Histórico
Futebol Pernambucano
Somos todos Afogados
postado em 27 de fevereiro de 2020

CLAUDEMIR GOMES

 

#Sou Afogados.

Pernambuco esportivo amanheceu com esta faixa. Todo torcedor, seja de que bandeira for, fez uma louvação ao time de Afogados da Ingazeira - A Coruja Sertaneja - por conta da vitória épica sobre o Atlético Mineiro, em jogo válido pela segunda fase da Copa do Brasil. Um feito histórico para o time debutante que em três jogos na competição nacional irá adicionar aos seus cofres mais de R$ 2,5 milhões. Dinheiro que vai dar para iniciar a construção de um sonho que é o Centro de Treinamento.

Muitas foram as definições para o confronto histórico no Estádio Vianão, no Sertão Pernambucano: David x Golias; Milhão x Tostão... Se ainda estivesse entre nós, por certo o mestre, Nelson Rodrigues, diria em sua crônica que o empate - 2x2 - no tempo normal, e a vitória - 7x6 - nas cobranças de tiro livre direto, foi obra do "Sobrenatural de Almeida", ou que o "imponderável" havia entrado em campo.

Se formos traçar um paralelo entre as histórias dos dois clubes, seguindo uma lógica que também existe no futebol, podemos dizer que, se o Atlético/MG e o Afogados se confrontarem dez vezes, vamos ter um empate e nove vitórias do Galo Mineiro. Entretanto, no futebol existem mistérios que nunca serão desvendados.

Acho que houve soberba por parte dos mineiros, que caíram por falta de conhecimento de causa. Então vejamos:

Acredito que os mineiros desconhecem um dos clássicos da literatura Brasileira - Os Sertões - de Euclides da Cunha, onde o autor nos brinda com uma afirmativa antológica: "O sertanejo é antes de tudo um forte". E foi com raça e muita superação que o Afogados se transformou na grande surpresa da noite, no futebol brasileiro.

Em, "A arte da guerra", aprendemos que, para se vencer uma batalha é primordial conhecer o seu exército e o exército inimigo. O Atlético/MG tinha pouco ou nenhum conhecimento do Afogados. Nada sabia sobre o técnico, Pedro Manta, que sempre defendeu a tese de uma "pegada forte" nos times que comanda. O Galo não soube desmontar a retranca feita pela Coruja.

Embora tenha a aparência de um sujeito simplório, Pedro Manta é um profissional preparado, com vários cursos no currículo. Ele utilizou um plano de jogo que é usual em todos os continentes quando acontece um confronto entre um time reconhecidamente superior tecnicamente, com um adversário mais modesto: a surpresa do contra-ataque. A aplicação, a entrega, dos jogadores do Afogados na marcação, quando não tinham a posse da bola, e a velocidade nos contra-ataques foram decisivas na construção do placar histórico.

Por fim, os mineiros desconheciam por completo o calendário do carnaval pernambucano. Aqui, o único dia reservado para a festa do Galo é o Sábado de Zé Pereira. Na Quarta-feira de Cinzas quem não tem raiz pernambucana e se aventura a fazer o passo acaba segurando a Lanterna dos Afogados.

Ah! Desperdiçar dois pênaltis numa decisão e dar a volta por cima, é uma coisa que até os deuses do futebol duvidam. Nem Zé do Caixão conseguiria explicar.

Depois de buscar e ouvir tantas "explicações" para o grande feito do Afogados, acho que o segredo estava na bunda dos jogadores, onde havia no calção, a propaganda: "Blog do Magno Martins". E os comandados de Manta foram tão audaciosos e letais quanto o jornalista é nos seus posts.    

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Acontece
Carnaval Brega
postado em 21 de fevereiro de 2020

CLAUDEMIR GOMES

 

A abertura do carnaval 2020 na terra do frevo, o Recife, tem como atração a musa do Brega: Priscila Senna. Silenciaram os clarins que pediam passagem para o frevo de forma imperativa.  Também não escuto o batuque dos maracatus. Nelson Ferreira, Capiba e Naná Vasconcelos devem estar reunidos no céu, confabulando sobre tal heresia.

Sinais dos tempos! Como bem canta a nova "rainha" do pedaço: "O mundo gira, o mundo é uma bola".

