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Maio 2012 ›› CLAUDEMIR GOMES
O coronavÃrus já infectou mais de 10 milhões de pessoas por este mundo afora. Assustador. Dizem que, com ele até o mais valente dos homens chora. Com ódio, mas sem preconceito e distinção de classe, já matou muita gente. E segue implacável, construindo sua mórbida "Torre de Babel". Ninguém se entende, e não encontra um antÃdoto contra esse mal invisÃvel. As incertezas nos mostram que a conta está longe de ser fechada.
Trancafiados em nossas gaiolas damos asas a imaginação. O intimismo nos leva a mudanças de comportamento. Ligo para um amigo de infância - Minervino Rodrigues (Mineco) - e revelo que me surpreendi falando só, cá com os meus botões. Ele sorrio e disparou:
"Besteira! Eu já estou fazendo discurso e dando conferência para o cachorro".
E assim as pessoas vão levando a vida. Para driblas as angústias provocadas pelo covid-19 é salutar recorrer ao imaginário, rever sonhos e criar fantasias.
Acordei com a idéia fixa de almoçar com os amigos - Huberto Araújo, José Neves Cabral e Lenivaldo Aragão - no Pra Vocês, tradicional restaurante do Pina onde é servida a melhor peixada do Recife. Não houve nenhum acerto prévio, mas essa patota não nega fogo. Chegando lá, de cara, vamos encontrar seu Severino Reis, que assumiu a direção do restaurante a partir dos anos 70, no século passado, época em que o jornalista, Augusto Boudeux, teve a idéia de criar uma cidade imaginária.
A "cidade", ao longo dos anos, se transformou num cobiçado paraÃso. Como bom gestor, seu Severino nunca enfrentou adversários em eleições na Cidade Imaginária que só fazia crescer, se transformando num destino turÃstico quase que obrigatório para quem visitasse o Recife. Os "habitantes nativos", que vivenciavam o dia a dia, como Wallace (melhor goleiro da história do futsal pernambucano), que bebia três cervejas quentes diariamente, eram respeitados como lendas vivas.
A Cidade Imaginária tinha becos, ruas, praças, avenidas, elevados, canais, fórum, hospitais, maternidade, circo, teatro, estádio, escolinha de futebol, orquestra, jornal, redação, vielas, loja maçônica, shopping center, lojas, bancos, hotel, universidade do futebol, cervejaria, pontes... Como diria o Rei do Baião, Luiz Gonzaga, primeiro artista a visitar a cidade, com direito a foto ao lado de seu Severino: "De tudo o que há no mundo, tem na Cidade Imaginária do Pra Vocês". Até feira móvel do Paraguai (vendedores ambulantes de réplicas de relógios, rádios, canivetes e outros produtos).
O monumento na entrada da cidade era um mural produzido pelo cartunista, Humberto Araújo, que não dispensava uma boa "resenha" com os parceiros. Para ele aquele lugar era sagrado porque foi lá que ele "roubou" o primeiro beijo de sua amada e inesquecÃvel, Andréa.
Como diz a música: "Se essa rua, se essa rua fosse minha/ Eu mandava, eu mandava ladrilhar/ Com pedrinhas, com pedrinhas de brilhantes...".
Na Cidade Imaginária todas as ruas, becos e avenidas eram calçadas de brilhantes, para acalentar sonhos e desejos. Afinal, naquele paraÃso apenas as coisas boas tinham vez. "Aqui só alegria", dizia Samuel, um dos filhos do seu Severinho Reis para justificar porque não havia placas indicativas de casa funerária nem de cemitério.
Certa vez, após entornar várias doses de whisky, o jornalista, Ney Bianchi, da revista Manchete, me alertou que estava faltando um "puteiro" na Cidade Imaginária. No que eu lhe respondi:
- Não carece. No imaginário a gente fica com quem quiser, e ninguém precisa saber. A resposta lhe arrancou uma boa risada.
Atendo o telefone e, do outro lado, com voz embargada, Samuel me revela que, por conta do coronavÃrus o Restaurante Pra Vocês estava fechando as portas.
O covid-19 dragou toda uma cidade de sonhos e histórias mil.
CLAUDEMIR GOMES
A bola já rola em muitos estádios da Europa. Estádios vazios, sem público, apenas com almas penadas correndo atrás da bola. Por aqui, no nosso Brasil brasileiro, a Confederação Brasileira de Futebol anuncia, para o inÃcio do mês de agosto, a primeira rodada do Brasileiro, Séries A e B.
