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Maio 2012 ›› CLAUDEMIR GOMES
Em meados de 1975 cheguei ao Diário de Pernambuco, levado pelo editor geral, a época, Diógenes Brayner, para fazer um teste na equipe de esportes, comandada pelo mestre, Adonias de Moura. O amigo, Adalberto Ribeiro, também estava de chegada para compor a equipe de polÃtica. Logo nos primeiros dias aconteceu a histórica cheia que deixou o Recife quase todo submerso. As ruas da cidade ainda estavam sendo limpas quando estourou o boato: "A barragem de Tapacurá estourou". A coisa foi orquestrada de tal forma que, mesmo sem haver internet, e redes sociais, viralizou e provocou um pânico histórico na Capital Pernambucana.
O texto acima é retrospectiva de vida.
Nos últimos dias do ano é inevitável, para quem é da minha geração, o aguardo das retrospectivas que são oferecidas pelas empresas de comunicação.
Durante muitos anos o caderno especial de retrospectiva do Diário de Pernambuco esteve sob a responsabilidade de Lêda Rivas. Ela, junto com sua equipe, caprichava nas edições. Todas as equipes da redação eram mobilizadas de forma direta, ou indireta. O mestre Adonias de Moura sempre escalava um dos seus pupilos para escrever a retrospectiva de esportes. Fui indicado, durante alguns anos para fazer a página: presente de fim de ano.
Particularmente, gostava do modelo tradicional onde destacávamos os fatos, mês a mês. As mudanças surgiram, mas o interesse pelo caderno especial de retrospectiva continuava em alta. Na redação, a expectativa aumentava a medida que se aproximava o dia da publicação.
No final dos anos 90, uma "Besta Fera" vindo de BrasÃlia, resolveu acabar com o extraordinário trabalho capitaneado por Lêda, na pesquisa. Por fim ao arquivo de fotografias foi a mesma coisa que tirar o coração do velho Joel, que cuidava tanto do seu departamento, quanto zelava pela branca cabeleira onde não se via nenhum fio de cabelo em desalinho.
Aquela foi uma das maiores agressões e perversidades feitas com o velho DP.
As retrospectivas são as maiores provas de que, na vida tudo passa, tudo muda. Algumas coisas parecem resistir ao tempo, parecem imutáveis, como a dificuldade do futebol pernambucano em dar um salto qualitativo no cenário nacional. A história nos mostra sucessos pontuais, nada mais que isso.
Retrospectiva em tempos de redes sociais é um desafio e tanto para qualquer editor. Em ano pandêmico, e com o PaÃs de ponta cabeça como está o Brasil, nem pensar. São tantas meias verdades e fake news que ficamos assustados sem saber se o que estamos vendo é uma retrospectiva ou uma pegadinha de halloween.
Bateu saudade dos seus cadernos amiga Lêda Rivas!
CLAUDEMIR GOMES
A expressão - "Deu um branco" - traduzida ao pé da letra, significa que a pessoa teve um esquecimento repentino, momentâneo. Quando se quer dizer que tudo deu errado, a expressão usada é: "A coisa ficou preta".
Os piores momentos na história de um clube são traduzidos como "páginas negras".
Expressões racistas sempre fizeram parte dos vocabulários de todos os povos e civilizações. A história da humanidade nos aponta mil e um exemplos num mundo marcado pela segregação e apartheid. O choro dos negros nas senzalas, nos guetos, nas favelas... são reais e ecoam na consciência dos justos.
A falta de atitude permitiu, durante séculos, que os abismos fossem aprofundados, as desigualdades se agigantassem. Os gritos dos excluÃdos foram manchando as páginas brancas como um mata-borrão.
Aos poucos o mundo descobriu que, um papel em branco pode ser mais pernicioso, por abrir infinitas possibilidades, do que uma "página negra", mera interpretação individual de cada um.
"Cala boca Negro!"
A expressão perdeu sua força imperativa nos dias de hoje. Não! Não se trata de mi, mi, mi, como disseram os capatazes dos novos tempos, na tentativa de reprimir uma reação que não tem mais volta. O mundo mudou.
A luta pela igualdade vem de séculos. à uma luta quase inglória porque passa pela evolução espiritual das pessoas.
O jogo segue. Cartão vermelho para os faltosos. O Rei do Futebol é negro e brasileiro. Através deste esporte foi possÃvel colocar negros nas seleções da Itália, Inglaterra, Estados Unidos, França... à a arte corrigindo a vida.
"Cala boca Negro!"
O futebol não pode permitir mais este grito. Que me desculpem os Manés.
CLAUDEMIR GOMES
O tempo não pára. Isto é fato. Também não volta atrás. Esta é outra verdade. Caso contrário, a notÃcia mais explorada pelos veÃculos de comunicação, nesta manhã de segunda-feira, seria a conquista do tetracampeonato de Fórmula Truck pelo piloto pernambucano, Beto Monteiro.
Fiquei a imaginar, se tal feito tivesse ocorrido há 20 anos, como seria a narração do saudoso, Luciano do Valle, que transmitiu várias corridas da Truck e foi um grande incentivador de Beto quando ele ingressou no circo dos brutos.
Quando o vi no pódio, sendo abraçado pelos outros pilotos, fechei os olhos e fiquei sonhando com os gritos do Galvão Bueno: "Beto é tetra, é tetra, é tetra!".
Foi difÃcil conter a emoção vendo o "magro" tocar seu truck com extrema competência para consolidar sua quarta conquista nacional. Vale lembrar que, no seu currÃculo consta um tÃtulo sul-americano. A história deste campeão, nós sabemos de cor e salteado.
