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Maio 2012 ›› CLAUDEMIR GOMES
Ler os jornais, e dar uma olhada nas redes sociais, em busca de novidades, são hábitos que preenchem o meu cotidiano. Começar o dia bem informado é de fundamental importância para saber como anda "pressão" na "era da imbecilidade", como sempre diz o mestre, José Joaquim Pinto de Azevedo.
Nesta segunda-feira, me deparei com o desabafo do rubro-negro, Ival Saldanha, no facebook: "O futebol pernambucano anda de uma qualidade tão ruim das pernas, e tão enganador, que com raras exceções, se os comentaristas esportivos fossem substituÃdos por papagaios o ouvinte dificilmente notaria a diferença do discurso, com a vantagem de que, em alguns casos, o papagaio provavelmente se expressaria em um português melhor, mais genuÃno, mais claro e de uma sÃntese mais real e verdadeira no que eles veriam em campo".
"Que vergonha!!!", diria o saudoso narrador Adilson Couto.
Coisas de um cenário pandêmico. Isso mesmo. A coisa está tão feia que o sarcasmo se encaixa como uma luva em qualquer análise.
Recentemente, ao ser convocado pelo narrador para dar uma opinião sobre o jogo, um comentarista inflou o ego e soltou à pérola: "Eu gosto quando o time joga dessa maneira".
Confesso que deu vontade de desligar a televisão, mas eu precisava ver o jogo para formar minha opinião. Fiquei a imaginar o tamanho da soberba daquela figura que, de repente se achava o senhor da bola, o dono da verdade, e os times teriam que jogar do jeito que ele gosta.
Certo dia, algum "professor" deve ter dito, numa coletiva de imprensa, que "o time jogou por uma bola".
Pronto! Foi o suficiente para que a grande maioria dos analistas passassem a utilizar a expressão: "Jogar por uma bola". Nada mais infame. Desde 1990, quando o Brasil foi disputar a Copa da Itália, que passamos a lidar com o vocabulário dos imbecis. Tudo começou com o Lazaronês. Acompanhar as entrevistas do técnico, Sebastião Lazaroni, era um exercÃcio de tolerância gigantesco.
Papagaio não pensa, não raciocina, apenas repete. Ival tem razão no seu desabafo. E aà entra em campo a pobreza técnica de se jogar por uma bola; a pobreza analÃtica que se esvai com as jogadas pelas beiradas.
Tive o privilégio de conviver com alguns mestres do jornalismo esportivo, que devem estrebuchar em seus túmulos, com as análises e expressões usadas pelos analistas do "novo futebol".
Na edição de maior pobreza técnica do Campeonato Brasileiro, as análises são fundamentadas nos números. à o rabo balançando o cachorro.
Os números são fundamentais para os trabalhos internos das comissões técnicas. Eles dão subsÃdios aos fisiologistas, treinadores, preparadores fÃsicos, treinadores de goleiros... Não para alimentar a análise técnica/tática.
Aliás, uma das coisas mais brilhantes que tenho visto nesses últimos anos, é o trabalho estatÃstico desenvolvido por Adethson Leite. Um dos melhores do futebol brasileiro, que deve ser consultado pelas comissões técnicas de Sport, Náutico e Santa Cruz como respaldo para seus respectivos trabalhos.
E os "papagaios" se escudam nos números para preencherem o pequeno espaço que lhes é ofertado para se sentirem donos da verdade.
Como diz "o coveiro" Adherval Barros: "Não é assim que a banda toca".
CLAUDEMIR GOMES
As torcidas do Sport, e do Santa Cruz, comemoram os "gols salvadores", marcados nos últimos minutos dos jogos de seus respectivos clubes, e que evitaram resultados que poderiam ter sido drásticos para as pretensões das duas equipes no Campeonato Brasileiro.
"O jogo só termina quando acaba!".
Esta é uma das máximas do futebol que é usada por treinadores, e pelos jogadores mais experientes, como alerta para o grupo não perder o foco nos minutos finais da partida. Já serviu também como mote para divagações de inúmeros comentaristas.
O ex-presidente da FPF, Carlos Alberto Oliveira, costumava ver a escala de árbitros antes da divulgação para a imprensa. Quando o jogo era de maior importância, ele chamava o juiz escolhido e alertava: "Cuidado com os minutos de acréscimo! O diabo gosta de entrar em campo nos dois minutos finais para estragar todo um trabalho".