Na nova edição da revista Textos, o artigo da excelente escritora, Fátima Quintas, que tem como título - O Recife e a Memória - nas primeiras linhas nos alerta sobre o "espírito libertário" da Capital Pernambucana.

Reconheço que temos de acompanhar a nova ordem. "Dançar de acordo com a música", diriam os velhos conselheiros. Mas subtrair o espaço do frevo soa como uma agressão para quem acompanhou blocos de sujo; caiporas, ursos, e fez o passo, sem perder o compasso, nos salões dos clubes.

Na década de 70, para ser mais preciso, em 1975, cheguei à redação do Diário de Pernambuco, para concorrer a uma vaga na editoria de esportes, a época comandada por Adonias de Moura. Ao meu lado, outro candidato, José Adalberto Ribeiro, mas ele buscava espaço na editoria de política. Fomos aprovados.

Da sacada das janelas acompanhávamos tudo o que acontecia na Praça da Independência, que para o povão não era outra senão a Pracinha do Diário. Em tempo de carnaval a redação do DP fervia. De lá saímos para as edições primeiras do Baile dos Artistas capitaneadas por Valdir Coutinho. O presidente do Sindicato dos Jornalistas, Eliomar Teixeira, criou o bloco Língua Ferina que saia da redação e desfilava pelas ruas Nova e da Imperatriz.

Na sexta-feira, o prefeito do Recife repassava a "chave da cidade" para o Rei Momo num palanque montado na calçada do DIÁRIO. Depois ficávamos aguardando o desfile do Azulão. A época trabalhávamos no Sábado de Zé Pereira, fato que nos oportunizou testemunhar os primeiros desfiles do Galo da Madrugada.

Futebol?

A turma da bola também abria alas para o frevo passar. O excesso era um treino de mascarados no sábado. Depois que o calendário do futebol brasileiro inchou, temos jogos na sexta-feira, no sábado de Zé Pereira e na Quarta-feira de Cinzas.

A folia também aumentou na mesma proporção. Afinal, desde o ano passado que temos prévias pelas ladeiras de Olinda, e no Recife os blocos se multiplicam. Este ano vamos ter folia até o primeiro dia de março.

As mudanças são imposições do tempo. O carnaval também teria que passar por transformações, mas algumas descaracterizações por conta de uma modernização são chocantes.

Confesso que, apesar de toda a minha paixão pelo futebol, em tempos de carnaval "eu quero entrar na folia".

Ah! Meu carnaval não é multicultural. É frevo.     

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Acontece
Paixão pela Arte
postado em 17 de fevereiro de 2020

CLAUDEMIR GOMES

 

Nesta terça-feira voltamos a nos deliciar com os jogos da Champions League, competição que reúne os melhores times da Europa. A disputa chega às oitavas de final. É uma boa oportunidade para nos deleitarmos com o futebol de excelência. Não precisa torcer por nenhum clube. Se detenha a arte, aos feitos - técnica e improviso - dos virtuosos, e a harmonia e leveza dos conjuntos. É inevitável não lembrar a célebre frase do saudoso, Paulo Jardel:

"Nada substitui o talento!".

Fui formado para admirar o belo.

Meu primeiro contato com o futebol foi vendo, assistindo ao Santa Cruz de Carpina jogar. Década de 60, século passado. O diferencial era que eu tinha uma ligação direta com os meus ídolos: Mário de Pirulito, Humberto, Luís Doidinho. Todos os domingos assistíamos os jogos do Campeonato Paulista, que a televisão nos mostrava com oito dias de atraso, e depois íamos para o campo, onde os vizinhos se transformavam nos heróis do futebol carpinense.

Henrique, Jairo, Lula, Cego (goleiros); Pádua, Goió, Telbaldo, Paulo da Jóia, Preá, Dinda (defensores); Luís Doidinho, Jorge Lapa, Pelado, Zé Leite, Carlos Lapa, Humberto (armadores); Dinda, Mário de Pirulito, Arlindo, Fernando Monteiro, Wilson Brito, Goiaba (atacantes). Esses e muitos outros escreveram os melhores capítulos da história do tricolor carpinense. Um time que construiu uma invencibilidade de mais de 40 jogos. Era fantástico ver o Santa Cruz de Carpina jogar.

