir aquele som arrepiante no sepultamento da Tia Guida, mas fui surpreendido por um ato de heroÃsmo que refuto como uma das cenas mais fortes que testemunhei até o dia de hoje. Lição de vida gigantesca.
O jazigo da FamÃlia Macedo fica ao lado da igreja, bem no centro do Cemitério de Santo Amaro. Composto por duas gavetas, serve para abrigar os mortos, e funciona como ossuário.
Pois bem! Dona Margarida Macedo foi emparedada na gaveta superior. Para tal, alguns sacos de ossos foram retirados para poder caber o ataúde. A abertura do buraco negro não foi suficiente. O caixão não entrava na sua totalidade, fato que gerou uma grande expectativa nos presentes, e até uma certa tensão nos parentes. Nada que assustasse ao coveiro, ou simplesmente, o prestador de serviços autorizado, como bem ressaltava os dizeres na sua surrada camisa de trabalho.
Aquele homem de pequena estatura, não pensou duas vezes. O momento exigia atitude, desprendimento. Mais que isso: coragem. A coragem de quem convive diariamente com os mortos, sem temer a morte. Sem se incomodar com o som da colher de pedreiro. Coragem de quem está acostumado a lidar com sons mais mortais como os que são emitidos pelos sacos de ossos.
E aquele super-herói anônimo, diante de um pequeno, mas gigantesco desafio, deslizou por cima do ataúde e entrou naquele buraco negro, por onde transitam baratas, formigas e outros insetos. Aquele buraco onde tantos corpos se deterioraram. Corpos abatidos por doenças de várias espécies. Não usava nenhum EPI - Equipamento de Proteção Individual. O único acessório que carregava, um boné, tirou para não sujar, ou perder. Naquele momento ele incorporou o tatu-bola, o homem-formiga, ou o homem-tamanduá. Não importa. A missão tinha que ser concluÃda a qualquer custo. E foi. Quando emergiu do buraco, seu companheiro de trabalho, discretamente, deu duas tapinhas nas suas costas para tirar o grosso da areia que ficou.
Pronto! O caminho estava desobstruÃdo. E o enterro de Tia Guida foi concluÃdo.
Não perguntei o seu nome. O herói continuou anônimo. Na minha cabeça, muitas outras perguntas:
Quanto vale aquela atitude?
Qual o salário de um prestador de serviços desse quilate?
Qual o seu adicional por conta da salubridade?
A "Temporada da Morte" não poderia me trazer lição maior nos seus últimos dias.
E eu que me incomodava com os sons.
CLAUDEMIR GOMES
Neste perÃodo natalino é impossÃvel não dar uma olhada no retrovisor. à importante rever a história construÃda na temporada. Não com o objetivo de reconstruÃ-la, mas para ter a noção precisa do balanço de perdas e ganhos. A retrospectiva individual nos leva sempre a uma boa reflexão.
Não temos mais idade para promessas vãs. Sabemos que a vida não é plana, e nem é reta. Afinal, se assim fosse, morrerÃamos de tédio por conta da monotonia e do óbvio. Tudo seria por demais previsÃvel.
A retrospectiva é uma coisa fascinante. Tal valorização é um legado dos vinte e poucos anos vivenciando a redação do Diário de Pernambuco. Quem conheceu a "cozinha" dos jornais, nos tempos da diagramação no papel, da lauda com numeração para não ultrapassarmos vinte linhas de texto, da fotografia impressa no papel, tem condição de mensurar o valor e a importância de um caderno de retrospectiva.
A mobilização era total. Começava com Joel, no arquivo de fotografias. Era impossÃvel, no cotidiano, se ver um cabelo de Joel em desalinho. Ele andava com um pente no bolso, e estava sempre arrumando a cabeleira. Mas, quando o caderno da retrospectiva começava a moer, ele ficava assanhado.
A pequena, Lêda Rivas, se agigantava com seu conhecimento e sensibilidade no comando do caderno. O fantástico, José Maria Garcia, com a paciência que Jó lhe emprestou, buscava sempre uma diagramação impactante. O mestre, Adonias de Moura, era exigente com o nosso texto, mas valorizava demais o material fotográfico, alegando que %u201Cnos esportes a imagem fazia a diferença%u201D. Francisco Silva, editor de fotografia, ficava indócil com redescoberta de um trabalho tão bom feito por sua equipe ao longo do ano.