Dois minutos de acréscimo era quase regra no futebol quando cada time só tinha o direito de fazer três substituições. Agora, com o aumento para cinco substituições de jogadores de linha, com cada treinador podendo paralisar a partida três vezes, se tornou comum a adição de mais cinco minutos ao tempo normal do jogo (90 minutos).
O projeto que entrou em teste por conta da pandemia do coronavÃrus - mudança de até cinco jogadores - implementou uma nova dinâmica no jogo. Não precisa ser nenhum sábio para deduzir que, a mudança de cinco atletas no segundo tempo da partida representa uma oxigenação absurda no time em campo. Afinal, um jogador que está condicionado para correr 90 minutos, vai ser exigido em metade do tempo, ou seja, 45 minutos ou menos. A consequência natural deste "reforço", é a elevação ou manutenção do nÃvel de competitividade, que normalmente caÃa no segundo tempo dos jogos, e a elevação de gols na etapa final das partidas.
No ano 2000 tal experiência foi feita aqui no futebol pernambucano quando o mestre, José Joaquim Pinto de Azevedo, estava a frente do departamento de competições. A sugestão, inclusive, foi envidada para o então diretor da CBF, o baiano Virgilio ElÃsio, para ser colocada em prática, servindo o futebol brasileiro de laboratório para uma experiência que poderia tornar o esporte mais dinâmico.
"Testamos as cinco mudanças nos campeonatos infantil e juvenil e obtivemos respostas positivas. A melhora na dinâmica do jogo é incontestável", lembra José Joaquim, que não se mostra muito otimista na efetivação do novo número de mudanças como regra.
A busca por uma dinâmica que torne os esportes coletivos mais atrativos é constante. Mudanças de regras, uso de tecnologia, tudo é utilizado e experimentado com o mesmo fim.
Mas o princÃpio é o mesmo desde os tempos das pesadas bolas de couros com grosseiros pitos e traves quadradas: "O jogo só termina quando acaba".
Viva o último minuto!
CLAUDEMIR GOMES
O Guia do Brasileirão 2020, da Revista Placar, editado antes de a bola rolar no Campeonato Brasileiro, previa que este ano teremos uma disputa diferente por conta de algumas imposições da pandemia do coronavÃrus. A matéria principal traz como tÃtulo a indagação: O QUE SERà DO EFEITO CASA?
Os estádios vazios impactam nos resultados dos jogos. O torcedor, que sempre foi considerado o décimo segundo jogador, funcionando como ponto de desequilÃbrio, principalmente para os clubes de massa, "não entra em campo" nesta edição onde a tendência é um grande nivelamento - por baixo -, fato observado nas duas primeiras rodadas, que ainda têm alguns jogos a serem disputados.
à certo que este desafio inusitado está apenas começando. O cenário será alterado muitas vezes, entretanto, quem de sã consciência apostaria no "poderoso" Flamengo carregando a lanterna dos afogados na zona de rebaixamento. Teoricamente, o rubro-negro carioca é o grande favorito ao tÃtulo. Façanha, que a julgar pela qualidade técnica do elenco, seria realizada com relativa facilidade. As duas derrotas iniciais mostram que, em tempo de pandemia o buraco é mais embaixo.
Bernardino Magalhães, torcedor do Sport, anti flamenguista, me manda mensagem via whatsapp apontando a marcação sob pressão como o caminho das pedras para impedir o vôo do Urubu. "Foi assim que o Atlético/GO surpreendeu", assegurou o sertanejo de Serra Talhada.
Bom! à muito cedo para fazer previsões sobre quem vai, e quem fica, após a disputa das 38 rodadas, contudo, observamos que o novo normal está nos trazendo um campeonato anormal. Hoje (quinta-feira), vamos ter as estréias do São Paulo e do Vasco, que podem "quebrar a corrente" do fato novo, pois até o momento, em sete partidas realizadas, não tivemos nenhum registro de vitória dos representantes paulistas e cariocas. Eis uma das surpresas do campeonato da pandemia.
