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Como eu vi Maradona
postado em 26 de novembro de 2020

CLAUDEMIR GOMES

 

Maradona morreu!

Exclamou Bruno Reis sem tirar os olhos do smartphone. Estávamos reunidos no terraço do antigo Hotel Central, na rua Manoel Borba, no centro do Recife. O endereço havia sido selecionado, cuidadosamente, por José Neves Cabral e Humberto Araújo. A pauta do almoço com os amigos era futebol.

Isto é fake news! Pensei. Mas logo me dei conta de que o gênio argentino estava se recuperando de algumas complicações de saúde, fato que de uns tempos pra cá passou a ser corriqueiro em sua vida.

Para não deixar que a notícia empanasse nosso encontro, pensei rápido cá com meus botões: Maradona é imortal.

Quando me despedi de Humberto, Bruno e Zé Neves, na solidão do carro comecei a pensar no gênio da bola, nas quatro Copas que ele disputou, e que cobri como repórter do Diário de Pernambuco: 1982; 1986, 1990 e 1994.

O Mundial da Espanha foi o primeiro que cobrimos, eu e o fotógrafo, Edvaldo Rodrigues. O mestre, Adonias de Moura, nos deu a missão de acompanhar os passos da Argentina, atual campeã do mundo a época. O jovem Maradona tinha as atenções voltadas para si. Era a primeira Copa a ser disputada pelo fenômeno. Mas a seleção da Argentina foi torpedeada psicologicamente pela Guerra das Malvinas, que os argentinos travavam simultaneamente com os ingleses, nos confins da América do Sul. A constante perda de parentes e amigos impediu os jogadores de se concentrarem no Mundial. Maradona buscava a definição de um endereço residencial na Catalunha, pois seu destino já estava selado: o Barcelona. Sua estréia na mais importante competição de futebol do mundo foi por demais discreta, e teve como epilogo uma expulsão no jogo com o Brasil.

Quatro anos depois nos encontramos no Mundial do México. O craque argentino estava na "ponta dos cascos", como costumava dizer o mestre Adonias, que assim como nós outros (Valdi Coutinho, Claudemir Gomes, Edvaldo Rodrigues e Humberto Araújo), ficamos deslumbrados com tudo que o Pib fez naquela Copa. Até a "mão de Deus" ele pediu emprestada para marcar um gol. A Copa do México foi o apogeu de um dos maiores gênios da história do futebol mundial.

Copa da Itália. Quando o Brasil foi desclassificado na fase inicial, passamos a seguir os passos da Argentina. A equipe do DP foi formada por Adonias de Moura, Claudemir Gomes, Valdi Coutinho e Edvaldo Rodrigues. Os hermanos não tinham a mesma força com a qual atropelou a tudo e a todos no México. Maradona dava sinais de que começava a ser vencido pelo seu verdugo: as drogas. O ponto alto do Mundial Italiano foi o confronto entre as seleções da Argentina e da Itália. Por ironia da tabela, estava marcado para a cidade de Nápoles, onde Maradona era o rei. O vencedor do confronto iria disputar a final. Na véspera do jogo mais esperado da competição, Maradona foi imperativo: "Não serei vaiado pelos napolitanos".

E a Argentina calou a Itália.

A final foi marcada de mistérios de bastidores. Bastidores sombrios de uma FIFA comandada pelo brasileiro, João Havelange, que havia sido eleito o desafeto número um de Maradona. Na véspera do jogo final com a Alemanha, o irmão de Maradona é preso acusado de porte de drogas. A indicação de um árbitro mexicano, que havia tido uma atuação discreta ao longo da competição, era um mau presságio. No final a Alemanha foi campeã com um gol de pênalti. Um lance tão sujo que escoou junto com o lixo do Vaticano.

A Copa dos Estados Unidos, em 1994, nós que havíamos testemunhado o êxtase do craque, também tivemos o desprazer de assistir mais um dos capítulos da agonia do homem. Maradona era apenas um caricato daquele gênio que o mundo do futebol reverenciava. Entrou em campo apenas duas vezes, foi suspenso por doping, embora tivesse garantido que não se drogou.

A partir dali um dos deuses do futebol se acabou a conta gotas.

Não chores por mim Argentina!

Não. Quem chora é o mundo.  

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Consciência Negra
postado em 19 de novembro de 2020

CLAUDEMIR GOMES

 

Nesta sexta-feira se comemora mais um aniversário da morte de Zumbi dos Palmares, uma das maiores referências negras do nosso país. É o DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA.

Gosto muito de um pensamento do ator, Morgan Freeman: "O dia em que pararmos de nos preocupar com a Consciência Negra, Amarela ou Branca e nos preocuparmos com a Consciência Humana, o racismo desaparece".

No dia 6 de fevereiro de 1974, lembro como se fosse hoje, fui tirar minha primeira Carteira de Identidade. Quando o cidadão me entregou a folha para conferir os meus dados cadastrais, contestei a palavra "PARDO", como identificação da cor da minha pele. Ele olhou para mim e explicou: "Você nem é branco, nem é preto. É um branco sujo". Todos riram na sala. Tomei aquilo como um deboche, e falei de forma imperativa: Então, coloque que eu sou preto. Fez-se um silêncio assustador.