Ontem (26/06/2020), a Federação Pernambucana de Futebol divulgou um protocolo, para ser seguido pelos clubes, visando à retomada do Campeonato Estadual procurando preencher as datas do mês de julho, o que lhe daria uma boa margem para fugir de possÃveis conflitos de datas com o calendário nacional. Tal decisão vai de encontro ao bom senso, e entra em conflito com o , atual cenário do Estado onde o covid-19 se expande pelo Interior, sendo necessária a decretação de lockdown em várias cidades da Mata Sul, Agreste e Sertão.
à certo que no PaÃs do Futebol todos estão ávidos para ver a bola rolar. Contudo, a sensatez nos manda obedecer as imposições da pandemia. Afinal, para se conviver com este inimigo comum, oculto e letal, do qual só se tem registro dos efeitos, visto que, as causas seguem sendo objetos de estudos nos quatro cantos do mundo, sem que ninguém tenha chegado a uma resposta efetiva de cura, requer um mÃnimo de prudência.
Ontem a noite ouvi de um comunicar a aberração: "Estamos voltando a vida normal!".
Me atentei apenas ao futebol brasileiro, e diante de tantos equÃvocos e tomadas de posições destrambelhadas, perguntei aos meus botões:
E o que é vida normal?
Nos acostumamos com um calendário insano, onde dias e meses precisariam ser multiplicados para atender a demanda de tantas competições. Sindicatos e Associações que deveriam defender profissionais são meras entidades figurativas que facilmente são atropeladas.
Ora! Se em condições normais já não existe espaço para tantas competições, imaginem numa temporada da qual a pandemia subtraiu quatro meses.
A vida normal seria conviver com a desigualdade? Pelo rumo da carruagem, as diferenças se agigantaram no futebol brasileiro. Todas as medidas tomadas lustram apenas um lado da moeda. Os pequenos estão cada vez mais achatados, sem nenhum tipo de associação que lhes defendam.
A temporada 2020, no futuro pode vir a ser lembrada como o ano que exterminou os clubes pequenos no futebol brasileiro. Pequeno no nosso PaÃs passou a ser sinônimo de periférico. E dentro da "normalidade" a periferia nunca tem vez, nem mesmo diante das imposições de uma pandemia.
Os exemplos europeus não servem como referência para a realidade da nossa aldeia.
Aqui os "pequenos" seguirão comendo o pão que os cartolas amassaram. Esquecem eles que, quando os pequenos forem dizimados não haverá parâmetros para se definir os grandes.
Cenários de incerteza! Eis nossa vida normal.
CLAUDEMIR GOMES
O São João da pandemia passa de passagem. Sua cadência não condiz com as raÃzes desta festa icônica da cultura popular nordestina. Apesar dos esforços com a apresentação de centenas de mesas bem decoradas e repletas de comidas tÃpicas, nas redes sociais, e das lives dos cantores famosos apresentando clássicos do forró e do baião, nos faltou à temperatura das ruas.
O covid-19 subtraiu a zoada e a alegria de um dos maiores festejos da região. Sem fogos, sem fogueira, sem chamego, sem palhoças, sem o vai e vem de pessoas nas ruas e sem o gostoso forró pé de serra. Não! Não tá danado de bom, como diria o mestre, LuÃs Lua Gonzaga. São João não pode ser tratado como um dia comum.
Aprendi isso desde cedo com um cidadão chamado Antônio Cysneiros, que era tratado por todos os habitantes de Carpina - cidade planalto da Mata Norte de Pernambuco - por PIRULITO. O apelido lhe caÃa como uma luva por conta do seu corpo esguio com quase dois metros de altura.
Seu Pirulito era nosso vizinho. Mais que isso. Foi eleito por mim, e por minha irmã - Ana Carolina - como nosso avô por parte de mãe. Ele era como um pai para nossa mãe, a quem tratava com o mesmo carinho e atenção como tratava de suas três filhas. O mesmo podemos dizer de sua mulher - Dona Coleta - cuja estatura não chegava a 1m60cm. O casal teve dez filhos e um punhado de netos. Como se não bastasse, nós nos escalamos neste time. E todos nos tinham como membros da famÃlia. A ligação era tão grande que foi aberto um portão, no muro que dividia o quintal das duas casas, para facilitar a comunicação. Todos os dias, à s 5h30 da manhã, seu Pirulito chegava, com uma xÃcara na mão, para tomar o café que minha mãe acabara de passar. Quando ele atrasava um pouco, ela logo lhe chamava.