Chega a ser patético, ou comovente, o esforço de alguns analistas para tentar explicar o inexplicável. à que de uns tempos para cá o achismo tomou conta do futebol brasileiro. "Eu acho, eu gosto, vai ser assim...". Uma das primeiras lições que tive como repórter me foi repassada pelo saudoso, Rubem Moreira, então presidente da FPF: "Repórter não acha, repórter reporta!". Verdade.
Mas a turma tem achado muito, mesmo neste buraco escuro no qual fomos arremessados pela pandemia. Nenhum time ainda se achou, estão batendo cabeça tanto quanto os cientistas e doutores estão batendo atrás de uma vacina para a cura do covid-19. Os Atléticos - Mineiro, Paranaense e o de Goiás - surpreenderam nos primeiros passos, fato que pode vir a ser repetido, hoje a noite, pelo Sport, caso contabilize uma vitória sobre o Vasco, no Estádio de São Januário, no Rio.
Pedro Manta, técnico do Afogados, profissional que sempre desenvolve bons trabalhos nos clubes medianos que dirige - nunca teve oportunidade num grande clube - sempre faz menção a forte "pegada" das equipes que dirige no meio campo. Para ele esta é uma receita infalÃvel quando se busca o equilÃbrio das ações diante de adversários reconhecidamente superiores.
Trocando em miúdo podemos arriscar, e dizer que, na edição pandêmica do Brasileiro, o condicionamento fÃsico será um fator determinante de sucesso, uma vez que os "protocolos" subtraÃram vários fatores que, em condições normais de temperatura e pressão faziam a diferença.
Ah! Ouvi dizer que, em tempos de reclusão as zebras engordam.
CLAUDEMIR GOMES
O Campeonato Brasileiro - Séries A, B e C - começou a ser disputado no final de semana, com mais de três meses de atraso do tempo previsto inicialmente, por imposição da pandemia do coronavÃrus. A espera deixou as torcidas ansiosas em relação ao primeiro passo dos clubes num cenário atÃpico, fato que derruba algumas teorias enquanto cria novas dificuldades. O provável se tornou mais improvável, dificultando palpites e previsões. Alguns princÃpios devem ser respeitados, mas a verdade ficou bem menos absoluta neste campeonato das incertezas.
Por se tratar de uma competição de tiro longo - 38 rodadas - as mudanças de cenário serão constantes, mas a matemática do sucesso segue a mesma, imutável: 19 vitórias para os clubes da Série A assegurarem, com folga, uma vaga na Libertadores, e para os times da Série B ascenderem à Série A. Sem torcedores nos estádios, o mando de campo perde um pouco do seu potencial de ponto de desequilÃbrio, mas segue sendo uma vantagem.
Uma derrota é ruim em qualquer circunstância, mas na condição de mandante ela se torna terrÃvel, principalmente para clubes cujo objetivo é descrever uma campanha de manutenção. A vitória do Sport - 3x2 - sobre o Ceará, na Ilha do Retiro, foi muito além da simples soma dos três pontos em jogo. O time cearense se escudou na conquista da Copa do Nordeste, vinha numa reconhecida ascensão e foi a campo credenciado a uma vitória. O rubro-negro pernambucano surpreendeu o adversário e até ao seu mais otimista torcedor. Fez bem o dever de casa, melhor ainda, deixou para trás um concorrente direto na briga pela manutenção na Série A.
A primeira rodada da Série A não foi concluÃda: faltam quatro partidas, fato que leva o Vasco, próximo adversário do Sport, a fazer sua estréia, na quinta-feira, quando os dois times medirão força em São Januário. Tudo o que se falar deste confronto, antes de a bola rolar, é coisa do pressuposto. O mais sensato é aguardar os fatos. O achismo em tempos de pandemia coloca muita gente no impedimento.
A qualidade técnica do grupo do Flamengo lhe credencia a condição de grande favorito ao tÃtulo, entretanto, as boas vindas que lhes fora dado pelo Atlético/MG, em pleno Maracanã (vitória por 1x0 do Galo Mineiro), serviu para mostrar que, nem tudo está escrito nas estrelas.
