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Maio 2012 ›› CLAUDEMIR GOMES
Tornou-se comum dizer que, o mundo não será como antes após a pandemia do coronavÃrus. Verdade. A reclusão tem levado a humanidade a uma revisão de conceitos e valores. Isto fatalmente implicará numa mudança de comportamento a ser observada nos próximos anos. Alguns fatos são por demais impactantes na história universal.
O fatÃdico 11 de setembro de 2001 é um desses marcos inesquecÃveis. O maior ato de terrorismo da história da humanidade, promovido pelo Al-Qaeda, na cidade de Nova Iorque, nos Estados Unidos, tirou a vida de 2.996 pessoas, deixando o mundo em permanente tensão, com a certeza de que todos os sistemas de segurança são frágeis e vulneráveis.
A partir de então, o 11 de setembro nunca foi mais como antes. O ato terrorista impactou em lugares jamais imaginados por Osama Bin Laden e seus pares.
No dia 11 de setembro de 1928, do Século XX, foi assinada, durante o Estado Novo de Getúlio Vargas, a emancipação polÃtica da cidade Floresta dos Leões, que até então pertencia aos municÃpios de Paudalho e Nazaré da Mata. Mais tarde, em 1938, por sugestão do jornalista, Mário Mello, a cidade passou a ser chamada de Carpina.
A mudança de nome dividiu opiniões, mas o 11 de setembro sempre foi respeitado, e comemorado, como a data magna do municÃpio. No governo do prefeito, José Lobo, se deu inÃcio a um desfile cÃvico com a participação dos educandários locais. Uma festa alicerçada nos três maiores pilares da educação da cidade: Colégio Salesiano, Colégio Santa Cruz e Colégio Pio X.
Com o passar dos anos a festa do dia 11 de setembro em Carpina, foi ganhando corpo e fama, chegando a ser tão cobiçada quanto a tradicional Festa de Reis, que era comemorada no dia 6 de janeiro. Todos os gestores primavam por transformar o espetáculo cÃvico mais grandioso da Mata Norte, fato que passou a atrair a atenção das autoridades estaduais. Colégios de outras cidades, e outros Estados, disputavam convites para a festa carpinense, que viveu seu apogeu anos 60 e 70.
Se testemunhar a história é uma privilégio, imagine ser um dos protagonistas de seus capÃtulos. Era este o sentimento dos jovens colegiais, que vestindo as fardas de seus respectivos colégios, participaram de espetaculares disputas cujas emoções ficaram cravadas no peito e na alma.
Participei de cinco edições do desfile do Salesiano, a época um colégio masculino. O Santa Cruz era um educandário feminino e o Pio X, dentre os três grandes da cidade era o único misto.
A medida que os desfiles ganhavam corpo, uma rivalidade ia sendo alimentada entre os alunos do Salesiano, Santa Cruz e Pio X. Cada tribo, a sua maneira, e dentro de sua autonomia de vôo, procurava fazer o melhor desfile. E as bandas marciais passaram a ser um ponto de desequilÃbrio, tal qual acontece com os desfiles das Escolas de Samba, do Rio de Janeiro, onde as baterias funcionam como um diferencial de detalhes.
Com maiores recursos financeiros, e respaldado pela banda do Salesiano do Recife, o Colégio Salesiano Padre Rinalde sempre se destacou como a grande célula do desfile. Entre os alunos, a expectativa para ver quem seria convidado para desfilar com o Pavilhão Nacional ou participar da comissão de frente que era formado por nove alunos cada um levando a letra do nome do colégio no peito. Havia um pelotão com as bandeiras de todos os Estados da União. Mas o que mais instigava era ser um integrante da banda marcial.
O Salesiano era comandado pelo Major Couceiro, que energizava a todos com sua voz de comando: "Salesiano! Ao meu comando". Depois foi substituÃdo por LuÃs Calábria (Lú Calábria). O Pio X desfilava sob a batuta do Capitão Andrade.
Por ser um colégio feminino, o Santa Cruz era visto por uma outra ótica. Evidente que sua banda, embora muito boa, não podia concorrer com as do Salesiano e do Pio X. E as meninas faziam um desfile que era puro charme. Cheio de graça com trajes tÃpicos, alegoria e um aroma de Contourê embriagador.
