Anélio Barreto- Publicado na Folha de São Paulo em 03/02/2013
Em uma disputa contra o Milan, no Maracanã, pelo Mundial de Clubes, um dos
assistentes do técnico Lula, do Santos, perguntou a Almir Pernambuquinho se ele
queria tomar uma bola (dexamil).
"Por que não iria querer? O bicho era de 2.000 cruzeiros, o que valia
um fusca zero. Disse: me dá uma aÃ. Eu fui um marginal do futebol."
Assim Almir Morais Albuquerque iniciou seu depoimento gravado para a
Biblioteca Esportiva Placar, da Editora Abril, transcrito no livro "Eu e o
Futebol". No próximo dia 6, completam-se 40 anos desde que foi
assassinado.
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Para João Saldanha, o técnico que convocou a seleção de 70, Almir foi o
jogador do futebol brasileiro mais completo depois de Pelé. Era técnico, hábil
e rápido.
Mais tarde, quando contratado pelo Corinthians, foi chamado de Pelé Branco.
Começou a carreira no Sport, em 1956, e jogou também por Vasco, Corinthians,
Boca Juniors, Genoa, Santos --onde sagrou-se bicampeão do mundo--, Flamengo e
América-RJ, time em que encerrou sua carreira, em 1968.
Voltando à disputa com o Milan. No primeiro jogo, em Milão, o Santos perdera
por 4 a 2.
Amarildo, dois gols, Trapattoni e Mora anotaram pelo time italiano. Pelé marcou
os dois do Santos.
Amarildo, entusiasmado com o resultado, declarou à imprensa que Pelé
"já era". E aÃ, o problema --o principal problema, para Almir.
"Vou jogar por mim e pelo negão", disse. Almir estava determinado
a acertar Amarildo porque, segundo ele, nenhum jogador que conhecesse futebol
podia criticar Pelé.
No segundo jogo, em 14 de novembro de 1963, aos 17min, Altafini (o Mazzola,
que jogou no Palmeiras e na seleção brasileira em 1958) e Amarildo já haviam
feito dois a zero para o Milan.
A virada começou aos 4min do segundo tempo, quando Pepe, cobrando uma falta
da intermediária, soltou um canhão e Ghezzi, o goleiro do Milan, mal teve tempo
de ver a bola entrar.
Quatro minutos depois foi Mengálvio, desviando de cabeça um cruzamento de
Dalmo. Lima aumentou para 3 a
2 e Pepe, com outro canhão em cobrança de falta, completou os 4 a 2.
AÃ, diz Almir em seu depoimento, veio aquele que seria um dos momentos mais
emocionantes de sua vida. Pelé foi abraçá-lo e disse: "Almir, você é
grande".
Na gravação, Almir desabafa: "Pelé talvez nem se lembre, mas aquele
abraço, aquelas palavras, me deram alma nova para o segundo jogo".
Pelé não se esqueceu. Diz que Almir era um dos melhores amigos que tinha no
Santos. "Na noite desse jogo no Maracanã, eu estava machucado e não
joguei. No final do jogo, entrei em campo para dar um abraço nele porque foi um
guerreiro dentro de campo. Jamais esquecerei".
Pepe também se recorda daqueles dias. Diz que o técnico Lula poderia ter
escalado Toninho Guerreiro no lugar do Pelé. Mas preferiu Almir porque os jogos
seriam no Maracanã, que era a casa dele. "Ele foi fundamental."
Dois dias depois, também no Maracanã, haveria o desempate. O clima, segundo
depoimento de Almir, era ainda pior do que no jogo anterior. Os italianos
acusaram o juiz, o argentino Juan Brozzi, de estar vendido ao Santos. E
provavelmente estavam certos, mas o juiz foi mantido.
Segundo Almir, Nicolau Moran, do estado-maior do Santos, foi a ele e lhe
disse que o juiz não faria nada. "Você pode fazer o que quiser dentro de
campo. Você é rei lá dentro."
"Deixa comigo", respondeu o jogador.
Almir nunca negou que foi um jogador violento. Mas também não se intimidava
quando a violência era contra ele. E nessa disputa com o Milan temos dois
exemplos.
A primeira vÃtima, claro, foi Amarildo. Logo no primeiro minuto, ele pegou
uma bola e desceu pela esquerda. Almir correu na direção dele, pediu cobertura
a Ismael e a Mauro e gritou: "Deixa esse filho da mãe comigo".
"Foi um toco só. Ele caiu se contorcendo."A segunda vÃtima foi o
goleiro, Balzarini, escalado no lugar de Guezzi.
Almir conta: "Muito corajoso, ele se atirou numa bola que estava mais
para mim. Não tive tempo de evitar o acidente nem estava com essa preocupação.
Chutei a cabeça dele. Quando vi o sangue correr, me afastei, pensando que o
tivesse inutilizado. Os italianos me cercaram, mas eu me fiz de vÃtima".
O juiz não deu nada.
E continua Almir: "No segundo tempo, Lima fez um cruzamento pelo alto,
eu estava ali pela marca de pênalti e vi que ia chegar um pouco atrasado na
bola. Vi quando Maldini levantou o pé, tentando cortar o lançamento. Tinha que
tentar tudo. Meter a cabeça para levar um pontapé de Maldini, correndo o risco
de uma contusão grave, ficar cego, até mesmo morrer, porque ele vinha com tudo.
Meti a cabeça, Maldini enfiou o pé e eu rolei de dor pelo chão. O argentino
Brozzi não conversou: pênalti".
Após mais de dez minutos de protestos dos italianos, Dalmo fez o 1 a 0.
