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Maio 2012 ›› CLAUDEMIR GOMES
"SANTA CRUZ, SANTA CRUZ, JUNTA MAIS ESSA VITÃRIA AO TEU PASSADO DE GLÃRIA!".
Embalada por este refrão, uma das maiores torcidas do futebol brasileiro, testemunhou o crescimento e o fortalecimento do Santa Cruz Futebol Clube, o Tricolor do Arruda; o Clube do Povo; o Terror do Nordeste. Seu passado de glória, como bem diz o hino do Mais Querido, não condiz com a turbulência do presente que abala os alicerces das Repúblicas Independentes do Arruda.
Em agonia, os tricolores protestam por não terem a certeza de ver o sol brilhar mais uma vez, embora, simbolicamente, a Virgem da Conceição siga voltada para o Arruda, com os braços abertos, num claro sinal de que a esperança por melhores dias não pode faltar.
"Eles vão aprender!".
Me respondeu o sábio e experiente amante do Santa Cruz, João Caixero de Vasconcelos, quando semana passada lhe indaguei sobre a capacidade dos novos gestores.
O técnico, Alexandre Gallo, ao perceber que não tinha embocadura para tocar aquele instrumento que lhes colocaram no colo, foi cirúrgico ao citar a torcida coral como a maior ferramenta que o clube dispõe para superar as dificuldades do momento.
Desde a década de 70, do século passado, quando passei a integrar a equipe de esportes do Diário de Pernambuco, acompanho a vida do Santa Cruz de perto, conhecendo os protagonistas que escreveram a história do clube, dentro e fora de campo, nos últimos 46 anos. Em quase meio século somando conhecimentos sobre a agremiação, cuja vocação maior é o movimento popular, confesso que nunca vi o Clube do Arruda tão sem perspectiva como no atual momento.
Evidente que, para um clube popular, cuja mola propulsora é a gigantesca e fiel torcida, a travessia pandêmica, que afastou o público dos estádios, e da vida dos clubes, tem sido um desafio imensurável. Entretanto, o Santinha está em queda livre há muitos anos. Afinal, nesta última década são seis anos disputando a terceira divisão nacional (Série C) e apenas uma passagem na Série A. O Gigante dos anos 70 e 80 foi transformado em anão.
A vida não pára! Isto é fato. Mas os tricolores que estão dentro, e os que estão fora do clube, precisam parar, planejar o futuro do clube. O que fazer? Não sei, mas no próprio futebol brasileiro há exemplos a seguir. Uma coisa é certa: o imediatismo não pode atrapalhar, ser mais importante que o planejamento.
O ruim é enfrentar uma tempestade num barco sem leme e sem vela, como ocorre no momento. A deriva é inevitável quando isto acontece.
Este clube unido jamais será vencido!
Esta frase já foi ouvida inúmeras vezes nos grandes clubes do Recife. O Santa Cruz não fugiu a regra, mas nas últimas décadas não tem sido fácil ser fiel a este mandamento infalÃvel, que sempre leva ao sucesso. Afinal, quem conhece a história do clube do Arruda sabe que ela é pontuada de mutirões exitosos.
De uns tempos prá cá, a politização dividiu, fracionou e enfraqueceu o elo da união entre os tricolores. E todos saÃram lavando as mãos. Talvez se sintam limpos, mas sujaram a história do clube.
Eles vão aprender!
Tenho cá minhas dúvidas meu caro Joca.
CLAUDEMIR GOMES
O futebol não é ciência exata, mas algumas coisas estão escritas nas estrelas, como por exemplo, os protagonistas das semifinais da Copa do Nordeste, edição 2021: Ceará, Fortaleza, Bahia e Vitória. As campanhas de cearenses e baianos, não apenas ratificam o bom momento que atravessam o futebol dos dois estados, como também, nos mostram que, com a ausência dos pernambucanos, não haveria surpresas na reta final, embora tenhamos que ressaltar a evolução dos coadjuvantes alagoanos: CSA e CRB.
Há três ou quatro anos, (não posso precisar porque a travessia pandêmica me deixou confuso em relação a data, que de certa forma é subjetiva), Dado Cavalcanti, Roberto Fernandes e outros profissionais, promoveram um seminário no Mar Hotel. Cronistas esportivos, técnicos, fisicultores, jogadores, enfim, uma gama de profissionais ligados ao futebol se propôs a contar suas experiências e buscar um norte para o futebol pernambucano.
A época, o saudoso Nereu Pinheiro, me chamou no final do encontro e foi cirúrgico na sua observação: "Isso não vai nos levar a nada!". Disse com o conhecimento de que, no futebol, quando não se tem liderança, a distância entre o discurso e a prática se torna abissal.
No referido encontro, um dos destaques foi um diretor do Fortaleza, que, em poucas palavras, tentou explicar o "case" de sucesso do tricolor cearense.
Com a experiência de mais de meio século vivido para o futebol, com relevantes serviços prestados ao seu Santa Cruz e a Federação Pernambucana de Futebol, João Caixero de Vasconcelos, a pedido do saudoso, Murilo Falcão, ex-vice-presidente e diretor de competições, da entidade que comanda o futebol estadual, elaborou um projeto, embasado na realidade dos números, para ser desenvolvido, conjuntamente, pelos "grandes" do futebol pernambucano e a FPF.
No final daquele encontro realizado há quatro anos, no Mar Hotel, era notório o sentimento de esperança da maioria dos profissionais presentes, que ficaram no aguardo da "Carta de Pernambuco", que se foi publicada, poucos tomaram conhecimento. Com a morte de Murilo Falcão, o projeto feito por Caixero segue engavetado.
