Artigo de Cristiano Nascimento(*) para a revista COLETIVA da Fundação Joaquim Nabuco
Até os anos que precediam a Copa de
2014, o futebol no Brasil era um esporte calcado na desigualdade de
condições entre as equipes da casa, mandantes dos jogos, e as
visitantes. Em verdade, jogavam treze jogadores, de um lado, contra
onze, do outro.
Claro que existiam algumas restrições
às atuações desses jogadores extras: eles não calçavam chuteiras, não
pisavam no gramado e não podiam tocar na bola. Mas não precisavam
apresentar desempenho fÃsico excepcional ou chegar pontualmente aos
treinos. Não atendiam às ordens do técnico, nem deviam respeito ao juiz.
Explico. Ã sabido que o time da casa
tinha a vantagem de inÃcio de ter um jogador a mais - a torcida - sendo
essa uma associação consagrada. Até jornalistas usam a expressão "décimo
segundo jogador". Mas defendo que existia ainda mais um outro, externo
ao gramado: os espaços dos estádios dos clubes que, quando incorporados
ao espÃrito clubÃstico, contavam como mais um elemento de vantagem e
garantiam os tais treze mandantes contra os onze, de fora.
A ligação entre o brasileiro torcedor
de qualquer clube com um mÃnimo de tempo de história e o seu estádio
comparava-se à sensação de entrar e sair de sua casa. O campo de jogo e
sua relação com a estrutura fÃsico-espacial circundante - as
arquibancadas, vestiários, cadeiras - era particular a cada equipe e,
principalmente, a cada torcida.
O torcedor, no seu estádio, estava em
um ambiente que podia ser comparado a um templo previamente consagrado Ã
honra do seu clube e ao compartilhamento de sentimentos de identidade
com os seus pares. Mas, mais do que isso, essa casa lhe era cara porque
com ela guardava uma relação de cumplicidade. Ela presenciou de tudo ao
longo da sua história e se tornou um espaço confidente de momentos tão
importantes quanto tantos mais vividos em outros ambientes por onde
passou: seu quarto e sua cama, seu escritório ou oficina, um balcão ou
uma mesa de bar. Era um lugar onde se sentia seguro, onde depositava
esperanças tanto de redenção - na vitória - como de compaixão - na
derrota.
Usava-se o estádio como um
dispositivo destinado a defender princÃpios e caracterÃsticas que ele
entendia como partes suas. Menos do que o culto a uma imagem ou uma
relação mimética com os edifÃcios - os estádios brasileiros nunca foram,
em termos gerais, belos - o que se manifestava era a catarse, a
identificação pela imersão no ambiente do lugar.
Nesse espÃrito, a sua casa favorecia a
si e dificultava a vida do visitante. O adversário não podia se sentir
bem nem bem recebido. Além da técnica do futebol, existia a pressão
psicológica que impelia à superação e oprimia o adversário.
Além de tudo, eram os donos da casa
que sabiam como melhor utilizá-lo - onde se posicionar para insultar ou
ovacionar um ou outro, para aparecer melhor na foto ou na imagem da
televisão ou para que o técnico do seu time tivesse mais probabilidades
de escutar os seus apelos, conselhos ou ralhas.
à verdade que falo a partir do meu
universo futebolÃstico completamente enviesado. Como torcedor do Clube
Náutico Capibaribe, falo inevitavelmente do ambiente que conheço tão bem
- o estádio dos Aflitos. Mas, como morador do Recife, termino também me
sentindo à vontade para falar dos outros dois estádios rivais - Ilha do
Retiro e Arruda, do Sport e Santa Cruz, respectivamente.
Os Aflitos - edifÃcio de dimensões
reduzidas inserido no bairro de mesmo nome, aonde se chega rapidamente a
pé, sem cerimônias, como quem vai à padaria ou ao bar da esquina -
fazia-nos conseguir o máximo de proximidade com o gramado e dava-nos um
alto grau de familiaridade - para não dizer intimidade - com os atletas
em campo.
Só os Aflitos nos oferecia as
possibilidades de variados nÃveis de interação com o futebol.
