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Maio 2012 ›› CLAUDEMIR GOMES
Sport e Náutico estréiam na Copa do Brasil. Amanhã (quinta-feira), será a vez do Afogadense, de Afogados da Ingazeira. O Santa Cruz estreou semana passada e conseguiu avançar para a próxima fase graças a um empate, sem gols, com o Operário de Várzea Grande. A competição é a que mais distribui grana no futebol brasileiro. Um verdadeiro Show do Milhão. O campeão poderá somar até 70 milhões. Tudo vai depender do seu status. O valor das cotas vai depender da posição dos clubes no ranking da CBF.
A primeira edição da Copa do Brasil foi disputada em 1989, quando o Sport chegou a decisão do tÃtulo com o Grêmio de Porto Alegre. De lá prá cá o torneio sofreu muitos ajustes no modelo de disputa. Segue sendo chamado de "a competição mais democrática do futebol brasileiro", mas este mote serve apenas para dar força ao discurso. A porta de entrada é ampla, evidentemente, mas a maioria dos convidados sequer chegam ao salão de festas. Contudo, todo mundo é recompensado.
O Afogadense, por exemplo, um dos debutantes da edição 2020, receberá R$ 540 mil pela sua participação na primeira fase. Se passar para o segundo round, irá engordar o seu cofre com mais R$ 650 mil. à dinheiro para deixar o clube sertanejo voando em Céu de Brigadeiro. O Show do Milhão vai ficando mais interessante na medida que se avança de fase.
O Sport foi campeão em 2008, mas o torcedor leonino sabe que, dentro da atual conjuntura da competição, é impossÃvel sonhar com o tÃtulo desta edição. O máximo que se espera é que Leão avance ao máximo nas fases, fato que irá atenuar o sufoco financeiro que o clube vem vivenciando. O cenário é o mesmo para Náutico e Santa Cruz.
A partir das oitavas de final os clubes começam a receber cotas acima de R$ 2,5 milhões. à justamente quando acaba a peneira, e a Copa passa a ser das elites do futebol nacional. Vale lembrar que, os clubes que disputam a Libertadores só começam a disputar a Copa do Brasil a partir das oitavas. Chegam para brigar pela ameixa do pudim.
Essa estória de "torneio democrático", portanto, entra para o arquivo do blá, blá, blá: me engana que eu gosto. Mas todos se sentem recompensados com suas participações. Afinal, existem necessidades e necessidades. Se por um lado, R$ 540 mil não representa nada para um Flamengo, por outro pode ser a salvação da temporada para o Brusque/SC, Afogadense e outros clubes da mesma estatura.
As cifras são tão atrativas que repórteres e comentaristas sequer analisam as qualidades dos times que estão em campo. O primeiro assunto levantado nas resenhas e debates são as cotas.
Pois bem! O Show do Milhão vai ter dois clubes na berlinda, na noite desta quarta-feira. Vamos ver quem ganha mais.
TÃtulo?
Será mais fácil encontrar o Saci Pererê ou a Comadre Fulozinha na esquina.
CLAUDEMIR GOMES
No Dia do Frevo, o Sport "dançou" no estádio Luiz Lacerda, em Caruaru, diante do modesto Decisão, e amargou um empate sem gols. O time comandado por Guto Ferreira, segue fora de compasso, razão pela qual ainda não acertou o passo. Em cindo apresentações numa competição de baixÃssimo nÃvel técnico, como é o Pernambucano, o Leão empatou quatro vezes. Se somar os três jogos da Copa do Nordeste, se chega a seis empates e duas vitórias num total de oito partidas.
Mesmo com toda a contemporização dos dirigentes e comissão técnica, que se escudam em dois argumentos - inÃcio de temporada e excesso de jogos - até mesmo o mais alienado dos rubro-negros, aquele que considera seu clube a própria tradução do superlativo, consegue enxergar que esse trem está sendo empurrado para fora dos trilhos.
O Decisão, que em quatro jogos sofreu 8 gols e tem um saldo negativo de 7, conseguiu, dentro de suas limitações, fazer uma apresentação soberba. No primeiro tempo, o time interiorano criou três oportunidades reais de gol, onde foram observadas repetições de falhas de posicionamento coletivo do setor defensivo do Sport. Na segunda fase, o atual campeão pernambucano, que este ano volta a disputar a Primeira Divisão do Brasileiro, ajustou a marcação, mas seguiu sem objetividade, fato que justifica o placar em branco.
