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Maio 2012 ›› CLAUDEMIR GOMES
A pandemia nos levou a rever conceitos e mudanças de hábitos. Isto é fato. Dentre os hábitos adquiridos, a abertura de "gavetas". Mergulhar no sótão da vida e abrir velhas gavetas é correr riscos. Um risco calculado, diria, uma vez que, escolhemos a gaveta da qual queremos vasculhar as lembranças.
Sou um homem temente a Deus. Católico não muito praticante, mas devoto de Nossa Senhora Auxiliadora, excelente legado de sete anos de educação no Colégio Salesiano. Eis a razão pela qual a Semana Santa me é tão especial, e me arremete a muitas reflexões, principalmente neste momento assustador para toda a humanidade.
Ontem, minha mulher assistia a uma missa pela televisão (canal do youtube). Esforcei-me para ser solidário, mas não consegui me concentrar. Hoje, logo que acordei, abri a gaveta que guarda as lembranças da Semana Santa na época em que era aluno salesiano.
A liturgia da missa ia muito além da nossa presença na igreja. Começava em casa, na escolha da roupa feita por nossas mães. Nos anos 60, as mulheres ainda usavam um véu na cabeça. Homens e mulheres, selecionados pelo pároco da cidade para participarem de grupos, usavam fitas de diferentes cores com uma medalha. Essas pessoas tinham uma participação efetiva, e diferenciada, nas celebrações. A missa era rasada em latim e o padre ficava de costas para o público. Depois, para uma maior interação e participação dos fiéis, a missa passou a ser celebrada em português, com o padre de frente para o público.
Dois cidadãos eram referências, para mim, de fé e participação: seu Costinha e seu Bitonho. Cada qual ao seu jeito eram devotos fervorosos, católicos praticantes que não perdiam a missa aos domingos e dias santos.
Por três ou quatro anos fui convidado para figurar como um dos apóstolos na Missa do Lava Pés. Ser coadjuvante naquele cenário era um prêmio. E a quinta-feira era aguardada com muita expectativa e ansiedade. A Missa do Lava Pés era solene; muitos cânticos e uso de incenso. A celebração representa a Ãltima Ceia de Jesus Cristo com os Apóstolos. Nesta missa, por tradição da Igreja Católica, ao invés do uso do sino se acionava a matraca. Dava para sentir o orgulho de seu Costinha com aquele instrumento medieval.
Quando abri aquela gaveta, a primeira coisa de soou aos meus ouvidos foi o som da matraca.
Feliz Semana Santa para todos!.
CLAUDEMIR GOMES
A humanidade adora ouvir histórias. E foi contando histórias que a indústria do cinema se tornou a mais poderosa no ramo do entretenimento. Quem quiser se aprofundar no assunto, basta marcar um papo com o mestre, Alfredo Bertini. Bom! Durante muito tempo, nas primeiras décadas de crescimento da sétima arte, os clássicos do suspense sempre trazia a figura do mordomo como um dos principais suspeitos do crime.
"Elementar meu caro Watson". A frase do famoso detetive inglês, Sherlock Holmes, se tornou um bordão.
Como não sabemos ao certo se "a vida copia a arte, ou a arte imita a vida", o fato é que, no futebol brasileiro, a culpa por um time não se sair bem numa competição sempre era atribuÃda aos técnicos: "Elementar meu caro...". Virou regra. E foi criada a dança das cadeiras.
Ao anunciar o regulamento do Campeonato Brasileiro 2021, a CBF apresentou, como grande novidade, a limitação da utilização de treinadores durante a competição por clube. Resumindo: um clube só pode trocar de técnico uma vez durante o CB. Pode utilizar até mais de um profissional no cargo, desde que o mesmo já faça parte da comissão técnica.
Se a moda pega Hollywood vai inocentar o mordomo.
Não sei se o nosso avacalhado futebol está preparado para este princÃpio de justiça. Eita! Falar em justiça no nosso PaÃs está complicado, nos dias de hoje. Mas é como o cinto de segurança: os condutores brasileiros só passaram a respeitar depois que lhes fora imposta uma multa.
"Os professores erram demais!", diria o saudoso mestre, LuÃs Cavalcante, com sua palavra abalizada. Concordo em número, gênero e grau. Alguns não deveriam nem sentar no banco. Mas nem sempre são culpados pelos erros. As lambanças, em sua maioria, são reflexos das gestões desastrosas.
