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Maio 2012 ›› CLAUDEMIR GOMES
João Caixero de Vasconcelos me envia, via WhatsApp, fotos do plantio de grama no segundo campo do Centro de Treinamento e Formação de Jogadores Rodolfo Aguiar, do Santa Cruz. Aos poucos, o equipamento que é vital para a vida do Clube das Multidões, vai ganhando corpo, e vida, fato que nos deixa com a quase certeza de que o projeto será concluÃdo com todos os módulos que fora projetado.
Palmas pra Joca!
Comecei a fazer contas e me perdi na matemática. Não sou tão bom no trato com os números quanto o meu amigo, que passou grande parte de sua vida prestando serviço a empresas financeiras. Ficou difÃcil enumerar todos os seus feitos em prol do Santa Cruz em seis décadas de uma participação efetiva na vida do clube do seu coração.
Os anos pesam para todos nós, mas Joca é teimoso e incansável. No dia em que ele deixar de criar, de buscar, alguma coisa para o crescimento do Santa Cruz, seu coração deixa de pulsar. Isto já foi detectado pelos melhores médicos, e pela famÃlia: mulher, filhas e netos.
Gostava quando o mestre, Adonias de Moura, me pautava para fazer uma matéria especial com Caixero. Para mim, mais que o privilégio e o prazer de fazer uma matéria jornalÃstica com um dos dirigentes mais credenciados do futebol pernambucano, aqueles encontros representavam uma oportunidade única de somar conhecimento. E assim nossa amizade foi se estreitando.
Caixero pensa grande, e as vezes pensa pequeno. à como um carro de corrida, programado para altas velocidades, mas que as vezes é obrigado a andar em marcha lenta. Para ele o fundamental é não deixar o Santa Cruz estático. Afinal, uma obra que não é concluÃda é prejuÃzo duplo.
Aberto a idéias e sugestões, se sente à vontade quando voa a bordo de um jato, e não tem nenhum constrangimento em fazer uma caminhada em passos de tartaruga, desde que a mesma seja concluÃda.
E assim ele colocou sua assinatura nos grandes projetos arquitetônicos da história do Santa Cruz. Sempre se posicionou como colaborador. Por não se portar como o rei da cocada preta, facilmente agrega novos amantes tricolores em prol de suas idéias e projetos.
Amigo Joca!
Olho para essas fotos, fecho os olhos e lhe vejo vestido com a camisa nove do Tricolor do Arruda marcando mais um gol de placa.
A seleção dos maiores tricolores de todos os tempos é você e mais dez meu amigo.
CLAUDEMIR GOMES
"O que é que você ai fazer domingo à tarde/Pois eu quero convidar você para sair comigo/Passear por aà numa rua qualquer da cidade/Vou dizer pra você tanta coisa que a ninguém eu digo.
Eu não tenho nada prá fazer domingo à tarde/Pois domingo é um dia tão triste prá quem vive sozinho".
Acima, trechos da música - Domingo à Tarde - grande sucesso do Nelson Ned no final dos anos 60.
Passado meio século, a pergunta se repete, em plena pandemia, sem o romantismo de outrora: O que fazer domingo à tarde?
Por mais que a reclusão social tenha tornado os dias iguais, o domingo sai do lugar comum. à dia de reviver sonhos passados e fazer planos para o futuro. Se bem que, diante de tantas incertezas, a vida não segue planos.
Recorro ao diário do imaginário para rever as opções que tÃnhamos no domingo à tarde, na Carpina dos anos 60. Ãpoca na qual os sucessos do Nelson Ned eram imprescindÃveis nos assustados que começavam após a missa campal do domingo à noite.
Durante minha infância os domingos eram agitados porque a feira de Carpina, por ironia, era realizada no universal "Dia do Descanso". O comércio fechava na segunda-feira. Recordo que minha mãe nos levava - eu e minha irmã - para passear na praça Joaquim Nabuco, onde havia um grande tanque com um jacaré. Depois, Ãamos a uma sorveteria que ficava na esquina, no inÃcio pátio.
Quando a feira foi transferida para o sábado, a preferência dos que gostavam de futebol era ir ver o Santa Cruz jogar. O Tricolor Carpinense se transformou numa "máquina" dentro do seu universo de clube amador do Interior. Um celeiro viçoso, efervescente onde a revelação de bons jogadores era permanente, contÃnua, fato que explica a presença do clube no Olimpo do futebol interiorano por tanto tempo.
