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Maio 2012 ›› CLAUDEMIR GOMES
O Náutico goleou o Decisão (4x0), ontem a noite, nos Aflitos, e assumiu a liderança do Campeonato Pernambucano. Enquanto os torcedores alvirrubros comemoravam o feito de Kieza e seus companheiros, os dirigentes coçavam a cabeça ao observarem que na bilheteria havia ficado uma arrecadação de R$ 40.308,00. PrejuÃzo certo.
Nas resenhas das rádios, o presidente do Sport, Milton Bivar, observa que, nas duas partidas que o clube rubro-negro disputou na Arena Pernambuco acumulou um prejuÃzo de R$ 80 mil. Conclusão: os clubes estão pagando para jogar no Estadual. A realização de um Retrofit no futebol regional é uma questão de sobrevivência para os clubes.
Retrofit é um termo muito usado em engenharia, e que tem sido adotado por alguns polÃticos, para designar o processo de modernização de algum equipamento considerado ultrapassado.
Nos últimos 25 anos, quando a internet passou a ser de domÃnio público, o mundo ficou basicamente sem fronteiras. A sociedade mudou. A nova ordem tem suas imposições, e quem não acompanhar o processo de evolução fica a margem do crescimento. Isto ocorre com o futebol brasileiro que deitou em berço esplêndido com a conquista de cinco tÃtulos mundiais, e hoje fica vendo a banda passar sem conseguir acertar o passo, estando cada vez mais fora do compasso.
Há muito que o futebol passou a ser tratado como um dos melhores negócios do planeta, na atualidade. Os investimentos em grandes competições, e grandes clubes, se multiplicam a cada dia. Mas para isso é necessário manter a boa qualidade do produto, caso contrário o mesmo não será atrativo para o consumo do público alvo.
Dentro do contexto está claro que a renda dos jogos representa apenas uma fonte de receita.
A Pluri Consultoria, empresa que está sempre realizando estudos sobre o atual cenário do futebol brasileiro, analisou, recentemente, dez campeonatos estaduais que são bancados pela Rede Globo. De saÃda observamos distorções alarmantes. A emissora investe R$ 176 milhões no Campeonato Paulista; R$ 112,1 no Campeonato Carioca; R$41,6 no Mineiro e, pasmem, R$ 4 milhões no Pernambucano. As cotas destinadas ao Cearense e ao Baiano ainda são mais tÃmidas.
O desequilÃbrio financeiro impacta na capacidade de investimento. Vejamos: o Campeonato Pernambucano tem seus direitos de transmissão vendidos por R$ 4 milhões. Deste montante, Náutico, Sport e Santa Cruz recebem R$ 1 milhão, cada um. O outro milhão restante é dividido com os outros clubes que este ano vão receber R$ 140 mil. Nesta proporção a distância entre os Grandes da Capital e os Nanicos do Interior só tende a aumentar. Com tamanho desequilÃbrio a competição doméstica deixou de ser parâmetro para medir a capacidade dos elencos dos clubes que irão disputar o Brasileiro.
A nÃvel nacional o cenário se torna mais sombrio. Os clubes considerados, médios e pequenos de São Paulo recebem cotas superiores a do Pernambucano. Ituano, Mirassol, Guarani, Ponte Preta, Inter de Limeira, Ferroviária de Araraquara... receberam, cada um, R$ 6 milhões para disputar o Paulista 2020. Em Minas, o América Mineiro recebeu uma cota no valor de todo o Pernambucano: R$ 4 milhões.
Sem recursos fica difÃcil investir em qualidade. Sem qualidade o espetáculo não atrai um bom público. E assim se forma a Caravana da Miséria, como bem define o mestre, José Joaquim Pinto de Azevedo.
Se não for feito um Retrofit no futebol brasileiro os clubes do Norte/Nordeste vão morrer de inanição.
CLAUDEMIR GOMES
O frevo já tomou conta das ladeiras de Olinda, do Marco Zero do Recife e de Boa Viagem. As prévias atestam que o carnaval em Pernambuco se agigantou e hoje dura mais de um mês. Tudo começou com o Sábado de Zé Pereira e mais três dias. A quarta-feira de cinzas era o ponto final. Depois inventaram a semana pré, que se foi no tempo junto com as lanças perfume, os confetes e as serpentinas. Agora, quem dita a ordem são os blocos. Como são muitos, e a cada ano proliferam mais em todas as esquinas, o calendário da folia esticou.