Uma das poucas vezes que o técnico não foi julgado culpado,e sentenciado, no futebol brasileiro foi na Copa de 50. No "maracanazo", todos os dedos apontaram para o goleiro Barbosa. Um homem que teve uma vida, mas morreu duas vezes. Hoje (27/03/2021), estaria completando 100 anos.
CLAUDEMIR GOMES
Ao final da disputa da quarta rodada da fase de classificação da Copa do Nordeste, observamos que, os lanternas dos grupos A e B, são Santa Cruz e Sport, respectivamente. A mediocridade do futebol apresentado pelas duas maiores "forças" do futebol pernambucano, donos das maiores torcidas, é traduzida nos números. Sei que não se mensura mediocridade, mas tricolores e rubro-negros beiram o limite.
Vale lembrar que não estamos mais na era do rádio, época em que os torcedores davam asas a imaginação a partir do que ouviam de narradores e comentaristas. Nos dias de hoje a televisão nos mostra as aberrações ao vivo e a cores. Portanto, não adianta vir com um discurso torpe na tentativa de empanar uma realidade que todos estão conscientes de sua inexistência.
O futebol mudou. O mundo mudou. As chuteiras estão coloridas, as bolas são de materiais impermeáveis, os jogadores se tornaram influenciadores; os gols e lances mais polêmicos nos são mostrados por vários ângulos. Estamos na era dos smartphones, mas os dirigentes do futebol pernambucano ainda acham que, entrando em campo para agredir (verbalmente ou fisicamente) o trio de árbitros resolve os problemas de gestão.
O mestre, José Joaquim Pinto de Azevedo, costuma dizer que o Sport está perdido no espaço. E indaga qual o artigo do Estatuto do clube que permite a continuidade do Conselho Deliberativo e da Diretoria Executiva após o fim dos mandatos? Na Ilha da Fantasia tudo acontece de forma irregular e contratos são renovados, jogadores contratados, enquanto existem vários candidatos concorrendo ao pleito, quando o certo teria sido entregar o clube a uma junta governativa até a realização da eleição, que deveria ter sido realizada em dezembro.
Isto é utopia! Rebatem os que estão no poder, sob alegação que tal medida traria grandes prejuÃzos para o Leão. A pergunta que não quer calar: "Isto que estamos testemunhando é lucro?"
O Santa Cruz disputou quatro jogos e não somou nenhum ponto na competição regional. O comentarista da televisão, como se apenas ele estivesse vendo o jogo, diz com voz empostada: "O time está evoluindo pelos dois lados, bla, bla, bla...". Mais perdidos do que cachorro em caminhão de mudança, os dirigentes corais recorrem ao clichê: "herança maldita".
O Santinha vai para a quarta temporada seguida na Série C do Brasileiro. Nos últimos dez anos, o Tricolor do Arruda transitou na Terceira Divisão em seis temporadas.
Enquanto leoninos e tricolores olharem só para a bola, o que está ruim seguirá pior. Retrato da incompetênciaCLAUDEMIR GOMES
O meu pai, Jaime José de Aguiar Gomes, tão logo tomou conhecimento de que, o filho que minha mulher esperava era homem, me chamou e fez a seguinte revelação:
"Quando nasci seus avós acordaram de que no meu no nome teria que ter José. Quando você nasceu, sua avó me pediu para colocar José no seu nome. Agora, venho lhe pedir para que seja colocado José no nome do meu neto. E assim foi formada a corrente: Jaime José; Claudemir José e VinÃcius José.
Até então eu achava que o José do meu nome fosse uma homenagem a São José, por ele ser o padroeiro de minha cidade natal: Carpina.
Embora o tendo como santo protetor, nunca evoquei São José para fazer pedidos. Sempre atribuÃ, a ele, a missão de manter os campos verdes. Chega a ser emocionante testemunhar a fé do homem do Interior, em relação a boa colheita, quando chove no dia de São José.
Não é por acaso que, um dia, Luiz Gonzaga cantou:
"Ai
São João, São João do Carneirinho
Você é tão bonzinho
Fale com São José
Fale lá com São José, peça pra ele me ajudar
Peça pro meu mio dar
20 espiga em cada pé".