O Pio X é o de menos recursos financeiros. O seus desfile empolgava pela raça e determinação daquele "exército" cujo lema era a superação. Sua banda marcial tinha um presidente: LuÃs de França, que no futuro se tornaria o maior poeta da cidade. Parte dos instrumentos era feita na oficina do seu Manoel Vitorino e os couros de bode curtidos com maior cuidado. Apesar da turma do contra, LuÃs de França conseguiu formar uma banda marcial mista. O fato de três filhos do dono do colégio - SÃlvio, Marcos e Ricardo - tocarem na banda, parecia que energizava o grupo. No comando, a batuta do mestre, José Soares.
O embate - Salesiano x Pio X - começava na fase de ensaios.
Quando estava cursando o quarto ano ginasial, os padres tomaram gosto e atenderam os apelos dos alunos para formar uma super banda. Nilson era o maestro. E o mestre saiu buscando as melhores peças para formar naquele tabuleiro. De novidade: os cornetões, que foram entregues, um a mim, e o outro a Bosco Maguary. Ivo Regis e Alexandre (que estudava interno), foram escolhidos para tocar os tubinhos.
A formação da banda completa se tornou gigantesca. Era difÃcil até para fazer um ensaio geral. Todos estavam conscientes da condição de protagonista, e a certeza de que o sucesso do grupo dependia do esforço individual de cada um. As tarefas eram cumpridas a risca. Toinho Bocão evoluiu tanto durante os ensaios que se tornou um corneteiro referência na região. Jomeri Felix de Santana era um virtuoso no taró. Ele tinha consciência do seu potencial e buscava sempre sair do lugar comum com arranjos diferenciados.
Neste ano (1967) a disputa entre as bandas do Salesiano e do Pio X, alcançou um nÃvel de tensão durante os ensaios que foi necessário a interferência dos educadores.
Numas das saÃdas das duas bandas pelas ruas da cidade, defronte a estação ferroviária, houve o cruzamento dos dois grupos. Os homens se respeitaram, mas as meninas ainda deram porrada com suas baquetas. O clima tenso se dispersou logo porque as tribos seguiram caminhos opostos. A notÃcia chegou quase que de imediato ao Salesiano. Padre Benevides veio de encontro ao nosso grupo e mandou silenciar todos os instrumentos. E nos chamou de "Vândalos". Hoje, quando recorda do fato, Jomeri diz que recorreu ao dicionário para traduzir do que o padre havia nos classificado.
E chegou o dia do grande desfile.
Era minha quinta participação na festa defendendo o Salesiano, Mas como integrante da banda era a primeira vez. Uma despedida de gala, uma vez que no ano vindouro estaria me transferindo para o Selesiano do Recife.
SaÃmos do colégio e nos concentramos na Rua das Tamarinas. Lá chegavam as notÃcias das apresentações dos outros colégios. SabÃamos que bandas espetaculares de educandários e outras cidades pernambucanas e paraibanas haviam dado seus shows. Nossa responsabilidade aumentava. QuerÃamos ser os melhores para corresponder a toda expectativa criada na cidade, e a confiança dos padres que investiram acatando nossos pleitos.
Iniciamos nosso desfile, e quando chegamos a Praça São José, passando defronte ao prédio da Prefeitura Municipal a adrenalina começou a subir. O Salesiano era o último colégio a se apresentar. Quando alcançamos o cruzamento da linha férrea, elevado que nos dava uma visão panorâmica de todo o pátio repleto de gente, fomos tomados por uma sensação de combate. A turma da frente, com os bombos de fuzileiros no peito, cruzavam as baquetas, e mantinham um dos braços firmes numa espécie de abre alas gestual. O mestre Nilson e Toinho Bocão apresentavam o melhor do nosso repertório. O taró de Jomeri, com rufados mágicos, parecia executar a mais divina das sinfonias. E sob a batuta desses três a super banda se apresentou impecável.
Nosso foco era tamanho que mal dava para perceber o palanque. Na volta para o colégio, o publico seguia o Salesiano. Aquela aprovação popular era a certeza do dever cumprido.
