Histórico
Náutico
Para desembarcar dos anos 60
postado em 03 de janeiro de 2018

CLAUDEMIR GOMES

 

Edno Melo e Diógenes Braga, presidente e vice do executivo, eleitos na última eleição, realizada em meados do ano passado, tomam posse nesta quarta=feira, no Clube Náutico Capibaribe, com a missão de transportar o clube alvirrubro dos anos 60 para os dias atuais.

Os anos 60 chegaram no ritmo do rock, à época capitaneado por Elvis Presley, mas logo surgiram bandas como os Beatles e Rolling Stones. A era de Aquário, do LSD, dos Hippies... A juventude dava as cartas e colocava o mundo de cabeça para baixo. Os jovens franceses iniciavam as greves estudantis e logo passaram a ter o apoio da classe trabalhadora num movimento que parou o país e serviu de alerta para o mundo. A década foi marcada pelos primeiros transplantes de coração. No Brasil a Jovem Guarda sacudia a cena musical. O futebol brasileiro encantava o mundo com sua arte. O Botafogo de Nilton Santos, Garrincha e Zagalo; o Santos de Gilmar, Pelé, Coutinho e Pepe; o Palmeiras de Djalma Santos, Dudu e Ademir da Guia; o Náutico de Lula, Gena, Salomão, Ivan, Nado, Bita, Nino e Lala. Esquadrões de ouro.

Em 1960 o Náutico conquistava um título que funcionou como um marco de mudança na sua história. Era o prenúncio de que o clube alvirrubro estava em sintonia com as mudanças que estavam por vir nos anos seguintes. Em 1963 começava a escalada do hexa. A sequência de conquistas de seis títulos estaduais era um fato inédito e revolucionário, tanto quanto os movimentos culturais que colocavam o mundo de ponta cabeça. O time dos Aflitos era uma máquina de fazer gols. Foi o primeiro clube pernambucano a disputar uma edição da Libertadores da América. Foram sete títulos(1960, 1963, 1964, 1965,1966, 1967 e 1968) conquistados em nove edições do Pernambucano, com uma marca que perdura até hoje: HEXA É LUXO.

O tempo passou e os alvirrubros seguiram dormindo em berço esplendido. Esqueceram que precisavam ser contemporâneos do Século XXI. A luta dos alvirrubros contra os próprios alvirrubros levou o clube a ser prisioneiro em sua própria redoma. O romântico Estádio dos Aflitos, palco das grandes conquistas do passado, só não entrou em ruínas por conta da ação individual e a persistência do incansável Rafhael Gazzaneo, que contou com a ajuda dos torcedores para iniciar um projeto que não foi concluído por falta de um apoio mais efetivo. Uma série de gestões desastrosas levou o clube a se apequenar. Nos últimos 50 anos foram adicionados apenas oito títulos estaduais ao seu acervo.

A mudança de paradigma é o grande desafio da dupla, Edno Melo e Diógenes Braga. Não é fácil. Principalmente porque o ano de 2018 marca o cinquentenário da conquista mais icônica da centenária história do clube. O hexa continua sendo um luxo que tem que ser preservado apenas como uma doce lembrança. O novo tempo exige uma gestão moderna, equilibrada com o futebol. Se não houver um equilíbrio entre o sucesso do campo e o sucesso da gestão não acontece o crescimento. O Náutico dos anos 60 foi tão revolucionário quanto a pílula anticoncepcional, descoberta naquela época. Mas ninguém se preocupou em dar sustentação ao crescimento. Diferentemente de outras agremiações que se afirmaram como grandes clubes do futebol brasileiro, faltou ao Alvirrubro dos Aflitos o último salto.

Tirar o Náutico do lugar comum em que patina há cinquenta anos é o desafio dos novos dirigentes. Sucesso a ambos. N A U T I C O.

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Acontece
No aguardo das mudanças
postado em 02 de janeiro de 2018

CLAUDEMIR GOMES

 

A cada início de ano tenho por hábito reler a poesia O TEMPO, de Carlos Drummond de Andrade, onde ele diz:

"Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um individuo genial.

Industrializou a esperança,
fazendo-a funcionar no limite da exaustão.

Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar
e entregar os pontos.

Aí entra o milagre da renovação
e tudo começa outra vez, com outro número
e outra vontade de acreditar
que daqui para diante tudo vai ser diferente..."

Nesta terça=feira, primeiro dia útil de 2018, automaticamente traço um paralelo com o último dia da temporada 2017. Evidente que nada de novo encontrei, exceto o desejo de mudança. Todos aguardam dias melhores e sonham com transformações que são impossíveis de acontecerem.

Tal como tem ocorrido nas últimas temporadas, o editorial do Jornal do Commercio, no primeiro dia ano, é assinado pelo empresário, João Carlos Paes Mendonça, presidente do Grupo JCPM. No bem aprimorado texto, ele ressalta Rui Barbosa, que disse certa vez: "Existe na política brasileira, um vício secreto e inveterado que corrói todos os regimes, inutiliza todas as reformas, confunde na esterilidade todos os partidos. Esse defeito ordinário e incurável dos homens públicos chama=se insinceridade profissional".

O vício da insinceridade migrou para outros setores da sociedade brasileira, não sendo privilégio exclusivo da política. No desporto passou a ser condição sine qua non para os gestores, principalmente no futebol. Ciente do que se passa na CBF, nas Federações, e na maioria dos clubes, fica difícil alimentar bons sentimentos em relação a mudanças.

A maioria das pessoas não atinge as metas pessoais traçadas para a temporada por falta de planejamento. Antes de definir os fins, estude os meios para poder ter êxito. A falta de pragmatismo dos dirigentes inviabiliza os planejamentos nos clubes. Diante de tal realidade fica difícil acreditar no "milagre da renovação" citado por Drummond.

Não sou pessimista, me esforço para acreditar em mudanças e dias melhores, mas a "insinceridade profissional" dos nossos dirigentes me leva a ver tudo em tons de cinza, como acontecia no período da guerra. Estou no aguardo das novas cores que irão definir os novos cenários.

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