Em paralelo, não perdíamos um jogo do Náutico. Meu pai torcia pelo Sport, mas era fantástico ver o timaço do hexa jogar. Maelbe Batista Ramos (Mano), Edmilson Bione, Anísio Cavalcanti, todos alvirrubros, e nós, junto com eles, aplaudindo o Náutico que não se intimidava com o Santos de Pelé, o Cruzeiro de Dirceu Lopes nem o Palmeiras de Ademir da Guia. Conhecíamos todos os jogadores do Náutico, até porque, alguns, vez por outra jogava pelo Santa Cruz de Carpina. Depois veio a fase de ouro do Santa Cruz com Detinho, Givanildo, Zito, Luciano, Mirobaldo, Mazinho, Ramon, Pio...

Entenderam?

Ainda adolescente aprendi que o futebol é uma arte. A camisa é apenas um adereço. No século passado não tínhamos essa oferta de jogos que a televisão nos oferece. A internet colocou o mundo na nossa sala. Começamos a nos apaixonar pelo Barcelona, Real Madri, e pelo clube do momento: o Liverpool.

Como garoto que estava descobrindo o mundo da bola, ficava impressionado como os amigos que jogavam no Santa Cruz de Carpina, torciam, vibravam vendo as jogadas de Pelé, Ademir da Guia, Tostão, Gerson, Afonsinho, Clodoaldo... e horas depois estavam pondo em prática o que viram. Evidente que havia uma diferença técnica monstruosa, mas eles eram fantásticos naquele campo de areia.

O tempo avançou e me descobri como repórter, assimilando os ensinamentos do mestre, Adonias Moura, e convivendo com os craques no dia a dia. Fazer cobertura de treinos e jogos do Sport, Náutico e Santa Cruz só reforçava o princípio de que a essência da arte está acima de tudo. E vieram as oportunidades de cobrir quatro edições de Copa do Mundo; várias Copa América, Eliminatórias e uma infinidade de amistosos internacionais.

A arte é expressa em qualquer palco. Os craques carpinenses se adaptaram facilmente ao duro chão do campo do curtume e do campo da pista, onde eram quase imbatíveis. O segredo: a força coletiva e o talento individual de algumas peças.

O nível técnico era incomparável, mas o princípio era o mesmo observado no Internacional de Falcão, no Beira Rio; no Grêmio de Renato, no Olímpico; no Cruzeiro de Tostão, e no Atlético de Reinaldo no Mineirão; no Fluminense de Pintinho e no Flamengo de Zico, no Maracanã.

O futebol continua a me embriagar.

As apresentações do Liverpool são imperdíveis. Me arrancam sorrisos tal qual o Santa Cruz de Carpina fazia na década de 60. É a paixão pela arte. A camisa é um detalhe.

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Acontece
Timbu Coroado
postado em 16 de fevereiro de 2020

CLAUDEMIR GOMES

 

Um sábado em 30!

Evidente que a postagem não é uma crônica a este clássico do teatro pernambucano, peça escrita por Luiz Marinho, que ficou em cartaz por mais de três décadas. Contudo, o titulo da peça é a melhor definição encontrada para este sábado (15/02/2020), que será lembrado como um dos dias mais alegres da temporada.

É frevo meu bem!

Bradou o folião para lembrar que, aqui no Recife, há muito tempo que não se espera o Sábado de Zé Pereira para cair na folia. A farra começa bem antes, e as prévias tomam conta dos quatro cantos da cidade. A agenda privilegia todas as faixas de idade, e todas as classes sociais. Uma festa democrática, seguindo os preceitos de Momo.

No Cordeiro, a turma do Cabeça de Touro mostrou que naquele cordão sempre cabe mais um. Do outro lado do rio, na Jaqueira, a turma se esbaldou no Segurando o Talo. Rembrandt Júnior (Rede Globo) e Pedro Luiz (Rádio Clube), optaram pelo Bloco do Oiti, no Espinheiro. Mas a grande atração foi, sem dúvida, a prévia do Timbu Coroado.

O bloco alvirrubro desfila no domingo carnaval há mais de 80 anos. Faz parte da tradição cultural daquele pedaço do Recife. Sucesso absoluto! Mas neste sábado, em especial, teve uma prévia no Estádio dos Aflitos. E o atacante Erick mostrou que é possível misturar futebol com carnaval. Passista de primeira, o moicano descolorido impôs um ritmo alucinante ao jogo. Seus marcadores não aguentaram o rojão e ficaram foram do compasso. Enquanto isso, o maestro, Jean Carlos, regia a orquestra vermelha e branca. Parecia até uma homenagem ao saudoso maestro, Nelson Ferreira, autor do frevo Timbu Coroado.