O velho Pirulito era um homem simples, sábio e encantador. Festeiro, aguardava o ano inteiro pelo São João e pelo carnaval, festas nas quais se portava como um "rei". Era notória a felicidade no seu semblante. Em dias normais, gostava de ficar diante do rádio, ouvindo música e tocando seu pandeiro.
O último cômodo de sua casa era um quarto, misto de dispensa e "laboratório", pois era onde ele fazia o famoso "Vinho de Jenipapo", que transformou seu domicÃlio em parada obrigatória de troças e maracatus durante o carnaval; fabricava perfume; fazia manteiga caseira; pisava café... consertava utensÃlios doméstico. Enfim, era um verdadeiro professor Pardal.
Dentre todas as suas "invenções", tinha uma que era um estrondo: A RONQUEIRA.
Aquele cilindro de ferro tinha um significado diferente de todos os outros fogos de artifÃcio. Para o velho Pirulito, aquele equipamento era sagrado, fazia parte da liturgia do São João. Ele preparava com o maior carinho, e se cercava de muitos cuidados na hora de soltar: não queria ninguém por perto, avisava a toda a vizinhança para que ninguém se assustasse com o estrondo.
Isso mesmo, o estrondo. A ronqueira não produzia o espocar dos outros fogos. Seu estampido era ensurdecedor.
Seu Pirulito criou todo um ritual para solta-la. Nós acompanhávamos na maior expectativa. Pontualmente às 18h ele acionava o cilindro. Era como disparar um canhão. O estrondo ecoava por boa parte da Avenida Chateaubriand. Pronto! Estava aberto o São João.
E logo todos da vizinhança iam acender as fogueiras. A meninada começava a soltar fogos e as casas eram invadidas pelas músicas de LuÃs Gonzaga, Marines e sua Gente e Noca do Acordeom. As mesas estavam sempre fartas de comidas de milho. Terraços enfeitados com bandeiras e lanternas acesas.
Ontem, as 18h o silêncio era sepulcral. Nem parecia noite de São João. Lá no céu, por determinação de São Pedro, o velho Pirulito não acionou sua ruidosa e saudosa ronqueira. Resultado: o São João passou sem nem começar.
CLAUDEMIR GOMES
Francisco Medeiros, um dos desses amigos que consideramos uma gentileza de Deus, me enviou uma mensagem dizendo que gostava muito do que escrevo, mas há vários dias eu não havia feito nenhum post. E indagou: "Está havendo alguma coisa?".
Chico foi carinhoso, sutil e ao mesmo tempo enérgico, no seu recado para eu não me assustar com o cenário atual, que nos revela um Brasil surreal. Coisa de amigo que se preocupa com o bem estar do outro.
O mestre dos traços, Humberto Araújo, sempre que nos chama a atenção para um fato que merece uma reflexão, encerra a conversa com a frase: "Apesar de tudo isso, sigo sem sofrimento".
Verdade! Não podemos abrir mão do bom humor, que é uma marca registrada nossa. Tampouco desistir daquilo que gostamos. A travessia pandêmica tem nos revelado uma pobreza assustadora da sociedade. Pobreza de sentimento, de conhecimento, de comportamento. Alguns episódios são tão grotescos e aterrorizantes que provocam reações coletivas. Outros, apesar da gravidade, passam despercebidos, ou são tratados com naturalidade por conta da inversão de valores.
A pandemia do coronavÃrus tem nos mostrado que existem muitos outros inimigos invisÃveis para os quais também se faz necessário a "imunização do rebanho". Para que isto aconteça é preciso um investimento grandioso na educação, que nos parece nunca ter sido prioridade no nosso Brasil brasileiro.
Aos trancos e barrancos chegamos à era das lives, instrumento bastante usual nesta pandemia que assusta o planeta. Como diria o mestre, José Joaquim Pinto de Azevedo, "as lives vieram para escancarar a era da imbecilidade".
Meu Deus! O Youtube, o Instagram e outras plataformas tiveram seus canais invadidos por um exército de "sem noção" que se acham verdadeiros doutores sabe tudo. O nÃvel rasteiro de alguns entrevistadores e entrevistados é assustador. Eis o éthos ditado pelas redes sociais, essa terra de ninguém onde a mediocridade tem vez.