Na chegada ao colégio, risos e abraços serviam de afagos para braços e mãos machucados; lábios feridos, sangrando. Nada daquelas avarias importava. Afinal, todos nós darÃamos tudo para vivenciar novamente as emoções com a super banda.
O 11 de setembro de 1967 foi um dos dias mais felizes de minha vida. .
CLAUDEMIR GOMES
O mestre, Arthur Carvalho, um dos membros da Academia Pernambucana de Letras, no seu artigo - A sirene da ambulância - publicado na edição desta quarta-feira, do Jornal do Commercio, nos lembra o romantismo e a importância do apito do trem.
A malha ferroviária conta a história do nosso PaÃs. De forma equivocada, ao longo dos anos, foi preterida em prol do transporte rodoviário. Quem vivenciou um pouco daquele romantismo jamais esquece o quanto marcante era aquele apito de chegada, e de partida, tão bem traduzido pelo compositor/cantor, LuÃs Vieira, na música: Maria Filó.
"Coisa esquisita é trem/ quando sai de uma cidade/ pra uns ele leva alegria/ pra outros ele deixa saudade..."
E era assim que aquele Gigante de Ferro cortava a bucólica Carpina. O apito da Maria Fumaça, por muitos anos, anunciava a chegada do principal meio de transporte, através do qual as riquezas do campo escoavam: algodão, cana-de-açúcar, o sal vindo de Mossoró, o açúcar...
Carpina era um ponto estratégico na geografia da região. Ponto de bifurcação: havia uma estrada de ferro que seguia para Limoeiro e adjacências e outra que levava até o Sertão da ParaÃba. Portanto, naquela estratégica estação as paradas eram mais demoradas para abastecer a Maria Fumaça (locomotivas), que funcionavam a vapor. Existia uma enorme caixa d'água e uma reserva de lenha considerável a espera das negras locomotivas que depois foram substituÃdas por modernas e imponentes máquinas vermelhas movidas a óleo diesel.
O trem sempre despertava nossa curiosidade. Os comboios de carga nos chamavam a atenção: tinha composição com mais de 20 vagões puxados por duas locomotivas. Mas o que fazia mesmo a festa da meninada eram as cambiteiras. O trem passava defronte da minha casa, na rua Frei Caneca. Quando parava, carregado de cana, subia nos vagões e ficava procurando as melhores canas. A época não se queimava o canavial para cortar a cana, fato que deixava o fruto suculento. Cana caiana, papo roxo ou 3Xs - essas eram as preferidas.
Quando completei 12 anos, recebi do meu pai um radinho de pilha Crown, para acompanhar as transmissões dos jogos. Todas as noites eu dormia com o rádio sintonizado na Rádio Difusora de Limoeiro, ouvindo o programa "Trenzinho do Bastião", cuja música de fundo era Maria Filó, do grande LuÃs Vieira. Ouvia aquela música e dava asas a imaginação.
Aos sábados tinha o trem Recife-Souza. Um trem de passageiro que passava em Carpina às 12h. Sua chegada, e sua partida, era a tradução fiel da letra de Maria Filó. Certa vez - eu e minha mães - fizemos a viagem Carpina-João Pessoa. Quando chegamos à Capital Paraibana já havia passado das 18h. Durante aquela cansativa viagem descobri o verdadeiro significado da chegada e da partida de um trem numa cidade. O valor daquele apito que era a alegria da chegada e a tristeza da partida.
Quando a estrada ferroviária de Limoeiro foi desativada a sensação foi de uma mutilação na geografia da cidade. O mesmo sentimento de quando aterraram o girador, equipamento que servia para mudar a direção das locomotivas. O girador de Carpina foi construÃdo dentro de um fosso, quando chovia forte se transformava numa "piscina", que era explorada pelos meninos mais afoitos das ruas próximas do equipamento.
Quando conversávamos com os funcionários da RFFSA eles sempre nos alertavam para o fato de que, os acidentes ferroviários eram provocados pela imprudência dos outros, e nunca dos condutores dos Gigantes de Aço.
Dois acontecimentos enlutaram Carpina: A colisão entre o trem de passageiro que ira para Souza/PB com um caminhão carregado de feirantes, resultando na morte de mais de dez pessoas e dezenas de feridos, no inÃcio de uma tarde de sábado. A cidade viveu um final de semana fúnebre.
