* Artigo escrito
por José Luiz
Portella
Diante da perda irreparável de mais um torcedor,
apenas mudança marcante no futebol pode fazer algum sentido.
Quatro grandes modificações são possÃveis:
1- Acabar com a cadeia toda que alimenta tal situação. Não é um culpado ocasional ou uma dúzia de irresponsáveis. A falta de segurança no futebol e impunidade dos que infringem as leis e o bom senso são produtos de um sistema bem amplo onde parte da imprensa também é protagonista. Desde a negligência como os clubes tratam as respectivas relações com seus torcedores civilizados; parcela da imprensa que promove e dá guarida à s torcidas organizadas e seus componentes mais célebres, geralmente os que mais contribuem com a violência; a maciez como são tratados certos dirigentes quando vão a programas esportivos, como se nada tivessem com os equÃvocos; o financiamento do carnaval, a glamourização das organizadas; a falta de ação dos dirigentes brasileiros que comandam a Conmebol, e tudo mais. Essa cadeia que sustenta a insegurança tem que ser quebrada. Cada um tem que assumir sua parte e deixar de se esconder no conforto da omissão.
2- Reestruturar a Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol), que é a maior responsável por toda a tolerância que estimula a violência, o desconforto, os gramados ridÃculos, a chuva de pilhas. Sem a menor punição. O Brasil lÃder continental deveria ter a coragem de conduzir a mudança. Ou deixar a Conmebol. Sempre se recuou. Sempre se cedeu subserviente e interessadamente.
3- Os clubes devem oficializar formas de participação do torcedor. O estatuto do torcedor prevê três opções. Os clubes as ignoram. Ser sócio-torcedor não é só ter desconto para ir ao estádio; é ter voz na vida do clube, dentro de regras conhecidas, permitindo manifestações de opinião civilizadas para serem levadas em conta pela diretoria. Não é para torcedor acuar jogador nem dar ordem a dirigente; é para ser ouvido oficialmente. Isso acaba com o monopólio das organizadas como supostos representantes.
4- Ir ao estádio tem que ser bom. Fácil, prazeiroso e confortável. O torcedor é o cliente principal. à a base de prestÃgio do clube, a força de voz e consumo. Tem que ser tratado com respeito por questão de conceito, de filosofia. Porque todos tratam bem o cliente. Não é para ser lembrado só no clamor de uma desgraça. O futebol é um espetáculo. O torcedor é o mantenedor. Não pode ser descuidado por ser um cliente que não muda de marca. Os atrasados dirigentes se lixam para o torcedor, abusando da fidelidade. à anacrônico.
Se mudarmos essas quatro relações, estabelece-se um marco na história do futebol sul-americano. Que sangra em populismo, manipulação e atraso.
Nada vai reparar a vida perdida, mas evitará outras perdas. Criar um espÃrito de dignidade, hoje inexplicávelmente ausente.
* José Luiz Portella é engenheiro civil, especializado em gerenciamento de projetos, orçamentos públicos, transporte e tráfego. Foi secretário-executivo do Ministério do Esporte.

Folha de Pernambuco - 02/06/2013