Participar da montagem de produto tão especial era um privilégio. Mais ainda: um aprendizado espetacular. Por alguns anos fui escalado pelo mestre, Adonias de Moura para redigir as páginas de esportes no caderno de retrospectiva. A emoção e o pragmatismo se completavam de forma tão harmoniosa que, quando o caderno rodava nossos olhos brilhavam com aquele que, para nós, era o grande presente de fim de ano.
José Maria tinha um carinho muito grande por mim. E a recÃproca era verdadeira. A cada prova de página, ele me chamava e mostrava. Do alto de sua sabedoria, dava aula de humildade quando indagava: "O que você acha Clodô?". A depender da observação, liberava a risada mais gostosa. Coisa pouco comum porque Zé era muito contido.
No dia que o caderno circulava, embora já tivesse conhecimento das matérias publicadas, procurava chegar, o mais cedo possÃvel na redação. Afinal, ver a felicidade de Lêda Rivas com aquele caderno nas mãos, não tinha preço. A cada ano ela parecia mais emocionada com o parto do novo filho.
E todos se sentiam envaidecidos.
No inÃcio da tarde a redação era um frisson geral. Várias "ilhas" eram formadas, mas o assunto discutido era único: a retrospectiva.
Fazer retrospectiva durante uma travessia pandêmica não é nada prazeroso. O número excessivo de perdas é doloroso. Lêda Rivas definiu o ano de 2021 como sendo "a temporada da morte". Verdade. Não foram poucos os amigos subtraÃdos de nossas vidas nos últimos meses. Mas estamos no final da reta. Depois da curva surgirá um novo caminho. Acredito que, com ladeiras menos Ãngremes.
No próximo ano, quando olharmos pelo retrovisor, veremos que nada foi como antes. Eis a grande lição da retrospectiva: ESPERANÃA SEMPRE.
Feliz Natal!
CLAUDEMIR GOMES
A Sociedade Anônima do Futebol - SAF - passou a ser o assunto dominante nos meios esportivos, com o anúncio da compra de 95% do futebol do Cruzeiro pelo empresário, Ronaldo Nazário, ex-jogador do clube. O investimento foi na ordem de R$ 400 milhões.
Na busca por mais informação sobre o milionário negócio, que deverá ser o marco de um novo tempo no combalido futebol brasileiro, liguei para o mestre, José Joaquim Pinto de Azevedo, que em 1989, num relatório publicado pelo CND, após tomar ciência da realidade de 27 federações, apontava a Sociedade Anônima como alternativa de crescimento para os clubes brasileiros.
No inÃcio dos anos 2000, ao participar do programa, Domingo Esportivo, ancorado pelo competente, Ednaldo Santos, na Rádio Jornal, e também em várias publicações no seu blog, José Joaquim se mostrou enfático, e intransigente, na defesa do Clube Empresa, um caminho a ser seguido pelas agremiações do futebol brasileiro, que nas últimas décadas foram dragadas por gestões trágicas, onde dirigentes e empresários estavam preocupados em encherem suas "burras", nem que para isso tivessem que esvaziar os cofres dos clubes.
A maioria do torcedor brasileiro não sabe como funciona a SAF.
Para inÃcio de conversa, os "amantes" continuarão chamando o clube de seu. Trocando em miúdo, podemos dizer que a SAF, não é outra coisa senão a oficialização de um futebol autônomo. Azevedo nos mostrou que, "em Portugal todos os clubes profissionais aderiram a SAF".
A Sociedade Anônima, os seja, os investidores, cuidam do futebol: contratam, vendem jogadores e lucram com outas receitas. Vale ressaltar que, o negócio futebol é um dos mais lucrativos na ordem mundial. O clube segue faturando com sua marca: receita de bilheteria de jogos; venda de camisa; patrimônio e outros esportes como vôlei, natação, basquete e a parte social.