Em tempos de distanciamento social, sempre que sinto as paredes do apartamento apertando meu juÃzo, dou uma fugida até a padaria. Ãurea, minha mulher, sempre protesta, mas ela sabe o quanto aquela fuga me é necessária.
Domingo, logo cedo, dei uma saÃda estratégica. Quando cheguei à padaria um amigo me perguntou o que eu achava do preconceito racial que está sendo combatido no mundo inteiro.
- Esta pandemia já dura séculos e nunca foi extirpada do seio da sociedade. Ele arregalou os olhos e calou. Para certos males nunca haverá cura. Mas também não podemos deixar de externar nossa indignação.
Você está certÃssimo amigo Chico Medeiros: o silêncio nem sempre fala alto.
CLAUDEMIR GOMES
Domingo, ao dar uma olhada nas redes sociais, a primeira coisa que vi foi uma postagem do amigo, Pedro LuÃs, anunciando a morte do jornalista, Gilberto Prado (Betoca). Durante todo o dia muito se escreveu ressaltando suas qualidades profissionais; como desportista e, principalmente, como o bom amigo que ele foi. Um sujeito desprendido de qualquer coisa, que vivia o aqui e agora de forma intensa, sem nenhuma preocupação com o amanhã.
Na segunda-feira pela manhã, Beto Lago me envia uma mensagem procurando saber sobre a famÃlia de Betoca. Alguém na Câmara de Vereadores do Recife queria prestar uma homenagem. O jornalista, Carlyle Paes Barreto, na sua coluna de hoje, no Jornal do Commercio, cobra do Clube Náutico Capibaribe uma homenagem ao ex-atleta e ex-treinador.
De imediato me veio a lembrança um dos sucessos de Nelson Gonçalves - Quando eu me chamar saudade - que tem uma frase que se encaixa como uma luva neste cenário: "Se alguém quiser fazer por mim, que faça agora".
Os últimos anos de vida de Betoca não foram fáceis. Diria que de extrema dificuldade. Uma luta permanente, diária, contra uma série de doenças e com uma limitação financeira assustadora, nada condizente com o grande profissional que foi ocupando cargos relevantes no jornalismo pernambucano e em outros Estados.
Apesar de tudo, ele ainda sorria para vida. Afirmava que sua felicidade era os amigos que conquistou. Amigos que bancaram, sem fazer alarde, o pagamento do lar geriátrico onde morava, e outras despesas. Amigos que lhes visitavam e conseguiam, através de uma boa prosa, arrancar um sorriso daquela inesgotável fonte de alegria.
Gilberto Prado é apenas um dos tantos exemplos de profissionais qualificados, que são preteridos e não conseguem mais voltar ao mercado de trabalho. E chegam ao ocaso enfrentando inúmeras dificuldades.
Quando Iranildo Silva assumiu a presidência da Associação dos Cronistas Desportivos de Pernambuco - ACDP - pouco tempo depois fomos surpreendidos com a morte do conhecido repórter, Haroldo Rômulo. Durante o velório comentei com ele:
- Presidente! Esta busca de recursos, atrás de dirigentes de clubes, para fazer o enterro de um profissional, me dói tanto quanto a perda do amigo.
Ele ficou calado e, dias depois me ligou para informar que a ACDP havia adquirido dois jazigos com quatro vagas. Em outras oportunidades, quando da morte de outros amigos, ele me informou que a Associação havia tomado todas as providências para que o sepultamento fosse feito de forma digna.
Na década de 70, no século passado, quando entrei no jornalismo esportivo, os sócios da ACDP tinham um plano de saúde - ClÃnica Boa Viagem - pago pela Associação, com direito a dependentes. A AIP tinha um consultório clÃnico e odontológico a disposição dos seus associados.
O cenário atual é desolador.
O número de profissionais capacitados fora do mercado é impressionante. Jornalistas e radialistas renomados desempregados, sem condições de pagar um plano de saúde, recorrendo a favores num ciclo de amizades que diminui vertiginosamente quando se sai do mercado.
As homenagens aos mortos são louváveis. Mas do que vale tudo isso, se eles não estão mais aqui entre nós?
Solidariedade não é se sensibilizar com a morte, mas ajudar a quem está necessitado em vida.