Histórico
Copa do Nordeste
Xaxado na terra do Axé
postado em 05 de agosto de 2020

CLAUDEMIR GOMES

 

O Ceará foi fiel à máxima de "colocar o coração no bico da chuteira". Como recompensa conquistou, de forma invicta, o título da edição 2020 da Copa do Nordeste. Conquista memorável por vários fatores, inclusive, pelas restrições impostas por uma pandemia aterrorizante que chegou a minar o que mais de precioso existe no esporte mais popular do País: a paixão.

O Vozão, como é carinhosamente chamado o alvinegro cearense, cresceu na fase decisiva da competição, desbancou os favoritos - Fortaleza e Bahia - porque jogou com "a faca nos dentes", sendo de uma fidelidade elogiável aos princípios básicos da escola nordestina, onde a garra, determinação e superação são regras que levam ao sucesso.

Com bom conhecimento do futebol nordestino, este, inclusive, foi o seu segundo título da competição regional (o primeiro foi no comando do Bahia), o técnico Guto Ferreira definiu um esquema de jogo que não fosse de encontro aos princípios e características do futebol da região.

A internacionalização do futebol promoveu um novo tipo de profissional: os técnicos que copiam. Um efeito é natural, e que era esperado. Antes, ele somente acontecia de quatro em quatro anos, obedecia aos ciclos dos Mundiais. Depois do surgimento da internet, com essa enxurrada de jogos internacionais que nos são ofertados todos os dias, os "professores" acharam por bem copiar tudo. Algumas coisas podem ser adequadas, -outras não.

Separar o joio do trigo! Eis o grande desafio que não está sendo alcançado pela maioria dos treinadores porque estão desprezando as características das escolas. É impossível colocar equipes nordestinas para jogar no nível, no padrão, dos times que disputam a Premier League. Questão de qualidade técnica, de estrutura e saúde financeira dos clubes.

Por mais que tenha sido brilhante como goleiro, Rogério Ceni tem cometido um erro crasso como treinador ao tentar migrar do futsal para o futebol o "goleiro linha". Primeiro que, mesmo no futsal isto é uma alternativa suicida, de times que partem para o desespero. Não é regra. No Fortaleza, o goleiro tem mais posse de bola que qualquer outro jogador de linha. O treinador ainda não observou que habilidade é um dom, não se cria. São raros, na história do futebol mundial, registros de goleiros que fossem tão habilidosos, quanto ele foi, jogando com os pés. Basta lembrar que, mesmo na condição de guarda metas, marcou mais de cem gols durante toda a carreira.

Os clubes nordestinos, quando disputam o Brasileiro da Série A, lutam para fugir do rebaixamento, para descrever uma boa campanha de manutenção. Quando terminam a competição entre os dez primeiros colocados é um grande feito. Tal proeza acontece quando eles conseguem aliar um pouco de técnica à essência do futebol da região que é a raça, a determinação.

Não sei quem apelidou a Copa do Nordeste de "Lampions League". Em princípio achei um deboche, mas depois, superando qualquer vestígio de "complexo de vira lata", acho que se emprega bem ao DNA do nosso futebol.

Guto Ferreira fez o seu grupo se portar como bons "cangaceiros". O Vozão jogou com a faca nos dentes, não teve medo de cara feia, cantou de galo no terreiro baiano e dançou o xaxado emudecendo a terra do axé.

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Campeonato Pernambucano
Santa Cruz na vantagem
postado em 02 de agosto de 2020

CLAUDEMIR GOMES

 

Santa Cruz e Salgueiro descreveram as melhores campanhas na fase classificatória do Pernambucano 2020. Isto é fato. E serve para tornar inquestionável, a presença de ambos como finalistas desta edição da disputa doméstica marcada por imposições da covid-19. Um campeonato atípico, como muitos outros disputados pelo mundo afora.

Uma final melancólica, de poucos atrativos, cuja expectativa do torcedor estava concentrada na possibilidade de um clube do Interior, pela primeira vez na história, vir a se sagrar campeão estadual, fato que se tornou mais difícil após o empate - 1x1 - no primeiro jogo da final, disputado neste domingo, no estádio Cornélio de Barros, em Salgueiro, onde o Carcará não soube tirar vantagem do mando de campo. O outro confronto será quarta-feira, no Arruda, onde o Santa Cruz canta de galo.

Aliás, o mando de campo, por conta de uma série de lambanças protagonizadas pela FPF, foi o assunto dominante desta final água com açúcar. Durante a semana, se revelando um autêntico déspota, o presidente da Federação, Evandro Carvalho, deu declarações dignas dos maiores tiranos. Um pecado capital de todos aqueles que desconhecem direitos e deveres. Subestimou a força popular e política do filiado Santa Cruz, detalhe bem avaliado pelo Governo do Estado que determinou o jogo final para o Estádio José do Rego Maciel - Arruda - evitando que fosse cometido um erro e uma injustiça com o Clube das Multidões. Um episódio que transformou o tirano em bobo da corte.

Logo no início da partida, o goleiro do Santa Cruz, Maycon Cleiton, herói tricolor na semifinal disputada com o Náutico, ao defender dois pênaltis, "engole" um frango imperdoável, levando a torcida coral a pensar que tudo estava conspirando contra o time do Arruda. Ledo engano, pois minutos depois, o zagueiro Danny Morais, decreta a igualdade no placar: 1x1. Resultado que prevaleceu até o final por conta da limitação ofensiva dos dois times.

No futebol não existe verdade absoluta, principalmente em disputas parelhas, mas a história vivenciada pelos dois clubes em 2015, parece se repetir em plena pandemia do coronavírus. Na decisão do título estadual envolvendo os dois times, há cinco anos, o Santa Cruz fez valer a força do mando de campo: empatou a primeira partida no Sertão, e venceu o jogo final que aconteceu no Arruda. A coisa parece tão sazonal, e certeira, como as ventanias de agosto.

Para os que torcem por um fato novo no futebol pernambucano, o jogo deste domingo, que terminou com o placar de 1x1 no estádio Cornélio de Barros, deixou ressaltado que o time do Salgueiro precisa melhorar sua musculatura para disputar uma final em condições de igualdade com uma das forças da Capital: Santa Cruz, Sport ou Náutico. E a lição que o time sertanejo tem que aprender é básica e imprescindível numa decisão: tirar vantagem do mando de campo. Fato que não aconteceu mais uma vez.

Caso o Santa Cruz referende a conquista do seu sétimo título no Século XXI, na próxima quarta-feira, no dia seguinte tem que levar uma faixa de presente para o governador Paulo Câmara. Afinal, foi ele quem assegurou o direito do mando de campo do time do Arruda, uma vantagem substancial para quem se preparou para ser campeão.      

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