Rapidamente, podÃamos estar colados ao alambrado, a uma distância pouco
maior do que a de um braço para o jogador rival no momento de bater o
escanteio e, logo depois, posicionarmo-nos no meio do lanço de degraus
da arquibancada, compondo a massa que grita em coro; ou, em seguida,
subirmos aos seus pontos mais elevados, para uma melhor leitura de jogo e
a tessitura de uma análise mais aprofundada dos erros e acertos do
esquete com o colega de sofrimento ao lado.
E, de modo equivalente, como não
fazer menção ao cenário aterrador de cores que nos ameaça na
arquibancada frontal - e quase vertical - da Ilha do Retiro? Ou ao
agigantamento sincronizado da multidão que ocupa loucamente os dois
anéis do Arruda?
O décimo segundo jogador, a torcida,
entrava de fato no certame como elemento de ataque quando tinha o apoio
do seu estádio como elemento de defesa. Quando juntos, eram como
qualquer dupla de craques em entrosamento. Torcida e estádio em
comunhão, indissociáveis.
Como futebol e vida são uma coisa só -
segundo Arrigo Sacchi, "a coisa mais importante dentre as menos
importantes" tal fenômeno não ocorria apenas no Recife, mas é próprio
da cultura clubÃstica. Lembraria, por exemplo, o cenário ironicamente
poético construÃdo por Nick Hornby no seu livro Fever Pitch
(1992), na descrição de passagens da vida do autor ligadas a partidas de
futebol e às suas experiências nos estádios fossem elas ligadas ao
time, o Arsenal, ou aos demais clubes e seleções.
Mas o texto de Hornby é embebido de
sensação de perda e nostalgia. Sua vida futebolÃstica, no livro, vai até
1991 - quando os estádios da Grã-Bretanha, e do Mundo, ainda não haviam
se transformado tanto.
A partir de meados da década de 1990,
os estádios ingleses passaram por reformas radicais - ou mesmo
substituições para resolver problemas de segurança. Acidentes
envolvendo pisoteamento e esmagamento de torcedores desesperados ou a
violência da paixão desenfreada dos hooligans levaram as
autoridades do futebol inglês a definir parâmetros arquitetônicos
rÃgidos. Com relação ao conforto e segurança, a aplicação de tais
parâmetros se revelou um sucesso, passando a se imprimir uma pressão
pela homogeneização das caracterÃsticas fÃsicas e espaciais dos
estádios.
Também as OlimpÃadas de 1992, em
Barcelona, tornaram-se um evento paradigmático e transformador das
expectativas sobre os torneios. Os jogos trouxeram novos equipamentos,
mas também foram associados a um exitoso plano de requalificação de
áreas degradadas da cidade, melhoria de infra-estruturas e de seu
reposicionamento no cenário turÃstico mundial.
Na mesma época, em 1994, a Federação
Internacional de Futebol Associado (FIFA) descobriu, com os Estados
Unidos paÃs - pouco interessado em futebol, mas muito competente da
geração de lucros com eventos - que uma Copa do Mundo pode ser um
produto interessante ao capital financeiro internacional, e a realização
de uma partida é um dos momentos componentes de um ciclo de publicidade
que usa o futebol como meio para se viabilizar.
Uma Copa, agora, é vendida como um
pacote de ações salvadoras das cidades problemáticas em paÃses em
ascensão econômica - sendo o Brasil, um deles. E seu produto-âncora são
os novos estádios, montados no modelo inglês e potencializados pela
associação a estratégias de publicidade envolvidas nos acordos de
transmissão da FIFA para os bilhões de aficionados de todo o Mundo.
Para os que agora assistem no local,
por mais próximo que fiquem do campo de jogo, a relação entre o torcedor
e o jogador é menos interativa e mais contemplativa, ressaltando um
culto às personalidades do futebol. Os lugares são marcados e o torcedor
não pode ficar circulando à vontade entre as arquibancadas - como dizia
que costumávamos fazer nos Aflitos. Daqui para frente, ir a uma partida
de futebol será um espetáculo formalmente ordenado, seguindo um ritual
que tende a se tornar padrão, seja para um time do Recife ou de Kiev.
à por isso que este texto vinha sendo
escrito no passado, até então - com a mesma sensação de perda que
Hornby imprimiu no seu livro dos anos de 1990, já dou por morto o
ambiente de jogo nos Aflitos e nos demais estádios tão individuais.