E o futebol fica no compasso de espera.
A bola já rola no Campeonato Pernambucano e na Copa do Nordeste. Mas o ritmo é de marcha lenta. Nada de frevo de rua. Imagine você, caro leitor, que na primeira rodada da Copa do Nordeste, em 8 jogos foram marcados apenas 5 gols. Tivemos 5 empates e 3 vitórias na rodada de abertura. No Estadual, em 10 jogos foram anotados 23 gols. Destaque para o lÃder Afogados que marcou 6, o que lhe leva a ostentar a fabulosa média de 3 gols por jogo.
No frevo, o compasso de espera é marcado por três instrumentos: surdo, pandeiro e tarol, ou caixa. à a turma da percussão. Depois é que entram os metais. Aà o negócio pega fogo. Quem não aguenta o rojão cai fora. A muganga e o faz de conta só tem vez no compasso de espera.
Os principais clubes ainda não acionaram seus melhores "passistas". Eis a razão pela qual a qualidade do futebol apresentado no Estadual e na Copa do Nordeste não tem sido do agrada dos torcedores mais exigentes. Esforço não falta, aos que estão sendo escalados, mas talento é um privilégio de poucos. São muitos os fatores que levam os clubes a adotarem estratégias que refletem na qualidade do espetáculo.
O calendário do futebol brasileiro é cruel. Vejam, por exemplo, o Sport: inÃcio de temporada e o clube já se viu forçado a disputar 4 jogos no curto espaço de dez dias. Um absurdo. A terceira rodada do Pernambucano começa a ser disputada nesta terça-feira e somente será concluÃda no próximo domingo. Ah! No final de semana também vamos ter jogos válidos pela competição regional.
Detalhe: na próxima semana começa a disputada da Copa do Brasil 2020. O Santa Cruz estréia dia 5 de fevereiro, com o Operário/VG, na Arena Pantanal. Como diria o mestre Capiba: "Quero ver queimar carvão, quero ver carvão queimar...".
Não há mistério. Tudo é muito simples. Os times ainda não estão prontos para exibirem um bom futebol, para impor uma dinâmica que impulsione o jogo, já que os jogadores não estão devidamente condicionados fisicamente para desprenderem tal esforço. A resultante de tal cenário é um futebol sem qualidade e sem atrativo neste inÃcio de temporada.
Quem quiser ritmo forte o caminho não é outro senão as ladeiras de Olinda, onde o frevo ferve com metais afinados. As prévias que acontecem em diversos pontos do Recife, também são destinos de alegria e prazer.
O bom futebol?
Só quando o carnaval passar. Os craques estão passando sebo nas canelas, e só vão bailar dentro das quatro linhas quando forem molhados pelas águas de março.
CLAUDEMIR GOMES
Quando o mestre, José Joaquim Pinto de Azevedo, na segunda quinzena do mês de dezembro, paralisou o seu blog alegando que precisava avaliar o trabalho que realizava há dez anos, pensamos cá com nossos botões: ele está nos preparando para o adeus.
Sabemos que nada dura para sempre, que tudo tem começo, meio e fim. Mas existem coisas que nos são subtraÃdas dentro do prazo de validade. à como se fosse uma imposição indecorosa da vida. Foi assim que nos sentimos ontem, quando vimos a postagem no blog de Zé nos informando que o trem havia chegado a última estação.
Ao observar os derradeiros movimentos, subi no último vagão, sentei na poltrona vazia próxima a janela, e mergulhei em devaneios.
José Joaquim partiu da estação zero em 2010. Com estilo próprio, foi descrevendo o cenário, quase sempre sombrio, do futebol brasileiro. Foram léguas e léguas de conversa. Aproveitávamos as prosas para somar conhecimentos. As conversas com o mestre sempre agregam muito. Não é por acaso que, quase que diariamente eu faço uma ligação telefônica para ele e passamos um bom tempo papeando.
"Qual o borderau?". Me pergunta ele quando atende o telefone.
Hoje eu lhe respondo: ficamos órfãos de uma boa leitura mestre.