No futebol, apesar das incertezas, algumas coisas parecem óbvias, como a derrota do Náutico para AvaÃ, na rodada de abertura da Série B. Teoricamente os dois times são candidatos ao acesso, mas quem conhece as dificuldades existentes nos Aflitos entende que as dificuldades do time pernambucano são maiores. A derrota dos comandados de Dal Pozzo em Santa Catarina era esperada. O difÃcil era adivinhar os números do placar. O Náutico carece de bons reforços para evoluir técnica e taticamente. Se não acontecerem tais investimentos a meta do acesso ficará bem difÃcil. Afinal, a passagem para a Série A tem um custo de 19 vitórias e alguns empates.
A tradição dos dois clubes coloca Santa Cruz e Paysandu como candidatos a classificação para a próxima fase da Série C. Tal fato transformou o encontro dos dois num duelo de "gigantes" logo na primeira rodada do Grupo A. Como a partida foi disputada em Belém do Pará, o empate sem gols pode ser avaliado como positivo para o Tricolor do Arruda, que jogou sob os efeitos da frustração da perda do tÃtulo estadual para o Salgueiro, no meio da semana passada.
Os primeiros passos dos representantes pernambucanos nas Séries A, B e C do Brasileiro não contrariou a lógica, mas a caminhada é longa, não permite conclusões precipitadas. Afinal, o futebol não é tão previsÃvel quanto se pensa, principalmente em tempos de pandemia. A prudência faz parte de qualquer protocolo.
CLAUDEMIR GOMES
SALGUEIRO CAMPEÃO!
O silencio da noite da quarta-feira (05/08/2020) foi quebrado pelo espocar de alguns fogos. Pensei: alguém estocou nitrato de amônio em casa. De imediato volto a concentrar minha atenção na televisão, que me mostra um estádio vazio e um grupo de jogadores pulando com uma taça na mão. Um tipo de comemoração comum, corriqueiro, que estamos acostumados a ver em todos os continentes do planeta terra.
O fato saiu do lugar comum por conta dos protagonistas. Aqueles que festejavam a conquista não eram jogadores do Sport, Náutico ou Santa Cruz, como estamos acostumados a ver há mais de cem anos. Aqueles atletas que mudaram o curso da história eram do time do Salgueiro. A façanha não foi testemunhada por torcedores nas arquibancadas do estádio do Arruda por imposição da pandemia que o mundo atravessa. Tal detalhe, tornou o acontecimento ainda mais surreal, diante da monótona tradição que se seguia no futebol pernambucano.
Certa vez, num agradável bate papo com o técnico Geninho, ele me falou que, "a bola bate na trave uma vez, duas vezes, mas na terceira vez ela entra". Sua premonição se consolidou na noite "fria", nas Repúblicas Independentes do Arruda". O Carcará havia sido vice-campeão em 2015 e 2017. Enfim, chegou a sua vez: a bola entrou.
SALGUEIRO CAMPEÃO!
Campeão Pernambucano, campeão na pandemia.
Surreal!
Fecho os olhos e lembro da frase antológica com a qual o saudoso, Ivan Lima, finalizava as jornadas que comandava: "O palco da luta está deserto".
O fato histórico não era respaldado pelo eco dos gritos dos torcedores. Faltou o referendo popular.
Solto a imaginação nas asas do Carcará. Vejo o sertanejo, Raimundo Carrero, um dos maiores escritores brasileiros da atualidade, chegando na sua cidade natal, Salgueiro, liderando uma carreata a bordo de uma carruagem de fogo tocando Bolero de Ravel com o seu saxofone mágico.
O gol foi legitimo!
Grita o tricolor, Mala Muniz, registrando que, durante o jogo houve um erro crasso da arbitragem na anulação de um gol do Santa Cruz. Recordo que, em 2017, no seu estádio, o Cornélio de Barros, o Salgueiro foi garfado na decisão do tÃtulo com o Sport. Um erro que, inclusive, foi referendado pelo VAR, ainda em fase de testes no futebol brasileiro.
A polêmica sobre a arbitragem serve para mostrar que a conquista do Salgueiro é real. Deixou de ser um sonho. Ser campeão estadual não é mais uma meta inatingÃvel para os clubes do Interior.
O feito não chega a ser um fato transformador. Os grandes clubes da Capital - Sport, Náutico e Santa Cruz - seguem sendo os maiorais. O fato histórico serve apenas de grito de alerta, para mostrar que as estruturas do Trio de Ferro foram corroÃdas pela incompetência de várias gestões.
E o Carcará fez mais estragos no futebol pernambucano que o coronavÃrus.