Durante as férias escolares, uma das opções de entretenimento nas tardes de domingo, era uma pelada de vôlei na rua dos Tamarindos, ao lado da casa da famÃlia Salgado. Sula, Casado, Anibal, Aldenes, Galego, SÃlvio Resende, Haroldo Salgado, Cláudio Caneca, Jaime Cordeiro, Fernando Monteiro, Itamar, Moura, Mano Lima, Cláudio (Filho de seu Ãlvaro da Padaria)... protagonizaram disputas memoráveis. Na platéia, paqueras promissoras atraiam os jovens.
Os passeios até Ãguas Finas, para tomar banho de piscina, também constavam no cardápio dos entretenimentos para preencher as belas tardes dos domingos. As esticadas até o parque aquático que ficava em Aldeia, sempre rendiam boas estórias. Era como se o local fosse apropriado para aprontar além dos insanos desafios de nadar no açude, após consumir muitas cervejas, ou doses de rum.
O jardim construÃdo pelo DER - BR 408 - entre Carpina e Paudalho, mesmo em território vizinho, se transformou numa das opções de passeio para os carpinenses. O local era por demais agradável, cenário deslumbrante ao por do sol. A criançada se divertia pra valer, enquanto os jovens faziam juras de amor, que nem sempre eram cumpridas.
Quando não se tinha nada para fazer, a opção que restava era ficar sentado nos degraus da entrada principal do Clube Lenhadores, onde sempre rendia uma boa resenha, e muitas risadas.
O espÃrito jovial não deixava a gente viver sozinho uma tarde de domingo.
CLAUDEMIR GOMES
As tribos se agitaram!
Sinais de fumaça no alto do Monte dos Guararapes anunciam que a bola vai rolar a partir do próximo domingo. A paralisação do futebol por mais de cem dias, imposta pela pandemia do covid-19, deixou tricolores, rubro-negros e alvirrubros ansiosos, inquietos, indóceis até. à como se tivesse subtraÃdo parte da alegria de viver de cada um. Afinal, paixão futebolÃstica é amor que não se mede.
E tudo vai entrando no novo normal com vÃcios, manias, erros e acertos como antes do inÃcio da travessia pandêmica. Os jogos serão sem torcida nos estádios e todo o expediente marcado por protocolos. Mas a essência do esporte que embriaga multidões segue a mesma.
Desde sempre o calendário é um dos maiores desafios para os clubes brasileiros. Em condições de vida normal é difÃcil ajustar as datas de tantas competições disputadas em paralelo, imagina numa temporada da qual foram subtraÃdos quatro meses. Coisa de louco.
Nos dez últimos dias de julho, e nos dez primeiros dias de agosto, as porteiras serão abertas no futebol brasileiro. Competições serão reiniciadas, e muitas outras iniciadas, fato que irá impor a alguns clubes verdadeiras maratonas. E logo, logo estaremos ouvindo os analistas e dirigentes reclamando de "overdose" de futebol. Coisas do futebol brasileiro! Diria o saudoso Edvaldo Moraes.
De saÃda teremos um desafio sobre-humano para os grandes do futebol pernambucano: Sport, Náutico e Santa Cruz, que almejam os tÃtulos do Pernambucano e da Copa do Nordeste. Não é fácil conseguir a façanha de ser campeão das duas competições, mas é uma tarefa exequÃvel. O desafio maior deste ano é a onipresença.
A Copa do Nordeste será disputada no perÃodo de 21 de julho a 4 de agosto, com todas as partidas sendo realizadas na Bahia. Paralelamente, no perÃodo de 19 de julho a 5 de agosto, em solo pernambucano, teremos as disputas das rodadas finais do Estadual. Para chegarem a final dos dois torneios, tricolores, rubro-negros e alvirrubros teriam que disputar 10 jogos, cada um, no curto espaço de 17 dias. Como as partidas serão realizadas lá e cá, haverá o desgaste das viagens para dificultar este "teorema de um calendário maluco".
Evidente que, apenas um, ou nenhum, chegará a condição de finalista nas duas disputas. Mas é preciso analisar todas as possibilidades. O desafio é para todos os clubes envolvidos nas rodadas finais da competição regional e que também estejam disputando as finais em seus respectivos Estados.