A outra foi a morte de Dr. Aranha de Moura, o médico mais renomado e querido da cidade. Se existe tragédia idiota, aquele foi uma delas. Ele foi atravessar a linha férrea defronte sua casa quando o carro estancou. Ele desceu para empurrar quando a locomotiva bateu e carro e saiu arrastando. Quem presenciou o acidente afirma que, se tivesse continuado sentado dentro do carro, Dr. Aranha teria saÃdo ileso. O episódio abalou Carpina.
Hoje ninguém mais lembra daquele apito do trem, que enchia nossos corações de alegria e deixava nossa bocas adoçadas com a cana caiana.
O último apito foi de despedida. Ficou a saudade.
CLAUDEMIR GOMES
Não tem sido fácil preencher o tempo nesta travessia pandêmica. Por maior que seja o esforço para ocupar a mente, sempre sobra espaço. Como o futebol sempre foi para mim o maior dos entretenimentos, tenho seguido o norte da bola, que se movimenta pelos quatro cantos do mundo.
Dentre as muitas releituras, me delicio com um texto enviado pelo amigo, Xico Bizerra, poeta, compositor e amante do futebol. Xico é metade cearense e todo pernambucano. Pois bem! Nesta crônica ele narra um encontro fictÃcio com o craque Ademir Menezes. Uma coisa espetacular que brotou no imaginário de um cara que tem uma mente iluminada.
Lembrei de outro cearense, da mesma região de Xico, o comunicador, Waldir Bezerra, cujo grande Ãdolo, que ainda hoje ele cultua, foi um jogador de 1,6 metro chamado Chico Curto, que em sua opinião, "era melhor que Zico".
Quem gosta de futebol tem em mente, escalado, o time dos seus sonhos. Confesso que "minha seleção" foi toda formada por jogadores do Santa Cruz de Carpina. Talentos que desfilaram nas décadas de 60 e 70.
O Santa Cruz de Carpina foi fundado no dia 15 de novembro de 1954, quando eu tinha dois anos de idade. No inÃcio dos anos 60 meu pai - Jaime Gomes - me levou, pela primeira vez, para ir assistir a um jogo de futebol. Local: Campo do Enchimento de João Vermelho. Nossa arquibancada improvisada foi a carroceria de um caminhão.
A descoberta do mundo da bola foi um encantamento. A convivência com os primeiros Ãdolos era uma coisa de louco. Nos anos 60, pouco tempo depois da chegada da energia elétrica gerada em Paulo Afonso, começaram a chegar os primeiros aparelhos de televisão em Carpina. Aos domingos, se reuniam: meu pai, Mário de Pirulito e os irmãos, Humberto e LuÃs Doidinho, estes três, jogadores, titulares absolutos do Santa Cruz. Depois de vermos jogos de Flamengo, Santos, Botafogo, Palmeiras, Ãamos para a o campo do Colonial, outro clube de futebol da cidade que cedia o equipamento para o time tricolor.
Mais que o jogo jogado, toda aquela áurea me deixava deslumbrado: o campo não tinha bilheteria, a arrecadação era feita com o pavilhão do time que ia passando e as pessoas doavam o que podiam, e o que queriam. Sorvete raspa-raspa, amendoim e rolete de cana fazia parte do cardápio engana-menino.
A época, até o presidente do clube, seu Totonho, era meu Ãdolo. Foi o primeiro dirigente que conheci. Ele sabia valorizar o cargo. O Santa Cruz conseguiu montar um time que passou a ser o terror da região, fato que apimentou a rivalidade com o Colonial, que tinha as cores rubro-negras do Sport. Foi quando o Tricolor migrou para o campo da pista, também de chão batido, sem muro e sem alambrado.
Na região - Mata Norte do Estado - só se falava em dois times: o Centro Limoeirense, que estava disputando a Primeira Divisão do Pernambucano, e o Santa Cruz de Carpina, que reinava absoluto entre os amadores. Foram duas décadas de boas safras de atletas.
O Tricolor Carpinense emplacou uma série invicta que entrou para história e fez com que toda a cidade vestisse sua camisa. Os jogos do Santa Cruz se tornaram a alegria das tardes dos domingos na cidade-planalto. E o clube ganhou um terreno para construir o seu estádio: Estádio Oswaldo Freire. O crescimento passou a ser observado através do patrimônio: um estádio com muro, alambrado, vestiários e cabines de radio.