O que observamos no Pernambucano não difere muito do que acontece no resto do Brasil, ou seja, nos demais campeonatos estaduais. Na realidade tais competições deixaram de ser laboratórios, sendo preteridas pelos grandes clubes que passaram a priorizar outras disputas, colocando sempre equipes alternativas nos famigerados campeonatos domésticos.
Vamos nos limitar a analisar as nossas coisas, ou seja, nosso cenário.
No sábado tivemos Náutico jogando em João Pessoa, com o Botafogo, e amargando uma derrota por 2x1. O time anfitrião foi incompetente por ter terminado o jogo com dois jogadores a mais e não soube ampliar o placar. Em Fortaleza, o Santa Cruz foi derrotado pelo Fortaleza por 3x0. Ambos os jogos foram válidos pela Copa do Nordeste.
Sinais dos tempos!
Em épocas passadas tais resultados eram quase que inconcebÃveis. Mas tudo muda. O futebol de outros Estados nordestinos cresceu enquanto o futebol pernambucano se apequenou. Sei que não é fácil amargar tal realidade, até porque grande parte da imprensa esportiva se perde no ufanismo. Muitas vezes a imagem que a televisão nos brinda vai de encontro ao que o comentarista e o narrador falam.
Enganam-se os que pensam que o torcedor não enxerga. Não adianta vender abobrinha quando no tabuleiro só existe pepino.
Vontade, determinação, aplicação, atitude, não são virtudes inerentes aos profissionais técnicos e virtuosos. Em inÃcio de temporada não se pode cobrar harmonia de conjunto. Mas também não se pode admitir que o conjunto seja anulado pelo vÃrus da inércia.
CLAUDEMIR GOMES
O apresentador, Adherval Barros, encerrou a edição desta terça-feira do programa, JOGO ABERTO PERNAMBUCO, na TV Tribuna, fazendo um apelo para que o "torcedor de bem deixe de ir aos estádios pernambucanos". Foi mais além pedindo que todos, independente de bandeira, abraçasse essa campanha que tem por finalidade externar a indignação da sociedade pernambucana.
Adherval é um profissional que está na estrada há 40 anos. Viu nascer as organizadas do bem - Santamante, Treme Terra... - assim como testemunhou a mudança de cenário, quando a turma que só levava alegria aos estádios foi substituÃdas por facções criminosas que encontraram no futebol um canal livre para disseminar a violência a aterrorizar as cidades.
Sempre ouvi dizer que, "um câncer quando extirpado no inÃcio é possÃvel salvar o paciente". No caso especÃfico do futebol pernambucano, o câncer da violência se transformou em metástase. Saiu dos estádios, ganhou as ruas do Recife, ultrapassou as fronteiras da Capital Pernambucana e chegou ao Interior. Tal qual uma epidemia avassaladora, para a qual ainda não se encontrou um antÃdoto, a população é atacada independentemente se é dia de jogo ou não. A resultante não é outra coisa senão uma sociedade refém do medo.
O que aconteceu na noite da segunda-feira, no Pátio de Santa Cruz, quando um grupo de tricolores se confraternizavam para comemorar os 106 anos de fundação do Clube do povo, e foi covardemente atacado por integrantes da facção criminosa, Torcida Jovem do Sport, foi aterrorizante.
Assim como, aterrorizante foram as declarações do presidente da Federação Pernambucana de Futebol, Evandro Carvalho, que desejou que a PolÃcia Militar tivesse atirado nos vândalos, transformando o histórico pátio num campo de extermÃnio. Com certeza este não é o caminho para corrigir os erros cometidos pelos dirigentes dos clubes que dão guarida as facções criminosas; aos deputados que as apóiam; aos jogadores que fazem louvações a esses bandidos; aos torcedores que engrossam seus cordões; a inércia da Justiça e da PolÃcia Militar que tornam esses "intocáveis".
à doloroso ver a PolÃcia Militar escoltando as facções criminosas no ir e vir dos estádios. Não menos doloroso é assistir os doutores da lei definirem jogos com uma só torcida por conta das Organizadas do Crime.