A prévia era fechada, mas depois de 90 minutos, com as apresentações primorosas de Erick e Jean Carlos, a torcida alvirrubra tinha dois bons motivos para ganhar as ruas do bairro frevando. Afinal, vencer um clássico com o arquirival Sport (2x0), só em sábados especiais. E o cordão vermelho e branco saiu pela rua da Angustura fazendo o passo na alegria do Timbu Coroado.

O alvirrubro, folião raiz, como o mestre Lenivaldo Aragão, já tomou muitos banhos na casa do saudoso, Jaime da Galinha, onde o Timbu Coroado fazia um pit stop obrigatório para a turma tomar um banho e carregar as baterias com batida de maracujá.

"Desde cedinho que está acordado

É  o Timbu, é o Timbu Coroado..."

A tradição segue sob a batuta do maestro Jean Carlos.  

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Sport
Guto não ressiste pressão das redes sociais
postado em 14 de fevereiro de 2020

CLAUDEMIR GOMES

 

O técnico, Guto Ferreira, sempre dividiu a torcida do Sport, embora tenha o crédito de ter classificado o clube para a Série A, ano passado. Ao levar o Leão a atingir a grande meta da temporada 2019, induziu os dirigentes e incorrer no erro de seguir a máxima: "Em time que está ganhando não se mexe!". Equivocados, esqueceram que isso não é regra, muito menos, garantia de acerto.

A temporada 2020 se inicia com um desafio maior: montar um time para se manter na elite do futebol nacional. E lá se vão dispensas de jogadores e contratações de peças de reposição. Em campo, o time não conseguia acertar o passo. Pior ainda: não se desvencilhava da letargia que lhe levava a apresentar um futebol de terceira categoria.

A turma do contra gritava nas redes sociais: "Joga bosta na Geni!".

Os defensores de Guto Ferreira retrucavam: "Palmas pra Geni!".

Pressão em rede social é algo insuportável. No estádio ela termina quando o jogo acaba, mas na internet a turma fica conectada 24h por dia e o moído só cresce. Se o alicerce não for bom, a casa cai.

Após a derrota (2x1) para o limitado Brusque, em Santa Catarina, resultado que eliminou o Sport da Copa do Brasil, deixando escapar uma receita salvadora de R$ 1 milhão, foi a vez do presidente ultrapassar o limite da tolerância: "Maldita Geni!".

Ainda na noite da quarta-feira, ouvi um dirigente leonino advertir: "É preciso muito equilíbrio num momento como este. O técnico não é culpado se os jogadores perdem gols incríveis". Verdade. Mas é o responsável pela escalação e mudanças na equipe durante a partida. E Guto só errou no jogo em Santa Catarina. A derrota tinha mesmo que lhe ser creditada.

Os mais experientes detectaram logo que a tropa não estava atendendo ao comando. Numa linguagem futebolística podemos assegurar que, desse jeito não daria liga nunca.

O clube não tem dinheiro!

Isso é o que um monte de gente exclama, a todo o momento, na Ilha do Retiro. Prejuízo é insistir no erro. Guto Ferreira deveria ter sido dispensado no final do ano passado. Mas a diretoria se embriagou com o sucesso do acesso à Série A, e cometeu o pecado da "gratidão", deixando de enxergar as limitações do comandante. 

Erros também custam caro.

Jogadores foram dispensados, uma penca de profissionais, sem qualidade, foi recrutada e agora, o novo comandante terá que fazer um enxugamento para ver quem realmente tem condições de azeitar a máquina que está emperrada.  

O futebol não é tão simples quanto se pensa, mas também não tem mistérios. Toda a confusão é decorrente do componente emoção.

"Quando a gente não quer, qualquer desculpa serve", como diria o mestre, Carol  Fernandes no célebre comercial das Casas José Araújo.

No futebol das redes sociais quem também manda é o freguês.

Guto Ferreira que o diga. A diretoria protelou, mas a torcida o derrubou.   

"E o povão gostando!".

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