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ALFREDO BERTINI
Cenas explÃcitas de "amadorismo cartorial" no futebol brasileiro são bem freqüentes. Raridades são mesmo os esforços por um profissionalismo que só se evidencia a conta-gotas, por mais que se estufe o peito e se propale por aà algo similar. De fato, acostumamo-nos a assistir como rotina um "falso profissionalismo", um modelo capenga, que só poderia ser derivado das atitudes incoerentes de dirigentes ultrapassados e também das ações inescrupulosas de ditos "empresários da bola". Estes últimos, aliás, uma espécie de "estorvo do mercado", que atuam na simetria da agiotagem, pois só subsistem da especulação que promovem com o talento alheio dos atletas. Se é que se pode generalizar assim.
Nesse quadro geral, de latente falta de profissionalismo na gestão dos clubes de futebol, qualquer evidência contrária é mesmo algo digno de registro, de chamar a atenção. E ai o fato fica mais surpreendente quando o ambiente não é referência para se assistir as desejadas "cenas explÃcitas de profissionalismo". De forma clara, quero aqui dizer que o futebol carioca, o exemplo mais conclusivo do que NÃO se deve fazer com a gestão do futebol, tem também seus momentos de lucidez. Afinal, como diziam os velhos profetas, por mais nebulosos que sejam os dias, em algum momento a luz surgirá e apontará o caminho. Afinal, o sol é generoso e nasce para todos.
O sentido desses comentários duais, desse contraste tão gritante entre o ultrapassado e o atual, aconteceu num único dia. Ou, para não dar tanto pano para manga, num curto espaço de tempo, de um a dois dias. Noutras palavras, o futebol que "produziu" as cenas risÃveis que envolveram o desligamento da falsa estrela chamada Ronaldinho Gaucho, foi o mesmo que soube reunir os dirigentes máximos dos quatro clubes grandes, para que juntos promovessem uma ação comum, um esforço compartilhado pela melhoria da imagem. Ou seja, pelo exercÃcio de um profissionalismo conjunto, que contraria rivalidades históricas e aproximações aparentemente impossÃveis. Como é que isso pode acontecer? E no Rio de Janeiro?
Por favor, não me entendam mal os meus amigos cariocas, pois me considero um refém assumido dos valores culturais da cidade maravilhosa. Inclusive, dos inúmeros talentos e seres criativos que proporcionaram felicidade e leveza para os amantes do futebol. Saudades de um gênio de "pernas tortas", ou mesmo, de uma "enciclopédia" no modo elegante de jogar bola. No entanto, longe dessas demonstrações de genialidade, estão os muitos exemplos de dirigentes, que não souberam, simplesmente, fazer contas. E ao pé da letra. Na verdade, criou-se uma abstração, um "reino do faz de conta", qualificado por um ambiente que se exprime pela máxima: "eu faço que pago, enquanto você faz de conta que joga". Ou seja, a união do irrealismo salarial do mercado com o gestor acostumado a "passar a mão" nas falhas de conduta. Conseqüências: descontrole geral, ausência de ética e compromisso, flagrantes de indisciplina e tudo mais que possa expressar a falta de profissionalismo. TÃpicos exemplos de gestões que em nada condizem com o tempo dos valores econômicos e midiáticos que alicerçam a "indústria do futebol" atual. Este foi o exemplo do "descalabro" em mão dupla, que foi a passagem de Ronaldinho Gaúcho pelo clube mais popular do Rio.
Não obstante essa referência tão nefasta para o futebol brasileiro como um todo (e exemplos em proporções menores existem ao largo no paÃs, como foi aqui o caso de Marcelinho ParaÃba), enfim a luz. Nesse mesmo dia, foi consagrado um acordo histórico entre os grandes clubes do mesmo RJ, no qual a rivalidade foi deixada de lado. Um esforço comum de marketing foi tratado na junção de todas as marcas (pasmem?), tudo traçado para contribuir com o soerguimento das combalidas receitas desses clubes, por mais que essas tenham crescido nos últimos cinco anos (e, literalmente, superadas pelos gastos). Sob a proteção do Cristo Redentor e embalado pelo target "caRIOcas", vão ter até quiosque único para venda de produtos. Um exemplo de ação comercial conjunta, na intenção pura e simples de aumentar a receita de todos. Sem preconceitos e rivalidades. Curiosamente, todos estarão agora ostentando com orgulho no peito esquerdo,, justo as quatro marcas. Radical, não?
à isso. Entre a cruz e a espada agoniza o futebol brasileiro, às vésperas de promover uma Copa do Mundo, reconhecido evento que costuma se apresentar ao mundo como primor de profissionalismo. Haja contradição.