Os fatos que testemunhamos nesta segunda-feira sem lei representam apenas mais um parágrafo de uma história que vem sendo escrita há décadas. História sangrenta, com episódios de barbárie, mortes e mutilações. Cenas que passaram a fazer parte do cotidiano do futebol pernambucano.
Não foram poucos os gritos de alerta dados pelo mestre, José Joaquim Pinto de Azevedo, que durante dez anos manteve um blog que prestou grande serviço ao futebol pernambucano. No mÃnimo, nos dava a oportunidade de degustar uma boa leitura. Azevedo estava revoltado com os fatos ocorridos na segunda-feira.
As Organizadas do Crime que tomaram conta do futebol pernambucano, com a conivência de polÃticos, dirigentes e jogadores, transformaram o Recife numa panela de pressão, deixando a sociedade num alerta permanente.
Amigo Adherval!
Comungo com sua indignação. Não existe protesto mais efetivo e legitimo contra essa violência do que deixar de frequentar os estádios pernambucanos.
Somente assim não seremos testemunhas da vitória do crime organizado.CLAUDEMIR GOMES
O mestre de bateria, Miro do Samba, é uma dessas figuras populares em extinção no Recife. Luta contra o peso dos anos para se manter fiel aos seus três amores: a famÃlia, Nossa Senhora da Conceição (ele nasceu no dia 8 de dezembro, razão pela qual a chama de madrinha) e o Santa Cruz. O homem simples que mora em uma das favelas de Santo Amaro, mesmo desdentado, faz questão de abrir um largo sorriso no dia 3 de fevereiro, quando se comemora o aniversário de fundação de um dos mais populares clubes de futebol do Brasil: o SANTA CRUZ FUTEBOL CLUBE.
A história de paixão e devoção de Miro do Samba se confunde com a de milhões de tricolores, que assim como ele, vivem em bairros pobres, periféricos, com poucas oportunidades de emprego, e inúmeros desafios de sobrevivência. Mas que se realizam através da proeza do seu clube do coração. Assim vive a poeira (apelido dado a torcida do Tricolor do Arruda numa época em que a maioria das ruas dos bairros periféricos do Recife não eram calçadas, nem afastadas, e quando os torcedores comemoravam as vitórias do Clube do Povo levantava poeira).
No inÃcio da década de 90, do século passado, João Caixero de Vasconcelos Neto, me convidou para escrever um livro sobre os 80 anos do Santa Cruz. A época, o projeto também contava com os jornalistas, Hélio Pinto e Lenivaldo Aragão. A obra levou 20 anos para ser concluÃda. Não foram poucos os jornalistas que deram uma contribuição efetiva participando desse "mutirão". No final, a história do "SANTA CRUZ DE CORPO E ALMA", até o centenário, foi concluÃda por mim (Claudemir Gomes), Lenivaldo Aragão, José Neves Cabral, Humberto Araújo e Deusdeth.
O tempo de espera para ver a obra concluÃda (20 anos), me levou a conhecer um pouco da alma deste clube, cujo maior patrimônio não é a sede social; nem o Estádio José do Rego Maciel, tampouco o Centro de Formação de Jogadores que está sendo construÃdo em Aldeia. O maior patrimônio do Santinha é a alma do tricolor, imortalizada na música de Sebastião Rosendo.
O amigo Joca (João Caixero de Vasconcelos Neto), quando pegou o seu rico acervo de documentos e fotografias, distribuÃdo em três malas e alguns sacos de plástico, teve a sensibilidade de observar que, todo aquele material mostrava apenas a história do corpo do clube, edificado em pedra e cal. O desafio era mostrar a alma dos homens, o estopim dessa paixão indescritÃvel.
Certa vez, desci as escadas do Diário de Pernambuco, quando a sede era na Praça da Independência, e encontrei Miro do Samba. Já era noite, e minha pauta de reportagem indicava uma cobertura no Palácio das Princesas (Sede do Governo), onde lá estariam o senador, Marco Maciel e outras autoridades e desportistas. No caminho do Diário até o Palácio, Miro foi falando do Santa Cruz. Lá dentro, quando terminou a reunião e me dirigi ao senador para lhe fazer uma pergunta, ele se antecipou: "Como está o Santa Cruz?".
Hoje eu entendo que a alma do torcedor do Santa Cruz independe de classe social. Há 106 anos o Tricolor pertence a poeira e as elites. Enfim, é um clube onde cabe todos os nomes.