Os primeiros passos de Beto Monteiro na Fórmula Truck aconteceram no final dos anos 90. Depois, substituiu Sérgio Ramalho, que havia sofrido um acidente de kart, em João Pessoa, na equipe de Tiago Grison. De imediato chamou a atenção de grandes equipes. O primeiro tÃtulo foi conquistado em 2004. O bi só veio nove anos depois, em 2013. Ano passado foi coroado como tricampeão e, neste domingo, referendou sua condição de melhor com a conquista do tetra.
A trajetória de Beto na categoria que já foi considerada a mais popular do paÃs, se confunde com a própria história da Truck no Brasil. Afinal, foi aqui em Pernambuco, que o precursor das corridas de caminhões, encontrou o apoio necessário para dar o salto de crescimento que a categoria necessitava na busca pela consolidação no cenário nacional.
Aurélio Batista Félix contou com a parceria de protagonistas como Cleyton Pinteiro, Gilberto Lyra e Zeca Monteiro, que acreditaram no projeto e não mediram esforços para que o mesmo se tornasse exitoso no Nordeste, onde acontecia apenas uma etapa: a de Caruaru.
O tetracampeonato de Beto Monteiro é uma conquista de Pernambuco. O hino para saudá-lo tem que ser o de Pernambuco, o da "Nova Roma de Bravos Guerreiros".
Em tempos de pandemia, nada como uma conquista como esta para alegrar os nossos corações.
CLAUDEMIR GOMES
Amanhã, o mundo literário comemora o centenário de Clarice Lispector, escritora nascida na Ucrânia, mas que é tão brasileira quanto Pelé, Elis Regina..., e por ter vivido sua infância no Recife, nós pernambucanos a consideramos "gente nossa".
Todas as louvações feitas a Clarice Lispector são por demais merecidas. Sua obra nos leva a reflexões permanentes. Dentre muitas frases lapidares, tem uma que me agrada bastante: "A grandeza do mundo me encolhe".
A interpretação de texto, e de pensamento, é um desafio constante neste mundo em ebulição. A lÃngua portuguesa é cheia de armadilhas e as diferenças são enormes. Encolher não a mesma coisa que apequenar.
Gosto muito de fazer analogias. Observo o quanto cresceu o mundo do futebol nos últimos trinta anos. Numa escala inversamente proporcional, os grandes clubes pernambucanos se apequenaram. Antes, eles se encolhiam diante de uma realidade, razão pela qual eram tidos como grandes, e davam saltos de crescimento, evolução.
"Eu sou antes, eu sou quase, eu sou nunca".
Eis outra frase de Clarice Lispector que nos leva a refletir sobre o momento dos nossos grandes clubes: Sport, Náutico e Santa Cruz. Os processos sucessórios, em curso, na Ilha do Retiro, e no Arruda, retratam bem a metamorfose: agremiações que foram grandiosas no passado, se apequenaram no presente e se mostram sem perspectivas para o futuro.
Vale lembrar que, em passado recente, o Náutico vivenciou algumas eleições que permitiram a chegada, ao topo do poder executivo, presidentes que foram verdadeiras piadas, ou aberrações, como queiram.
Fátima Quintas, em sua homenagem a Clarice, hoje, na edição do Jornal do Commercio, encerra sua crônica com o dialogo da escritora com Deus:
"Não vou morrer, ouviu Deus? Não tenho coragem, ouviu? Porque é uma infâmia nascer para morrer não se sabe quando nem onde. Uma coisa eu garanto: nós não somos culpados".
Parafraseando Clarice posso assegurar aos torcedores dos clubes: A imprensa não é culpada.
CLAUDEMIR GOMES
A notÃcia teve o impacto de uma falta violenta, nos deixou atordoados:
Aristóteles Cantalice faleceu vÃtima de Covid!
Sem dúvida uma dessas surpresas da vida que tem o gosto amargo de um gol contra. Recorri ao VAR, capitaneado por amigos comuns, para ter certeza da veracidade do fato. Confesso que rezei para que fosse uma fake news.
Nada a fazer. Muito a lamentar. O jogo da vida é repleto de perdas e ganhos.
Tota - era assim que eu o tratava - foi o irmão que o futebol me presenteou. Nos conhecemos e estreitamos nossos laços de amizade da forma mais natural possÃvel. A época, eu repórter esportivo do Diário de Pernambuco, e ele árbitro de primeira linha do quadro da FPF. O almoço da sexta-feira, no Galo D´Ouro, era "sagrado". Só não acontecia quando ele era obrigado a viajar para cumprir tabela da CBF.
O vasto bigode, mais preto do que a plumagem da graúna, era sua marca registrada. Servia para emoldurar uma carapuça carrancuda, que disfarçava o ser humano dócil, sensÃvel e solidário que era Aristóteles Cantalice.
Perfeccionista, sempre foi intransigente na defesa dos interesses da classe (árbitro de futebol). A famÃlia era seu grande patrimônio sentimental, e fazia questão que os amigos se sentissem como se fossem membros dela.
O SIM e o NÃO eram as coisas mais naturais para Cantalice, razão pela qual, ele se posicionava como um pai, ou irmão mais velho, para nos aconselhar, e com a mesma naturalidade, era surpreendido se derretendo em lágrimas ao assistir um filme que mexesse com sua emoção.
Tota era um irmão duro, mas que nunca perdeu a ternura.
Saudade meu amigo/irmão!