A verdade é que o aperto no calendário levou tudo, e a todos, a situações de emergência. As dificuldades aumentarão quando a bolar rolar: lesões provocadas pela carência de um melhor condicionamento fÃsico... Quem tiver elencos mais restritos sofrerá mais, evidentemente.
Apesar dos pesares, com todas as dificuldades, as tribos, mesmo sem saÃrem as ruas, estão em festa com a possibilidade da comemoração de tÃtulos. Chutões, erros de passes, furadas, bolas nas cotas, gols frangos... Nada disso vai importar. Sigamos sem sofrimento! Essa é a ordem.
Se Náutico, Sport ou Santa Cruz, um dos três, conseguir operar o milagre da onipresença. Aà será o céu!
CLAUDEMIR GOMES
Começou a contagem regressiva para o reinÃcio das competições de futebol no Brasil, muito embora, no Campeonato Carioca, de forma açodada e atabalhoada, já tenha havido até decisão de taça. Na segunda quinzena de julho, precisamente nos dias 19 e 21, teremos o recomeço do Campeonato Pernambucano e da Copa do Nordeste. Em agosto teremos o inÃcio do Campeonato Brasileiro: Séries A e B. O Brasileiro 2020 - em todas as séries: A, B, C e D - só será concluÃdo no inÃcio de 2021.
Ninguém, nunca, jamais imaginou uma paralisação de quatro meses no futebol. As consequências? Veremos como a bola rolar. De uma coisa temos certeza: o nÃvel técnico dos jogos finais do Estadual, e da competição regional, será baixÃssimo. O que em anos anteriores foi considerado "sofrÃvel" deverá ser classificado como "péssimo". à a resultante da falta de condicionamento fÃsico e técnico. São muitos os efeitos colaterais provocados pelo prolongado hiato, principalmente para os goleiros. Constamos isto no retorno de várias competições européias.
Bom! Como diria Bartolomeu Fernando, excelente narrador da Rádio Clube, um dos melhores do futebol brasileiro: "Chegou à hora de ver quem tem garrafa para vender". à que no curto espaço de 20 dias conheceremos dois campeões: o do Nordeste e o Pernambucano. à disso que o povão gosta, de tÃtulo, de jogos decisivos. O nÃvel técnico não serve de registro para a história.
"Sigamos sem sofrimento!", sugere o rubro-negro, Humberto Araújo, na certeza de que, tecnicamente, os confrontos serão de uma pobreza técnica inimaginável. As disputas serão salvas pela rivalidade, que normalmente provoca a busca da superação. Os jogos sem público nos estádios são atestados de uma temporada destruÃda pelo covid-19.
Mais adiante vamos dizer: nos estádios, ninguém viu, ninguém brincou, mas teve campeão. E o torcedor vai colocar sua faixa de campeão virtual no peito, fazer sua comemoração home Office e liberar o grito de: à CAMPEÃO! Eis o protocolo do novo normal.
Esquisito?
Põe esquisito nisso. Festa de campeão começa no estádio, naquele abraço espontâneo no desconhecido que está ao seu lado compartilhando daquela alegria que aproxima. Depois ganhas às ruas, invade a sede do clube, e em algumas explosões até o banho de piscina enriquece o cenário.
Um final que leva os torcedores a esquecerem os meios. Afinal, os times nordestinos só podem sonhar com tÃtulos regionais e estaduais. Este é o tamanho da região. Conquistas nacionais são pontuais. Nas divisões principais - Séries A e B - diria que, nos dias atuais são sonhos impossÃveis. O mesmo podemos afirmar em relação à Copa do Brasil.
A realidade explica, e justifica a importância dos tÃtulos que estão por vir: Campeão Pernambucano e Campeão do Nordeste.
Apesar dos pesares, a escassez de datas, por ironia, acaba proporcionando uma excelente oportunidade de se alinhar o calendário brasileiro com o europeu.
CLAUDEMIR GOMES
Em tempo de pandemia as lembranças vêm à tona. São inevitáveis viagens ao passado. Atendo o telefone e, do outro lado, um amigo tenta se identificar: "à Zenivaldo Buarque". Apesar do esforço segui sem saber com quem estava falando. Ele percebeu e foi direto: "à Xôxo cara!". Batemos um bom papo e começamos a relembrar os apelidos dos amigos carpinenses.