Quando adolescente, morando em Carpina, sempre adormecia ouvindo um radinho de pilha sintonizado na Rádio Difusora de Limoeiro. O programa era Trenzinho do Bastião, cuja música de fundo era Maria Filó, do saudoso, Luiz Vieira. Dava asas a liberdade ao ouvir o refrão:
"Lá vai o danado do trem
Levando Maria Filó
Nem sequer dá um apito
Pra eu que fiquei tão só...".
Ontem, quando José Joaquim escreveu que o trem havia chegado a última estação, percebi que essa parada era mais dolorosa que a falta de apito na saÃda do comboio.
Abaixo, a mensagem de despedida do blog de jj:
"Enfim uma decisão sobre a vida de um blog que se tornou uma referência em nosso Estado e com penetração no PaÃs.
Para uma boa reflexão paralisamos as postagens no dia 16 de dezembro passado, e depois de um pouco mais de um mês chegamos a conclusão que estávamos no fim da linha, na última estação.
Apesar dos milhares de acessos durante os seus dez anos, e todos de pessoas de bom nÃvel que expressavam os seus pensamentos com os ótimos comentários, chegamos ao limite máximo de absorção e a uma conclusão, a de que não existe salvação para o futebol brasileiro por conta da manutenção de um sistema da era do rádio, quando não entenderam que o mundo se tornou globalizado.
Os finados estaduais mostram de forma clara essa realidade. A cartolagem a cada foi sendo deteriorada e isso está levando o esporte ao caos. Na imprensa os pensadores são poucos, e uma boa parte está atrelada aos veÃculos de comunicação que determinam os rumos a serem tomados. Os bons colunistas desapareceram. Vamos postar o primeiro artigo do blog publicado no dia 10 de julho de 2010, que comprova uma estagnação do esporte da chuteira após 10 anos.
Aos nossos visitantes, o muito obrigado pelas suas presenças diárias". (JOSà JOAQUIM PINTO DE AZEVEDO).
CLAUDEMIR GOMES
Os clássicos são os melhores pratos servidos no banquete do Campeonato Pernambucano, mas é preciso que os ingredientes sejam de qualidade, coisa que não aconteceu neste domingo, nos Aflitos, numa prova inconteste de que a Federação Pernambucana de Futebol se equivocou redondamente ao programar tal confronto para a rodada de abertura do Estadual. O resultado de 1x1, com dois gols contra, e erros crassos de arbitragem, são sintomas de que o modelo da disputa deve ser revisto.
Não sigo o raciocÃnio daqueles que criaram a expectativa de que o Náutico tinha vantagens que lhes levariam a ser superior ao adversário. Os amistosos disputados pelos alvirrubros, no perÃodo de preparação, nos revelaram outra realidade.
Sabemos que, quando os dois técnicos puderem contar com todos os profissionais dos respectivos elencos, tanto o Sport, quanto o Náutico, estarão em campo com formações bem diferentes das que utilizaram neste clássico do açodamento. A sensação que ficou foi de que foram usados ingredientes sem qualidade para fazer o bolo ao qual faltou cereja.
Os gols da partida foram produtos da fatalidade. Gols contra! Pura falta de sorte, nada mais que isso.
Ah, eu já sabia!
Esta frase sempre ecoa nos estádios quando os times referendam créditos com vitórias. Alvirrubros e rubro-negros que ficaram em casa devem estar repetindo o "eu já sabia". Pouco mais de 7 mil torcedores marcaram presença nos Aflitos para assistirem o clássico, sendo este mais um detalhe que atesta o fracasso do modelo em uso. O jogo do Santa Cruz com o Petrolina levou mais de 11 mil torcedores ao Arruda. O clássico foi avaliado pelos torcedores como produto de segunda qualidade.
O jogo foi muito ruim tecnicamente. Isto é fato. Portanto, é inaceitável o técnico do Náutico, Gilmar Dal Pozzo, afirmar na coletiva que o "jogo foi de alto nÃvel". à chamar todos os que estavam presentes ao estádio de burros, inclusive os analistas. Vale salientar que o seu time atuou 35 minutos com um homem a mais, mesmo assim não conseguiu construir uma vitória.
Pelo lado do Sport as reclamações foram em relação aos erros de arbitragem cometidos pelo inexperiente Michelangelo Almeida Júnior. Deixou de marcar um pênalti a favor do time leonino. Em relação ao gol anulado do Sport, o erro deve ser atribuÃdo ao seu assistente. Michelangelo tem qualidades, isto é indiscutÃvel, mas ainda não tem embocadura para tocar o instrumento que lhe colocaram nas mãos, hoje nos Aflitos.