A SAF fica com os recursos gerados pelo futebol: contratos de transmissão de jogos; premiação por participação em competições; venda de jogadores, patrocÃnio em camisas etc. Não existe um percentual fixo para a Sociedade Anônima. Na opinião de José Joaquim Pinto de Azevedo, que defende o programa há mais de 30 anos, o ideal para os clubes brasileiros seria a venda de "no máximo 58% para os investidores, ficando 42% para o clube, o que lhe garantiria uma participação no lucro do negócio futebol".
"A negociação para adesão a SAF vai depender do entendimento de cada clube com a empresa investidora. O que torna o processo difÃcil é o fato de que, os dirigentes e os conselheiros não vão mais ter influência no futebol, ou seja, em contratações de técnicos, jogadores, profissionais. A dificuldade está no corte deste cordão umbilical", explicou Azevedo.
Resumindo: O futebol não pode ser mais chamado de "profissional" sendo administrado por dirigentes amadores que, facilmente são ludibriados por empresários salafrários que não têm nenhum compromisso com os clubes.
A próxima grande grife do futebol brasileiro a aderir a SAF é o Botafogo Futebol e Regatas, do Rio de Janeiro, que no Século XX se notabilizou como um dos clubes que mais cedeu jogadores para à Seleção Brasileira nas conquistas dos primeiros tÃtulos mundiais.
A pergunta que não quer calar:
Quando os grandes clubes pernambucanos irão aderir a SAF?
CLAUDEMIR GOMES
O fechamento da Série A do Campeonato Brasileiro nos deixou com um gosto amargo na boca. Na edição de 2022, a região Nordeste será representada apenas por dois clubes cearenses: Fortaleza e Ceará. Pernambuco e Bahia ficam fora do mapa geográfico da elite do futebol nacional.
Muitos são os fatores apontados como cruciais para este encolhimento do futebol da região, entretanto, as desastradas gestões nas últimas temporadas desidrataram as agremiações pernambucanas e baianas. Existe uma resposta pronta, e que sempre é utilizada para justificar insucessos: "Sem recursos financeiros é impossÃvel se planejar alguma coisa".
A frase também serve como senha para se ter aprovação para aventuras, muitas vezes compactuadas com empresários cujo compromisso é apenas empregar "seus" jogadores. E dessa forma o DNA de clube formador vai sendo esquecido, relegado a um segundo plano.
O Fortaleza encerrou a competição na quarta colocação, assegurou uma vaga na Libertadores da América e teve um protagonismo que era inimaginável no inÃcio da disputa. Evidente que não vamos cobrar protagonismo de todos os clubes da região num campeonato de alto rendimento, contudo, é possÃvel sobreviver na condição de coadjuvante.
Os efeitos deste apequenamento pode ser devastador para pernambucanos e baianos. A temporada nos trouxe a queda do Santa Cruz para a Série D; do Vitória para a Série C e do Sport e Bahia para a Série B. No próximo ano a Copa do Nordeste terá apenas dois representantes da Série A - Ceará e Fortaleza - que por uma razão óbvia, estarão credenciados a disputarem o tÃtulo. Vale lembrar que, nas últimas edições da competição regional, o futebol cearense teve um brilho intenso.
Os torcedores mais otimistas devem argumentar que, "Sport e Bahia voltarão à Série A já em 2023", ou seja, daqui a um ano suas torcidas comemorarão o acesso. Uma possibilidade que não pode ser descartada, contudo, este também foi o pensamento dos torcedores do Cruzeiro, que em 2022 irá para sua terceira temporada na Série B, e dos vascaÃnos, que pelo segundo ano consecutivo verão seu clube medindo forças na Segunda Divisão.
A Série B vai se consolidando como uma competição robusta, difÃcil de ser encarada. No próximo ano teremos seis campeões brasileiros na disputa: Vasco, Cruzeiro, Guarani, Grêmio, Bahia e Sport. Teoricamente as quatro vagas de acesso serão disputadas por estes clubes, entretanto, como futebol não é uma ciência exata, e nos gramados brotam agradáveis e amargas surpresas, não existe garantia de sucesso para nenhum clube, pois, correndo por fora estarão o Náutico, os alagoanos CSA e CRB...