A questão do racismo é muito complexa, mas sou contra alguns rótulos e movimentos que são criados. Algumas propostas não passam de modismo que provocam muita espuma, mas sequer nos levam a uma reflexão. Consciência Negra é a mesma coisa que chamar o sujeito de "negro da alma branca". E muitos ainda pensam que a expressão altamente racista é um elogio.

Ao longo do tempo convivemos com expressões que nos dias de hoje são abomináveis, tipo - "uma página negra da história" - e muitas outras que, a depender de como são proferidas, podem levar qualquer pessoa aos tribunais. Sinais dos tempos.

A história da humanidade nos mostra que, o negro sempre foi considerado uma sub raça. As primeiras lições sobre diferenças são: grande e pequeno, preto e branco. Depois descobrimos o colorido da vida. Mas, o que seria do mundo se não fosse o contorno preto?

Quando abracei o jornalismo, optei pela vertente esportiva. O mestre, Adonias de Moura, me apresentou a alguns "monstros sagrados" do jornalismo da época, dentre eles, Geraldo Romualdo, que foi quem mais escreveu sobre Leônidas da Silva - O Diamante Negro - que ele achava tão mágico quanto Pelé.

A elegância do goleiro estava na roupa preta - quem não se lembra do russo, Lev Yashin, apelidado de Aranha Negra. As chuteiras eram pretas, e emolduravam com perfeição uma arte que cada dia mais parece descaracterizada por conta do colorido das chuteiras dos pernas-de-pau.

O norte-americano, Jesse Owens, frustrou Hitler do sonho de ver a supremacia ariana no pódio olímpico. Os Jogos Olímpicos são uma festa de cores, mas o pódio segue com a predominância dos negros.

Carl Lewis, Ben Jonhson, Usain Bolt, João Carlos de Oliveira (João do Pulo), Adhemar Ferreira, Joaquim Cruz...

Se tomasse a liberdade, e pedisse ao amigo e jornalista, José Teles, para escrever um pouco sobre a influência do negro na música, por certo ele escreveria um livro.

Sempre gostei de velocidade. Mas confesso que, após a morte de Ayrton Senna, não imaginei que teria outro ídolo na Fórmula Um. Até surgir um tal de Lewis Hamilton, o primeiro negro a pilotar um carro na categoria mais top do automobilismo mundial. Heptacampeão e dono de todos os recordes.

E ainda queriam me chamar de pardo.  

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Sem pão e sem circo
postado em 18 de novembro de 2020

CLAUDEMIR GOMES

 

Embora os dias pareçam muito iguais nesta travessia pandêmica, alguns sinais emitidos pelo tempo chegam a incomodar. E nos deixam com a impressão de que o mundo está ficando pior: mais desigual. As distâncias aumentam na mesma proporção que os gritos clamando por democracia ecoam nos quatro cantos do País.

A terça-feira - 17/11/20 - foi um dia com a marca registrada do futebol, mesmo tendo como assunto dominante nas ruas, os resultados das eleições municipais. O cardápio futebolístico era riquíssimo. Assistimos a goleada (6x0) que a seleção da Espanha aplicou na seleção da Alemanha; a vitória (4x2) da França sobre a Suécia; a derrota (2x1) do Náutico para o Sampaio Correia, jogo válido pela Série B do Brasileiro... Mas o mais importante não vimos: a vitória (2x0) da Seleção Brasileira sobre o Uruguai, resultado que mantém o time brasileiro com 100% de aproveitamento nas Eliminatórias Sul-Americanas, coisa que aconteceu há 39 anos, ou seja, no início dos anos 80 do século passado.

Na Roma Antiga, os imperadores tinham como regra a distribuição de pão e circo para distrair o povo. Nos dias de hoje nos faltam, aqui no Brasil, o pão e o circo. Isso mesmo. O futebol sempre foi tido como a diversão maior do nosso povo. A fome está cada vez mais presente nas classes menos favorecidas, e o futebol da Seleção Brasileira passou a ser um produto exclusivo para ser consumido pelos abastados. O jogo não foi apresentado pela TV aberta, e tampouco pela TV por assinatura. Quem quisesse ter o "mimo" teria que acessar o - Qr Code - e pagar R$ 19,90. Um desrespeito aos menos afortunados. Fiquei sem ver o jogo do Brasil porque me recuso a compactuar com esta falta de DEMOCRACIA.

Vamos simplificar o pensamento: se existe uma lei que obriga o cidadão a votar, também deveria existir uma lei que obrigasse a exibição de um jogo oficial da Seleção Brasileira ser exibido em TV aberta, seja por qual rede for.

No nosso país tropical o sol é de verão, mas as águas estão cada vez mais turvas. É a política dos homens que cada vez se importam menos com o povo.   

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