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Futebol de zumbis
postado em 05 de junho de 2020

CLAUDEMIR GOMES

 

A bola voltou a rolar nos estádios da Alemanha e de Portugal. Outros países europeus já estão com agendas definidas para o retorno de seus respectivos campeonatos. Tenho visto alguns jogos, mas no lugar da tradicional alegria que aquieta minha alma, tenho sentido um desassossego com os estádios vazios. A sensação é de que retiraram o coração do futebol.

Sabemos que o grande diferencial do futebol para os outros esportes é que ele é praticado com os pés. Entretanto, a alegria das arquibancadas do soccer difere das que reinam em outras modalidades. Futebol é paixão avassaladora, sem amantes ela jamais explodiria.

Desde pequeno que o clima das arquibancadas me fascina. Não sabia ainda diferenciar um quarto zagueiro de um zagueiro central; um meia esquerda de um meia direita, mas ir ao estádio de futebol assistir a um jogo era a diversão preferida. Tudo por conta do clima das arquibancadas.

Mesmo na condição de cronista esportivo, quando já tinha o domínio das emoções, testemunhar o comportamento das torcidas em grandes e decisivos jogos era por demais prazeroso.

O primeiro clássico que assisti no Maracanã foi entre Flamengo e Vasco. Quando sai do elevador e caminhei para a Tribuna de Imprensa fiquei paralisado diante da disputa das torcidas. Uma verdadeira "guerra" de bandeiras, cânticos das duas tribos... Um espetáculo inesquecível.

Estádio sem torcida nos leva a descoberta do tosco.

Certa vez, num confronto entre Sport e Íbis, numa quarta-feira a noite, pouca gente se dispôs a ir a Ilha do Retiro. Afinal, o jogo não despertava nenhum interesse  por conta da distância técnica que separava os dois times. A vitória do Sport estava na conta, apenas não se sabia qual seria o placar. Pois bem, o placar já apontava a vantagem dos leoninos por uma diferença de quatro gols. Quando o Sport marcou o quinto gol, Urbano Serpa, dirigente do Íbis, começou a gritar próximo ao alambrado:

"Juiz venal, ladrão, está no bolso do Sport..."

Quem apitava o jogo era o seu amigo, Sebastião Rufino, que a época ainda não era aspirante ao quadro da FIFA, mas já era um oficial da Polícia Militar de Pernambuco.

Urbano seguia insistente, e cada vez mais agressivo nos seus insultos. De repente, Rufino aproveitou uma saída de bola, chamou o comandante da guarnição presente ao estádio, e mandou que retirassem aquele torcedor inconveniente, cujas agressões verbais ecoavam em todo o estádio. Escoltado pelos policiais, foi possível ouvir as palavras de despedida de Urbano:

"Rufino! Sou eu, Urbano. Somos amigos, manda me soltar". Na verdade ele não estava indo preso, apenas foi retirado do estádio. Coisa de torcedor solitário e estádio vazio.

Na década de 60 o Náutico recrutou vários jogadores do Santa Cruz de Carpina. Todos meus amigos. Dia de jogo nos Aflitos, chegava cedo ao estádio e ficava entocado na concentração dos juvenis, sob o setor de cadeiras cativas. De repente, começava a ouvir a zoada dos torcedores chegando. O coração do estádio alvirrubro começava a pulsar. Era chegada a hora de ir para as arquibancadas.

O espetáculo que a torcida do Santa Cruz produziu quando do jogo com a Portuguesa de Desportos, em 2005, no Arruda, quando o Tricolor do Arruda assegurou o seu acesso à Série A do Brasileiro, foi inesquecível.

E o que dizer da festa da torcida do Sport na conquista da Copa do Brasil em 2008?  Simplesmente inenarrável. Tinha que ver para crer.

Por mais evidente que seja a necessidade, é uma insensatez separar o jogo da torcida. Entendemos que é uma forma de driblar o coronavírus, mas num estádio sem coração jogadores parecem zumbis.   

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Artigos
Otimismo x Realidade
postado em 04 de junho de 2020

CLAUDEMIR GOMES

 

Nesta travessia pandêmica temos ouvido muito se falar em reflexão, revisão de conceitos e valores. O fato de, o coronavírus tratar a todos no mesmo pé de igualdade, independentemente de classe social, cor e credos, nos leva a quase certeza de que, quando tudo passar, nada será como antes.

O assassinato do afro-americano, George Floyd, por um policial branco, que passou sete minutos ajoelhado no seu pescoço, numa rodovia, em Minneapolis, nos Estados Unidos, fez cair o pano da hipocrisia, nos mostrando que a distância que separa o discurso da prática é abissal. O país da Ku Klus Klan continua o mesmo do Século XIX quando o assunto é preconceito racial.

O hexacampeão, Lewis Hamilton, único negro no circo da maior e mais charmosa categoria do automobilismo mundial, cobrou nota de protesto com o fato ocorrido na América do Norte e que ecoou no mundo inteiro. Embora consciente de que todos os outros pilotos, e membros de equipes, sejam brancos, Hamilton queria ver da parte deles algum sinal de indignação.

Enfim, o homem ainda não assimilou a básica lição da igualdade repassada pelo convid-19.

O mestre, Arthur Carvalho, prognosticou no seu último artigo publicado no Jornal do Commercio: "Dias melhores virão".

Será?

Confesso que sou um otimista raiz. Deus sempre foi tão generoso pra comigo que acredito num amanhã melhor que o hoje. Mas não está sendo fácil, com tanto tempo sobrando para pensar, apostar em melhoras quando os homens seguem se comportando como bestas.

Há muito o mestre, José Joaquim Pinto de Azevedo, me alerta para o fato de que, "estamos vivendo a era da imbecilidade". Nada tão verdadeiro.

Ontem, um rapaz veio cortar o cabelo de várias pessoas aqui no prédio. Entrei no mutirão. Atendimento individual numa área privada, quando um acabava interfonava para o outro, e assim o projeto funcionou a contento. Enquanto dava um trato na minha cabeleira ele observou:

"O mundo tá muito desigual. Dia desse vi um tênis sendo vendido por R$ 4 mil no shopping. Absurdo! Tem muita gente passando fome na cidade".

Senti que ele ficou no aguardo de um comentário. De pronto lhe falei: "Investir 4 mil reais num tênis para pisar em merda é muita coisa".

Ele liberou uma boa risada e a prosa mudou de rumo.

Observo as queixas que surgem de todas as partes em relação ao recomeço. A flexibilização dos confinamentos começou. Cada um procura puxar a brasa para a sua sardinha. O homem segue olhando para o umbigo. O horizonte é utópico.

Gosto de ler as crônicas escritas por Fátima Quintas. Ela nos fala muito de intimismo. Uma forma inteligente de fugir dos excessos da realidade.

Dias melhores virão!

Acredito que sim, mas só quando todos tiverem consciência de que o pescoço, seja lá de quem for, não é genuflexório.  

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