Ainda Almir: "Até o fim, foi paulada de parte a parte. Mas o time todo
queria acertar o Amarildo. Até que, antes da volta olÃmpica, Ismael foi lá e
deu-lhe uma cabeçada".
Outro jogo que entrou para história de Almir, e do futebol brasileiro, foi
aquele em que ele, jogando pelo Flamengo, disputou uma final contra o Bangu, em
18 de dezembro de 1966.
O Flamengo tinha alguns problemas. Um deles era o ponta direita Carlos
Alberto, que estava machucado, mas insistia em jogar. Almir tentou
convencê-lo a desistir, mas não conseguiu.
Outro, Almir tinha uma séria desconfiança de que seu goleiro estava comprado
pelo Bangu. E mais um, que ele só descobriu quando entrou em campo: o juiz
estava comprado. Sansão --esse o apelido dele-- ameaçou expulsá-lo antes de o
jogo começar.
No primeiro lance, o lateral esquerdo do Bangu, Ari Clemente, atingiu
violentamente Carlos Alberto. Sansão não deu falta nem advertiu Clemente. E o
Flamengo passou a jogar com dez homens, porque Carlos Alberto mal se arrastava
em campo (naquele tempo o único que podia ser substituÃdo era o goleiro).
"Com pouco mais de 20 minutos, o Bangu deu outra entrada para quebrar.
O atingido foi Nelsinho, peça vital no nosso meio-campo. Ele terminou o primeiro
tempo capengando e no segundo praticamente apenas fez número".
"Mas o desastre maior foi o nosso goleiro, Valdomiro. Tomamos dois gols
em três minutos."
No depoimento, Almir conta que, no segundo tempo, logo ao 3min, levaram
outro gol do Bangu. "Houve um lançamento para Paulo Borges, que marcou um
dos gols mais bonitos da história do Maracanã. Ele deu um chapéu em nosso
zagueiro Ditão, para um lado, para o outro e, com a bola ainda no ar, deu um
chute violentÃssimo. Era o fim."
Aos 25min, Ladeira, atacante do Bangu, deu um soco na cara de Paulo
Henrique, que, segundo Almir, era "uma dama dentro de campo".
Almir correu para acertar Ladeira, que fugiu. No meio do caminho o zagueiro
Itamar, do Flamengo, com 1,90
m de altura, deu um salto e meteu o pé no peito de
Ladeira. Então Almir chegou e foi chutando. Ari Clemente veio por trás e
deu-lhe um soco.
"AÃ eu vi que eles queriam brigar, e topei a parada. Comecei a
distribuir socos e pontapés." Quando essa briga acabou, e Ladeira foi
retirado de maca, Almir saiu de campo --sabia que seria expulso. Ao passar pelo
banco do Flamengo, ouviu uma ordem, disse que nem sabe de quem:
"Volta, Almir. Acaba com essa palhaçada deles."
Ele voltou para o centro de campo. Nisso, cerca de 100 mil pessoas, a
torcida do Flamengo (outras 43 mil eram do Bangu) começaram a gritar: porrada,
porrada, porrada.
Ubirajara, goleiro do Bangu, ameaçou Almir. Disse que lá fora resolveriam.
Almir respondeu dando-lhe um soco no estômago, e recebeu um soco de Ari
Clemente.
"Eu estava cercado, mas fui enfrentando todos. Um pontapé num, um soco
noutro." Sansão expulsou cinco jogadores do Flamengo e quatro do Bangu. O
Flamengo ficou sem jogadores para terminar a partida --o mÃnimo permitido é de
sete jogadores. Sansão deu o jogo por encerrado, o Bangu era campeão.
TIROTEIO
O jornalista e escritor Mário Prata, que estava, na noite de 6 de fevereiro
de 1973, em um boteco ao lado do bar Rio-Jerez, na Galeria Alaska, em
Copacabana (barra pesada), conta que em uma mesa do mesmo Rio-Jerez estavam
Almir, uma namorada e um casal de amigos.
Na mesa de trás, três portugueses. Na frente da mesa de Almir, os atores
gays do espetáculo "Dzi Croquetes", ainda maquiados depois de uma
apresentação.
Os portugueses resolveram caçoar dos atores, chamando-os de veados,
paneleiros e outras coisas. Almir não gostou do que ouviu e resolveu defender
os atores, que não reagiram.
Começou a discussão, Almir agrediu um dos portugueses, até que um deles
sacou um revólver, o amigo de Almir sacou outro e o tiroteio começou no
calçadão da avenida Atlântica.
Os outros dois portugueses sacaram as armas. Os atores gritavam. Foi uma
correria. Mesas foram viradas e ao menos uns 30 tiros disparados.
Quando o tiroteio terminou, lá estava Almir, no chão, já morto, com um tiro
na cabeça. Os portugueses saÃram correndo. Debaixo de um coqueiro, o amigo de
Almir, o comerciante Alberto Ribeiro, agonizava com um tiro nas costas. Morreu
ao dar entrada no hospital. Outro amigo de Almir, o agente de investimentos
Elói de Lima, foi ferido quando fugia, o que derruba a defesa do assassino,
Artur Garcia Soares, de que agiu em legÃtima defesa.
Detido, ele deu sua versão. Na época, falou-se em expulsá-lo do paÃs. Outros
queriam julgá-lo aqui. O fato é que o caso resultou em esquecimento: não se
sabe o que foi feito de Artur.
Almir tinha 35 anos quando foi morto. Como diz Mário Prata, esta história tem
um lado bonito: um machão como ele morrer defendendo um grupo gay.