Severino Araújo, comerciante do ramo eletrônico, formou uma equipe esportiva para transmitir os jogos do Santa Cruz. A Rádio Planalto, logo após o programada dos cantadores/repentistas, tinha na sua grade, um programa esportivo com foco no Santinha. O clube das três cores era o orgulho maior da cidade no seguimento esportivo.
Não recordo todos os nomes, mas esses marcaram época:
GOLEIROS - Albino, Alfredo, Henrique, Lula, Jairo e Oséas (Cego).
DEFENSORES: Pádua, Teobaldo, Marquinhos Pirulito, Paulo da Jóia, Zeca, Goió, Dindo, Zeca Buchudo, Edvaldo (Preá), Luisinho, Expedito e Carlos Botelho.
APOIADORES: Severino Aureliano (Siri), LuÃs Doidinho, Zé Leite, Pelado, Fia, Jorge Lapa, Walmir (Mimi), Carlos Lapa e Humberto.
ATACANTES: Mário Pirulito, Fernando Monteiro, Nena, Romero, Wilson Brito, Edvilson (Goiaba), Déda, Arlindo, Agápito, Vavá, MaurÃcio e Djalma Barrão.
Nessas gerações, apenas um craque: Humberto. O camisa 8 do Santa Cruz de Carpina era gênio. Os outros, reconhecidamente bons talentos, se esforçavam para acompanhar o raciocÃnio do gênio, que nos dias atuais seria titular em qualquer um dos três grandes clubes do Recife: Sport, Náutico ou Santa Cruz.
à estranho não citar Rinaldo, ponteiro esquerdo que chegou a Seleção Brasileira, mas sua passagem pelo Santa Cruz foi rápida, logo se transferiu para o Náutico e no ano de 1963 foi para o Palmeiras, numa permuta por Ivan Brondi. Nos anos 60, vários jogadores do Tricolor Carpinense foram defender o Náutico: Lula (goleiro), Zé Leite (volante), Edvaldo (lateral esquerdo), Jairo (goleiro), Wilson Brito (ponteiro esquerdo) e anos depois, Walmir (meia esquerda).
Qualquer um que arrisque escalar o melhor time do Santa Cruz de todos os tempos irá buscar a formação no grupo acima mencionado. Fiquei em dúvida sobre os camisas 10 e 9.
Carlos Lapa ou Walmir? Lapa jogava para se divertir. Para ele o drible era tão prazeroso quanto o gol. Era debochado. Driblava e sai rindo do adversário. Walmir era mais completo em outros fundamentos: corria todo o campo, tinha uma disciplina tática invejável e consciência coletiva.
Mário Pirulito ou Fernando Monteiro? Fernando era mais técnico, se movimentava melhor e era mais eficiente no jogo aéreo. Mário tinha um melhor posicionamento dentro da área e jogava melhor de costa para os zagueiros. Era um centroavante mais letal, até porque o seu entrosamento com Humberto era perfeito.
Entre os treinadores podemos destacar: seu Lobato, Severino Aureliano, Gil Guedes e Reni Teixeira.
Ah! Citei seu Totonho como uma referência na história do Santa Cruz de Carpina, mas existem dois pilares que jamais serão esquecidos: Reni Teixeira (jogador, treinador e presidente) e Nereu, que trabalhava na Usina Petribú. Nunca quis ser presidente, mas fez pelo clube tanto quanto todos que passaram pelo cargo, ou mais.
O SANTA DE TODOS OS TEMPOS: Jairo; Expedito, Dindo, Goió e Preá; Zé Leite, Walmir e Humberto; Arlindo, Mário Pirulito e Wilson Brito. Técnico: Reni Teixeira.
CLAUDEMIR GOMES
A construção é simples: primeiro conhecemos a nossa casa, depois a rua onde moramos, as outras ruas, a cidade, outras cidades... até nos tornarmos cidadãos do mundo. Os oficiais da Marinha Norte-Americana costumam dizer: "Se quer conquistar o mundo, primeiro faça sua cama". Enfim, primeiro, as primeiras coisas.