A segunda década dos anos 2000 será
lembrada pelos brasileiros como a era dos seus megaeventos esportivos -
Copa das Confederações (2013), Copa do Mundo (2014) e OlimpÃadas (2016).
Os três provocarão investimentos numa ordem de grandeza nunca vista. A
mobilização da indústria da construção civil será privilegiada pela
necessidade da urgência - direta e indireta - de novos equipamentos,
como ginásios, centros de treinamento, hotéis ou habitações temporárias
para atletas.
Mas a coisa mais importante dentre as
menos importantes é precisamente outra: com a compra do pacote de
soluções dos megaeventos - estádios e obras urbanas de grande impacto -
esta será a década da morte do décimo terceiro jogador, esse personagem
do futebol brasileiro que é o estádio não-FIFA.
O futebol, no Brasil, agora, será
vendido como um espetáculo confortável e seguro, e não mais como catarse
espontânea. Estádios novos são concebidos para um futebol que se vende,
e não para um futebol que se vivencia.
As estruturas de espaços dos novos
estádios serão tão genéricas quanto shopping centers, para que jogadores
e equipes técnicas entrem e saiam de todos eles sem sentirem nenhum
estranhamento de um para outro - assim como torcedores da casa ou
torcedores de fora também não sentirão. O mais importante não serão mais
os resultados das partidas, mas como elas dinamizarão investimentos e
venderão produtos.
Mas como será construÃda a
identificação dos torcedores de times tradicionais com os novos estádios
se o futebol apresentado não tiver a capacidade de se vender
eficazmente?
Com alguns times no mundo, o amor e a
identificação são suficientes para a sobrevivência do clube. Claro que
Real Madrid e Barcelona, equipes da Premier Leagueinglesa e do
campeonato italiano conseguem manter e aumentar o número de sócios e
contratar os melhores jogadores do mundo. Mas fazem isso porque estão
inseridos no ciclo produtivo do futebol internacional, com a verba
atracada aos maciços investimentos de patrocinadores multinacionais -
além de serem uma Ãnfima minoria, se se considera todo o universo dos
clubes de futebol do mundo. Na posição em que se encontram hoje, seria
difÃcil de responder quem veio primeiro, o futebol ou o dinheiro.
Mas, no Brasil, em cidades como o
Recife, no momento em que aqueles laços, muito dependentes do espaço,
são rompidos, como se viabiliza a identificação do público com o clube
se, no seu momento de comunhão, no jogo, tudo se torna algo muito mais
distante?
No Recife, onde os clubes já tiveram
oportunidades de se estabelecer em um patamar mais estável na economia
do futebol nacional e, mesmo assim, não o fizeram, quem virá primeiro, o
futebol ou o dinheiro? Se o futebol não for suficiente, onde estará a
identificação, a capacidade de se sentir útil como décimo segundo
jogador sem o suporte do décimo terceiro? Se a torcida e o campo forem
destituÃdos dos seus papéis historicamente construÃdos, como se dará a
relação com os clubes daqui para frente?
Clubes como o Náutico, Sport e Santa
Cruz se tornarão empresas rentáveis motivados pela mudança para novos
estádios? Os novos estádios serão veÃculos eficientes da venda de marcas
e produtos e dos clubes como marcas e produtos? Associarão tais marcas e
produtos a imagens de alguns jogadores-vedetes e farão esses
jogadores-vedetes interessantes o suficiente para levar público a um
novo estádio distante do seu bairro de nascença?
Para já, só se pode ter certeza de
que aposta é alta e arriscada. Por mais que se torça para que o
resultado seja positivo, é difÃcil não lamentar a perda de importância
do torcedor que é imposta ao se optar pelo modelo genérico dos espaços
contemporâneos do futebol.
E mais, quando se observa o fenômeno com olhos de romântico, como assim o faço, parece que o futuro será muito mais fair play
e muito menos apaixonado... com a morte do décimo terceiro jogador,
abandonaremos também o décimo segundo e, seja lá em que casa for,
teremos sempre, só e tão somente, os corretos onze contra onze.
(*) CRISTIANO NASCIMENTO é arquiteto e urganista pela Universidade Fedrl de Pernambuco.