Foto Rodrigo Logo - JC Imagem - Blog do Torcedor
CLAUDEMIR GOMES
O Sport venceu o Palmeiras - 2x1 - atingiu o seu objetivo e está entre os dez melhores clubes posicionados na tabela da Série A. Para quem analisa futebol pro resultados, a invencibilidade e campanha dos leoninos estão perfeitas. Mas para os torcedores que se fizeram presentes a Ilha do Retiro, ontem à noite, a atuação dos comandados de Vágner Mancini provocou uma grande interrogação: até quando um time com grandes limitações técnicas conseguirá contabilizar bons resultados nos confrontos com as melhores equipes do futebol brasileiro?
A qualidade técnica de uma equipe se mede pela variação de jogadas que ela apresenta. O Sport segue carente de um meia criativo, que preencha a lacuna deixada por Marcelinho ParaÃba. A colocação não está sendo feita por nenhuma %u201Cviúva%u201D do armador que deixou a Ilha do Retiro, porém, suas qualidades, seu talento, são indiscutÃveis. E até o momento não foi contratado nenhum jogador do seu nÃvel. Aliás, do time que foi a campo, ontem à noite, o único atleta que não disputou o pernambucano foi o atacante Felipe Azevedo.
Em determinado momento do jogo o técnico Vágner Mancini discutiu com torcedores que estavam próximos ao banco de reservas. O incidente é fruto da insatisfação de quem estava cobrando um melhor futebol, e o desconforto do treinador diante da certeza de que as mexida não apresentariam respostas positivas.
O Palmeiras apresentou uma variação de jogadas bem superior a do seu adversário, mas não conseguiu traduzir o domÃnio em gols, falhou sempre no último passe, no chute a gol. A falta de gols vem se tornando um problema crônico para o time de Felipão. O interessante é que, na Copa do Brasil, competição disputada no estimo mata-mata, o Verdão tem se mostrado eficiente, e como prova está classificado para as semifinais.
O futebol de resultados mascara a realidade dos fatos porque subtrai qualquer análise técnica, fato que normalmente leva o dirigente a se equivocar em suas teorias e procedimentos.
RESULTADO PREVISÃVEL
Por mais otimista que seja o torcedor alvirrubro, não creio que ele esperava uma vitória do Náutico sobre o lÃder Vasco, em São Januário. Portanto, a derrota por 4x2, ontem à noite, estava dentro do contexto. Talvez o placar tenha surpreendido por conta da elasticidade, nada mais que isto.
Todo este processo por que passa o clube alvirrubro era previsÃvel. Trata-se da resultante dos erros cometidos desde o inÃcio da temporada, quando foi feita uma reformulação no grupo que havia conseguido o acesso para a Série A, sem a preocupação com a qualidade. O fracasso no Pernambucano, competição que não pode servir de parâmetro para o Brasileiro, agravou uma situação que tem de ser corrigida no curso da atual disputa, um desafio para qualquer treinador.
A dificuldade em encontrar jogadores de qualidade para ocupar determinadas posições, levou o clube a investir em profissionais cuja carreira está em declÃnio, e outros carentes de um melhor condicionamento fÃsico e técnico. Só resta dar tempo ao tempo para ver o que acontece. No atual estágio fica difÃcil deixar a zona de rebaixamento.
Claudemir Gomes
Sport e Palmeiras buscam a primeira vitória nesta edição da Série A, hoje à noite, na Ilha do Retiro. Desde aquele memorável confronto realizado em Garanhuns, válido pela Série B, em 2003, que se criou uma rivalidade entre os dois times. De 2007 para cá, quando voltaram a medir forças em jogos válidos pela Primeira Divisão nacional e pela Libertadores, o Leão já enfrentou o Porco seis vezes, e contabilizou quatro vitórias contra uma do adversário e um empate.
O mando de campo é uma vantagem substancial, entretanto, diante da dificuldade crônica do ataque rubro-negro de marcar gols, fato notório desde a disputa do Pernambucano, fica difÃcil arriscar um prognóstico positivo para os comandados de Vágner Mancini. O treinador só terá a disposição para este jogo, dois dos oito atacantes existentes no grupo: cinco estão sem condições e um ainda não foi regularizado.
A exemplo do Sport, o Palmeiras só marcou um gol, nas duas primeiras rodadas da Série A, fato que levou o técnico Felipão a escalar três atacantes para a partida de logo mais: Luan, Maikon Leite e Barcos. Para quem busca vitória, a ordem é atacar. A exemplo dos jogos anteriores, os leoninos devem explorar a velocidade nos contra-ataques.
RAFAEL REIS - FOLHA DE SÃO PAULO
"Foi coisa de gente de cabeça fraca mesmo. Sei que todo mundo fala a mesma
coisa quando erra. Imagino que vou ser suspenso e talvez vá ficar alguns anos
sem poder jogar. Foi grave o que eu fiz."
O atacante brasileiro José Joelson Inácio, 28, do Pergocrema, da terceira divisão italiana, admite: participou do esquema de manipulação de resultados que provocou um rebuliço no futebol do paÃs.