Partindo deste princÃpio, que nos parece uma regra universal, é comum guardarmos muitas lembranças das ruas onde vivenciamos nossa infância e nossa adolescência. Durante todo o tempo que vivi em Carpina tive dois domicÃlios: um na Avenida Chateaubriand e outro na Rua Frei Caneca, mas confesso que, o logradouro que mais me fascinava na minha cidade natal era a Praça São José.
São muitas as razões para tal encantamento.
Tal como a maioria das cidades do Interior, Carpina dos anos 60 e 70 era pobre em monumentos. O primeiro a que fui apresentado foi o do Leão, posicionado estrategicamente no inÃcio da Praça São José. à como se ali fosse o marco zero da cidade. No meu imaginário tudo começou naquele espaço, a Floresta dos Leões que depois passou a ser conhecida como a cidade dos carpinteiros: Carpina.
A simbologia é o ponto de partida para infindáveis lembranças de um mundo quase encantado resumido numa praça. Quando vinha para o centro da cidade, e chegava no monumento do leão, era como se tivesse chegado ao destino. Me deparava com o salão de sinuca, que meu pai aconselhava não "fazer ponto" para não me viciar em jogo. Mas tinham alguns jogadores cuja habilidade nos forçava a ficar vendo eles em ação. O jogo de bilhar era um desafio a inteligência. Impressionante o domÃnio que eles tinham do espaço (a mesa) e dos pontos de tabela. Jogar e dificultar a jogada do oponente: eis o desafio. Na outra esquina havia um bar com uma cacimba no meio. Na calçada, uma bomba de álcool. Na frente deste bar, ao lado de um galpão da Rede Ferroviária do Nordeste, ficavam os carros de aluguel.
O pano de fundo da Praça São José era a Igreja Matriz de São José, onde fui batizado, crismado e fiz a primeira comunhão. Recordo de quatro pároco: padre Petronilo, padre Leitão, padre Genaro e padre Rolim A igreja era ladeada pela Ação Paroquial de Assistência Social e pela casa do padre. Um pouco mais atrás, o Colégio Pio X, do professor Resende, uma das maiores referências d história da educação de Carpina.
A Praça São José, homenagem ao padroeiro da cidade, São José, o santo carpinteiro, era o lugar onde o religioso e o profano conviviam harmonicamente. Aos domingos, após a missa campal, à s 19h, começava o ti-ti-ti dos passeios e paqueras. Logos os grupos eram formados. Havia uma disputa pelos bancos da praça, mas os passeios rendiam bons namoros. Sem dúvida aquela era a passarela mais famosa da cidade. Um verdadeiro desfile de moda. As moças apresentando seus modelitos com penteados recheados de esponjas de aço, mas antes preparados com gigantescos bobes e as resistentes toucas. Algumas apelavam para o ferro quente. Os rapazes exibiam as novas calças boca-de-sino, de nycron (o famoso senta e levanta e não perde o vinco) e tergal. Lula, Zé Leite, Jairo, Edvaldo (Preá) e Wilson Brito, que a época integravam o elenco de juvenil do Náutico, chamavam a atenção com os "lançamentos", calças confeccionadas pelo renomado costureiro - Barbosa - do Recife, o preferido por nove em dez jogadores do Náutico, o time sensação do Estado, na época construindo sua inesquecÃvel campanha do hexa. O sapato preferido dos boys era Motinha, a coqueluche dos anos 60.
De tanto passear na Praça São José acabávamos conhecendo, e estreitando a amizade com quase todos os moradores: A casa do seu Chico perna-de-pau nos chamava a atenção pela sua arquitetura e pelo carro Studbaker que vivia estacionado no terraço.
Seu Costinha e dona Mariinha, casal referência na cidade. FamÃlia exemplar: religiosa e unida. Na casa do seu Costinha até o papagaio rezava. Muitas vezes rezei o terço junto com todos da famÃlia: Jesus, Carminha, Deca, Cocota, Auxiliadora, Zé Maria, Domingos, Bosco e Alexandre.