"Esta é a nossa realidade", dispara o leonino, Humberto Araújo, com um rasgo de resignação caracterÃstico de quem está acostumado ao sobe e desce desta gangorra do futebol nacional.
Ao testemunhar o sofrimento da torcida do Grêmio, na vitória pÃrrica - 4x3 - sobre o Campeão Atlético Mineiro, me veio a lembrança de outros prantos derramados que lavaram de lágrimas coloridas camisas de diversos clubes, numa prova inconteste de que, no futebol a soberania também é efêmera.
CLAUDEMIR GOMES
O ex-presidente da ACDP, Aldeci Lima, que hoje dirige, junto com a mulher, uma empresa de turismo, vez por outra, me presenteia com uma grata ligação para falarmos sobre o futebol pernambucano e brasileiro. A última vez que batemos um papo ele não escondeu sua irritação com a numeração adotada por jogadores, e aceita por clubes e entidades, nos últimos anos.
"Ninguém conhece ninguém", esbravejou com a autoridade de um advogado em defesa de velhos e bons costumes. "Faça uma crônica sobre isso e carregue nas tintas", sugeriu.
O eterno Ãdolo da torcida do Náutico, Ivan Brondi, capitão do histórico hexa, foi taxativo quando lhe indaguei sobre a numeração utilizada pelas equipes nos dias de hoje: "Acho muito esquisito. à estranho!". E acrescentou: "Também acho um desrespeito ao estatuto do clube as equipes jogares com uniformes de outras cores que não sejam as tradicionais das agremiações".
Os protestos de Aldeci e Ivan me levaram a deixar o conforto da poltrona de casa e ir assistir alguns jogos em bares e restaurantes na busca da reação dos torcedores. Na decisão da Libertadores da América, que colocou em confronto Flamengo e Palmeiras, um torcedor do clube paulista me chamou a atenção porque conhecia poucos jogadores do time que estava em campo.
Quando lhe perguntei sobre a dificuldade de identificar os novos Ãdolos ele sorriu e explicou: "Antigamente eu sabia quem era o dono da camisa 2, da camisa 5, da camisa 9, enfim, do goleiro ao ponteiro esquerdo, eu sabia quem era quem. Hoje bagunçou tudo. Até os narradores se confundem".
Verdade! Domingo baixei o som da televisão e liguei o rádio. O narrador se equivocou várias vezes. O pista se perdia nas suas narrativas por não ter decorado a numeração dos jogadores.
Como o futebol é cheio de preconceitos, não conseguimos identificar os números: 24; 69 e 171.
Certa vez, perguntei ao Zuca Show se na tábua do bicho existia "Onça". Ele tirou minha dúvida e disse que existia "gato, tigre e leão". Ao meu lado, o narrador que um dia foi classificado pelo saudoso, Luciano do Valle, como sendo "o melhor do Brasil", ficou mais vermelho que uma arara. Ele ficou com tanta raiva que não me passou a numeração dos times. Quem me salvou foi o zap.
O amigo Peçanha, baiano, torcedor apaixonado do Vitória, diz que "as novas numerações confundem até os treinadores".
Apesar dos sinais dos novos tempos, nenhum outro número pesa mais que o 10. Não é para menos! Afinal, a camisa 10 foi imortalizada por Pelé, no Santos e na Seleção Brasileira. Maradona, Messi, Rivelino, Ademir da Guia, Tostão, Jairzinho, Zico... Foram outros gênios que eternizaram o número como marca registrada de craque. Nenhum marqueteiro se atreve a sacar o 10 do time.
O mestre, Lenivaldo Aragão, que considero a grande enciclopédia do futebol pernambucano, mantém um hábito que adquiriu há mais de 60 anos, quando iniciou sua brilhante carreira jornalÃstica como repórter: leva sempre consigo uma cadernetinha onde faz um monte de anotações que só ele entende. Leni tem sentido uma dificuldade enorme em anotar as numerações em voga, no costado dos jogadores.
O futebol é simples, complicados são os gênios das mudanças.