Artigo escrito por Ricardo Araújo,
publicado em seu blog Novas Arenas.
Existe uma máxima conhecida dos Titãs cujos versos iniciais dizem, ¨Eu não sei fazer música, mas eu faço, eu não sei cantar as músicas que faço, mas eu canto... ninguém sabe nada, ninguém sabe nada¨.
Penso sempre nela quando leio, ou vejo/ouço certos jornalistas que resolvem opinar sobre asuntos que não entendem, como se fossem uma espécie de ¨licença poética ao futebol dentro das quatro linhas". Eu não entendo desse assunto, mas tenho o direito de dar o meu pitaco. Perfeito. Minha crÃtica é que a liberdade de expressão não implica em falta de noção, e isso é o que me incomoda.
Recentemente o Real Madrid divulgou seus balanços da temporada 2012/2013. Neles nada que os profissionais que acompanham o mercado não soubessem. Uma dÃvida imensa, lastreada por receitas imensas. Nada demais.
Pois leio alguns jornalistas-colunistas, comparando o exemplo do Real com o de alguns de nossos clubes, e classificando as finanças do clube espanhol como ¨vergonhosas¨, ¨acintosas¨, ¨desastrosas¨e outras ¨osas¨. Eles confundem gestão financeira do clube (bastante competente), com a gestão do futebol (bastante controversa e de resultados duvidosos), para fazer afirmações risÃveis e comparações até constrangedoras.
Eu também acho que o Real erra demais na gestão do elenco. Florentino Perez com uma polÃtica de ¨talonário¨, entende que o Real por ser o clube de futebol mais rico do planeta, precisa ter sempre melhores e mais famosos jogadores em seu elenco. Criou a estratégia galática onde o marketing tem tanta importância (ou mais) que os resultados. Em sua primeira gestão (2000/06), foi bem sucedido. Ele ¨gastou¨ muito, mas venceu muito. Mas nessa sua segunda de 2009 para cá, ele só gastou muito, pois venceu muito pouco. Essa cultura ¨marqueteira¨, porém, em 13 anos rendeu dividendos, transformando o clube numa poderosa máquina de ganhar dinheiro (e, por favor, não estamos analisando se os torcedores preferem tÃtulos ou performances financeiras).
E é na dificuldade de entender e separar as duas coisas, que esses jornalistas escorregam feio. Apesar de inseridos no mundo dito capitalista, eles não entendem bem o significado de termos como ¨instrumentos de captação¨,¨polÃtica de crédito¨, ¨refinanciamento de dÃvidas¨, etc. No mundo deles, a única gestão financeira possÃvel é a da vendinha da esquina, que investe apenas com 100% de capital próprio, não cria 1 centavo de dÃvida.
Um mundo em que o banqueiro é ¨escroque¨, e termos como rolagem de dÃvida e alavancagem são pura ¨picaretagem¨. Ora, o Real possui de fato uma dÃvida imensa, entretanto suas receitas correspondem a 70% desse valor, o que o torna bastante financiável e relativamente fácil de gerir. O clube fatura mais do que o suficiente para pagar o carregamento da dÃvida e refinanciá-la com conforto. O Real paga absurdos 100 milhões de euros por um jogador comum, mas não irá ¨quebrar¨ por causa disso.
Diferentemente de vários clubes brasileiros, cujas divÃdas equivalem a 4 ou 5 vezes o seu faturamento anual, tornando as gestões das mesmas uma tarefa de gincana. Portanto, comparar as duas situações a um denominador comum é mais que um equÃvoco, é ignorância pura e simples.
Mas, o que fazer? Vivemos tempos em que o que vale é o entretenimento. Em que escritores, diretores de cinema e autores de novelas, comentam com autoridade sobre gestão e marketing esportivo, na televisão, no rádio, na internet e até em palestras. E o pior é que a audiência tem platéia garantida, e acabam, como formadores de opinião, emburrecendo quem sabe menos que eles.
Seria bom que os empreendedores educacionais aproveitassem essa oportunidade e lançassem cursos básicos e intensivos de Gestão, Finanças, Contabilidade e Marketing, por exemplo, para jornalistas esportivos, e porque não, para atores e diretores de teatro, que assim poderiam exercer o sagrado dever de opinar ¨sobre tudo¨, com um pouco mais de propriedade.
Mas atenção. Se você é jornalista e não se identifica com o texto, não fique aborrecido e não vista a carapuça.

Folha de Pernambuco - 02/06/2013