O jogador confessou ter agido na tentativa de fraudar os placares de duas partidas.
Os episódios, descobertos pela operação "Ãltima Aposta", deflagrada há um ano pela polÃcia para investigar a máfia que frauda jogos de futebol, ocorreram no fim da temporada 2009/10 da Série B, quando Joelson estava emprestado ao Grosseto pela Reggina, dona de seus direitos.
Ele entrou no esquema antes de um jogo contra o Ancona. O atacante conta que recebeu a missão de tentar comprar por %u20AC 30 mil (R$ 75,4 mil em valor atual) o goleiro rival, o brasileiro Angelo da Costa, hoje na Sampdoria.
"O diretor esportivo do Grosseto, Andrea Iaconi, me pediu um favor. Disse que era para eu oferecer um dinheiro para que meu colega nos ajudasse a ganhar aquele jogo. Mas ele não aceitou. A
resposta dele foi seca, natural", afirma o jogador à Folha, por telefone, da Itália.
Apesar de ter confessado, Joelson foi liberado pela Justiça Comum após uma semana em prisão domiciliar, já que as investigações não encontraram dinheiro oriundo da máfia em suas contas.
"Até o pessoal da polÃcia disse que fui bobo. Não recebi dinheiro. Tem funcionário que aceita fazer coisas erradas só porque o chefe pede. Na minha cabeça, a responsabilidade era do Iaconi."
Joelson diz que, na rodada seguinte, deixou de intermediar para atuar ativamente na armação. A bolsa era de %u20AC 20 mil (R$ 50 mil), inferior a seu salário, segundo ele. Mesmo assim, aceitou a proposta.
"Eu e outros jogadores estávamos comprados. A gente tinha que perder da Reggina. Mas o técnico me deixou no banco. Entrei quando já estava 2 a 0 para eles e acabei fazendo um gol. AÃ, no fim da partida, o juiz marcou um pênalti", diz o jogador, que ainda era vinculado à Reggina.
"Eu era o cobrador oficial e teria que errar. Mas não tive coragem. Um outro jogador, que não era do esquema, bateu e fez. O jogo ficou empatado, e eles não pagaram."
Segundo Joelson, a máfia de apostas já estava bem espalhada no elenco do clube.
"O Filippo Carobbio [meia que defende o Spezia] era o vÃrus maior disso tudo. No começo da semana do jogo contra o Empoli, ele nos avisou que era para empatarmos. Depois, voltou atrás e disse não precisava mais", diz.
"Não participei daquela partida, que terminou empatada mesmo. Ele sabia que isso ia acontecer, porque era placar bom para os dois. Então eu não quis armar, para que ninguém mais apostasse e para ele não ganhar mais."
Joelson diz que só participou de esquemas com a máfia no Grosseto, mas afirma que armar resultados não é incomum na Itália. "Todo torcedor sabe que os jogos entre dois times que não têm mais objetivo nenhum no final do campeonato não são reais."
O atacante nunca jogou no Brasil. Natural de Ibitinga (a 347 km de São Paulo), foi para a Itália aos 13 anos com irmão, Inácio Piá, um ano mais velho. Os dois passaram pelas categorias de base da Atalanta, pouco jogaram na elite e construÃram a carreira nas divisões inferiores.
Ele ainda irá depor no Tribunal da Federação Italiana de Futebol, de onde, crê, não deve sair sem punição. "Sei que quando falarem do Joelson vão lembrar muito mais dos meus erros do que daquilo que eu fiz como jogador".
Claudemir Gomes
A bola ainda não rolou nos campos, mas as Séries C e D do Brasileiro já estão sendo disputadas. Na esfera judicial, evidentemente. E todos torcem para que o imbróglio seja resolvido. O que deve acontecer de mais importante, nesta terça-feira, é o encontro dos clubes com representantes da CBF. Muito se fala sobre o descaso da entidade para com as divisões menores. Na realidade elas sempre foram tratadas como subprodutos.
O ex-presidente da CBF, Ricardo Teixeira, tinha os olhos voltados apenas para as coisas da Seleção Brasileira, que era a sua galinha dos ovos de ouro. O controle da Série A era de responsabilidade do Clube dos 13, o da Série B ficava com a FBA, e a televisão que detém os direitos de transmissão se achou com o direito de mandar em tudo. O caldo entornou. As Séries C e D viviam a deriva. Os problemas referentes as Primeira e Segunda Divisões foram equacionados de forma rápida.
O tempo não pára e o futebol está inserido neste contexto. E todos estavam se lixando para os problemas da turma lá de baixo. A bomba estourou por pura negligência do comando da CBF. E todos descobriram o óbvio: existem coisas que só funcionam em harmonia, entre elas o acesso e o descenso. Os estilhaços ferem até a elite. Por esta razão acredito que as contendas dos bastidores sejam encerradas esta semana.