Mais adiante tinha a casa de dona Maria do Carmo, Odineide, Noca, Gil, Itagiba e André. O conhecidÃssimo Zé do Ãlcool; os irmãos Gilson e Gilvan. Os habitantes da praça gostavam de ficar sentados na calçada observando o vai e vem da juventude. Os irmãos, Zita, Nalva, Adelson, Ednaldo... Mais próximo a igreja, a casa de Abelardo, Miriam, Selma e Dione, que eram vizinhos de seu Sinô e dona Dondon, pais de Glauce, Maria de Jesus, Giovana e Novinha. Lá também moravam Lia e Toinho Bocão, maior corneteiro da banda marcial do Salesiano.
Do outro lado da rua, vizinho ao prédio da prefeitura, morava seu Marcos, um misto de ourive e artesão em prótese dentária e dona Alice, que também tinham uma prole grande: Zito, Nilson, Severino Marcos, Adeilda, Adelma e Severina. Mais adiante morava Joca de Sá e Socorro.
ImpossÃvel relembrar todos os nomes, até porque a população é nômade.
Os shows na Ação Paroquial de Assistência eram inesquecÃveis. Momentos de grande visibilidade para cantores domésticos e Ãdolos e conjuntos que já faziam sucesso no Estado e começavam a conquistar espaço em outras praças. Foi naquela ação bem amadora que Carpina revelou para o Brasil um dos maiores comunicadores da época: Paulo Marques, personagem icônico na história do rádio e da televisão pernambucana, que também foi destaque na polÃtica (deputado Estadual e Federal).
Dia desses, mexendo em meus alfarrábios, encontrei um monóculo com uma foto minha e de Paulo Marques na Praça São José. Estávamos sentados num dos bancos. Registro de sua tentativa de me ensinar a tocar violão, coisa que nunca aprendi por não ter nem vocação, nem talento.
Naquele espaço também vivi minhas primeiras "aventuras e emoções" automobilÃsticas na condição de co-piloto no jeep pilotado por Rodolfo. Loucura! A adrenalina ia lá pra cima. Ninguém conseguiu fazer aquele bordado da Praça São José como Rodolfo. Ele tinha o domÃnio da distância entre os canteiros, e sabia qual a velocidade e marcha que deveria entrar e sair no curto espaço de tempo entre uma curva e outra. Os moradores se assustavam com tanta loucura. Surgiram muitos imitadores e seguidores, mas nenhum apresentou a habilidade, nem a precisão cirúrgica com a qual Rodolfo dava o seu show particular.
Duas mudanças - a construção da nova Matriz de São José e a construção do novo prédio da Prefeitura - não chegaram a descaracterizar a praça, mas causaram grande impacto no clima bucólico. Sinais dos tempos. A demolição do velho templo mudou a geografia do espaço. A nova sede da Prefeitura, construÃda pelo prefeito Carlos Lapa, provocou uma dinâmica caracterÃstica das cidades em crescimento. Apesar das causas e efeitos a Praça São José se mostrava resistente a uma invasão comercial, mantendo sua vocação residencial.
Foi ali, na Praça São José que surgiu a primeira agência bancária da cidade: o Banco Econômico da Bahia. Anos depois, na outra esquina, separado apenas pelo monumento do Leão, foi inaugurada a agência do Banco do Brasil.
Todas as vezes que vou a Carpina faço questão de passar pela Praça São José. De imediato me vem a mente uma porção de lembranças. Vejo o monumento com o leão solitário, altaneiro, porte imperativo como se estivesse repassando a mensagem: "Daqui eu vejo o mundo".
E foi justamente daquele marco, na entrada da Praça São José, que comecei a me transformar num cidadão do mundo.
CLAUDEMIR GOMES
Em tempo de coronavÃrus, meus passatempos preferidos têm sido ler e assistir filmes. Cinéfilo confesso, tenho me deliciado com novos e velhos tÃtulos. Ontem parei para rever, mais uma vez, Cinema Paradiso, criação de Giuseppe Tornatore, do final dos anos 80, que ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro. Uma obra prima que me transporta ao passado.
O cinema como a grande diversão de uma cidade pequena de interior, a simplicidade da sala, a reação do público, enfim, tudo o que vemos no filme Cinema Paradiso nos deixa com a sensação de que vivenciamos tais momentos na nossa infância e juventude, quando frequentávamos o Cinema Santo Antônio, em Carpina.