Parodiando nossa ex-presidenta, podemos dizer que, "ninguém ganhou, ninguém perdeu. Todos perderam". Sim, todos perderam porque está mais que provado que se programar um clássico para a primeira rodada do campeonato é uma imprudência que transforma o espetáculo em grotesco.
CLAUDEMIR GOMES
Desde cedo, ainda no curso primário, aprendemos as diferenças entre os movimentos de rotação e translação. Uma coisa simples, básica, mas que nos dar a noção precisa sobre avanço e evolução. A rotação imprime uma dinâmica, uma velocidade, mas sem a translação não se sai do lugar. O movimento é fixo, repetitivo, sem evolução.
As notÃcias que marcam este inÃcio de ano no futebol pernambucano, nos deixam com a sensação de que vivemos num perfeito movimento de rotação.
Numa surfada pela internet, me deparo com uma matéria sobre as taxas excessivas que são cobradas pela Federação Pernambucana de Futebol. Foi inevitável voltar aos anos 70 do século passado, quando iniciei como repórter, na equipe de esportes do DIÃRIO DE PERNAMBUCO, e o mestre Adonias de Moura me escalou para fazer uma matéria com João Caixero de Vasconcelos.
A época, Caixero vivia numa "briga" permanente com o então presidente da FPF, Rubem Moreira, por conta das taxas cobradas pela entidade. O mote da discussão era que "os clubes que promoviam os espetáculos estavam cada dia mais endividados, enquanto a entidade vivia com as burras cheias de dinheiro".
O tempo passou, não houve mudanças neste sentido, mas a rotação aumentou: na época de Rubem Moreira a taxa cobrada era de 2%; Carlos Alberto Oliveira subiu para 5% e hoje é de 8% sobre a arrecadação bruta dos jogos. O número de taxas fixadas pela FPF é assustador. Nos dias de hoje, na entidade da Rua Dom Bosco se paga até para respirar.
Como mantenho o hábito de ler jornal impresso, me deparo com a manchete de que na primeira rodada do Pernambucano 2020 teremos o clássico Náutico x Sport. Uma reedição do que tivemos há 24 anos e não deu certo. à o movimento de rotação, onde nada se cria, tudo se repete. Num campeonato onde nada de novo acontece, o tÃtulo sempre fica nas mãos de um dos clubes da Capital - Náutco, Sport ou Santa Cruz - você serve um dos pratos principais antes da entrada. Corre o risco de tirar o apetite de uma das torcidas.
Ligo o radio e observo o esforço dos apresentadores das resenhas esportivas, e dos repórteres que cobrem os clubes em "vender" o repatriamento de jogadores que já estão descendo a ladeira como grandes investimentos. Isso é uma prática por demais antiga. Antes, quando a mÃdia era mais crÃtica, se dizia que os clubes estavam investindo em "bondes velhos". Alguns deram respostas positivas como Mazinho, Edson Ratinho, Dario Peito de Aço... Outros não corresponderam as expectativas, e um grande número vieo apenas fazer turismo na Capital Pernambucana. Mas a receita segue a mesma.
O cenário de cinquenta anos atrás apontava o mesmo direcionamento que observamos no cenário atual: nossos clubes seguem com o perfil de formadores, mas revelam muito pouco. Há exemplos incontestáveis na história dos nossos clubes, de que, quando investiram acertadamente na prata da casa, e em jogadores da região, formaram elencos fortes e vencedores. Foram épocas marcantes para tricolores, rubro-negros e alvirrubros, que se foram com o tempo.
Pra dizer que não falei das flores, o trabalho da imprensa esportiva pouco ou quase nada mudou. O movimento é de rotação. As resenhas mantém o clichê de 50 anos, com menos criatividade e credibilidade porque o nÃvel do material humano não se pode comparar. Antes existia um timaço de feras. Hoje temos poucos profissionais qualificados e um time de garotos servindo de porta-voz para os clubes. Quem pauta os noticiários são as assessorias de imprensa que enviam as mesmas gravações para as emissoras.
Ufa! Analisar movimento de rotação até nós ficamos chatos e intolerantes.