E assim, seguimos sentados no berço esplêndido, com a boca escancarada, esperando a morte chegar.
A verdade é que ninguém pensa fora da caixa no nosso futebol, cuja liderança foi enterrada junto com o ex-presidente, Carlos Alberto Oliveira, há 10 anos, em agosto de 2011. De lá pra cá nosso futebol ficou sem representatividade na CBF, e sem liderança na região.
Sem sofrimento, vamos ao que nos resta: um Estadual mequetrefe.
CLAUDEMIR GOMES
O limoeirense, Cleanto José, era um sujeito pacato, fazia questão de ser discreto, mas se agigantava quando o assunto era números. Na sua rica biblioteca era fácil se perder diante de tantos tÃtulos sobre mutação e probabilidades. Sempre que tinha oportunidade ele fazia questão de ressaltar, para que eu tomasse a frase como um mantra: "Os números dão norte a tudo".
Ao observar os números finais da primeira fase, da edição em curso, da Copa do Nordeste, lembrei dos sábios ensinamentos que meu saudoso tio tentou me repassar. Números preocupantes que atestam a debacle de um futebol que já foi, por muito tempo, considerado o melhor da região.
Sport e Santa Cruz, donos das maiores torcidas do Estado, encerraram suas campanhas como lanternas dos seus respectivos grupos. Os três representantes pernambucanos: Sport, Santa Cruz e Salgueiro, juntos somaram um total de 17 pontos. Mesmo montante somado pelos dois clubes paraibanos - Treze e Botafogo - que também não se classificaram para a segunda fase da competição.
Os dois representantes cearenses - Ceará e Fortaleza - lÃderes em seus respectivos grupos, somaram, juntos, 33 pontos. Os baianos - Vitória e Bahia - chegaram ao montante de 26 pontos, enquanto os alagoanos - CSA e CRB - alcançaram a casa dos 24 pontos numa demonstração inconteste de evolução. Altos/PI e Sampaio Correia/MA, os outros dois classificados para as quartas de final, somaram mais pontos que Santa Cruz e Sport.
Santa Cruz teve o pior ataque da competição na fase de classificação: 3 gols. Amargou 7 derrotas em 8 partidas disputadas. Por outro lado, o Sport teve a defesa mais vazada: 16 gols, fechando sua participação com um saldo negativo de 10. Os três clubes pernambucanos foram os que tiveram as defesas mais vulneráveis, juntos sofreram 38 gols.
Os números são fortes, incontestáveis, derrubam o verborrágico blá, blá, blá dos dirigentes rubro-negros e tricolores, na tentativa de tapar o sol com a peneira. O norte é o fundo do poço.
Culpados? Evidente que existem. Mas são indultados pelos "segredos da Cosa Nostra".
Mas a verdade dos números é absoluta, implacável. Não combina com o lirismo e a poesia do futebol que nos embriaga e alimenta paixões.
Dias melhores estão por vir! Melhor pensar assim.
CLAUDEMIR GOMES
A Internet derrubou barreiras e encurtou distâncias. Isto é fato. Hoje vivemos num mundo interligado, com a oportunidade de testemunhar acontecimentos, em tempo real, em qualquer um dos continentes. A revolução da comunicação também ressalta as diferenças. Com o excelente cardápio que a televisão nos oferece do futebol europeu, constatamos que "a grama do jardim do vizinho é mais bonita que a nossa".
Não! Não estou traçando um paralelo entre a qualidade do futebol que vemos nos jogos da Champions League, com a qualidade das partidas que assistimos no Campeonato Pernambucano; Copa do Nordeste ou na Copa do Brasil que está na fase inicial. Como bem sugere o mestre, Humberto Araújo, aceitamos a nossa realidade sem sofrimento.
A distância apenas provoca uma indignação, e vem a pergunta que não quer calar: Por que eles evoluÃram tanto nos últimos trinta anos e nós ficamos parados no tempo e no espaço?
Talvez, cantarolando um antigo sucesso do rei Roberto Carlos tenhamos a resposta: "As flores do jardim de nossa casa/ morreram todas/ de saudade de você...". Não é bem assim. As flores dos nossos jardins estão enfeitando os jardins dos vizinhos. Elas seguem lindas e exalando um perfume embriagador.
Terça-feira, ao assistir, ao vivo, uma apresentação do Real Madrid na Champios League, o mestre, Roberto Vieira, um poeta nato, que tem o futebol como insumo de sua poesia, traçou um paralelo entre um lance protagonizado por Gerson e Pelé, no Mundial de 70, no México, e o lançamento feito por Kroos para o gol antológico de VinÃcius Jr., na vitória do time espanhol.
O genial, Eduardo Galeano, escritor uruguaio que tinha no futebol o alimento maior de sua alma, quando assistia uma partida de baixo nÃvel técnico ficava mendigando: "uma jogada boa pelo amor de Deus".
Esperamos 50 anos para aplaudir uma obra de arte similar a que fora esculpida por Pelé e Gerson numa Guadalajara romântica, quando ainda não havia sido dominada pelo cartel de El Chapo.
"Nossos bailarinos não dançam mais samba!". Me disse certo dia, Emerson Leão, que teve o privilégio de desfilar, naquele cobiçado quadrilátero ao lado de alguns gênios do futebol brasileiro, numa época em que nossos jardins eram bem mais bonitos que os dos vizinhos.