A história nos mostra que Carpina teve outras salas de cinema com mais requinte e certo glamour, mas o Cinema Santo Antônio, construÃdo no bairro de mesmo nome, para atender a uma população mais carente, conseguia repassar para nós a magia do maior entretenimento da época.
O equipamento era simplório, contudo, aquela sala primitiva, com quatro paredes lisas, sem nenhum adereço, nos acolhia de forma aconchegante. Uma empresa familiar, onde os donos - seu Ãlvaro e dona Nice - junto com dona Corina, outra integrante da famÃlia, colocavam a mão na massa. Nos fins de semana, ou quando era exibido um filme de grande sucesso de bilheteria, a lotação se esgotava logo. Quem morava na vizinhança levava cadeira de casa. Quem vinha de longe assistia o filme em pé.
O romantismo da época era observado logo na entrada, onde havia sempre uma troca de gibis, revistas e livros de bolso. Vez por outra era lançado um álbum de figurinha e não existia ponto de troca melhor que a porta do cinema.
Foi justamente naquela equipamento quente, desconfortável, que me tornei um amante da sétima arte.
Primeiro vieram os filmes épicos: Os Dez Mandamentos; Ben Hur; Maciste; Hércules, Sansão e Dalila; Davi e Golias; Os Gladiadores... E todos se tornaram fãs de Mark Forest, Steve Reeves, Yul Brynner, Charlton Heston... Atrizes como Sophia Loren, Gina Lollobrigida, Cláudia Cardinali, Elizabeth Tylor, a estonteante Ursula Andress, Brigitte Bardot...
E o que dizer dos filmes de faroeste? Os clássicos de hollywood eram fantásticos, levantavam a platéia, mas quando apareceram os cowboys italianos, Giuliano Gemma e Cia, o gênero foi aquecido com os novos galãs.
Foi ali, no meu cinema paradise, o Cinema Santo Antônio que assistir aos grandes filmes de Elvis Presley; o primeiro da infindável série de 007, com o espetacular, e melhor de todos: Sean Connery. Naquele equipamento na periferia de Carpina descobri o mundo de Zé do Caixão, um misto de terror e erotismo.
O melhor de tudo era o clima dentro daquela sala de cinema. As pessoas assistindo uma pelÃcula e vivenciado como se estivessem num teatro. Palmas, vaias, risadas e choros tornavam tudo muito real. Vez por outra a turma se excedia nas observações seu Ãlvaro interrompia a seção, fazia um sermão e a tropa de acalmava. Mas logo a zona era retomada.
Alguns filmes eróticos provocavam um apartheid: seções para homens e seções para mulheres. Nos dias das seções femininas muitos homens ficavam na porta do cinema só para ver as mulheres que iam entrar. Coisa de fofoqueiros do Interior.
Mas nada se comparava ao Canal 100. Aquela música - Que bonito é - numa harmonia perfeita com as imagens dos jogos, das arquibancadas dos estádios, da geral do Maracanã. Em 1982, quando fazia a cobertura das Eliminatórias para a Copa da Espanha, fui apresentado ao dono do Canal 100, Carlinhos Niemeyer. Contei para ele todas as emoções vividas no Cinema Santo Antônio. A reação do público, a vibração na hora do gol como se estivesse no estádio. Ele foi a loucura.
Quando nos reencontramos num treino da Seleção Brasileira no Maracanã, Carlinhos me chamou e disse: "Vou lhe mostrar onde fizemos as imagens que emocionou os carpinenses". E me levou no fosso onde ficavam os cinegrafistas, também mostrou onde posicionava todas as outras câmeras.
Numas edições do Cine E, Alfredo Bertini, conhecedor dessa história, me convidou para entregar um prêmio na homenagem que foi feita ao Canal 100. Entreguei o troféu ao filho de Carlinhos Niemeyer, contei para ele nossos encontros e o momento foi marcado pela emoção.
Do alto dos meus 68 anos posso dizer que conheci muitas salas de cinema pelo Brasil afora e em vários outros paÃses no exterior. Salas clássicas, tradicionais e modernas, mas nenhuma me tocou tanto na alma como a do Cinema Santo Antônio.
Sem dúvida, o meu cinema paradiso, cujos cartazes dos filmes eram colocados nos postes, em pontos estratégicos da cidade.