Eis um tema complexo: apelido. Alguns se sobrepõem aos nomes. Quando nasci, meu tio Ramilton, irmão da minha mãe, tomou todas as que tinha direito para comemorar a chegada do sobrinho e foi fazer a visita. Quando me viu exclamou com a sinceridade que a cachaça permitia: "Que menino feio!". De imediato uma tia/avó retrucou: "Nada disso, ele é um MIMO". Pronto! Eis o meu "batismo". Durante toda minha infância e juventude, ninguém em Carpina me chamava pelo nome - Claudemir. Todos me tratavam por Mimo.
Antônio Coelho sempre foi chamado de Lebre e Antônio Cysneiros era conhecido por toda a cidade como Pirulito. Conheço Xôxo há mais de 50 anos, e somente agora descobri que seu nome é Zenivaldo. Seu irmão não é outro senão, Maleta (Mano Maleta).
Uma das figuras mais populares da cidade se chamava Papata. Vivia perambulando pela praça de carro. Sua medida era uma garrafa de aguardente por dia. Estava sempre armado com uma faca peixeira. Se dizia pistoleiro. Chegou em Carpina com o objetivo de matar um cidadão. Recebeu uma oferta maior e abortou a missão. O Papata era a forma errada de chamar Zapata, lendário bandido mexicano.
Nos anos 60 e 70 ninguém falava em bullying. Isso facilitava para que os apelidos aflorassem. Se o cara usava óculos de grau logo era chamado de "burra cega"; se tivesse cabelo vermelho era "batizado" como formiga de roça. Teve sardas, o apelido de ferrugem lhe cabia bem. Na cidade, 90% dos habitantes tinha nome e apelido.
Com facilidade se escalava o time do Santa Cruz: Cego; Zeca Buchudo, Dindo, Goió e Preá; LuÃs Doidinho, Pelado e Mimi; Cachorra Preta, Barrão e Goiaba. O técnico era Siri.
Alguns apelidos pegavam por conta dos erros de português: cara véia (velha); João da Poica(porca), um sujeito super discreto, que uma vez foi ameaçado pelo afoito Mineco, que arrumava uma briga quase que diariamente. Nesse dia o "valente" Mineco levou uma camada de pau de João da Poica que viu estrela.
Cabrinha, Pimenta, Chato, Júlio Macaco, Zé do Mudo, Rapa Coco, João do Ovo, Mineirinho, Fuzil, Thanks, Costela de Vaca, João Mamão; Bode Rouco; Rui das Cabras, Tapioca, João do Bode, Sibito, Piratinha, Chico da Foice, Chico perna de pau, Pitoco, Carlos Macaco, Pitaco, Coxinha, João Grilo, Chaveirinho, Popopô, Gato de Bota, Gago da Jóia, Zé do Alcool....
Quando adultos, muitos dos apelidos caiam diante do sucesso das pessoas como profissionais liberais e homens públicos. Mas alguns se perpetuaram por conta da reação do dito cujo.
Um dos apelidos que provocava maior alvoroço era o de Dr. Satã. Ele já tinha um apelido que funcionava como nome próprio: Seu Biu. Um homem negro, gentil, bem humorado, que passou grande parte de sua vida como servidor do Clube Lenhadores. Pois bem! Quando lhes chamavam se Dr. Satã, aquele cidadão calmo liberava a fera que existia dentro dele.
Os mais atrevidos ficavam observando ele fazer a limpeza no clube. Quando ele estava no palco, bem distante da porta de entrada, gritavam: Dr. Satã!!! De imediato seu Biu saia correndo na tentativa de pegar quem lhe havia insultado.
Outro que armava o circo era Bobô. Quando passava no seu Ford da década de 50 e alguém gritava: Bobô!!! Ele parava o carro e saia para tomar satisfação.
Carpina da minha juventude não tinha a "Lei do Politicamente Correto". Ninguém falava em homossexual. Quando a gente queria xingar o outro numa pelada, ia direto: fresco, viado, bicha... ou então recorria a um apelido que deixasse o outro zangado. O máximo que acontecia era uma troca de tapas, o popular: ensaio de rabo.
E o "velho" Xôxo me levou a rever os apelidos dos amigos. Tempo bom!