O poeta, Xico Bizerra, postou hoje uma crônica onde ele revela uma tristeza profunda, provocada por esta travessia pandêmica. à como se as cores estivessem ficando desbotadas. Xico é um sujeito especial, e tem grande identificação com os verdes campos.
Após ler sua crônica, lembrei das procissões de São José, em Carpina, onde cantávamos enquanto passávamos pela rua que leva o nome do santo:
"São José, a Vós nosso amor
Sede vós um bom protetor
Aumentai o nosso fervor".
Que nossa fé seja fortalecida amigo Xico.
CLAUDEMIR GOMES
Antes do inÃcio do jogo entre Santa Cruz e Sport, ontem à tarde, no estádio do Arruda, um dos protagonistas do confronto foi entrevistado e soltou a frase: "Clássico é Clássico e vice-versa". Não entendi sua mensagem, mas solitário na arquibancada do apartamento, falei pro meus botões: Isto é um mau presságio. Não deu outra. Não recordo se, nos últimos 50 anos, vi Sport e Santa Cruz serem tão pequenos, pÃfios e inoperantes. O que assistimos durante 90 minutos foi um caricato do que antes se chamou de "Clássico das Multidões".
A pandemia evitou que a "multidão" se frustrasse testemunhando tamanha decadência, in loco.
Certa vez, fui escalado pelo mestre, Adonias de Moura, para fazer o comentário de um clássico entre Santa Cruz e Sport, no Arruda. Sentamos juntos na ampla cabine reservada, a época, só para imprensa escrita. Atento aos lances, mas com os ouvidos bem abertos para captar esporádicos comentários que eu fazia, ele me fez o seguinte alerta no intervalo do jogo: "Cuidado com as palavras. Elas têm força".
Na redação do DP, quando terminei de escrever o comentário sobre a partida, ele complementou à lição: "Deixa eu ver se você carregou nas tintas". O mestre tinha o cuidado para que, o torcedor que existe dentro de cada um de nós, não ficasse excitado ao ponto de atropelar o profissional que, por ordem de ofÃcio, deve ser imparcial.
No inÃcio da noite de ontem, recebi uma ligação de Serra Talhada. Era o amigo, Bernardino Magalhães, rubro-negro de carteirinha, revelando sua frustração com o que havia assistido. No final, se despediu com a frase: "Quero ler seu comentário sobre o clássico".
Ao desligar o telefone suspirei: "Tal responsabilidade não tenho. Afinal, o que o vi não foi um clássico". O conceito de clássico que me foi repassado é bem diferente dessas porcarias que estão querendo rotular como sendo a ameixa do bolo.
Lembrei dos amigos, Lenivaldo Aragão, Amaury Veloso, Robson Sampaio, Márcio Maia, Jarbas Vasconcelos, Raimundo Carrero... e de alguns protagonistas de edições memoráveis do Clássico das Multidões:
Detinho, LuÃs Neto, Birigui, Tobias, PaÃs, Magrão, Bosco, Gilberto; Baixa, Betão, Gena, Carlos Barbosa; Ricardo Rocha; Lula Pereira, Levir, Alfredo Santos, Ailton, Dorval; Dutra, Altair, Pedrinho Neponuceno; Zito, Givanildo, Zé do Carmo, Merica, Luciano, Mazinho, Wilson Carrasco, Henágio, Vadinho, Valter, Ataide, Ribamar, Edson Ratinho; Marlon, Cuica, Jarbas, Fernando Santana, Ramon, Fumanchu, Nunes, Denô, Roberto Coração de Leão, Robertinho, Miltão, Hélio, Pacoti, Baiano, Grafite,...
A lista de bons e excelentes jogadores é intensa. O sobrenome de todos é "Clássico", isso porque, com um futebol refinado, garra, determinação, se identificavam com as camisas que vestiram. Se doaram numa entrega alucinante, e escreveram os melhores capÃtulos do Clássico das Multidões.
Ah! sobre o jogo de ontem: Ruindade é ruindade e vice-versa.
Me desculpem aqueles que seguem chamando aquela caricatura de clássico. Eu só carreguei um pouco nas tintas em defesa da memória do bom e belo futebol que eternizou os CLÃSSICOS.